Bad Girl II

10 Capítulo 9


Her Pov

– Adam ligou. — Clarisse disse assim que coloquei meus pés dentro de casa.
Congelei, atônita, enquanto tentava assimilar a informação. Talvez eu tivesse ouvido errado, o que não seria de se admirar com o estado em que se encontravam meus pensamentos depois do anúncio da festinha de Stefany.
– Acho que não ouvi direito. — Falei, dando mais alguns passos para dentro do apartamento. — Como assim o Adam ligou para você? Ele te odeia!
Ela descartou meu comentário com um gesto de mãos, como se dissesse "isto é uma besteira". Só que não deveria. Adam Herbert Olsen, meu meio-irmão — filho do primeiro casamento do meu pai, e atual presidente da empresa da família -, odiava intensamente minha mãe. Não suportava nem que o nome dela fosse mencionado na sua presença. Por isso não fazia o menor sentido que ele tivesse telefonado para ela. Se tivesse algum assunto para tratar, tratava-o diretamente comigo, embora eu pudesse perceber que isto era feito a contragosto. Adam não era meu fã também, e só me tolerava porque eu possuía ações na empresa.
– Acredite, Anika, os negócios sempre falam mais alto. Adam é um homem inteligente, e sabe quando deve deixar o orgulho de lado. Certamente ele teria preferido falar diretamente com você, mas como não conseguiu, resolveu falar comigo, já que o assunto era urgente e ele não poderia telefonar em outro horário.
Suspirei, me preparando mentalmente para o que viria, e segurei com força a alça da bolsa em meu ombro. Eu não gostava nenhum pouco da definição "urgente" de Adam.
– Certo. Então, qual era o recado?
– Ele precisa que você vá para Nova York, disse que seu voo já foi programado no jatinho da empresa para a noite de domingo, e que enviou a programação para seu e-mail. Infelizmente, como estava indo para a Itália hoje e só retornará segunda de madrugada, ele temeu que não conseguisse falar com você antes da sua viagem.
Eu sabia! Sabia que ele iria fazer as coisas do jeito dele de novo sem me consultar. Era como se eu nem tivesse voz ativa naquela droga de empresa. Só porque ele a dirigia, não queria dizer que tivesse total controle. E eu não podia viajar. Não agora, com meu plano em andamento.
– Você lembrou-lhe que eu tenho faculdade? Eu não fosso faltar assim só porque ele quer!
A expressão dela tornou-se entediada: — Ah, faça-me me o favor, Anika! Não me venha com essas baboseiras agora, justo você que troca de cidade como quem troca de roupa.
Droga, contra isso eu não poderia argumentar. Mas, tampouco, podia concordar com este absurdo.
– É só por uma semana, querida. E você não tem escolha, tem de ir. Existem coisas que necessitam da sua presença. Pense nisso como férias antecipadas, só que com um pouco de trabalho envolvido.
– Uma semana é muito tempo!
– Anika — olhar de Clarisse era sério, me repreendendo como se eu fosse criança e tivesse aprontado outra vez. Ela levantou-se do sofá e começou a caminhar em minha direção, estancado a alguns passos de distância -, não irrite seu irmão, contrariando-o. Sei que você tem essa inclinação rebelde, mas para tudo há limites. Adam tem sido muito tolerante com você, com seu modo irresponsável de agir, e pelo fato de negligenciar os negócios da família, principalmente, quando você é a sócia majoritária da empresa.
Aquilo era uma piada? Se eu fosse menos esperta, e não houvesse comprado ações de alguns outros sócios, Adam teria dado um jeito de se livrar de mim em um piscar de olhos quando completei 18 anos. Eu sabia o quanto minha presença o incomodava, porque era um constante lembrete de como a estabilidade de seu lar fora abalada.
– Você não sabe o que está falando — rebati com raiva, desviando de onde ela estava para poder ir para meu quarto.
– Anika, volte aqui! Não me deixe sua mãe falando sozinha.
