Bad Girl II
4 Capítulo 3
Gostaria de saber quem inventou o ditado “a vingança é um prato que se come frio”, porque esta pessoa estava completamente errada. Que eu saiba ninguém gosta de saborear uma comida assim. Para mim a vingança é como um vinho caro, da melhor safra, que deve ser degustado lentamente para sentir seu doce sabor. Mas lembre-se de que tudo tem moderação, não queremos que nada saia do controle, não é mesmo?
Tomei mais um gole do meu suco de laranja, enquanto ouvia Shantaw falar sobre seu mais recente encontro com Jack – o mesmo rapaz com quem ela havia ficado durante a festa de Stefany -, as coisas estavam ficando sérias pelo que entendi durantes os poucos momentos em que prestei atenção. Na verdade, minha mente estava mais focada em repassar os acontecimentos das duas últimas semanas. Eu já havia progredido muito com meu plano, e estava orgulhosa de mim mesma por estar conseguindo passar por aquilo sem denunciar o que sentia. Todas as outras vezes em que fiz isso foi mais fácil, eu não tinha razões pessoais, aquele determinado rapaz não havia me tratado mal no passado, apenas tinha feito isso com outras garotas e era minha missão fazê-lo provar do seu próprio veneno. Com Will, no entanto, eu possuía um passado, algo que me marcara para sempre, e que me fez odiá-lo com todas as forças. Era por isso que este era o meu maior desafio. Você já tentou esconder seu ódio por uma pessoa enquanto a deixava flertar com você e flertava de volta? Garanto que não é uma tarefa fácil, talvez não devesse tentar.
Shantaw e eu estávamos aproveitando uma tarde de domingo para conversar um pouco, já que eu me mantivera muito ocupada para isso nos dias anteriores, e por isso ela marcara para nos encontrarmos em uma lanchonete próxima ao meu apartamento. Não podia culpa-la, como amiga eu estava me saindo muito mal, mas também, fazia anos desde que eu tivera alguém com quem contar. Estava por minha conta há muito tempo. Meu celular apitou, anunciando uma nova mensagem de texto, e sem olhar o número eu já sabia quem era.
Que tal sairmos hoje? Estou entediado em casa.
Deixei que alguns minutos se passassem antes de responder, esta era uma tática velha: nunca demonstre estar interessada demais. Shantaw apenas me observava calada enquanto bebia seu próprio suco.
Não tenho culpa de estar entediado. Saia sozinho.
Will não parecia conhecer a regra do “não demonstre estar interessado”, porque respondeu logo em seguida.
Demorou demais para responder. Se eu sair e ficar com alguma gatinha perco minhas chances com você?
Eu tive que rir, não consegui me segurar, e Shaw arqueou uma sobrancelha para mim. Will sempre me perguntava isso, desde que eu deixei claro que não queria nada mais que amizade com ele. Apesar disso, ele insistia em querer ficar comigo. Sendo assim, eu disse a ele que se ficasse com outras garotas enquanto dava em cima de mim, perderia qualquer chance comigo. Por incrível que pareça, ele concordou, embora a contragosto. Ele já estava no limite há algum tempo. Coitadinho!
Você já sabe a resposta, não mudei de opinião.
Alguns segundos depois meu celular apitou novamente.
Que droga! Vou ficar em casa, então.
Apenas balancei a cabeça e guardei o celular na minha bolsa. Se ele mandasse mais alguma mensagem eu só iria olhar em casa.
– Era quem estou pensando? – ela perguntou.
– Depende de quem você está pensando – respondi e tomei um gole do meu suco apenas para ganhar tempo.
– Você sabe muito bem, não se finja. – Ela balançou a cabeça como se as ideias em sua mente não fizessem o menor sentido – Isso é tão estranho, nunca vi o Will agir assim antes, bem, não desde que o conheço.
– Assim como? — Questionei interessada.
– Eu jamais vi o Will correr atrás de uma garota como faz com você. Geralmente são as meninas que se atiram nele, mas com você ele tem esse jogo de quente e frio, e isso é novidade para ele. Só tome cuidado, Anika, você pode acabar se apaixonando por ele, isso é o que vejo nos livros que eu leio.
