Notas iniciais
Heyy!! Como vocês estão?? Desculpem pela super demora novamente...posso contar um segredo? Na verdade, o cap já estava pronto... não me batam, ok? Eu tenho uma justificativa: eu gosto de segurar capítulos para que depois não fique tudo sobrecarregado, ou seja, escrever mais um cap para não deixar uma demora enorme...o que não aconteceu, eu não consegui escrever nada porque: as aulas voltaram ¬¬ eu não estava pronta para isso ¬¬ e esse semestre é o mais corrido ¬¬ tem exposição, fórum de sei lá o quê, apresentações, seminários (pelo menos uns três que eu saiba até agora...), então vou alternar as histórias, o que significa que o próximo cap a ser postado será de Pure Imagination ou Self Destruction. Não tenho certeza... -Eu não consegui responder alguns comentários de Pure, se tiver alguém aqui que lê e comentou haha, mas eu pensei que as pessoas preferem que eu poste do que responda, então vou respondendo aos poucos porque eu li todos pelo menos umas duas vezes para me dar forças hahaha -E...poxa...eu...estou...muito feliz... f***-se que 13 é "numero do azar", eu amo ele agora porque...temos 13 recomendações T^T *emoção* ganhei não uma, mas DUAS lindas e maravilhosas recomendações!!! Muitíssimo obrigada Luna Lee Kaulitz e Tsuki, porque suas palavras foram lidas e relidas e interpretadas e reinterpretadas pelo menos umas cinco vezes e eu fiquei muito feliz T^T é nessas horas que eu vejo que essa fic já tem tempo e já fez um longo caminho e eu não poderia agradecer tanto quanto gostaria às pessoas que acompanham T^T*momento emocional* Amo vocês... snif snif -Ah, e Milk Cullen...atualizei Bad Boy! ;) Obrigada por me lembrar quando falou de mim nas notas finais da sua história hahaha -Hm...escrevi demais, então...boa leitura! o/

O café estava cheio. Férias sempre era tempo de muitos clientes e muito trabalho. E muitos clientes e muito trabalho era sinônimo de exaustão. Allen suspirou com a respiração cansada de ir e vir pelo lugar inteiro, entregando, recebendo, anotando, carregando, pedindo... Jogou a bandeja embaixo do balcão e debruçou-se sobre ele sem se importar com mais nada que acontecia a sua volta.

–Allen!- Travis gritou do outro lado e o fez gemer pensando que receberia mais uma ordem ruim, mas foi surpreendido com a melhor de todas- Pode descansar. Tem meia hora.

Apenas não gritou em agradecimento porque não queria incomodar os clientes, mas arrancou o avental da cintura e o jogou em cima de algum outro colega quando se afastou em passos cansados que, quando em serviço, não se deixava mostrar.

Mesmo de olhos exaustos, conseguiu localizar Lavi acenando de uma mesa qualquer do outro lado do café. Sentava com uma xícara de café, mexendo com uma pequena colher na bebida, mas sem ainda bebê-la, por isso ainda havia líquido e espuma até a borda. Allen se perguntou se estaria quente demais ou se por um acaso o estaria esperando.

Jogou-se na cadeira à frente dele, com uma moleza que deixaria amebas com inveja.

–Uau- o ruivo sorriu, vendo como o outro estava exausto, escorrendo pela cadeira- tão cansado assim?

–Com certeza- o albino deitou a cabeça na mesa e depois apontou para a xícara do amigo- está quente demais?

–Não. Só estava te esperando.

–Eu poderia trabalhado por mais meia hora, Lavi. Por sorte, Travis me liberou antes.

–Então eu tomaria um café frio- finalmente levou a xícara à boca, estava se segurando para não entrar rápido no assunto que queria, mas era inevitável então falou antes que pudesse se impedir, sem ligar para a ardência que as palavras riscavam em sua garganta relutante- Como está indo com Kanda?

Se é que era possível, Allen pareceu ainda mais cansado. Lavi quase se viu contornando a mesa para entregar-lhe seu café. E um ombro para dormir.

–Uma semana, Lavi. Uma semana- seu tom era enraivecido, mas cansado demais para estar com raiva- eu realmente desisto disso. É um vai e vem que eu não entendo.

Os olhos do ruivo estavam frios como gelo enquanto observavam o albino se debruçar mais sobre a mesa. Era mais que simples raiva por sentir como o outro tinha efeito sobre o garoto, mas saber que mesmo ele sendo capaz de tudo isso ainda tinha a coragem de não prender-se ao albino.

