Bad Girl II
23 Capítulo 22
Fiquei encarando a porta por um tempo, depois de Could ter ido embora. Parecia haver um peso me puxando para baixo, sentia minhas pernas fracas. Respirando profundamente, reuni coragem para voltar à sala. Ryder se encontrava sozinho no sofá, e o barulho de coisas sendo colocadas no balcão indicava que Clarisse estava na cozinha.
Encarei Ryder me perguntando o porquê. Por que agora, e não antes? Se ele não entregou os papéis do divórcio, por que não veio me procurar antes? Por que esperar dois anos?
— Acho que você tem muito o que explicar — disse, ainda de pé, sem saber se deveria me sentar ou tentar manter uma postura de controle, da maneira que estava.
— Eu sei que sim — ele suspirou -, e se você me permitir, vou explicar tudo.
— Ah, mas é claro que vou permitir. Eu quero saber que palhaçada é essa de você aparecer no meu apartamento alegando ainda ser meu marido!
— Estou dizendo porque sou seu marido, Anika. – Fechei as mãos em punhos, tentando controlar a raiva que ameaçava vir à superfície. – Será que você pode se sentar? Você de pé está começando a me deixar inquieto.
— Não me diga o que fazer – rebati. – E não pense que vou fazer alguma coisa para te deixar confortável aqui, porque você voltou do nada e está se metendo na minha vida, depois que eu já tinha tudo estruturado! – Enquanto falava, eu apontava um dedo em sua direção, demonstrando minha irritação.
— Anika! – Clarisse falou em tom de repreensão, aparecendo na entrada da cozinha.
Virei-me em sua direção.
— Não se meta em um assunto que não lhe diz respeito. Eu sou adulta e posso resolver meus problemas sozinha!
Ela olhou-me surpresa, mas recuou sem pronunciar mais nada. Eu esperava que ela não voltasse a se intrometer.
— Estou esperando que você fale, Ryder. Eu não tenho o dia inteiro para isso, tenho outros assuntos para resolver – como o fato de que talvez meu relacionamento com Could estivesse acabado.
— Eu nem sei por onde começar, tenho tantas coisas para te falar – ele parecia meio abatido, e eu tentei não me sentir tocada por isso.
— Que tal me dizer por que não entregou os papeis do divórcio? Esse é um bom começo. – Resolvi me sentar na poltrona ao lado do sofá, não porque havia desistido de intimidá-lo, mas porque estava ficando cansada de estar em pé, meu corpo precisava de um pouco de descanso.
— Eu não podia fazer isso – ele disse simplesmente.
Não podia? Que tipo de resposta era essa?
— Como assim, não podia? – Questionei, aborrecida. – Nós havíamos combinado que isso era o melhor!
— Nós não combinamos nada. Você, Anika, você decidiu que isso era o melhor, e eu fui obrigado a concordar, porque era isso que você queria.
— Ah, então você simplesmente resolveu ignorar minha vontade e fazer o que você queria? Eu posso não saber muito, mas um casamento é um compromisso entre duas pessoas que querem estar juntas, e unir-me a um estranho não era algo que eu quisesse fazer.
— Eu não ignorei sua vontade. Eu te deixei livre para viver sua vida, para amadurecer, pois não estava pronta para um casamento naquele momento. Mas sabe qual foi minha motivação para continuar casado com você? Porque eu senti que poderia haver mais entre nós dois, que poderíamos construir uma história. Eu queria mais daquela garota ranzinza que conseguiu me fazer esquecer meus problemas por uma noite e simplesmente aproveitar a vida.
Oh, meu Deus! E agora, como eu iria revidar um argumento desses?
Fiquei calada por um momento, tentando assimilar o que acabei de ouvir.
— Ryder – pronunciei, ainda atordoada – essa, essa foi uma coisa bonita para se dizer, mas um casamento não pode se basear nisso, entende? – Minha raiva esmaeceu, como um balão sendo esvaziado. Eu não conseguia me obrigar a ter raiva dele, não depois disso. – Vou pedir a meu advogado que prepare os papeis do divórcio. Vamos resolver essa situação logo.
— E você está fazendo de novo! – Ele se irritou. – Está determinando como quer as coisas, ignorando minha opinião!
— Ryder, você não está entendendo. O que você quer é loucura. Nosso casamento nem existe de verdade, apenas no papel, não podemos ficar perpetuando esse erro. Não se trata de uma questão de opinião. – Estava orgulhosa de mim mesma por agir de modo tão maduro nesta situação. Geralmente, eu agia de modo insensato, explosiva, e muitas vezes impulsiva.
— Para mim, se trata de opinião, sim. Você nem ao menos quer nos dar uma chance. Uma chance, Anika. Pelo menos um encontro!