– Não estou jogando com o Will – menti descaradamente. Sim, agora me crucifique? Eu jamais admitiria o que estava fazendo, nem sob tortura – E não há a menor possibilidade de eu me apaixonar por ele. – Não mesmo!
– Como você pode ter certeza disso? – Shantaw me desafiou – Ninguém manda no coração, não é como se você pudesse controlar por quem vai se apaixonar – E você acha que eu não sei disso?! Experimentei em primeira mão.
E com esse pensamento em mente, acabei soltando sem pensar: — Porque meu coração já tem dono, por isso! – Droga, droga, droga! Eu sou uma idiota!
Ela tinha acabado de colocar seu copo de volta à mesa e quase se engasgou ao ouvir minha resposta.
– O quê?!
– Eu... Esqueça que eu disse isso – Como se isso fosse adiantar de alguma coisa. Eu sabia que Shantaw não me deixaria sair dessa tão facilmente.
– Ah não, Anika, agora você vai ter que me contar essa história, direitinho.
– Certo – suspirei – Podemos pelo menos voltar para meu apartamento? Isso não é algo que eu queira compartilhar aqui.
– Tudo bem, então vamos.
Ela não quis nem que terminássemos nossos lanches, estava determinada a obter respostas minhas. Caminhamos em silêncio até meu prédio, o que me deu a chance de pensar em como contar minha história com Could sem revelar a verdade. Assim que chegamos ao meu apartamento, ela sentou-se no sofá e encarou-me como se eu fosse réu de um crime hediondo. Se Shaw fosse assim, no futuro, com os criminosos eu tinha pena deles.
– Estou ouvindo, pode começar. – ela disse quando não falei nada por alguns minutos – Não vou sair daqui até você explicar tudo. Quem é ele, como e quando se conheceram, e por que você está aqui dando mole para o maior galinha da faculdade, se já tem um gatinho para si?
Foram tantas perguntas que meu cérebro mal conseguiu captá-las, tal foi a velocidade com a qual ela as disferiu para mim.
– Acalme-se por um segundo e eu irei explicar. Não que a história tenha um final feliz – fiz uma careta de desgosto. Sentei-me ao seu lado no sofá e respirei fundo antes de começar – O nome dele é Could, e nos conhecemos alguns meses atrás na última cidade em morei. Assim como Will, ele era o “pegador” da faculdade, e todas as garotas corriam atrás dele, menos eu, é claro – Shantaw deu uma risadinha – Nos aproximamos por causa de uma classe que tínhamos em comum, principalmente após um projeto que fizemos juntos. No início pensei que ele fosse superficial, – Nesse aspecto Will é exatamente como pensei que fosse. Quanto mais tempo passo com ele, só confirmo o que já imaginava antes. Ele sim é superficial – mas acabei descobrindo mais camadas dele após passarmos mais tempo juntos. Apaixonar-me por ele foi quase inevitável, mesmo que eu continuasse negando para mim mesma – Sorri tristemente quando algumas lembranças de nossos momentos juntos inundaram minha mente.
– Ele não sentia o mesmo? – Shantaw perguntou, ao ver minha expressão.
Bloqueei as memórias e consegui dar um sorriso mais genuíno – Não, ele também se apaixonou por mim.
– Então por que ele não está aqui com você? O que aconteceu?
– Eu terminei com ele – desviei o olhar para que ela não visse as lágrimas que se acumulavam em meus olhos.
– Você o quê? Por quê?
– Porque eu sabia que não iria dar certo, por isso. Terminar com ele foi a coisa certa a se fazer, e, se não for pedir muito, gostaria de encerrar esse assunto.
– Não vou mais insistir – ela disse se levantando – Pelo menos agora. Estou voltando para casa, acho que você prefere ficar sozinha, não é mesmo? – Acenei afirmativamente – Até amanhã – Shaw dirigiu-se para a porta e saiu, deixando-me sozinha com meus pensamentos.
Não chorei, não me permiti fraquejar.