Bati a porta com força e recostei-me contra ela. Meus ouvidos zunindo com a força das batidas de meu coração. Eu não podia viajar, e ia dizer isto imediatamente ao meu querido irmão. Peguei meu celular na bolsa, só para constatar que estava descarregado. Mas que porcaria! Foi por isso que ele não conseguiu falar comigo.
Afastei-me da porta e coloquei minha bolsa em cima da cama. Andei até minha escrivaninha e liguei o laptop, esperando pacientemente que minha caixa de entrada abrisse para que eu pudesse ler o maldito e-mail.
Soltei um grunhido ao ver o que estava escrito. O avião partiria às 18:00, e Adam explicitou bem que se eu não comparecesse haveriam repercussões nada positivas, e que eu podia pagar para ver se quisesse, pois ele estava cansado das minhas atitudes "infantis". Havia reuniões marcadas para toda a semana, e todas requeriam minha presença. Maldito! Além disso, ele mandou não me preocupar com a questão das roupas formais que teria de usar, pois em meu quarto eu encontraria tudo o que precisava para parecer apresentável.
Raiva era um sentimento constante ultimamente. Tudo parecia conspirar para me fazer sair do eixo, e eu estava cansada disso. Adam queria que eu fosse para Nova York e comparecesse às reuniões? Pois bem, eu iria. Só que as coisas seriam nos meus termos, e não nos dele. Parecia até que ele não conhecia a irmã que tinha. Estava para nascer alguém que dominasse Anika Olsen e lhe dissesse o que fazer e como fazer!
Ergui-me da cadeira, decidida, e peguei o celular descartado da cama e coloquei-o para carregar. Eu não sabia se Adam ainda estava nos Estados Unidos, ou se já estava no avião à caminho da Itália, mas de uma coisa tinha certeza: já estava mais do que na hora de fazer valer os meus 53% da empresa.
Esperei até que a bateria tivesse carregado o suficiente para fazer uma ligação e disquei o número do escritório.
– Technologies Olsen, boa tarde. Em que posso ajudar? — a voz da secretária do meu irmão saudou-me do outro lado da linha.
– Margaret? Aqui quem fala é a Anika.
– Oh, Srta. Olsen, em que posso ajudá-la?
– Meu irmão ainda está aí? — questionei, torcendo para que ela negasse. Eu não precisava do senhor eu-me-acho-o-manda-chuva interferindo em meus planos.
– Não, o Sr. Olsen saiu já tem algum tempo. Quer deixar recado? Eu repassarei assim que ele aterrissar em Milão.
– Não, Margaret. — Sorri, embora ela não pudesse me ver. — Eu não queria falar com meu irmão, de qualquer modo. Gostaria de falar a respeito da minha agenda de reuniões da semana que vem. Suponho que você saiba que estarei em Nova York?
– Claro que sim, sou eu quem organiza todos os compromissos do Sr. Olsen.
– Ótimo. Sendo assim, eu tenho alguns pedidos a fazer. O primeiro deles é de que haja uma assistente pessoal para mim. Eu quero uma pessoa disponível assim que eu colocar meus pés na cidade, entendido?
– Perfeitamente. — ela respondeu.
– Que bom. Com isso esclarecido, eu preciso dizer que não poderei ficar por mais que três dias, portanto, você terá que reagendar as reuniões para encaixá-las de acordo com minha disponibilidade.
– Mas, Srta. Olsen! — ela arquejou. — Todos já foram comunicados...
– E serão informados das mudanças tão logo elas sejam confirmadas, compreendido? Sei que Adam é o presidente, mas não detém total controle acionário, por isso não dificulte as coisas para mim. Estarei esperando sua ligação com a nova agenda até o final do dia. Ficou claro, Margaret?
– Sim, senhora. Ligarei assim que tudo estiver pronto.
– Perfeito! Ah, e não se preocupe com seu chefe. Deixe que eu me entendo com o meu irmão depois. — Encerrei a ligação me sentindo mais leve.
Adorava quando conseguia fazer as coisas do meu jeito. Sorri diante do pensamento de como Adam ficaria furioso por ter seus planos alterados. Ele odiava quando as coisas não saíam do modo que ele queria. Era uma característica de família, acho. Nosso pai também odiava que o contrariassem.
