Backstage
26 Capítulo 26
Notas iniciais
A próxima semana passou com uma rapidez alarmante, com o prazo curto que tínhamos para lançar uma boa parte das nossas novas linhas, o tempo parecia estar escorrendo pelo meio dos nossos dedos. Sair no horário normal se tornou uma eventualidade, porém eu ainda estava me abstendo de fazer o horário louco que eu certamente adotaria em algum ponto do caminho, pois eu sabia como era difícil aguentar por muito tempo, fora que eu continuava achando que a equipe toda deveria ter sido avisada com mais antecedência.
Em geral, eu estava tão cansada quando chegava em casa, que a minha sorte, era ter o Ron por perto na maioria das vezes. Ele era uma lufada de ar fresco nos meus dias que começaram a se tornar sufocantes de novo. Uma rotina se formou sem realmente ter sido montada, variávamos entre a casa de um ou do outro, sendo poucos os dias em que dormíamos sozinhos, apenas quando ele tinha que trabalhar durante a noite, ou sair em algum jantar. No próximo sábado, ele me perguntou se eu queria sair ou fazer alguma coisa de tarde, porém eu não teria tempo para sair de casa. O trabalho não estava me dando chances de olhar para o vestido que eu tinha que elaborar para a minha cliente, o jeito seria fazer isso no final de semana, e nesse em especial eu queria tentar adiantar bem as coisas.
Como eu tinha todo o meu material de desenho em casa, o Ron não pensou duas vezes em vir me fazer companhia, largou os videogames dele, e teve que se contentar com a minha televisão. Eu passei a maior parte do dia debruçada sobre a mesa com o meu bloco de desenho e os meus lápis, tentando mesclar minhas ideias e conceitos num vestido que ficasse exatamente como a menina que o usaria queria. Percebi que o Ron me lançava olhares por cima do ombro, mas em nenhum momento ele me interrompeu, continuou acomodado no sofá se entretendo com uma maratona de séries, no máximo ele levantava para buscar uma água ou algo para comer e sempre trazia para mim também, o que eu não deixava de achar uma graça.
Já estava quase no fim da tarde, quando eu decidi trocar de local. Ele estava ali tão quietinho e eu me senti um pouco mal por não dar nem um pouco de atenção a ele. Peguei o bloco e os lápis que eu precisava no momento e fui me juntar a ele no sofá.
—Tem espaço para mim? — perguntei, mesmo sabendo a resposta, apenas para ganhar um sorriso e uma afirmação.
Eu sentei de lado, apoiando as minhas costas no braço do sofá, ele veio se alojar do meu lado, passando as minhas pernas por cima dele, de modo que ficassem no seu colo e me dessem um bom apoio para continuar desenhando.
—Está bom assim? — ele quis saber sobre a posição em que eu me encontrava.
—Perfeito, só me passa aquela almofada, por favor.
Ele fez como eu pedi e eu coloquei a almofada nas minhas costas para ficar mais confortável. Continuei o meu serviço, agora tendo como bônus o carinho que ele fazia nas minhas pernas ao passar os dedos distraidamente enquanto assistia ao grupo de policiais na tevê. Eu até estranhei ele não ter me importunado por atenção ainda, porém algum tempo depois, minhas expectativas foram atendidas.
—Amor, deixa isso de lado um pouco e vem descansar aqui comigo, vai começar um filme legal — pediu fazendo manha.
Quase ri do jeito dele de querer atenção, porém por mais que eu adorasse a ideia de me aconchegar nos braços dele e ver um filme, eu realmente precisava terminar o desenho.
—Não posso, Ron eu fiquei de entregar uma prévia do modelo desse vestido e isso foi na semana passada, a Martha está sendo muito compreensiva, não posso abusar — expliquei, tentando ignorar o olhar de pidão que ele me lançava.
—Ai, ai, não consigo te deixar irresponsável, né? — ele revirou os olhos, já se conformando com o fato.
—Quem sabe amanhã, se eu terminar isso hoje.
—Tá bom, deixa eu ajudar então — ele se inclinou na minha direção, a fim de olhar o que eu estava fazendo
—Não preciso de desenhos de árvores aqui — brinquei, bloqueando a vista dele ao trazer o bloco de encontro ao meu peito.
—Rá rá, mas eu posso dizer o que achei, que tal? — ele levantou a sobrancelha parecendo muito satisfeito com a sugestão — Se eu achar lindo, você já pode parar — a tentativa foi tão engraçada e absurda que eu acabei caindo na gargalhada.