Ryder estava começando a me dar nos nervos ao se mostrar tão irredutível. Como ele podia não perceber a impossibilidade do que me pedia?
— Ryder, acho que você não compreendeu a situação – falei com calma, tão distante do meu modus operandi, que parecia ser outra pessoa falando. – Eu não posso dar uma chance a este casamento, porque eu já tenho outra pessoa em minha vida. Aquele cara que chegou comigo é o meu namorado, e eu o amo. Espero que você entenda isso.
— Entendo que tenha outra pessoa em sua vida, afinal de contas eu te deixei livre para fazer o que quisesse, e sabia que corria o risco de isso acontecer – ele disse se levantando do sofá. Fiquei de pé também. – Mas não espere que eu não vá lutar por aquilo que acredito.
— Isso não está nos levando a lugar nenhum! – Explodi. Finalmente uma atitude típica minha. – Estamos andando em círculos com esse assunto e você não esclareceu nem metade das minhas dúvidas!
— O que mais você quer saber? – Ele parecia exasperado.
— Ryder, eu não sei nada sobre você. Nada além do fato de que você é muito obstinado quando quer algo, como parece ser com esse casamento, então será que você poderia me esclarecer mais algumas coisas? Por exemplo, por onde andou todo esse tempo? Por que resolveu me procurar neste momento, e mais importante ainda, como conseguiu me encontrar?
— Onde eu estava e por que resolvi te procurar agora? É um pouco complicado de responder, mas eu estava em missão, não posso te dizer onde, pois é confidencial.
— O quê? Explique isso direito, Ryder.
— Eu sou um SEAL, Anika. Compreende, agora? Depois da última missão que participei, resolvi que era o momento de me afastar e procurar por você, pois já havia te dado um bom tempo para amadurecer. Te encontrar não foi difícil, eu tenho muitos contatos.
Mas que porra! Como diabos eu podia me complicar desse jeito? Um SEAL? Realmente? Eu tinha que me envolver justamente com alguém da principal força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos?
— Bem, pelo menos agora eu sei porque é tão determinado quando tem algo em mente. Mas infelizmente para você, este casamento você não vai poder manter. – Consegui dizer, depois de tentar organizar minhas ideias da maneira mais rápida possível.
— Anika, acho que preciso deixar uma coisa clara aqui: eu não vou desistir do nosso casamento. Não importa o que me diga, você continua sendo minha esposa, e até que eu veja que fiz tudo o que podia para termos um relacionamento de verdade, você continuará a ser. Creio que já tenha esclarecido todas as suas dúvidas, nos vemos depois.
Abri a boca para retrucar, mas não tive oportunidade de pronunciar nada, pois ele se dirigiu para a entrada do apartamento, abriu a porta e saiu tranquilamente, como se não tivesse jogado uma bomba no meu colo. Eu precisava saber como agir legalmente nesta situação. Era hora de ligar para Shantaw.
— Filha – me virei na direção da voz de Clarisse, que se encontrava na entrada da cozinha -, eu acho que você está certa. – Fiquei estupefata por um momento, sem conseguir acreditar no que tinha ouvido. Clarisse havia dito que eu estava certa? Minha expressão deve ter denunciado que eu estava chocada, pois ela deu uma risadinha, meio sem graça, como se estivesse envergonhada. – Sei que não fui uma boa mãe para você, Anika, e não a culpo por ter saído de casa para não ficar perto de mim. – Sua expressão era triste. — Num primeiro momento, posso ter gostado do Ryder, que me pareceu ser um bom rapaz, mas o que ele está fazendo é errado. Você não é obrigada a ficar casada com ele. Provavelmente não vai significar muito saber disso, mas você tem meu apoio.
Eu podia pensar que a opinião de Clarisse não importava para mim, mas a verdade é que foi bom ouvir aquelas palavras. Foi bom saber que pelo menos uma vez na vida ela estava do meu lado, e não contra mim.
— Obrigada – falei simplesmente, pois não sabia o que mais dizer. Ela assentiu e voltou para a cozinha, como se tivesse entendido o que eu não conseguia expressar em palavras, que eu realmente estava grata pelo seu apoio, mas que precisava de espaço. Ainda havia um longo caminho a percorrer se quiséssemos ter um relacionamento mãe e filha de verdade, ou o mais próximo que iriamos chegar disso, que a esta altura do campeonato não ia ser muito, mas já era um avanço, assim como Could queria.
Voltei até meu quarto e peguei meu celular na bolsa que deixara lá. Disquei e esperei pacientemente que a ligação fosse atendida.
— Shaw? – falei assim que ela disse oi.
— Oi, Anika. Aconteceu alguma coisa? – Eu nunca ligava se não fosse importante, isso era uma regra minha, por isso Shantaw sabia que algo estava errado.