Tendo resolvido o assunto referente à minha viagem, era hora de tratar de outro mais importante ainda. Levantei-me da cama, onde havia me sentado, e voltei para a sala, mas não encontrei Clarisse lá, como esperava.
Estava prestes a retornar para meu quarto, quando ela apareceu, vindo do próprio quarto.
– Já resolvi as coisas sobre a viagem. — Falei, quando ela não deu nenhum indício de que fosse dizer alguma coisa.
– E o que foi que você resolveu?
– Só me inteirei sobre meus compromissos e confirmei minha ida.
Mamãe sorriu, visivelmente relaxada por eu não ter contrariado meu querido irmão mais velho. Ah, se ela soubesse o que eu aprontei...
– Fico feliz que tenha sido sensata pelo menos uma vez na vida, Anika.
– Ok, ok. — Disse impaciente. — O que eu queria falar com você é sobre a continuação de sua visita, depois que eu estiver fora da cidade. Convenhamos, Clarisse, não faz sentido você ficar aqui quando poderia estar cobrindo algum evento importante.
– Bem... Sobre isso... — ela hesitou por um momento, fazendo com que eu me perguntasse por quê. Isto era tão atípico dela, que me vi franzindo o cenho.
– O que, Clarisse? Vai me dizer que não estão precisando mais dos seus serviços? — arqueei uma sobrancelha.
A postura dela mudou de hesitante, para arrogante. Típico.
– Claro que precisam, não seja tola. Eu sou a melhor, e eles sabem disso. Só que eu não quero mais viajar tanto, por isso conversei com minha chefe.
– Sobre o que vocês conversaram? — perguntei, com medo do que escutaria. Aquilo estava caminhando para algo que certamente eu não iria gostar; estava sentindo isso como ondas fluindo dela em minha direção.
– Eu lhe disse que não queria viajar tanto como antes e perguntei o que estava disponível em outra área. Eles me ofereceram uma coluna na revista, e eu aceitei. Além disso, um programa de televisão também está sendo estudado, e eu, claro, sou cogitada como possível apresentadora. Maravilhoso, não é? Vamos poder morar juntas de novo.
Não, não, não. Isto não podia ser real. Por que os sonhos tinham que ser sobre o que eu queria que fosse real, e a realidade, algo que eu preferiria que não acontecesse? Isto não era justo.
– NÃO! — esbravejei. — Isto não tem nada de maravilhoso. Você... você não pode ficar aqui!
– Claro que posso. Isto não está em discussão, Anika.
Ela não me deu a chance de contra argumentar, virando-me as costas e voltando para seu quarto. Pelo visto, eu teria que levar mais coisas na minha mala do que para uma pequena visita. Quando voltasse de Nova York eu não retornaria para casa. Clarisse havia vencido; ela podia ficar com o apartamento.
Eu esperava que o convite de Shantaw ainda estivesse de pé, porque ela estava prestes a ganhar uma colega de casa.

*** * ***

Break Free, da Ariana Grande, estava tocando no carro enquanto eu dirigia para a casa de Stefany no dia seguinte. Parecia... uma escolha apropriada para a ocasião. Era como se refletisse minha relação com Could.
Cheguei à sua rua, e percebi que desta vez havia poucos carros. Então ela iria mesmo fazer uma festa mais íntima. Por quê?
Talvez a resposta fosse um certo loiro de olhos azuis e corpo escultural de quem ela não conseguia tirar os olhos, e que não queria mais ninguém cobiçando. Stefany poderia ir tirando seu cavalinho da chuva se achava que conseguiria ter o Could. De jeito nenhum. Eu não deixaria.
Procurei uma vaga para estacionar e saí do carro, preparando-me mentalmente para o dia que iria enfrentar.
Depois de um rápido encorajamento, caminhei até a porta da frente e toquei a campainha. Eu sabia que a festa estava acontecendo na parte de trás da casa, mas não havia coragem suficiente em mim para enfrentar sozinha. Pelo menos entrando por aqui teria alguém me acompanhando. Isto me daria maior estabilidade para encarar Could e Will. Era a este pensamento que estava me apegando para não sucumbir ao pânico que ameaçava me dominar.
