Bad Apple

1 [ÚNICO] Maçã ruim


Notas iniciais
Por uma escritora que rege as letras de acordo com suas emoções,
boa leitura.

[ Bad Apple ]

Por anos aprisionei o demônio em mim. Acorrentando-o, sorrindo e sibilando cumprimentos e palavras gentis para agradar aos corações. Minha carcaça é assim, agradabilíssima? Seria uma pena se fosse tudo apatia e desprezo, o que, lá dentro, o é. Seres humanos, ele anseia por afogá-los no sangue de seus sonhos frustrados. Os que ele frustrou.

Mesmo no meio do fluxo do tempo,
Olha, a apatia volta dançando em círculos.
Eu nem posso ver meu coração,
Como se retira de mim, eu não me importo.

As pessoas passam por mim com as mãos cheias. Carregam felicidade, adoráveis ambições e força de vontade. Mas também levam as bandagens arrancadas, esparadrapos fétidos. Analisando tudo aquilo, concluo que venceram batalhas animalescas para a sobrevivência de seus corações e sentimentos. A insegurança os tombou, mas então emergiram prontos para mais uma guerra. Prontos para mais uma vergonha.

- Alguém...? – gemem enquanto choram.

- Cá estou.

Miram-me sempre com os olhos aguados, desiludidos. Meu sorriso exterior os atrai. Minhas palavras de conforto são o seu remédio. Abraçam-me como se eu fosse tudo o que ainda lhes resta, no entanto, o que faz o meu outro eu? Ele prepara uma armadilha mortal e venenosa, que eu luto para não vir à tona. Ele cria uma gaiola da qual não conseguirão escapar; e eu os conduzo para ela.

É assim que eu vivo: aspirando suas almas vazias e incompletas, tentando não ser como o meu monstro.

Mesmo se eu não fizer nenhum movimento,
Eu continuo sendo arrastada pelas frestas do tempo.
Eu não dou a mínima para nada ao meu redor,
Eu sou eu, e isso é tudo que existe para mim.

Um dia eu tive um sonho turbulento. Um sonho no qual eu era amada, e que o demônio que vive em mim estava extinto pelo fulgor puro existente neles, os meus humanos. Mas por que se apegaram a este eu mutável, composto por enganos sobre enganos? Eles não enxergam. Malditos humanos! Eu os odeio porque não compreendem!

Meu demônio ruge e debate-se violentamente, quando presencio mais uma decepção. Ponho as mãos na cabeça e peço um copo d’água, para engolir o gosto amargo e a risada desembolada que me vem garganta à cima. Só de pensar nos sentimentos alheios sinto cócegas e pena, ele zomba. Logo, fico imunda por pensamentos embaralhados, que facilmente se dissipariam, se conseguissem enxergar através das minhas feições de cordeiro.

Estou sonhando? Não estou vendo nada?
Minhas palavras são inúteis, mesmo se eu estivesse a falar deles.
A tristeza só me deixa exausta,
E eu prefiro viver meu dia sem sentir nada.

Como crianças travessas, vocês me voltearam e me fizeram coroas com flores. A relva é espaçosa. O campo da vida muito avança dos limites da imaginação. Vocês, meus humanos: por que não descem as colinas e desenvolvem mais uma aventura? Eu os estou guardando, observando com meus olhos falsos e amenos. Se tombarem e talharem-se novamente, chorem por mim, pois eu irei buscá-los. Confessem-me os seus pecados e erros, e, por favor, não repitam aquilo que ele adora ouvir de seus lábios culpados: “fomos errôneos, mas iremos consertar”; “fomos tolos, mas iremos suportar”; “somos fracos e não aguentamos mais o campo da vida”. Contudo, vocês sempre o repetem.

A minha carcaça de ser humano os arrasta para meu colo, aninhando-os confortavelmente. Com direito a beijos nas testas e canções de ninar, permito que debulham-se em lágrimas.

Meu sorriso tortuoso se mostra também em minha outra face, quando digo:

- Estou com vocês. Irei protegê-los do mal.

Eu sou o mal.

Entretanto, a necessidade de ombro amigo não é nada para alguém que nasceu num berço de trevas. Eu não me importo, porque ele me liberta dessas coisas. Tristezas? Eu não careço de compartilhá-las com ninguém. Quem seria capaz de compreendê-las? As trevas são turbulentas e abstrusas. No entanto, vocês que são claros: chorem o quanto puderem; esvaziem os seus canais lacrimais. Gritem sobre o quanto sou necessária, perfeita, dócil e amada por seus corações duvidosos. Minha carcaça se derrete com prantos altíssimos; porém, o que me habita não é visível por olhos desesperados.

Mesmo se você me dissesse aquelas palavras desconcertantes,
Meu coração estaria em outro lugar, sem escutar.
Se eu fosse fazer um movimento próprio, e mudar tudo,
Eu o deixaria negro.

Finalmente chegou o dia! As presas do meu demônio criam asas e saem, não mais percorrendo o campo da vida; agora plainando no espaço imaginário de paixões vazias. Até minha maldade cria mágoas, mediante a ingratidão a mim oferecida. Chove intenso dentro da minha mente. E ele torna a rugir animalesco. Sou uma criança desolada, que veste uma capa mortífera, que carrega as dores de ter nascido com um gênio cruel. Não tenho a quem realmente chamar de meu, e por isso, ninguém será de ninguém.

Existe um futuro para alguém assim?
Eu pertenço a este mundo?
Será que meu coração dói agora? Eu faço isso agora?
Eu simplesmente não sei nada sobre eu mesma.

Querida carcaça, este mundo é demais para mim, diz ele, com a voz que me faz tremer e suar, chorar e rir. Deixe-se romper; eles não se importam mais. Não te procuram mais. Não te adoram mais. Deixe o caminho ser aberto. Abra os meus olhos; tire-me a venda. Deixe-me ver. Deixe-me contemplar a asneira dos seus humanos. Deixe-me acabar com a dor. Deixe-me destruir.

Agora mesmo, meus olhos cheios de apatia viram covis malignos. Minha pele descasca e cai, revelando uma cinzenta e mortificada, impermeável como uma armadura. Minha doença se extrai como um cão que estraçalha, partindo para cima de qualquer um com a foice forjada pelo fervor das minhas lágrimas internas. Vocês não me reconhecem porque não existo mais. O fogo passa a consumir, e suas lágrimas não o apagarão.

Se eu fizer um movimento, se eu fizer um movimento,
Eu destruirei tudo, eu destruirei tudo.

Mas a culpa, meus humanos, é totalmente de vocês.
Por que não enxergaram além das aparências e viram que eu sou uma maçã ruim?

Se abrir meus pesados olhos significa que eu irei destruir tudo,
Então deixe tudo ficar negro.

Notas finais
Obrigada por ler e ajudar, mesmo que indiretamente, minha enseada em meu projeto de transição! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!