Tinha tanta raiva de Kanda que mal queria encontrá-lo para lá da cidade. Teve uma conversa antes com Alma, no banheiro daquele bar, cheia de xingamentos e descontentamentos , até decidir que não iria lá para deixar o albino abandonado aqui. Alguém tinha que criar consciência de que Allen não é algo para se jogar para lá e para cá, então assim o fez.

–Ele é um idiota- Lavi concluiu. Não era bem a coisa que ele mais queria falar em voz alta...só que era um jeito educado de resumir.

–Total-ele respondeu, com a voz abafada pelos braços.

O ruivo se ocupou de beber gole por gole da bebida. Havia enrolado tanto que o café estava frio e ruim de se tomar, mas o que mais podia ocupar seus lábios para não falar o desnecessário? A boca do albino já estava fora de cogitação.

–E eu ainda não consigo acreditar que eu estou realmente depressivo por causa de um- estremeceu- homem.

–É assim, Allen- Lavi contorceu o rosto quando sussurrou baixo o complemento- apesar de que comigo não foi assim por você.

O albino continuou debruçado na mesa, sem resmungar e muito menos falar nada. Às vezes, gostava de ficar assim, apenas quieto sem fazer nada. Sua vida era toda feita de momentos tranquilos assim, por isso se perguntava desde quando essas situações se tornaram tão raras como eram agora. Não precisava de resposta, pois já a sabia. A culpa toda residia em um certo japonês que aspirava a samurai moderno.

Se um dia não tivesse cruzado aquele beco e parado pela “garota” machucada, não estaria agora metido no que estava. E mesmo assim tinha tempos em que não se arrependia por desistir de uma vida mentirosa. Mas dois segundos depois recomeçava a lamentar.

Lavi pousou a xícara vazia na mesa. As palavras rasgavam sua garganta, porque na verdade não queria dizê-las.

–Está vindo, não está?- perguntou como um sussurro.

Allen levantou a cabeça. Seus olhos se perderam em algum ponto que não estava entre ele e Lavi como parecia, mas em algum tempo passado que nada podia alcançar. Sorriu como achava que conseguiria, mas para o ruivo foi um gesto triste que ele já esperava.

–Está-respondeu-está perto.

“E eu quase esqueci”, completou mentalmente, “quase...e não me perdoo por isso”.

Mesmo com a xícara vazia, Lavi continuava a mexer na porcelana com os dedos.

–Quer alguém para ir junto?- perguntou.

–Não. Acho melhor ir sozinho- o albino se encostou na cadeira, olhando para a rua ao lado se encher de pessoas. Não era para ser, mas o dia estava frio, gelado como se nevasse há dias sem parar- mas se quiser ir algum outro dia, não vejo problema.

–Sim. Irei. Com certeza- molhou os lábios- é muito importante para mim também.

“Não mais que para Mana”, o albino pensou penosamente, “não me perdoo por ter quase deixado de pensar nisso”.

–Obrigado, Lavi- sorriu, e dessa vez com o máximo de calor que pôde reter no gesto- de verdade.

–Não fale assim- o ruivo sorriu- ou eu fico envergonhado- mas não havia nada de vergonha em sua expressão sorridente.

Sem poder conter o hábito, deixou que os dedos se perdessem entre as madeixas claras do menino. Tinha algo naquele gesto que podia espantar qualquer preocupação e é por isso que desde que se dão por amigo, usa-o com Allen. Todas as vezes.

Eu não consigo ficar bravo com você por mais de três minutos”, o albino dizia. E era total verdade. Nem quando quebrou um vaso decorado de seu pai quando chutou uma bola de futebol, nem quando sem querer dedurou que comia em sala de aula para o professor, nem quando por um equívoco seu durante uma prova em dupla perderam dois pontos preciosos na nota, nem quando chegava atrasado uma hora em um compromisso com ele, nem quando o deixou perdido em uma festa para dar em cima de algumas meninas, nem quando descobriu suas atividades perigosas no subúrbio. Nem quando sua mãe foi machucada.

A única pessoa que Allen já havia culpado era ele mesmo. E Lavi tinha medo disso.

–Walker!- Travis gritou do outro lado do lugar. Tinha uma bandeja em mãos e o olhar despreocupado no rosto- Volte para seu turno. Chega de descansar. Consegue atender as mesas perto da porta?

–Sim!-Allen se levantou, parecia um pouco renovado, mas a fadiga era aparente em seus olhos perdidos- vou indo nessa, Lavi. Falo com você mais tarde.