— Preciso da sua ajuda. Acho que me meti em uma enrascada.
— O quê?! – Ela se sobressaltou. – O que aconteceu, Anika?
— Prefiro explicar pessoalmente. Você já está em casa?
— Ainda na faculdade...
— Estou indo para aí. – Desliguei antes que ela pudesse me dizer qualquer outra coisa. Eu iria corrigir essa situação o mais breve possível, não aceitaria ficar casada com Ryder mais nenhum dia que o necessário até que o divórcio estivesse concluído. Ele podia tentar dificultar da maneira que fosse, mas quando eu colocava alguma coisa na cabeça, ninguém conseguia me parar. Eu sempre conseguia fazer as coisas do meu jeito, e agora não ia ser diferente, não importava que artifícios eu teria que usar para isso.
His Pov
Mentiras. Segredos. Um mundo inteiro escondido, protegido por barreiras que pensei ter derrubado, mas que continuavam impenetráveis. Como manter um relacionamento com alguém em quem não podia confiar plenamente, pois talvez esta pessoa não estivesse sendo realmente verdadeira? Eu sinceramente não sabia o que fazer. Não queria tomar uma decisão precipitada, mas não conseguia pensar em uma alternativa que solucionasse a situação. Eu deveria ser aquele a quem ela confiaria seus medos, receios; aquele que deveria estar a par de tudo que é relevante em sua vida. No entanto, ela ainda não havia conseguido confiar plenamente em mim. Não para tudo, apenas aquilo que considerava que eu deveria saber, deixando escondidas algumas coisas, assuntos importantes, que, com a história que tínhamos, deveriam ter sido mencionadas.
Eu poderia inventar desculpas para o fato de ela não ter querido mencionar este assunto, mas estaria apenas me enganando. Oportunidades para a Anika falar que já fora casada surgiram diversas vezes, em muitas de nossas conversas, entretanto, ela não quis. Deliberadamente, escondeu de mim esta informação, que caiu de paraquedas em nosso relacionamento. A questão agora não se tratava mais da omissão ou não do casamento, mas do aparecimento de um homem que, legalmente, ainda era o marido dela. Se eu já soubesse dessa história, teria estado preparado para apoiá-la ao nos depararmos com ele, mas eu estava no escuro.
Olhei mais uma vez para meu celular em dúvida se deveria ligar para ela ou não. Prometi que ligaria quando estivesse pronto para conversar, no entanto, três horas depois de ter deixado seu apartamento, eu ainda não sabia o que fazer. Quer dizer, no fundo sabia o que deveria ser feito, mas não conseguia me obrigar a fazer isso. Apesar de tudo o que passei por causa dela, nunca deixei de amá-la e não ia ser um cara que não teve mais do que uma noite ao seu lado que iria nos afastar. Contudo, eu não podia simplesmente ignorar as implicações dessa situação e dizer que estava tudo bem, porque seria mentira. Eu estava cansado dos segredos, da unilateralidade quanto à confiança nesta relação. Eu precisava de tempo, e ela também. O que deveria ser feito, mas não encontrava coragem para fazer, era nos distanciar um pouco. Precisávamos disso, era necessário para o bem do nosso relacionamento. Assim a Anika poderia resolver sua situação legal e eu, digerir tudo o que havia acontecido.
Estando mais convicto de minha decisão, resolvi ligar para ela, mas antes que pudesse fazer isso meu celular começou a tocar e seu nome piscava na tela. Não sei por que, mas senti algo estranho, uma angústia tomou conta de mim ao observar sua foto na tela do telefone, o que era absurdo. Não era um término definitivo.
— Hey, eu já ia mesmo ligar para você – falei, quando atendi. – Tomei uma decisão importante e nós precisamos conversar.
— Hum, desculpe – a voz do outro lado da linha parecia desconcertada. Uma voz que não pertencia a minha namorada -, mas você é parente ou amigo próximo da srta. Olsen? Meu nome é Sophie, e seu número foi o último para o qual ela ligou hoje. Estou ligando para informar que ela sofreu um acidente e...
A mulher continuou a falar, porém não ouvi mais nada. Minha visão ficou escura por um momento e eu me apoiei na parede, para não cair. Isso não podia ser real. Anika sofreu um acidente? Não, não, não. De jeito nenhum. Há poucas horas nós estávamos juntos, e ela estava bem. Os piores cenários começaram a aparecer em minha mente.
— Como ela está?! – De repente gritei, sentindo as mãos frias do medo tocarem minha pele.
— Não temos maiores informações no momento, pois ela ainda está na sala de cirurgia...
Deixei o telefone cair, o barulho da tela quebrando coincidindo com meu coração se partindo.
Fale com o autor