—Você tem a opinião menos confiável do mundo — constatei.
—Estou dividindo a sua atenção com esse vestido, tenho que jogar um pouco sujo né? — ele passou a mão pela minha cintura e me deu um beijo no pescoço, obtendo sucesso em me distrair.
—Agora falando sério, Ron — tentei fazer com que ele afastasse os lábios de mim, mas apenas consegui ganhar mais uma provocação quando ele mordeu de leve a minha orelha — Esse é o meu primeiro trabalho, eu preciso que saia perfeito — consegui falar contendo um suspiro.
—Claro que vai sair — ele disse convicto, finalmente levando a boca em direção a minha e me fazendo deixar o resto dos meus pensamentos de lado por alguns instantes.
—E tem que ser perfeito para a Bel — murmurei com os lábios dele ainda perto dos meus.
—Essa é a aniversariante? — usei a curiosidade dele para me desvencilhar e voltar minha mente para o que eu tinha que fazer
—Isso. É a festa de 15 anos dela, a primeira vez que ela vai se sentir gente grande — expliquei.
—Mesmo que ainda não seja — comentou com humor na voz.
—Isso não é o que importa, o que importa é o sonho. Não vou te explicar o conceito de uma festa de 15 anos, você provavelmente vai dormir no meio.
—Ei! Pois você está muitíssimo enganada, saiba que eu dei muito palpite na da Ginny! — ele falou indignado com a minha conclusão precipitada.
—Sério? — olhei admirada, nunca imaginei que ele teria se interessado por esse tipo de coisa, apesar que pela Ginny eu achava que o Rom faria o que fosse preciso, mesmo que estivesse bem baixo na lista de preferências dele. Uma das qualidades que eu amava nele.
—Ela não era muito chegada nessas coisas, mas a minha mãe pirou de felicidade em organizar os 15 anos da filha, nunca é a mesma coisa para os meninos e já tinha, passado 10 anos desde a minha vez — ele sorriu ao me contar, provavelmente lembrando daquela época. Para o bem da continuidade do meu trabalho, ele tinha voltado a se encostar no sofá, mantendo apenas as palmas das mãos nas minhas pernas.
—Você dançou com ela? — a curiosidade de saber se ele se vestiu com toda a pompa necessária foi o que me fez continuar a conversa.
—Mas é claro! — respondeu orgulhoso — Aquela noite foi…. não tiveram muitos mais momentos assim — notei a nuvem que pairou sobre os olhos dele e sabia ser a hora de levar o assunto para outro lado, mesmo que o meu coração batesse apertado de vê-lo assim.
—Um dia você me mostra as fotos, ainda tem? — ele confirmou — ela devia estar linda.
—Estava, e eu dava pro gasto também — me lançou um sorriso maldoso, como se me desafiasse a negar, o que claramente eu nunca faria, minha opinião não era imparcial no assunto.
—Só pro gasto? Tenho certeza que todas as amiguinhas dela ficavam babando por você — provoquei com ironia na voz.
—Quanto a isso eu já não sei — ele riu e levantou as mãos se eximindo da acusação — e você teve uma festona de 15 anos? Claro que teve, não sei nem pra que eu perguntei.
—Foi incrível! — me empolguei ao lembrar daquele dia que significou tanto para mim — e eu amei participar de cada pedacinho de planejamento. Ah, tive uma ideia — tirei as pernas de cima dele e fui correndo até o meu quarto, onde eu abri a parte de cima do armário e alcancei o volume que eu queria — toma — estiquei o objeto para ele, que aceitou de bom grado.
—O que é isso?
—Meu álbum, se diverte aí olhando que eu vou continuar com os meus esboços — voltei para o sofá, mas dessa vez, ele tinha o álbum no colo, então me sentei em posição normal ao lado dele.
—Ah, mas eu vou precisar de narração — resmungou, mais uma vez querendo chamar a minha atenção para si.
—A maioria é de mim, as que tiverem pessoas que você não conhece, pode ir me perguntando.
Ele foi folheando o álbum, os olhos observando atentamente as fotos, vez ou outra ele me perguntou quem era alguém e eu respondia rapidamente.
—Estou me sentindo altamente desconfortável agora — ele declarou quando atingiu quase o final do álbum
—Por quê? — o que tinha numa coleção de fotos daquela para deixá-lo desconfortável?
—Porque a você de 15 anos é a coisa mais linda — confessou, o olhar que recebi não falhou em me derreter — ninguém vai pra cadeia por isso vai?