O garoto pegou seu avental de volta e quando o ruivo já havia pagado a conta e vestido seu casaco, Allen atendia uma mesa profissionalmente com o melhor sorriso que conseguia. Sem espaços para um aceno de despedida, apenas saiu pela porta ao mesmo tempo em que uma família entrava. O sino tocou para avisar a entrada, mas sua saída foi despercebida.

Apertou o punho dentro do bolso. Kanda o irritava mais do que tudo.

“E, mesmo assim, estou no bando dele”, pensou, “ótimo”.

Mas se fosse para listar os motivos de acabar por estar ali, os policiais precisariam preparar suas algemas, porque salvo ele não sairia.

A rua não estava tão movimentada. O frio surpresa realmente pesava para as pessoas. Mas para ele não, tanto faz se estava frio ou quente, tinha um casaco e roupas grossas o suficiente. Um grupo falante de garotos entretidos passou por ele, deviam ter a mesma idade, mas gargalhavam como se tivessem dez anos a menos. Lavi imaginou como devia ser poder simplesmente sair com os amigos sem se preocupar com problemas que também ocupavam a própria polícia.

Não mais podia sair sem agir com sua própria farsa.

Não mais podia agir sem ser como um criminoso acostumado. Era sua vida.

Não só sua vida... mas também da...

–Lavi?- uma voz o chamou atrás de si.

Uma voz infantil que com certeza ignoraria se sua memória incrível não a reconhecesse tão bem expulsou seu nome sem a menor dúvida. Tinha um tom mudado, mas a puberdade acontecia e era algo que não podia evitar e a essência do som continuava viva como na sua memória.

Girou nos calcanhares, praguejando para nada em especial.

E lá estava o garoto. O topo de sua cabeça batia com dificuldade em seu ombro e suas roupas eram tão normais que com certeza passaria despercebido se o cabelo não fosse destacante. De fios azulados em um corte rebelde e assimétrico, com duas mechas maiores desciam pelos ombros e uma bandana como a sua cobria sua testa. Quantos anos ele teria agora? Treze?

“Ele sempre gostou de me copiar”, lembrou, “a cor é a mesma da minha bandana”. Fazia tempo que seu primo não aparecia em sua frente. Não que sentisse falta, estava muito bem sem pentelhos. Já tinha um, e o nome era Kanda.

–Hey, Timothy...-disse.

–Temos problemas, Lavi.

O ruivo girou os olhos, tinha cansado de sorrir. Desandou a andar, sabendo que o garoto o estava seguindo em passos rápidos.

–Mal nos cumprimentamos e já partimos para a seriedade? Quem apareceu agora?

O garoto tinha olhos ferozes difíceis de se encontrar, mas Lavi sabia que era apenas fachada. No momento em que caísse em uma briga, choraria como um porco no abate, seu rosto inteiro se incharia e ficaria cheio de catarro e lágrimas. Quem sabe ele teria criado prudência e coragem nesses anos separados?

Duvidava disso, mas não se importava.

–A pergunta é- Timothy andava ao seu lado- quem reapareceu? Ou “quens”?

–X-

–Chega. Você sai agora daqui.

Alma jogou uma garrafa de água vazia no japonês. Kanda apenas teve que desviar alguns centímetros, mal se ocupando em ouvir quando o plástico atingiu em cheio Daisya e o derrubou da cadeira.

–Me obrigue, Alma.

–Ok- ele esfregou o rosto- nós tivemos aquela conversa anteontem com Daisya e Marie e eu achei que tínhamos progredido uma grande parte, mas parece que você só gosta de ficar parado no mesmo lugar.

Kanda ergueu-lhe as sobrancelhas ironicamente. Pegou seu copo cheio de bebida alcoólica e o levantou na altura dos olhos como um cumprimento.

–Não me diga, Alma. Ótimo que tenha percebido. Será que ganho um pouco de liberdade agora?

Alma saiu de seu banco, parando do outro lado de Kanda no balcão, mas a aproximação em nada afetou o japonês.

–Liberdade é uma coisa, você está fugindo e se matando pouco a pouco.

–Deixe de dar uma de psicólogo, Alma- revirou os olhos- eu estou bem, não exagere. E não fale de me matar, nós dois sabemos que esse é você.

Alma estudou seu rosto com mágoa e o moreno apenas ignorou, tornando o copo até a última gota de álcool. Os lábios do garoto formaram uma linha dura quando se afastou batendo na madeira, dando tempo e voz a uma tristeza clara. Era algo que Kanda não ouvia com tanta transparência há muito tempo. Decidiu não olhar, por isso não viu de imediato como a expressão dele também traria nostalgia.

