Seria um café da manhã especial, Ophelia iria se apresentar como um novo membro da família Todoroki, vindo diretamente da realeza e por mais que fosse uma filha ilegítima, o Duque não parecia se importar com isso, ao contrário, parecia até mesmo satisfeito. A princesa se trocou em um quarto separado, afinal, não queria incomodar o mago que estava dormindo.
Estava ansiosa, não era de menos quando se considerava a situação da morena. Havia tantos rumores sobre essa família e essas duas semanas que se preparou para o casamento, soube bem mais do que deveria. A casa Todoroki era conhecida por ser uma infame casa de magos e cavaleiros, era a única família no império que conseguia geras as duas grandes forças militares do império; tudo graças ao primeiro Duque, que tinha maluca obsessão de torna os Todoroki a maior de Zeannetish, contudo, ao contrário do que seu objetivo implicava, sempre fora leal a família real.
O casamento foi político, foi para criar laços mais firmes com a realeza, para deixar toda a sociedade ciente da lealdade deles, entretanto, para o Imperador, era apenas uma forma de deixar claro que agora ele tinha uma coleira ao redor do pescoço de Enji Todoroki e para ele deveria ser uma grande injustiça ao ter uma filha ilegítima em sua família agora, mas como dito antes, ele não se incomodava com isso e achava até mesmo melhor, afinal, quão facil seria controlar uma garota que nunca conheceu o mundo? Melhor, o quão forte seria sua futura linhagem agora com o sangue real mesclado nele? Enji era inteligente e ambicioso, contudo, ainda era humano, ainda mais perto dos filhos.
— Senhora, está tudo pronto. — avisou uma das empregadas.
A Laikai estava surpresa com a sua própria imagem na frente do espelho, não acostumada com a visão de si mesma como uma dama nobre de verdade. Mesmo sendo uma princesa, nunca sequer recebeu a educação necessária, nem mesmo aprendeu a se vestir de forma apropriada e tudo o que sabia era tirado dos livros que cresceu lendo; teve algumas aulas na preparação para o casório, mas foram breves e não ajudavam em muita coisa, então teria que se agarrar as coisas que aprendeu lendo.
Foi conduzida pelos longos e luxuosos corredores da mansão, haviam muitas esculturas e quadros famosos pendurados e expostos, eram iguarias realmente raras e que só mostravam a influência e poder que a família Todoroki teria. Os olhos de Ophelia foram atraídos pelas cores vivas e que a intrigavam, até que chegou e parou em frente a grande porta que a levava para dentro do grande salão de jantar; não demorou muita para a sua entrada ser anunciada e quando as portas se abriram, ela sentiu um pequeno frio percorrer sua espinha.
As paredes eram de um vermelho carmesim, como se fossem pintadas com sangue humano, o que não era exatamente um rumor infundado que corria na sociedade. Um grande homem estava sentado na cabeceira e mais três pessoas nas cadeiras do seu lado esquerdo, dois jovens rapazes e uma jovem de cabelos brancos. A mulher foi a primeira a cumprimentar a princesa, abrindo um sorriso gentil para ela.
— Bem vinda, sente-se, por favor. — A mulher se chamava Fuyumi, era a segunda na linhagem de sua família.
— Obrigada. — agradeceu, andando e se sentando ao lado oposto da albina, duas cadeiras distantes de Enji.
Sentada na mesa, colocou um sorriso gentil no rosto, como uma boa e inocente garota, pois essa era a imagem que queria criar para eles, a imagem perfeita de uma boneca que eles pensariam que poderiam controlar e ela faria o maior proveito disso, para conseguir o que realmente queria. Logo um silêncio se instalou no local, deixando um ambiente não muito agradável, entretanto, não durou muito tempo, pois Enji, o Duque, suspirou e ordenou que o café da manhã fosse servido.
— Onde ele está? Soube que ele voltou. — O homem perguntou para o mordomo que estava parado ao seu lado.