—Só se você disser que a versão de 30 anos não é melhor — empinei o nariz praticamente exigindo aquele elogio.
—Claro que é, essa está aqui do meu lado, toda minha — ele levou a mão ao meu queixo, trazendo os nossos rostos para perto um do outro.
—Estamos possessivos hoje? — brinquei, e ganhei um beijo demorado como resposta, adorando a atenção.
—É porque essa aqui tem um babaquinha do lado — ele resmungou de cara feia — quem é esse? — apontou para a foto que estava aberta no colo dele.
—Ai meu Deus, eu nem me lembrava dele! Esse é o Júlio, era o meu meio que namorado na época.
—Com essa mão intrometida aqui na sua cintura — ele continuava a olhar de cara feia para o menino ao meu lado na foto.
—Larga de ser bobo, Ron — dei um tapinha no ombro dele — nossa quanto tempo, meu pai tinha uma bronca dele — ri ao me lembrar das caras rabugentas do meu pai toda vez que o nome do menino era mencionado.
—Já estou gostando do seu pai.
—Cuidado, ele pode ter alguma bronca com você também.
—Comigo? O que foi que eu fiz? — ele colocou a mão no peito fingindo inocência.
—Eu acho que esse tipo de resposta só nos ocorrem quando temos nossos próprios filhos, até lá o mais fácil é aceitar.
—Você já pensou como seria? Organizar a festa de 15 anos da sua filha?
—Isso é um jeito de me perguntar se eu quero ter filhos? — a pergunta me pareceu meio do nada, mas não me incomodou.
—E você quer? — notei que ele passou a me olhar com atenção redobrada ao esperar a minha resposta. Nunca tínhamos falado sobre isso, mesmo porque até pouco tempo atrás, não teria nem cabimento esse tipo de conversa entre nós. Me deixava feliz saber que agora ele se sentia confortável o suficiente para abordar o assunto, além de me dar uma ideia de um futuro cada vez mais concreto para nós dois.
—Quero, um dia.... — respondi — por enquanto a minha vida ainda é muito corrida para encaixar uma criança no meio. E você? — ele não era o único curioso sobre o assunto.
—Minha vida nem é tão corrida assim…. é, um dia quem sabe, eu sinto como se já tivesse tido uma filha às vezes.
—A Ginny já é grandinha — zombei.
—Mas ainda me causa as mesmas preocupações.
—Você vai ser um ótimo pai então, teve bastante treino — daquilo eu não tinha dúvida alguma, com o coração do tamanho do dele, qualquer criança teria sorte de chamá-lo de pai.
—Talvez — ele deu de ombros.
—E a resposta para a outra pergunta é sim, já imaginei, e eu espero que se eu tiver uma filha, ela queira uma festa, não sei se vou saber lidar com o oposto.
—Ela vai ter o seu DNA, amor, claro que vai querer um motivo para usar um vestido lindo e sapatos mais bonitos ainda — ele falou sorrindo.
—Quando você fala assim, eu não sei se acho fofo, ou te dou um tapa.
—Eu aceito um beijo — sem esperar pela minha resposta, ele se inclinou e roubou o beijo que queria, aproveitando para olhar o resultado do desenho no meu colo — está ficando bonito o vestido, meio curto esse, não?
—Larga de ser careta, Ron, esse é para depois da valsa, para a menina aproveitar a pista de dança — expliquei.
—Espero que isso saia de moda quando for a vez da minha filha — ele olhou preocupado para o modelo.
—Coitada da sua filha isso sim, com um pai ciumento desse — ri da cara contrariada dele — mas a mãe vai defender o lado dela com certeza.
—Vai é? — ele me olhou interessado.
—Vai — afirmei com convicção.
Ficamos nos encarando por alguns instantes, ambos entendendo todo o significado por trás do nosso diálogo que a primeiro momento podia parecer leve e descontraído. Um sorriso surgiu nos nossos lábios ao mesmo momento, e quando ele passou o braço pelos meus ombros eu sabia que dessa vez não conseguiria me desvencilhar dele, então nem tentei. Deixei o bloco com os lápis em cima do braço do sofá, e acelerei o processo subindo no colo dele e colando os nossos lábios.
—Você não tinha um trabalho para terminar? – ele murmurou ao mesmo tempo em que insinuava a mão por baixo da minha blusa.
—Aham... – enrosquei os dedos no cabelos dele puxando-o o de volta para mim e explorando sem demora cada canto daquela boca que conseguia me deixar sem fôlego – mas está na hora de uma pausa.