–Foi longe demais com essa-cuspiu.

E quando Kanda olhou de relance para a direção que o viu seguindo, apenas captou a saída do amigo. Alma pisava forte no chão e esfregava os olhos com as mangas da roupa que usava. Desapareceu na rua escura e úmida tão rápido quanto o japonês virou o próximo copo.

E o sentimento apenas não bateu rápido porque o álcool já usava sua cabeça. Dias apenas bebendo e se perguntava algumas vezes sobre como estaria seu fígado, para então se esquecer e tomar outro copo. E outro. E outro.

Nem tinha medo do que fazia ou faria, porque...quem tem medo quando o mundo começa a ganhar graça? Ou pesar?

Chamou Tyki mais uma vez e o barman se aproximou limpando um copo com um pano (que, a propósito, parecia mais sujo que o próprio copo). Tinha o sorriso que mais irritava Kanda, mas suas palavras eram sempre rígidas. Sem ser chamado ou permitido, se aproximou até inclinar no balcão.

O japonês não reagiu maleficamente. Apenas levantou os olhos e os revirou em um suspiro.

–Ele tem razão. Foi longe demais-Tyki disse, encarando a porta-você sabe disso mais que ninguém, você é o melhor amigo dele, você lembra disso.

Kanda ignorou o modo como foi chamado.

–Isso não é da sua conta.

–Todos temos dias ruins e momentos terríveis- ele continuou, ignorando o japonês- tenho certeza de que ele nunca tenta trazê-lo de volta para os seus. Falar sobre morte é algo delicado aqui, você também sabe disso.

Kanda pousou o copo. Não sentia mais vontade de beber mais nada.

–Ele é seu amigo. E não!- Tyki levantou o dedo quando Kanda abriu a boca para rebater- Você pode não gostar desse termo, mas é a verdade. Tenho certeza de que o motivo pelo qual ele tem todo esse jeito implicante é porque ele quer o seu melhor. Então é melhor ouvi-lo- ouviram a porta se abrindo- ou vai perder algo importante para você.

Tyki apontou para a entrada. Kanda olhou e encontrou Lavi entrando na companhia de uma criança estranha. Os olhares do ruivo e do moreno se encontraram, o caolho tinha desprezo nos olhos, mas Kanda possuía o mais puro desafio. Um desafio fraco e incapacitado daquele que já não tem certeza de nada. Talvez fosse por isso que foi o primeiro a desviar o olhar.

–Então- Tyki chamou sua atenção- vou voltar a trabalhar e você vai atrás do seu amigo– enfatizou a palavra- porque ele é seu bom senso e eu não quero meu bar destruído- suas mãos rápidas agarraram o copo- e vou pegar isso. Chega disso. Vai lá. Está expulso até consertar tudo.

Kanda revirou os olhos. Sentia algo pesando nas costas e nos ombros e ele sabia que era psicológico, mas levantou mesmo assim. Verificou se a mugen estava bem colocada na cintura e antes de sair deu uma última olhada para Lavi. Ele estava ocupado demais conversando com a criança em uma mesa para devolver um olhar.

A tarde estava fria. O céu, nublado. O clima, gélido. Mas pior estavam as pessoas. Sempre estavam.

Com as mãos nos bolsos na tentativa falha de se aquecer, o japonês chegou a conclusão de que gostava mais de sentir o frio. Ele podia olhar para os lados, mas nem mais via as pessoas e a miséria com a qual elas se cobriam, via apenas paisagem e nada mais. Andava em passos rápidos, sabendo que se não os usasse caminharia em vão. Não sabia onde Alma estava e sua vaga esperança era encontrá-lo no caminho de lugar nenhum.

Conhecia aquele lugar como a palma de suas mãos. Na verdade, até melhor. Os becos onde costumava esconder-se de tudo, ruas onde arrancava sangue com os punhos, lugares onde roubava comida para passar o tempo. Estava tudo lá, morto como se nunca tivessem tido vida.

Era difícil encontrar algo vivo quando passava para esses lados da cidade. Lá, tudo era imóvel e violento, o próprio inferno frio que todos evitavam.

Quando avistou um vulto conhecido vagando entre as pessoas maltrapilhas, apressou o passo. Não que precisasse correr, Alma andava lentamente porque não tinha pressa para chegar a lugar nenhum.

–Oe!- Kanda gritou, mantendo a distância segura em que sabia que se o garoto jogasse algo não acertaria.