Após algum tempo, ninguém apareceu para abrir a porta, por isso resolvi mandar uma mensagem de texto para Shantaw.


Cheguei agora. Tô parada na porta da frente.

Alguns segundos depois meu celular vibrou com a resposta:

Por que não entrou? A porta tá destrancada. Sem empregados hoje ;)

Claro que a casa estava sem empregados. Stefany não iria correr o risco de seus papaizinhos ficarem sabendo das coisas que ela aprontava quando estavam fora. Se ninguém visse nada, nada poderia ser dito. Queria apenas saber o que ela inventaria para justificar o estado da casa depois, quando a faxineira fosse arrumar a bagunça.
Abri a porta e estaquei no hall por alguns segundos. Da última vez em que estive aqui o lugar estava abarrotado de gente, mas agora, vazio e à luz do dia, eu podia ver sua opulência.
Ignorei a extravagância do lugar — com seus lustres de cristais, piso de mármore, paredes pintadas de um branco imaculado, e móveis estilo vitoriano -, e fiquei andando de um lado para o outro na enorme sala, sem saber o que fazer. Eu não conhecia aquela casa, não sabia como andar por ela e chegar ao jardim. Droga! Eu deveria ter ido pelo lado de fora mesmo.
Meu celular vibrou de novo, e eu suspirei de alívio ao ver que era Shantaw.

Você já tá na festa ou ainda tá dentro de casa? Estamos aqui em cima, se quiser pode subir.

Não pensei duas vezes e me encaminhei para o andar de cima. Segui o som de uma música tocando e encontrei o quarto de Stefany. O choque com a decoração foi tanto, que demorei a focalizar a dona do quarto, mexendo os quadris de um lado para o outro em frente a um espelho de corpo inteiro. Ela dançava a música bang bang enquanto avaliava seu reflexo.
O quarto dela era totalmente diferente daquilo que imaginei. Não havia nada nem remotamente cor-de-rosa ali, o que mostrava que o estereótipo de que uma patricinha amava tudo da cor rosa era defasado. O cômodo possuía uma parede toda de vidro, com vista para os canteiros de flores, em vez da piscina, e as demais paredes eram pintadas em um tom de creme.
– Anika! — Shantaw gritou, vindo em minha direção. — Que bom que você chegou. Agora vamos poder descer todas juntas! — Olhando para Stefany, acrescentou: — Isto, é claro, se a Steffi se decidir por um biquíni. Quando ela falou biquíni novo eu não imaginava que fosse a coleção toda!
Ela revirou os olhos, e eu tive que me juntar à ela. Porque, francamente, uma coleção inteira?
– Eu ouvi isso, Shaw! — Stefany gritou, do outro lado do quarto.
– Eu não estava tentando esconder! — Shaw rebateu com uma risadinha.
Lindsay e Marie, que estavam sentadas na enorme cama de dossel, na parede oposta à do espelho, também riram, e Stefany fingiu uma expressão aborrecida.
– Tudo bem, suas chatas. Eu já escolhi. O que acham deste? — ela virou de um lado para o outro, para que pudéssemos avaliar o biquíni preto que estava usando. O modelo lembrava mais uma lingerie, do que um biquíni propriamente dito. Certamente ela o escolhera com a intenção de seduzir Could. Tentei não deixar isso me afetar, já que meu biquíni marrom era um simples modelo de triângulos.
– Está ótimo — disse Marie.
– Maravilhoso! — comentou Lindsay.
– Ele vai ficar caidinho quando te vir — Shantaw piscou, e eu comecei a sentir um mal-estar, pois sabia que ela estava se referindo ao Could.
– Está lindo, Steffi — forcei um sorriso. — Agora podemos descer?
– Mas, é claro. Não vejo a hora cumprimentar meus convidados.