Ele não precisou de mais nenhum incentivo para me fazer ficar um bom tempo longe dos meus desenhos. Voltei a trabalhar apenas depois do jantar, o que não me permitiu adiantar muito mais, o resultado foi um domingo trabalhando também. A semana seguinte passou sem grandes acontecimentos, apenas eu e o Ced nos matando de trabalhar e deixando o departamento todo doido a fim de que tudo conseguisse andar na rapidez necessária para cumprir o prazo absurdo que a Dolores tinha instituído. Minha motivação maior para chegar ao fim da semana, era o jantar com o Harry e a Ginny que tinha ficado marcado para o sábado. Ia ser divertido, e no mínimo interessante, essa interação inédita entre nós, a qual eu esperava que fosse se repetir muitas vezes no futuro.
Eu acabei tendo que sair muito tarde do trabalho na sexta e fui direto para casa, o Ron teve alguns contratempos com um projeto e não pode ir me encontrar, então, já que o jantar seria na casa dele, eu iria até lá no dia seguinte. Minha intenção era acordar e ir logo para lá, mas meus planos foram desviados por uma ligação desesperada de uma das meninas da minha equipe, dizendo que a minha presença era necessária no escritório. Respirei fundo para não brigar com a menina que não tinha culpa e falei que já estava a caminho. Decidi me precaver e já levar comigo uma bolsa com as minhas roupas, se eu estivesse correta, não teria tempo para voltar em casa antes do jantar. Peguei o celular para avisar o Ron antes de sair.
“Vou ter que ir na empresa resolver um problema, chego assim que der
Beijos”
Nessa hora da manhã, ele já estaria acordado então a resposta dele chegou antes que eu entrasse no carro.
“Que pena, ia fazer uma prévia do jantar pro nosso almoço :(
Mais tarde a gente se vê. Vai lá dar um jeito naquela galera atrapalhada”
Eu ri ao imaginar o bico dele ao receber a notícia das mudanças de plano, depois que começamos a namorar, o Ron passou a ser muito mais transparente com o que sentia, e eu ficava feliz com cada demonstração de afeto, mesmo que fosse apenas desejar a minha companhia. A expectativa do nosso jantar foi o que me animou a terminar o mais rápido possível as correções que tive que fazer. O trabalho não era nem tão complicado assim, mas alguém tinha dado um jeito de alterar tudo de maneira errada. Quando consegui terminar, já eram quase seis da tarde e eu peguei as minhas coisas correndo, me despedi brevemente do Ced — que obviamente estava ali também — e fui para a casa do Ron.
—Cheguei! — chamei por ele ao entrar na sala, recebendo a resposta de que ele estava na cozinha.
Tudo parecia bem adiantado, inclusive o Ron que já estava de banho tomado, o que eu pude notar pelas mechas ainda úmidas.
—Pensei que você não vinha mais — ele resmungou de frente ao fogão onde ele mexia em alguma coisa na panela.
—Até parece — revirei os olhos e dei um beijo rápido nele — só demorou um pouco mais do que o previsto.
—Daqui a pouco os dois estão aqui, a Ginny costuma chegar até antes do horário em dias que não tem plantão.
—Ah, mas isso era antes do Harry, né? — provoquei de propósito, só para vê-lo apertar os olhos e fazer a cara feia que eu já esperava toda vez que o assunto era a minha amiga e o namorado.
—Ele que não comece a fazê-la se atrasar — ele falou contrariado.
—Deixa de ser bobo, Ron — passei os braços pela sua cintura apoiando minha cabeça nas costas dele — você nunca vai precisar disputar a Gin com o Harry.
—Se ele der para ocupar o tempo que é pra mim…
Eu, como filha única, nunca ia entender de verdade esse ciúmes que ele sentia, mas eu achava uma gracinha como ele era todo protetor com a irmã e o toque de apreensão que ele tinha de perder o posto dele no coração dela, o que eu sabia ser mais do que impossível.
—Queria só ver se a Ginny descobrisse que você fica por aí resmungando por isso — debochei.
—Nem brinca, ela ia ficar insuportável.
—Claro, ainda mais por ser uma bobeira sem tamanho — complementei.
—Apesar de que ela provavelmente sabe, até porque ela não é muito diferente — ele se inclinou para me olhar, no rosto uma expressão zombeteira.
—O que você quer dizer com isso? — fui para o lado dele, a fim de vê-lo melhor.
—Nada não — ele deu de ombros — vai se arrumar porque eu não quero choro se eles chegarem e você ainda não estiver pronta.