Alma parou no meio de um passo. Girou os calcanhares devagar até encontrar o outro. Franziu o cenho com força para a figura, mas tinha vontade de chorar.

O japonês girou os olhos enquanto se aproximava, agora com certeza de que ele não tinha nada em mãos que podia machucá-lo. Desviar de objetos pesados podia ser difícil quando se tem uma grande quantidade de álcool correndo pelo seu sistema. Alma acompanhou com os olhos ferozes todo seu trajeto até o seu lado, parecia prestes a rosnar e mordê-lo para arrancar sua carne. Kanda não se deixava intimidar, mas muito menos Alma.

Kanda encarou o amigo por um tempo, examinando o olhar voraz com o seu acostumado. Quando Alma ficava assim, só encarando, sem falar absolutamente nada, era porque tinha feito algo feio de verdade.

Trocou o peso das pernas, suspirando profundamente sem uma reação do outro. Devia aproveitar as influências do álcool para fazer o que não queria.

Fazia anos que ele não caía em uma situação como aquela com o Alma. Era constrangedor, mas totalmente necessária, ele reconhecia.

–Eu sei que o que eu disse foi demais- disse, recebendo não mais que um afrouxamento no cenho do amigo.

–Com certeza que foi-Alma rosnou- eu pensei que nós não fôssemos tocar em coisas passadas desse jeito. Foi duro para mim, você sabe.

–Eu sei...- o moreno ajeitou as mãos dentro dos bolsos.

–Eu não gosto do “eu” daquela época, Kanda.

Foi quando o japonês percebeu que os olhos estavam úmidos, mas sem chover. O amigo era forte quando queria. Se não fosse, nunca estaria ali agora, poderia estar a sete palmos embaixo da terra, sendo devorado por vermes até os ossos virarem pó.

–O erro foi meu, desculpa- disse, por fim, e Alma finalmente desmanchou o rosto amarrado- Tyki disse que você só quer o meu bem e blá-blá-blá. Eu não aguento mais.

Alma bateu com força em sua nuca.

–Pode ter certeza de que eu quero seu bem! Sempre!- gritou com uma raiva gentil, mas o golpe havia sido forte.

Kanda esfregou o lugar dolorido. Ele nunca havia batido tão forte assim em si, mas segurou-se para não devolver o golpe.

O garoto sorriu penosamente.

–Mas eu admito que seu comentário faz sentido. Eu sei que você não é de ter essas conversas, mas é difícil você aceitar conselhos meus quando você já me presenciou tentando me jogar de uma ponte.

–Mas não se jogou.

–Mas eu queria- disse em tom firme- todo o negócio de brigar com meu pai e a pobreza... não foi uma boa ideia eu tentar...morrer. Às vezes as coisas parecem insuportáveis demais, mas ainda bem que não me joguei no final, ainda bem que você me arrancou pela gola, apesar de que eu quase morri enforcado... Afinal, como você estaria agora se eu não estivesse aqui com você?

–Sossegado e tranquilo...- sussurrou, recebendo mais um soco, agora no estômago- Alma, está abusando...

–Estou mesmo. Seu idiota-suspirou- você é uma pessoa forte. Você passou por coisa pior que um pai terrível que gasta dinheiro em bobagens e bebe até vomitar tudo que come, mas ainda assim não foi você que tentou suicídio.

“Eu tinha outras formas de me matar”, pensou, “por isso que eu estou aqui, apodrecendo junto de tudo”.

–Você também é forte- devolveu.

Alma sorriu, seus olhos tinham secado a umidade.

–Mas não sou eu que tenho que ser agora- avisou- eu já vou avisando. Se você não for falar com o Allen e resolver o que tem que resolver...eu vou te bater com um martelo pesado até seu cabelo cair, fio por fio, nem que eu tenha que arrancar seu couro cabeludo para isso.

Kanda ergueu as sobrancelhas.

–Acho que eu estou sendo uma péssima influência para você- resmungou, voltando o caminho.

–Então crie cabeça e deixe de ser uma.

Alma fez o caminho de volta para o bar, mas apontou o caminho ao lado para Kanda. O moreno sabia que não podia recusar, o amigo já corria para o outro lado e sumia entre as pessoas.

“É agora”, pensou, encarando a rua quase vazia, “espero que o moyashi esteja trabalhando a essa hora”. E pensando em como estouraria a cota de desculpas suas de uma vida naquele dia, apressou os passos entre as pessoas.