*** * ***
As aulas do dia seguinte se arrastaram, ou talvez tenha sido minha mente que não conseguiu se comprometer de forma alguma com que estava sendo passado. Meus pensamentos guerreavam entre si, roubando boa parte da minha concentração. Will havia conversado comigo na entrada da faculdade, como de costume, mas eu não o tinha visto mais depois disso. Shantaw deu-me o espaço que prometera e não mencionara mais o assunto “Could”, mas isto também significou que ela também não falou comigo no estacionamento, como fazíamos todos os dias. Não que isso significasse que estava com raiva de mim, ela mesma me garantiu que não era isso quando nos encontramos para o almoço. Durante o tempo em que precisei ficar na mesa, fingi prestar atenção às conversas de suas amigas e opinei em um, ou dois assuntos que não fossem frívolos.
Quando faltavam alguns minutos para acabar o horário do almoço, levantei-me para ir ao banheiro retocar minha maquiagem. Shantaw me acompanhou em silêncio pelos corredores, mas assim que entramos, ouvimos o barulho de gritinhos extasiados de duas garotas que estavam do outro lado.
– Que alvoroço será esse, hein? – perguntei enquanto retocava meu batom em frente ao espelho. Shantaw deu de ombros, e olhou para as garotas como se elas houvessem perdido o juízo. Nós estávamos na faculdade, por Deus, e não no ensino médio para elas agirem como adolescentes.
– Sinceramente Anika, não quero nem saber. Vindo dessas desmioladas, não pode ser nada que nos interesse. – Eu não conhecia bem as duas garotas, mas sabia que possuíam a fama de fácies, entretanto, isso era apenas especulação, pelo menos para mim.
– Você tem razão – falei, enquanto guardava minhas coisas no nécessaire – Aula de que agora?
– Direito Romano – ela respondeu com uma careta. Não consegui conter um sorriso com sua reação – Não ria Anika, você não sabe o que ter que aturar aquele velho lorota falando durante uma hora.
– Sorte a minha – disse, rindo ainda mais.
– Você não sabe o quanto! Agora vamos, não preciso de mais um daqueles olhares reprovadores dele, por chegar atrasada à aula.
Começamos a nos dirigir para a saída, no entanto, assim que passamos pelas garotas rindo, apurei meus ouvidos para entender a conversa.
– Oh Carl, pare de falar dele, senão eu não consigo me concentrar. Já borrei meu batom três vezes por causa disso – a loira disse rindo bastante, enquanto pegava outro lenço em sua bolsa para limpar os cantos da maquiagem.
– Só estou dizendo aqui o quanto ele gostoso. Tenho que descobrir qual curso ele faz, para ver se temos alguma classe juntos – a morena respondeu enquanto ria da amiga loira.
– Eu sabia que essas duas só podiam estar falando de homem – Shantaw disse assim que saímos do banheiro feminino – São as mais rodadas da faculdade, mas só pensam nisso – ela balançou a cabeça em desgosto.
– Parece ser algum aluno novo
– Pode ser, e pode não ser. Elas ficam empolgas com qualquer um. Acho que já vem ter dado para todos os garotos daqui.
– Credo Shaw! Falando assim até parece que elas são algum tipo de prostituta.
– Você pode pensar que estou exagerando, mas é a verdade. Pergunte a Lindsay, Marie ou Steffi depois. Vai ver que elas dirão o mesmo que eu – olhei ceticamente para ela, que me ignorou – Melhor, pergunte ao Will, já que vocês estão saindo, tenho certeza de que ele pode confirmar em primeira mão. A menos que você tenha ciúmes.
– Eu não estou saindo com ele coisa nenhuma, e deixe o assunto dessas garotas para lá.
– Tudo bem, negue o quanto quiser. Eu vou fingir que acredito – ela piscou.
– Shantaw, você é impossível!
– Mas você me adora – ela parou nossa caminhada para entrar na sua próxima classe – Te vejo depois!
Segui caminhando para minha própria classe quando avistei as mesmas garotas do banheiro em torno de um rapaz alto e loiro, que estava de costas para mim. Ele me pareceu vagamente familiar, o que indicava que eu já devia tê-lo visto antes, e que Shantaw estava certa quanto a essas garotas se animarem com qualquer homem. Eu já estava para entrar na minha sala quando ele se virou, e juro que naquele instante meu coração parou por um momento, quando seus olhos azuis travaram-se com os meus.
Não era qualquer estudante que estava ali, era Could.
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