Lindsay e Marie foram na frente, pois Stefany ainda demorou a decidir qual canga iria usar, e elas não viam a hora de estar na piscina. Eu fiquei e, junto com Shantaw, acompanhamos a anfitriã da festa até o andar de baixo.
– O sol lá fora não está maravilhoso? — Stefany suspirou dramaticamente enquanto abria as portas francesas que davam para o jardim. — Eu poderia até arriscar pegar um bronzeado!
– Tem certeza de que vai querer ficar com marca de biquíni? — Shaw perguntou, seguindo-a para o lado de fora.
Stefany virou para encará-la e depois relanceou um olhar para o corpo. Com certeza ela era do tipo que não suportava que uma parte da pele estivesse com a coloração em um tom diferente. Contive minha vontade de revirar os olhos.
– Posso muito bem ficar de topless — ela parou por um instante, e seu rosto se iluminou, como se tivesse tido a ideia do século. — Sim, é isso que vou fazer!
Shantaw encarou-a, incrédula.
– Mas, e os rapazes?
– Tenho certeza de que eles não vão se importar.
Uma imagem dela se exibindo e Could apreciando se formou em minha mente e a fúria começou a me dominar. Ah, não. Essa patricinha não iria fazer topless, mas não iria mesmo!
Calada, segui para a área da piscina, observando a conversa à minha frente. Enquanto Shantaw tentava dissuadir a amiga da ideia absurda que tivera, Steffi se mostrava irredutível em voltar atrás em sua decisão. Elas continuaram andando um pouco mais, até que Stefany estacou abruptamente, fazendo Shantaw parar e, por consequência, eu também.
– Ah, minha santa gostosura! — ela exclamou, olhando um ponto fixo do outro lado da piscina.
Ergui meu olhar para ver Could usando apenas uma bermuda de surfista azul-marinho, que acentuava sua cor bronzeada. Os músculos de abdômen definido brilhavam com a luz do sol, e uma imagem vívida em que eu analisava cada parte daquele corpo me veio à mente. Droga de sonho! Ainda me sentia um pouco incomodada com o da noite passada.
– Acalme os ânimos, Steffi — Shaw a repreendeu.
– Ah, não, Shaw! Nada disso. É hoje que eu pego aquele deus grego!
Não se eu puder evitar!
Passei por elas, sem fazer alarde e fui até a área da churrasqueira, onde Will estava com alguns outros rapazes. Incrível como os homens não conseguiam se afastar do local onde a comida estava sendo preparada.
Quando viu que eu me aproximava, colocou a cerveja que estava bebendo em cima de uma mesa, e sorriu preguiçosamente para mim.
– Hey, rapazes — cumprimentei.
Recebi algumas saudações em resposta. O olhar de Will não deixou meu corpo nem por um segundo, fazendo o caminho vagarosamente.
– Apreciando a vista, Will? — provoquei.
– Muito — respondeu ele, sem erguer o rosto para me encarar.
– Meus olhos estão aqui em cima, sabia?
Will levantou o rosto e sorriu lascivamente.
– Eu sei, gata. Mas não é todo dia que eu posso apreciar sua beleza assim — ele piscou.
– Só você, Will! — revirei os olhos. — Bem, eu vou sentar um pouco com as garotas. Não deixe de passar lá depois.
– Antes que você perceba, eu já estarei lá, gata.
Virei-me com um sorriso nos lábios e fui em direção às espreguiçadeiras, onde Shaw estava sentada conversando com Marie. Procurei por Stefany, e para meu desgosto, a avistei tentando prender Could em uma conversa. Foi preciso muita força de vontade para não ir até lá e arrastá-la pelos cabelos para longe dele.
Tirei a canga que envolvia minha cintura, colocando-a em minha bolsa de praia, que eu já havia depositado em cima de uma mesinha, e sentei-me ao lado de Shantaw. Nesse momento, Marie, que havia se afastado, mergulhou na piscina, se juntando a Lindsay e outras pessoas que já estavam lá.