–X-

Conforme o frio apertava, as horas passavam e o sol completava sua volta, o café ficava mais vazio. As pessoas pagavam as contas de sua última bebida quente e voltavam a encarar o clima gelado que assolava as ruas. Allen acenou para seus últimos dois clientes enquanto eles cruzavam a porta. Agora apenas duas outras mesas estavam ocupadas e não faziam parte de sua área de atendimento.

Sentou em uma cadeira qualquer para descansar. Trabalhar hora extra nunca foi seu forte, mas se era necessário que fosse. Mana precisava de dinheiro e seu tutor já não servia mais para nada além de aparecer uma hora ou outra.

Já eram quase cinco horas da tarde e Allen apenas não sentia urgência de sair do trabalho porque temia o frio lá fora.

“Não trouxe o casaco”, lembrou, “deixei em casa entre as roupas amontoadas ao lado da cama”. Usava apenas uma camisa de manga comprida que não o ajudava a se aquecer tanto quanto gostaria. Travis o cutucou pelo ombro e o chamou para sentar em uma mesa próxima a porta. Com o lugar vazio, trabalhadores demais conseguiam atrapalhar bastante, então estavam lhe dando um tempo para descanso.

Travis se sentou a sua frente, tirando seu avental e o jogando em cima da mesa. Desde que ele possuía um cargo maior que Allen, sempre aparentava mais nervoso e cansado. Allen não queria estar no lugar dele.

–Está frio hoje- o albino comentou.

–E disseram que faria um pouco de calor para variar- ele bufou- nunca confie nessas coisas. É como se o clima ouvisse tudo que falam e quisesse fazer uma pegadinha.

–É...

As árvores perdiam suas folhas nas ruas. O vento passava e carregava várias delas de uma vez, acertando-as nas cabeças de uma ou outra pessoa que passasse despreocupadamente. A loja de roupas a frente de seu trabalho costumava fechar esse horário, não foi surpresa que a pobre velha fosse atingida por uma rajada grossa de folhas secas enquanto trancava a porta do comércio.

Parecia outono, mas já era inverno. Os galhos começavam a ficar nus e as árvores magras, exibindo seus mínimos contornos.

–Férias...- Travis suspirou- espero que durem.

–Com certeza.

–Estou indo já para o meu último ano, Allen. Último ano. Nós falamos, reclamamos, mas nós vamos sentir falta dessa época.

–É assim mesmo. Logo já vai ser minha vez.

–Então aproveite-o rapaz ajeitou os guardanapos jogados na mesa e então rodou os olhos pelo lugar- estou exausto de trabalhar.

–Mas pelo menos hoje estava cheio- o garoto comentou.

–Claro que estava. Quem não quer uma bebida quente nesse frio? Se fosse por mim, nem teria saído das cobertas. É o clima perfeito para os namorados também.

Allen puxou um sorriso.

–É. É mesmo.

O sino de entrada soou, mas os dois estavam cansados demais para prestar atenção ou ligar. Já havia pessoas para atender os novos clientes e mesas desocupadas para serem usadas e não era necessário que levantassem e interrompessem o descanso pelo qual ansiavam a tanto tempo. O vento veio pela porta aberta e desceu pelo corpo inteiro do albino, fazendo-o esfregar os braços na busca por calor.

–Seja bem vindo- ouviram uma das funcionárias cumprimentar- gostaria de uma mesa?

–Não-Allen estremeceu quando o homem falou. Aquela voz...- Vim buscar uma pessoa.

Enquanto ainda passava as mãos geladas pelos braços frios, sentiu um tecido cair pela suas costas e o cobrir. Estava quente e aconchegante. Era um casaco negro, comprido e grosso, com o melhor cheiro que ele já havia sentido na vida.

O frio se dissipava conforme a pele entrava em contato com o pano. Uma mão tocou seu ombro e Allen se sentiu até assustado por conseguir reconhecer alguém pelos dedos.

–Vou levar seu funcionário- Kanda avisou Travis, sem pedidos, só um aviso.

–Hã...Tudo bem...Allen, está liberado.

–Qu-

Os dedos desceram do ombro ao braço e tomaram cuidado para não derrubar o casaco quando puxaram Allen a se levantar e sair do lugar.

–Voltem sempre- algum funcionário disse, mas nenhum dos dois prestou atenção.

Allen sentiu o frio do lado de fora pela primeira vez no dia inteiro. Puxou o casaco para cobrir mais o corpo, mas era difícil equilibrar o tecido quando seu outro braço estava ocupado sendo puxado. Seus dentes tremiam e às vezes lhe parecia que o frio entrava pela sua calça curta e congelava seu tornozelo.

