Backyard

1 Quintal de Memórias


Notas iniciais
Ouvindo Backyard de Of Monsters and Men me veio duas cenas que me envolveram até colocá-las no "papel". Não sabia de inicio sabia se ir as tornar um roteiro com situações a par dos livros, ou um final diferente para o Lua Nova. Conforme fui escrevendo acabei me surpreendendo o que fora proposto e o fim. Porém, após postar, notei que ainda falta alguma coisa. No qual depois ler e mexer, acredito que finalmente encontrei o que. Ao contrários das outras partes soltas, The Pain e The End, essa cena possui um antes. Vai ser melancólico e focará apenas narrativa de sentimento como em The Pain. Dois pontos: Sam demorou para encontrar Bella. Neves são como chuvas, caem em lugares em diferentes horas devido as nuvens e em proporções diferentes. E recomendo que ouçam a música para sentirem a vibe ;)

Parada, encarando o escuro à minha frente, sentia-me perdida. Não somente em lembranças, mas também em sensações. Olhava ao redor, vendo as penumbras das grandes árvores, enquanto era possível ouvir o farfalhar causado pelo vento que dançava harmoniosamente com elas, trazendo uma sensação de paz que me fazia suspirar. Mas logo uma angústia invadiu o meu peito, fazendo-me fazer uma careta enquanto mantinha os olhos na escuridão, reconhecendo o local que, de início, era desconhecido.

Era o quintal da casa de Charlie. O mesmo quintal onde me recordava de ter brincado várias e várias vezes em meus verões, ou até mesmo estendido um lençol velho com um livro de Jane Austen nos dias raros de sol.

Lembrava-me vagamente de descer as escadas do primeiro andar ao térreo, estranhando a escuridão pesada que envolvia os cômodos enquanto sentia o corrimão áspero embaixo da minha mão, antes de entrar no corredor e chegar ali. Mas, apesar de me lembrar, tudo estava confuso demais. Como se tivesse algo faltando.

De maneira lenta e silenciosa, pequenos pontinhos brancos começaram a cair, fazendo-me olhar para o céu sombrio para depois olhar para a neve que caía sobre a grama e sobre os meus cabelos. Estendi a minha mão, vendo um conjunto de flocos se juntar nela, fazendo-me sentir um frio intenso dominar o meu corpo, fazendo-me tremer e perder o ar. Olhei para trás, vendo que a casa continuava tão escura quanto a floresta e, por um momento, questionei-me onde estaria Charlie e que horas seriam. Meu olhar voltou para a escuridão e ergui a mão, vendo-a cada vez mais roxa, ao mesmo tempo em que me sentia mais fria por dentro e por fora.

Ainda tentando entender o que estava acontecendo, as lembranças vieram de maneira lenta, porém tão intensas que me deixaram aturdida. Olhos negros, olhos dourados, olhos vermelhos. Ofeguei ao ver o vampiro ruivo naquele mesmo quintal, conduzindo-me numa dança da qual sequer sabia os passos, ao contrário dele. Seu sorriso fazia o ar fugir dos meus pulmões, enquanto seu toque frio fazia meu corpo se arrepiar e meu coração acelerar com a energia que eles transmitiam.

A doce lembrança fora substituída por uma amarga, e, diante dos meus olhos, o sombrio quintal se transformou num estúdio de balé onde fui quase morta. Para então ser salva por ele, pelo vampiro ruivo de olhos dourados, que me abraçara de maneira amorosa quando saí do hospital e dormia do meu lado quase todas as noites, cantarolando a composição que havia feito para mim.

Eu me envolvo em uma fina folha de gelo.

Respirei com dificuldade, sentindo o frio aumentar e, numa reação normal, abracei o meu corpo, vendo que estava com o meu casaco pesado de frio e impermeável. De maneira repentina e intensa, uma luz branca iluminou o quintal, fazendo-me assustar e olhar para o ponto de onde ela vinha.