– Que cara é essa, Anika? — Shantaw perguntou, fazendo minha atenção voltar para onde estávamos. Não ia olhar para o outro lado. Não ia checar se Stefany já havia agarrado Could. Droga, apenas o pensamento disso fazia a bile subir por minha garganta. Engoli em seco, e virei-me para encará-la.
– Por que pergunta? O que tem de errado comigo?
– Bem, é que você parece querer matar alguém desesperadamente. O que foi que aconteceu? Pode ir falando.
Se eu estava com vontade de matar alguém? É claro que estava. De preferência uma loira oferecida que não parava de dar em cima do que era meu. Não que Could soubesse dessa parte. Além disso, ele também fazia parte da lista. Se continuasse a me irritar, não demoraria muito para eu cometer um assassinato! Ele era meu inferno pessoal, um perigo me rondando constantemente. Assombrando-me em sonhos e na vida real. E como se não bastasse isso, ainda haviam Clarisse e Adam.
Adam! Era isso. Eu não poderia falar abertamente sobre tudo o que me afligia, mas pelo menos podia falar sobre as imposições do meu querido irmão, e a viagem que teria de fazer para Nova York.
– Quer saber o que aconteceu? O Adam aconteceu! — a fúria que eu vinha reprimindo nas últimas horas transbordou. — O infeliz me intimou a ir para Nova York amanhã à noite, para participar de uma semana de reuniões na empresa. Uma semana, Shantaw! E ele sequer teve a decência de me consultar para saber se eu podia. Como sempre, fez as coisas do jeito que era mais conveniente para ele!
– Calma, Anika...
– Como eu posso me acalmar? Como?!
– Ok, ok. Eu entendo como isso deve ter te enfurecido, mas tente ver as coisas pelo lado positivo.
– E tem alguma coisa positiva nisso? — indaguei, cética.
– Claro que tem. Tudo na vida tem o aspecto positivo e o negativo, basta que nós os identifiquemos.
– Sempre tentando ver o melhor das coisas, Shaw — balancei a cabeça.
– É sério, Anika — insistiu ela. — Além de estar em Nova York, aquela cidade maravilhosa, você também vai ter a chance de conhecer alguns amigos gatos do seu irmão. Gostoso daquele jeito, deve ter uns amigos bem bonitos, também.
– Shaw! — falei horrorizada. — Eu não acredito que você disse isso.
– É verdade — ela deu de ombros. — Pena que eu sou mais nova. Se fosse uns 5 anos mais velha, tenho certeza de que ele me daria bola.
Era irreal. Total e completamente fora da realidade. Shantaw, minha melhor amiga, dizendo este tipo de coisa sobre o meu irmão. A simples ideia de associar Adam à visão de alguém atraente... Credo! Eu não conseguia formar esta imagem.
– Eu pensei que você gostasse do Jack. — Olhei por cima do ombro, para onde ele estava conversando com Will enquanto bebiam cerveja.
– O Jack é muito gostoso, confie em mim — ela deu uma risadinha, como se estivesse se lembrado de alguma coisa. — Mas é apenas diversão. Ele não é do tipo que se compromete, e, mesmo se fosse, eu jamais iria querer um relacionamento sério com ele. Adam, por outro lado... É tudo que alguém como eu poderia querer. Ele é o pacote completo de beleza, virilidade e responsabilidade nos negócios.
Para mim, Adam era um chato e manipulador. Mas se ela via estas qualidades nele, quem era eu para questionar? Cada via o que queria, e formava a imagem de acordo com seus próprios anseios, seus próprios sonhos. Talvez minha raiva por ele influenciasse meu julgamento. Entretanto, isto não era algo sobre o qual eu quisesse pensar agora. Ou nunca.
– Eu o acho um chato obcecado por negócios. Sério, Shantaw, você não o aguentaria nem por um dia. Aposto que ele só sabe falar sobre o Mercado Financeiro, preços de ações, e claro, sobre a tecnologia que a empresa desenvolve.
– Talvez eu goste de ouvir sobre isso. Além do mais, ele não teria muito tempo para falar, estando comigo. Eu o manteria ocupado com outras coisas...
– Eca! Por favor, pare. Eu não preciso desta imagem mental.