–Espera- pediu, ainda tentando evitar que o casaco caísse, mas o moreno não parou- espera, Kanda!

Livrou seu braço do aperto e isso fez com que o japonês parasse de andar para olhá-lo. Pensou que estaria a encará-lo com o mesmo fervor raivoso que Alma usara ou que tentasse fugir por alguma ruela, mas Allen apenas enfiava os braços no casaco e fechava os zíperes e botões.

O albino suspirou de puro alívio, vendo a respiração virar fumaça branca no ar, pois agora estava quente o bastante para estar confortável. O sobretudo ficava grande em si e se encolhesse um pouco o pescoço, veria-o sumir na gola. Mas era quente e confortável e isso era o bastante.

–O que foi aquilo lá atrás?- perguntou e Kanda se surpreendeu por sua voz estar tão macia.

–Tsc. O que acha? Te livrei do trabalho.

–Você me assustou.

–Então da próxima vez ao invés de ficar sentado, vá atender o cliente.

–Já havia passado da minha hora.

Kanda suspirou. Sua respiração também se esbranquiçou e Allen se viu comparando aquilo a fumaça de cigarro. Era estranho como parecia familiar.

–Então devia ter saído do trabalho- disse e balançou a cabeça depois- esquece. Aí eu não te encontraria.

–Ah, é...Por que você foi me buscar lá?

–Conversar.

Allen estranhou. Se havia algo que Kanda não costumava fazer, era conversar. Mas tinha uma ponta sofrida que ele não identificava no tom estranho dele.

Kanda apontou com a cabeça para um banco de pedra desocupado do outro lado da rua. Não havia movimento, nenhum carro passava e nenhuma pessoa caminhava.

O moreno parecia cansado quando se sentou. Ficou observando o céu fechado enquanto Allen se confortava ao seu lado. A pedra era gelada e mesmo usando calças e casacos grossos, conseguia sentir. Mas não era ruim, era normal.

Kanda viu o garoto erguer suas mãos em concha até a boca, baforando em busca de esquentá-las. O clima piorava enquanto o sol se despedia no horizonte. Os postes de luz começavam a acender, lâmpadas de brilho amarelado que se preparavam para o grande escuro que estava por vir. Mas ainda havia sol, mesmo que apenas o alaranjado de seu pôr cercando as nuvens. Se surpreendeu por essa cor poder ser vista em um dia tão escuro como aquele, mas lá estava ela.

E o moreno só conseguia pensar na última vez que sentaram lado a lado em um banco.

–Foi na sua casa, não foi?- Allen perguntou, surpreendendo Kanda- no jardim super grande do seu tio, sentamos perto de uma cerejeira.

O japonês chegou a imaginar se ele conseguia ler pensamentos. Tinha que tomar cuidado. O jeito calmo de sua voz não condizia com o nervosismo transbordante do moreno.

–É.

Allen abafou um riso.

–Você que diz que quer conversar e ainda assim sou eu quem tem que falar primeiro- disse- isso é tão você que é engraçado.

Kanda esticou os lábios. Só estava distraído com a paisagem dos pensamentos.

–Mas é legal, sabe?-Allen continuou- você ser você.

O moreno apenas acenou com a cabeça. Parecia que as palavras congelavam em sua garganta, mas ele sabia que era apenas falta de costume. Falar era difícil. E ainda pior quando ele se perdia na graça daquele garoto ao seu lado.

–Alma te mandou, não foi?- o japonês escondeu a surpresa, mas Allen pareceu perceber de qualquer jeito- ele realmente sabe como te induzir a fazer as coisas, não? Ele tem a mente para isso. Ele tem o jeito para essas coisas.

Kanda se lembrou da irritação que às vezes tinha quando estava com Alma quando concordou penosamente com a cabeça.

–Mas eu gostaria de ter- Allen sorriu, ainda que seus olhos se apertassem de um modo nada alegre- ter um jeito de entender você, pelo menos.

O moreno esfregou os dedos, criando coragem o bastante para olhar o garoto ao lado. O albino tinha o olhar desfocado em algum ponto qualquer, desabalado como nunca pareceu, como se apenas desfrutasse de uma companhia qualquer em uma tarde fria. Ele, por outro lado, continuava de olhos rígidos. Maciço, mas ainda assim sempre se desfazia quando Allen estava no jogo. O que não foi exatamente o caso no momento. Kanda gostava de aparentar força, mas o albino é que não gostava de tentar buscar fraqueza nos outros. Se olhasse um pouco mais, veria a desolação que o moreno carregava nas íris.