Ele foi muito esperto ao desviar do assunto, e eu deixei essa passar. Me dirigi ao banheiro ainda com aquilo na cabeça, será que ele tinha insinuado que a Ginny sentia ciúmes de mim? Parecia algo tão surreal que eu quase ri da minha própria conclusão, eu devia ter entendido errado. Quando acabei de me arrumar, a Ginny e o Harry já haviam chegado. Foi um jantar muito agradável, demos boas risadas e conversamos bastante. No geral, tudo estava correndo de maneira bem tranquila até o Harry abrir a boca para contar da nossa sessão de encher a cara logo após as nossas brigas com os respectivos irmãos Weasley. Falante como ele era, acabou piorando a situação ao continuar explicando, claro que não foi nada de mais, entretanto, pelo olhar curioso que o Ron lançou em minha direção, eu sabia que não seria a última vez que tinha ouvido falar naquele assunto durante a noite.
O meu dia tinha sido cansativo, então depois de mais algumas horas de conversa eu me despedi do grupo, o sono já estava me vencendo. O Ron acabou me seguindo depois de confirmar que a Gin e o Harry dormiriam ali também.
—O jantar foi ótimo, não foi? — perguntei enquanto tirava as minhas roupas e procurava a minha camisola na bolsa, assim que saí do banheiro.
—Foi sim — ele se aproximou de mim, me abraçando pelas costas e impedindo que eu continuasse a minha busca.
—Ron deixa eu pegar a minha camisola — reclamei, mas ele nem me deu atenção, continuando onde estava.
—Eu quero saber dessa história da senhorita sair enchendo a cara por aí — ele provocou beijando o meu pescoço.
—Claro que quer… — revirei os olhos, sabendo que ele não pararia com o assunto — mas eu quero ir para cama.
—Não seja por isso — ele me virou em direção a cama, me guiando até meus joelhos encostarem no colchão.
—Muito engraçadinho — fiquei de frente para ele, o que acabou não sendo um bom plano, pois ele se inclinou para frente, me dando como única opção a de sentar na cama.
—Pronto, já está na cama — ele não me deu nem tempo de retrucar, tirou a blusa e a calça e se juntou a mim — agora pode me contar tudo — ele me olhava com um sorriso tão atrevido no rosto que eu tinha certeza que não era apenas curiosidade que movia aquelas ações.
—Deixa eu me vestir primeiro — eu ia levantar novamente, mas ele passou a mão pela minha cintura.
—Pra que? Só pra me dar mais trabalho depois? — ele me puxou para perto dele, e eu acabei me sentando apoiada no encosto da cama — anda fala.
—O que você quer saber? — perguntei com ar inocente.
—Ah, é assim que vai ser? — ele zombou — mas eu pergunto por partes se precisar, primeiro quero saber por que você estava num bar com o Harry — ele me olhava com humor nos olhos, o que já me dizia que ele sabia muito bem o que eu estava fazendo lá.
—Você podia ficar com um pouco de ciúmes pelo menos, sabia? — brinquei.
—Então você gosta do meu ciúmes, é? — ele se inclinou para me beijar — posso ser ciumento, então, vou lá agora mesmo quebrar a cara dele.
—Cuidado com a cena que vai encontrar, hein… — rebati e acabei instantâneamente com a brincadeira.
—Voltando para o assunto principal…
—Eu não estava bem naquele dia, ele também não, então eu o convidei para ficar mal junto comigo em algum lugar, companhia é bom nessas horas e a razão por trás dos nossos estados de espírito dividem o mesmo sobrenome, onde íamos achar alguém que entendesse melhor? — falei tudo tão depressa, contando sem exatamente contar, porém eu sabia que ele tinha entendido.
Eu vi a sombra da culpa encobrir os olhos dele e me apressei para trazer o brilho prévio de volta.
—Desfaz essa cara, Ron já passou — levei a mão ao rosto dele.
—Desculpa, amor — ele cobriu a minha mão com a dele.
—Não quero desculpa nenhuma, não precisa — assegurei-o olhando direto nos olhos dele.
—Mas…
—Não tem mas, Ron. Nós conversamos e eu entendi o que aconteceu, deixa isso pra trás — eu não queria que ele se culpasse por aquilo, além de ter sido minha decisão, ele teve os motivos dele para agir como agiu. Claro que eu não gostei de ter passado duas semanas esperando, mas não queria que isso continuasse como um assunto espinhoso entre nós — se não eu não conto sobre o que conversamos — adicionei, dessa vez eu que assumi a cara travessa e ele riu.