— O jovem mestre está dormindo. — respondeu, seus olhos se fechando ao saber a reação de seu senhor.
A mesa tremeu com o soco do ruivo, a raiva evidente e todos pareciam acostumados com isso, pois todos agiam normalmente.
— Aquele irresponsável! — exclamou, sua voz ecoando pelo salão. — Não apareceu no seu próprio casamento e agora...! — Seu olhar caiu na jovem de longos cabelos negros, contendo sua raiva ao ver mulher encolher os ombros, supostamente com medo.
Ao contrário do que ele estava imaginando, a morena estava com medo de fazer uma escolha errada em relação aos talheres diante da família ducal, não querendo passar uma impressão ignorante para eles. Com o primeiro mal entendido se formando, o matriarca suspirou.
— Espero que tenha tido uma boa noite de sono, não hesite de falar para o mordomo se precisar de alguma coisa. — falou ele, tentando controlar sua voz irritada, mas falhando miseravelmente.
— Agradeço pela sua gentileza, Duque. Todo mundo me tratou muito bem na mansão. — respondeu Ophelia, sorrindo para o homem, algo que nem todo mundo conseguia fazer.
— Isso é ótimo.
Logo todos começaram a comer, a mesa cheia de diversos tipos de comidas, principalmente comidas envolvendo carne, afinal, apenas uma boa refeição poderia sustentar um homem do tamanho de Enji, sem contar seus filhos; o homem alto e musculoso de cabelos brancos parecia ter o dobro do tamanho de Ophelia, o garoto ao seu lado, que parecia mais jovem, também tinha uma boa estatura, sendo Fuyumi a única normal entre aqueles gigantes e agora Ophelia, que veio se juntar a ela. Embora fosse a primeira vez em sua vida que viu uma mesa tão recheada assim, não podia se dar ao luxo de comer o que queria e cometer alguma gafe, então comeu apenas as comidas mais leves e fáceis, o que não passou despercebido pelos olhos dos integrantes de sua nova família.
— Alguma coisa não é do seu agrado? — perguntou a albina, um pouco preocupada.
— U-Uh, não é isso, está tudo perfeito... — tentou responder, mas logo um prato com carne foi empurrado na sua direção.
— Aqui, coma isso. — disse Natsuo, a olhando com sentimentos complicados. — Você parece mais leve que um saco de batatas. — comentou, um tanto indignado com a visão de alguém tão pequeno e magro assim.
— Natsuo! — A mais velha deu um chute no irmão por debaixo da mesa. — Não se deve falar uma coisa dessas para uma dama! — repreendeu ele firmemente.
— Mas... — O rapaz tentou protestar, pois estava apenas tentando cuidar da sua mais nova cunhada, mas rapidamente se calou graças ao olhar ameaçador da mulher ao seu lado.
— Bem, mas o que o Natsuo disse é... — O matriarca tentou dizer algo também, mas foi rapidamente calado pelo olhar mortal de sua filha.
Ophelia não se sentiu ofendida, sabia que não estava nas melhores condições, não cresceu em um palácio luxuosos e fazendo refeições decentes, então ela poderia ser considerada mais magra e leve que as outras damas, entretanto... Leve como um saco de batatas?
“Pareço um saco de batatas?”, pensou, não conseguindo conter sua indignação.
— Sinto muito pelo meu pai e irmão, eles não estão acostumados com algo tão... — A mulher, que era uma maga, teve um pouco de dificuldade em concluir sua frase. — Delicado. — concluiu.
A Laikai sorriu, sentiu-se um pouco estranha, aquele sentimento que ela não conhecia e não sabia do que chamar, mas que a fez vacilar um pouco. Estavam tão preocupados pela condição dela assim? Rapidamente afastou esses sentimentos, prestes a responder sua cunhada, contudo, ficou surpresa quando seu prato e alguns talheres começaram a flutuar bem na sua frente. Era magia.