A luz branca logo se tornara em outras luzes. Luzes vermelhas e azuis que instigaram a minha atenção, que instigaram a minha curiosidade ao ponto de me arrastar pelo quintal, sentindo um peso descomunal dominar o meu corpo ao mesmo tempo em que respirava com dificuldade. O frio acentuava a dor em meus músculos rígidos, que perderam força, levando-me ao chão sem conseguir ver de onde vinham as luzes. Minhas mãos tocaram a grama úmida e gélida ao mesmo tempo em que era acertada por visões de uma família de vampiros ao meu redor, mas não me recordava dos seus nomes. E, por um momento, questionei-me, em meio a tanta aflição, como era possível lembrar do que eram e não lembrar dos seus nomes. Uma dor aguda me golpeou, fazendo-me perder o ar e encarar as três luzes que cortavam a escuridão.

Me segure, me segure.

Voltei a andar de maneira arrastada, sentindo a dor e o frio aumentarem, fazendo com que gritos e mais gritos ficassem presos na minha garganta. Meu corpo inteiro tremia quando senti o sangue escorrer pelo meu antebraço. Fechei a minha mão em volta dele, parando de andar e sendo golpeada pela lembrança de ser jogada sobre uma mesa, sobre o vidro, enquanto os olhos do caçador me olhavam com o desejo de tomar o sangue que descia pelo meu braço de maneira abundante.

Ofeguei ao ver várias viaturas da polícia, assim como vários carros desconhecidos, ao contrário dos rostos das inúmeras pessoas que estavam ali e sequer olhavam para mim. Eles olhavam atentamente para algo entre a viatura e a ambulância de resgate. O que tinha acontecido ali? Pensei e tentei questionar, mas a minha voz não saía. Arrastei-me mais um pouco, vendo um mapa enorme sobre o capô da viatura que, pelo número na lateral, reconheci ser a de Charlie.

Quem estavam procurando? Indaguei-me, ainda meio andando, meio me arrastando entre pessoas que não notavam a minha presença. Seus olhos permaneciam fixos em algo que eu não poderia ver.

Até que eu vi.

O frio que antes dominava cada parte do meu corpo fora substituído pelo choque ao me ver deitada sobre uma maca, completamente pálida, com lábios e dedos azuis de frio. Eu estava imóvel enquanto uma equipe de paramédicos fazia de tudo para que a sua temperatura aumentasse e que seu coração fraco batesse mais forte. Mas ele não iria, e eu sabia o porquê.

Fiz o caminho ao contrário, ouvindo os paramédicos preocupados falarem algo sobre pressão e hipotermia, até parar ao ver a caminhonete velha e robusta que havia estacionado naquela tarde. Foi nela que deixei minhas coisas para trás quando o vi e saí em sua direção. Olhei as árvores sinuosas à minha frente e senti o ar fugir dos meus pulmões, lembrando-me do caminho que havia feito junto com ele. Uma dor maior que as outras assolou meu coração ao ouvir que ele iria embora. Assim como todos eles, e eu ficaria

As lágrimas queimavam os meus olhos tanto quanto o veneno. Meus dedos traçaram uma linha imaginária sobre a marca da mordida enquanto me lembrava de tudo: dos nomes e do desespero que me tomou naquela tarde e que me inundava novamente, ainda mais intenso, enquanto ouvia meu coração frágil e partido falhar. Bater.Parar.

Fechei os olhos e os abri lentamente, notando que estava no começo. Estava no meio do quintal, encarando a escuridão que sorria para mim enquanto a paz me envolvia em seus braços acolhedores.

***

A pequena vidente ofegou enquanto uma aflição preenchia cada pedaço do seu ser, ao ponto de o vampiro loiro que estava ao seu lado se assustar. Mas ele não sabia que ela tinha tido uma visão forte o suficiente para fazê-la gritar de dor segundos antes de parar o carro.

Os outros carros, que não estavam muito distantes, pararam preocupados para saber o que tinha acontecido. Porém, as perguntas sumiram ao ver a pequena vampira se encolher, puxando as pontas dos cabelos num choro angustiado e dolorido, sem conseguir contar o que tinha visto.

Até que ele parou.O vampiro ruivo de olhos dourados, que possuía uma tristeza imensa, congelou, sentindo a mesma dor que a irmã sentia inundá-lo ao ver o que ela viu. Seus olhos se arregalaram e a culpa o tomou. A culpa o queimou. Enquanto a outra parte do seu cérebro se questionava como aquilo tinha acontecido.

Sem ao menos esperar ou responder às perguntas dos outros vampiros, seu carro cantou pelas ruas sinuosas do Canadá, voltando para o lugar de onde tinha vindo, rezando para que não fosse tarde demais.

Mas era.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!