—Agora pode contar.
—Na verdade eu não me lembro de muita coisa…
—Nossa, você bebeu mesmo — ele ergueu a sobrancelha admirado.
—Bebi… o que eu não quero fazer de novo nunca mais, fiquei péssima no dia seguinte, cheguei até depois do Ced no trabalho!
—Deve ter sido um dia de glória para ele — ele riu, já conhecendo o suficiente o meu amigo para imaginar.
—Foi, ele só não ficou mais espantado do que com a minha falta no dia antes.
—Você faltou? — agora ele estava completamente espantado.
—Eu faço tudo direito, Ron! Então se é pra ficar mal, é pra ficar mal com gosto — empinei o nariz e ele acabou rindo da minha presunção.
—Não podia esperar nada além de excelência da minha Mione — eu virei o rosto para receber o beijo dele, já era claro para mim que eu nunca seria imune a ele me chamando assim, era quase tão eficiente quanto escutar ele me chamando de amor para deixar o meu coração leve — e como o Ced chegou nessa história? O Harry explicou mais pra Ginny do que pra mim, não peguei tudo.
—Eu fui dirigindo e não podia voltar naquele estado, liguei para ele nos levar para casa, mas de acordo com ele, nós ainda ficamos conversando, só que dessa parte eu não me lembro mesmo.
—Não consigo te imaginar nesse estado.
—Ainda bem, não foi meu melhor momento, com certeza — passei a mão na testa, lembrando como eu acordei péssima no dia seguinte.
—Você não tem momentos ruins — ele sorriu me fazendo rir.
—Já falei que adoro essa bajulação toda? Pode continuar.
—Eu continuo, mas você vai ter que me dizer o que falou de mim — eu não sabia o que era mais bobo, essa moeda de troca ou o que ele queria em retorno.
—O que eu me lembro não foi muito bom pro seu lado….
—Agora quero saber mais ainda.
—Eu me lembro de procurar com muito afinco algum sinônimo masculino para vaca — confessei, e para minha surpresa ele caiu na gargalhada.
—E como foi? achou?
—Não, o mundo não é justo — dei de ombros — e agora não preciso mais.
—Só isso?
—Eu devo ter falado mais uma coisinha ou duas, mas vamos deixar isso pra lá, né? — abri um sorriso pidão para ele.
—Quer dizer que o Harry e o Ced podem saber e eu não?
—O Harry provavelmente não se lembra da metade, e o Ced nem estava lá na maior parte do tempo, então nenhum dos dois sabe de muita coisa — argumentei e ele fez um bico contrariado — além do que, a sua curiosidade eu posso comprar com beijos, que tal?
Ele sorriu ao ouvir a sugestão e me puxou para perto, afundando os lábios nos meus.
—Acho que estou sendo muito facilmente subornado — ele reclamou mordendo de leve o meu lábio — ainda mereço saber mais alguma coisa…
—Você está me saindo mais curioso do que esperado, Ronald! — brinquei — se você quer mesmo saber, acho que em alguma hora eu gritei que eu era só a sua foda fácil.
—Ei! Nem era tão fácil assim — ele se defendeu, levando na brincadeira, para o meu alívio — muitas vezes você estava ocupada!
—Ah, então agora eu estou mais fácil ainda? — provoquei.
—Muito pelo contrário, agora ficou mais difícil, tive que comprar até chapinha!
Eu nem respondi, apenas subi no seu colo, calando também as reclamações dele.
—Acho que a chapinha valeu a pena, não? — corri as mãos pelo peito dele que apenas balançou a cabeça confirmando.
Ficamos algum tempo entre beijos e carícias, aproveitei cada toque daqueles dedos compridos na minha pele, suspirando quando ele apertava todos os lugares certos, mas eu realmente estava cansada e teria que acabar com aquela festa antes do que gostaria.
—Estou morrendo de sono, Ron — murmurei assim que ele afastou os lábios dos meus.
—Você vai ser malvada assim é? — ele me olhou de lado.
—Não é malvada, é exausta… eu queria ter dormido umas boas horas a mais hoje — resmunguei.
—Tá bom, vai dormir — ele passou a mão pelos meus cabelos e eu sai do colo dele, me ajeitando por debaixo das cobertas — era a sua vez de apagar a luz sabia?
—Já estou tão ajeitadinha aqui… — ele riu, mas levantou para desligar a luz, voltando para o meu lado logo após.