— Toya! — exclamou Enji, vendo o filho entrar.
— Vocês são barulhentos. — resmungou, vestindo apenas um roupão e andando até a mesa, sentando-se ao lado de sua esposa.
Fazendo um leve gesto com os dedos, os talheres e o prato voltaram aos seus lugares, entretanto, a carne estava muito bem cortada em pequenos pedaços, facilitando para a jovem comer melhor. Era uma forma dele agradecê-la por deixá-lo dormir em paz naquela manhã, sem contar que ele tinha uma certa ideia do que ela sabia de verdade. Toya não era uma pessoa tão descontraída assim, ele investigou sobre sua futura esposa.
— Qual a sua explicação para ontem? — indagou o ruivo, o garfo em sua mão sendo esmagado com bastante facilidade.
— Sobre ontem... — Ele começou, seu corpo jogado na cadeira de forma preguiçosa. — Acabei dormindo na torre. — respondeu, como se não ir para o próprio casamento por estar dormindo era a coisa mais normal do mundo.
— Como?! — O mais velho explodiu, chamas saindo de suas costas. — TOYA!!
Ophelia Di Laikai observou tudo com perplexidade, perguntando-se internamente se foi realmente uma boa ideia ter aceitado esse casamento com o filho mais velho da casa ducal, afinal, aquela família estava longe de ser normal.
[...]
Após o café, todos seguiram com as suas rotinas diárias: Natsuo sendo capitão de uma unidade importante de cavaleiros do império; Fuyumi a professora de um grande e implacável grupo de magos e Enji com os diversos deveres que tinha como Duque; Dabi desapareceu sem deixar vestígios. Restou ela e Shoto, o mais novo da família, entretanto, ele não havia falado nada de manhã e muito menos se mostrou interessado nela, então não sabia nada sobre o jovem.
Agora, estava andando pela mansão, o mordomo a apresentando o lugar enquanto eram seguidos por algumas criadas, as mesmas que a serviram na noite anterior e nesta manhã também. O casarão era imenso, demorou bastante para conhecer os principais lugares, demoraria ainda mais para decorar todos eles, contudo, iria fazer disso seu primeiro desafio. Escutando a explicação do homem mais velho de cabelos grisalhos, seu olhar percorreu o jardim e parou no jovem que estava lendo um livro debaixo de uma árvore; notando para onde o olhar da mulher estava, ele foi rápido em falar:
— O jovem mestre Shoto adora ler no jardim ou em seu quarto, ele passa horas assim.
— Sozinho? — perguntou ela.
— Sim, todos estão sempre muito ocupados. — respondeu o homem, sentindo certa pena do jovem.
Pelo que sabia, não existia uma Duquesa, ela havia morrido dias depois de dar à luz ao último filho, Shoto Todoroki, então ele não tinha lembranças de sua mãe, sendo o único que nem sequer lembrava do rosto da mulher que lhe deu a vida. Pensando nisso, Ophelia não conseguiu evitar o sentimento de compaixão que sentiu em relação ao rapaz, como se pudesse ver sua versão mais nova.
— Gostaria de se aproximar? — sugeriu o mordomo. — Vocês agora são família, precisam se dar bem.
Era uma ótima ideia, algo que ela já estava pensando em fazer, pois precisava se dar bem com todos os membros da família se quisesse que seus planos dessem certo, ela precisava se esforçar mais. Andando até onde o garoto estava, entretanto, quando estava prestes a chamar por Shoto, a chegada de uma empregada atrapalhou seus planos.
— S-Senhora! — A serviçal estava sem fôlego, chamando a atenção da Laikai e do Todoroki. — Temos visita! É do palácio imperial!
Parecia que seus breves momentos de paz haviam acabado, os olhos rosados da morena se tornaram frios, coisa que Shoto Todoroki percebeu de primeira.
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