Eu não queria imaginar meu irmão e minha melhor amiga juntos, não queria mesmo.
– Tudo bem, tudo bem — ela ergueu as mãos em rendição, rindo bastante.
– Ei, meninas! — Lindsay gritou da piscina. — Vocês não vêm?
– Já estou indo — Shantaw respondeu. — Você vai agora, Anika?
– Não, pode ir na frente — falei, ficando de bruços. — Vou aproveitar um pouquinho o sol, antes.
– Tá certo. Mas não se esqueça de reaplicar o protetor solar, viu?
– Tá bom, mamãe! — retruquei, rindo.
Estendi a mão para minha bolsa e peguei o filtro solar. No entanto, quando estava prestes a aplicá-lo, uma ideia surgiu, e resolvi aguardar um pouco. Agora que eu estava sozinha, Will não tardaria a aparecer.
Voltei para a posição em que estava, e fechei os olhos, apreciando a música que tocava, o cheirinho de churrasco que o vento trazia, e o calor do sol que aquecia minha pele.
Am I Wrong estava acabando de tocar quando senti um vulto atrás de mim. Pelos contornos masculinos da sombra que se projetava à minha frente, confirmei que era Will. Hora de colocar o plano em ação.
– Passa pra mim? – perguntei em um tom insinuante enquanto me virava para entregar-lhe o protetor solar. Um vislumbre de seu cabelo loiro foi tudo o que consegui ver, já que o maldito sol não estava cooperando. Eu não devia ter tirado os óculos escuros, não devia mesmo.
Will aceitou meu desafio implícito imediatamente e logo senti suas mãos espalhando o produto por minhas costas, mas de uma maneira cadenciada, quase sedutora. Logicamente, eu sabia que ele iria se aproveitar da situação. Mas o que não fazia parte do plano, era o que eu estava sentindo agora. Involuntariamente meu corpo havia se arrepiado com seu toque, e meu coração disparara no peito. Algo deveria estar errado comigo. Esta era a única explicação. Como eu poderia me sentir atraída por esse ser desprezível?
Mais rápido do que eu gostaria, ele afastou suas mãos de mim, fazendo-me sentir falta do seu calor. Entretanto, suas mãos foram substituídas por sua boca muito perto de meu ouvido e a sensação de sua proximidade me abalou por inteiro.
– Espero que eu tenha feito o serviço direito. Odiaria ver essa sua pele linda queimada – Só quando ele falou percebi que não havia sido Will a me provocar e a quem meu corpo tinha reagido com tanta força, mas sim Could. Agora eu tinha uma explicação. No entanto, não havia gostado nada de saber que ele me atrapalhara.
Virei-me bruscamente – Could?! – Falei com raiva fervente na voz.
– Não precisa ficar bravinha só porque seu corpo ainda me deseja, eu sei que não sou seu alvo desta vez – ele disse de modo displicente, e com a menção de Will lembrei-me de não sabia onde ele estava. Rapidamente vasculhei o lugar com o olhar e o vi do outro lado nos encarando furioso. Ele não havia gostado nem um pouco do acabara de acontecer.
– Você é um idiota! – sibilei entredentes enquanto me levantava.
– Diga-me algo que eu não saiba! – ele rebateu.
Passei por ele feito um furacão, indo para fora do jardim, sem ao menos me importar que havia feito uma cena. Lidaria com as consequências disto depois, pois tampouco queria falar com Will agora. Eu não estava com humor para aturar qualquer que fosse o ataque que ele teria pela cena que teve que presenciar. Eu estava muito mais preocupada com o quanto Could estava me afetando, e não era de um jeito bom. Ao que parecia ele havia encontrado seu próprio modo de se vingar de mim, mas se pensava que eu deixaria por isso mesmo, estava muito enganado. Essa era a minha chance de finalmente fazer Will pagar por tudo que me fez passar anos atrás, e ninguém atrapalharia meus planos, nem mesmo o único homem que já amei de verdade. Eu já havia demonstrado antes que, para atingir meus objetivos, fazia qualquer coisa, e desta vez não seria diferente.