Ele se ajeitou no lado dele e o silêncio se instaurou combinando com a falta de luz para que pudéssemos dormir. O cansaço estava ajudando o sono a me dominar, mas tinha um pensamento na minha cabeça que não deixava o meu cérebro se desligar, eu acusei o Ron de ser curiosos, mas eu era pior ainda, sem sombra de dúvidas.
—Ron — chamei sem saber se ele ainda estava acordado.
—Hum…
—O que você fez depois que eu fui embora aquele dia? — não enrolei e fui direto ao assunto.
—Não era você que estava com sono? — ele falou com a voz baixa, mas sem perder a ironia.
—Estou, só me diz isso, vai…
Ele riu antes de me contar.
—Fiz a mesma coisa que fiz enquanto você estava lá, nada… meus pensamentos estavam tão caóticos, eu comecei até a criar um diálogo com uma das minhas garrafas de whisky, mas a Ginny chegou logo depois e ela não estava bem, tinha sido um dia muito ruim no trabalho.
Ele tinha me contado sobre isso, como ela ainda reagia quando encontrava casos que a lembrassem do que tinha acontecido com o pai deles, então não precisei perguntar para saber do que se tratava.
—Você é mesmo um ótimo irmão — agora feliz de saber o que estava me matando de curiosidade, fechei os olhos de vez, a última coisa que me lembro foi do beijo na minha testa que o Ron me deu.
Na quarta feira seguinte era o meu aniversário, o primeiro que eu passava estando junto com o Ron. Seria mentira se dissesse que não estava com alguma expectativa, só me controlei para mantê-las as mais baixas possíveis. Durante todos os anos em que estivemos enrolados, sempre dávamos um jeito de ter uma comemoraçãozinha particular, mas dessa vez ele nem tinha tocado no assunto. Na hora do almoço recebi uma mensagem dele que me deixou desconfiada.
“Posso ir para sua casa hoje? Você vai estar livre?”
Ele tinha me dito que jantaria com um cliente hoje, então aquilo me pareceu estranho.
“Pode. Você não tinha um jantar?”
“Tinha”
A resposta reduzida quase me fez ligar para reclamar, parecia que ele estava querendo me fazer perguntar.
“E por que não tem mais?”
“Porque eu tenho planos muito melhores”
Eu ainda tentei perguntar do que se tratava, mas ele foi irredutível ao dizer que eu só saberia quando chegasse na casa dele. Ele podia não ter me dito, mas eu sabia que era alguma coisa ligada ao meu aniversário, só podia ser, mas o estranho era que o dia estava errado… será que ele tinha esquecido a data?
—Que cara é essa. Mi? — o Ced me olhava por cima do menu, eu já tinha escolhido o meu pedido, mas ele ainda estava avaliando as opções.
—O Ron disse que vai para minha casa hoje, mas ele tinha um jantar marcado — expliquei.
—E qual é o problema disso? — ele pareceu confuso.
—Por que ele desmarcaria?
—E eu que vou saber? Vai ver o cliente era chato — ele tentou.
—Isso não é motivo — discordei rindo — você acha que ele pode ter trocado o dia do meu aniversário? — eu fiz a pergunta querendo soar menos preocupada do que a verdade, mas claro que falhei, os olhos do Ced não eram facilmente enganados.
—Você esqueceu o dele esse ano…
—Obrigada por me lembrar, ajudou muito — reclamei.
—Disponha — ele respondeu irônico — mas eu estou brincando, Mi, tenho certeza que o Sr Incêndio não faria isso… só quer te ver e pronto.
—É, você deve estar certo — conclui — anda escolhe logo isso, não podemos demorar muito.
—Tá bom, apressadinha.
O resto do dia foi tão corrido que eu nem tive tempo de continuar ponderando a razão para o cancelamento repentino do compromisso do Ron. Cheguei em casa um pouco depois das sete da noite, descobrindo logo ao abrir a porta, que o Ron já estava lá, o que acontecia bastante nos últimos tempo, a chave que eu tinha dado a ele foi realmente útil.
—Que cheiro gostoso! — elogiei indo direto para a cozinha, onde ele se encontrava.
—Oi, amor chegou na hora, está quase pronto — ele tinha pratos e talheres na mão, mas veio até mim me cumprimentar com um beijo rápido.
—A que devo a honra desse jantar hoje? — era bastante comum que ele cozinhasse, já que as habilidades dele nesse departamento eram maiores que as minhas além dele realmente gostar, mas naquela noite tudo parecia mais elaborado do que o normal.
—Que tal se você adivinhar? — ele sumiu pela porta em direção a sala para arrumar a mesa.