Por isso, quando agarrou as mãos do garoto na concha que o pequeno fazia na boca, manteve a máxima seriedade que confundia Allen. Quando puxou o queixo dele para si, manteve a rigidez. Mas quando forçou os lábios a se tocarem e teve certeza de que os olhos estavam fechados, desmanchou-se de ansiedade por dentro. Mantendo a dureza.

Foi um toque rápido e leve, mas não deixou de ser necessário.

Kanda queria acariciá-lo, não importava se alguém visse, não importava se soubessem. Estava na hora de levar seu lema a sério e soltar um “foda-se” para tudo aquilo. Se o que lhe fazia incerto era o passado, então que ele venha à tona. E que venha agora.

Uma das mãos de Allen estava em seu ombro e apertou o tecido conforme a separação dos rostos vinha à consciência. Seu sorriso tinha ruído e seus olhos estavam quebrados. Mas Kanda sentia-se pior e...foda-se a seriedade.

–Duas semanas, Kanda- resmungou rigidamente como uma facada- duas malditas semanas.

Kanda percebeu que tinha os dedos dele entre os seus. Apertou a mão gelada em uma tentativa de ganhar toque.

–Eu sei- o moreno não impediu o tom de sair culpado- eu sei.

–Vai ter que pedir desculpas- Allen rosnou- de joelhos mais uma vez.

Kanda se permitiu sorrir. O albino quase se deixou levar pelo movimento raro.

–Se tiver que ser assim...

Allen revirou os olhos.

–Por que ficar assim?- perguntou- Por que esse vai e vem idiota?

–A culpa é minha- as palavras rasgavam sua boca, era difícil perder o hábito do orgulho- é verdade- foi só imaginar Alma estraçalhando sua cabeça com um martelo para ganhar força-é por isso que eu queria conversar.

–Então converse!- Allen estava perdendo o controle da calmaria que ele sempre mantinha no rosto.

–Vou tentar. Mas o assunto é diferente do que você pensa.

–O que?- Allen ergueu as sobrancelhas- você tem medo de se relacionar com um garoto? Tem medo de perder a postura machona que os outros têm de você? Tem medo do que?

–Não, idiota-Kanda fez questão de apertar os dedos do albino para trazer a vontade de falar- está chegando, não está?

Allen franziu o cenho.

–Não venha com enigmas desviadores de assunto, Yuu Kanda.

–Não é um enigma. Você sabe o que é.

–Eu sei?- estava indignado.

–É daqui uma semana exatamente. O dia que você e o Mana esperam o ano inteiro. Todos os anos, querendo que em um deles não chegue mais.

A ideia atingiu Allen com uma força que ele não calculou. Recuou a face nervosa, e recuou o corpo enquanto pensava direito. Seus olhos estavam mais que surpresos, estavam molhados e incomodavam com o frio intenso que fazia. Afinal, como ele poderia saber? Não se lembrava de ter dito. E, se disse, como ele poderia lembrar tão certamente como estava fazendo?

Enquanto ele se afastava, Kanda fez questão de se aproximar. Semblante duro, sério e determinado para não deixar escapar. Ao invés de plantar um beijo nos lábios confusos, puxou a cabeça para descansar no seu ombro, onde podia ouvi-lo sem esforço e onde Kanda podia passar as mãos pelos seus fios facilmente. O albino apertou o tecido nas costas no maior e se deixou levar pelo calor que ele exalava. Era mais forte que qualquer um dos dois a necessidade de toque.

–O dia em que sua mãe foi encurralada. E foi o dia em que eu destruí minha família.

Notas finais
Gostaram? Não? Bem, eu acho que no próximo tem lemon ;) fiquem animados haha -Vocês perceberam? Estamos (acho) caminhando por uma reta final, o que não sei se quer dizer muita coisa, porque, se vocês perceberam, eu vou empurrando as coisas e acabo escrevendo mais do que devo algumas vezes... -"Timothy? Mas quem é esse???" para quem não leu o mangá de DGM, Timothy é um personagem de verdade da história que aparece mais para frente e ele não é primo do Lavi lá haha é só um menino sobre quem não vou dar spoilers nem nada. Mas eu resolvi incluí-lo porque eu nunca via-o em fics e, sei lá, bateu uma saudade do mangá ;-; Mas já tem pistas sobre ele? Não? A resposta é um pouco...esperada, eu acho. O nome dele é Timothy Hearst, procurem no Google depois se tiverem curiosidade :) -Não sei se vocês perceberam, mas Allen tomou a liderança nessa coisa hahaha Bem, até mais! o/ Muito obrigada!!