Eu não gostava muito dessa história de adivinhação, preferia ter as minhas respostas o mais rápido possível, porém acabei acatando.
—Tem algo a ver com o meu aniversário, por acaso? — indaguei ao ir para o lado dele.
—Bingo!
Ele estava todo feliz com a organização, tão compenetrado em arrumar a mesa que nem notou imediatamente o meu rosto desmoronando. Ele tinha trocado o dia do meu aniversário. Era uma coisa besta que não devia ter me chateado tanto assim, afinal foi só um dia, mas eu não conseguia deixar de ficar decepcionada com o erro… já era o quinto aniversário que ele passava comigo.
—Ei, que cara é essa? — ele veio para perto de mim depois de verificar que tudo estava em ordem, o rosto passando a confusão por me ver desanimada.
—Nada, só que… — eu não queria estragar a atmosfera da noite, mas não dava para deixar isso passar — meu aniversário não é hoje.
—Claro que não, é amanhã — ele nem piscou para responder.
—Ah, eu pensei… — as palavras morreram antes que eu completasse o meu pensamento, aquilo me deixou confusa, eu tinha entendido alguma coisa errado e aparentemente chegado à pior conclusão.
—Você pensou que eu tinha errado de dia? — ele levantou a sobrancelha, mas eu percebi o toque de desalento por debaixo do bom humor.
—É que você desmarcou o seu jantar do nada, aí eu chego aqui e está tudo arrumado e… — tentei me explicar, as palavras saindo todas num fôlego só enquanto eu agitava as mãos muito mais do que necessário.
—Não precisa me explicar — ele pegou as minhas mãos, interrompendo o meu discurso e rindo do meu jeito — mas claro que eu não ia confundir seu aniversário, amor — ele me puxou, prendendo a minha cintura com os braços — eu só queria começar a comemoração o mais cedo possível — ganhei um sorriso sugestivo de presente antes de ter os lábios capturados pelos dele.
—Então eu vou ganhar um jantar esse ano? — indaguei.
—O jantar não vale ainda, porque não passou da meia noite.
—O que eu vou receber depois da meia noite? — agora eu estava curiosa, ainda mais com o brilho divertido naqueles olhos azuis.
—Vamos ter que esperar até meia noite para você descobrir.
—Eu aceito trocar o meu aniversário para hoje sempre gostei do dia 18 — tentei barganhar.
—Boa tentativa, mas nada feito — ele estalou mais um beijo na minha boca, mas o barulho do timer chamou a sua atenção para a comida que estava aguardando no forno.
Ele se desvencilhou de mim e foi buscar o nosso jantar, me deixando encarregada de abrir o vinho que combinava com o menu escolhido: rondelle, meu prato favorito.
—A cara está ótima, Ron — elogiei o prato que estava muito apetitoso.
—Vamos esperar que o gosto também esteja — zombou colocando o refratário na mesa e se alojando na cadeira ao meu lado.
Obviamente a comida estava uma delícia, comemos sem pressa conversando sobre nada importante. Ele me contou sobre a novela que foi para conseguir fazer a secretária dele cancelar o jantar daquela noite.
—E por que você não cancelou antes se sabe que ela fica chateada? — era claro para mim que ele podia ter evitado a situação, ainda mais que a Beth parecia ser uma senhora muito amável, não tinha porque deixá-la brava.
—E eu lá me lembrei desse detalhe? Quando olhei na minha agenda já era no dia seguinte, ela ficou puta da vida comigo, eu mal tinha acabado de fazê-la esquecer da última vez que fiz isso, mas acabou tudo bem dessa vez.
—E por quê?
—Porque eu fui muito esperto e contei pra ela o motivo do cancelamento — ele abriu um sorriso em minha direção — e ela ficou toda felizinha dizendo que eu tinha mais é que te agradar mesmo.
—Já gosto da sua secretária.
—E eu acho que ela já gosta de você mais do que de mim — ele resmungou, porém sem nenhum convicção — você tem que dar uma passada lá no escritório qualquer dia para conhecê-la, de preferência quando ela estiver meio brava comigo, assim eu me livro do problema.
Caímos os dois na gargalhada, ele nem se preocupava em ser totalmente cara de pau, eu tinha a impressão de que a Beth o tratava como um filho travesso, e ele parecia adorar. Ele tirou os pratos assim que terminamos.
—Eu não devia ganhar um bolo?
—Bolo só no dia do aniversário, amanhã a gente providencia — ele estava muito rápido para responder todas as minhas requisições.
—Você já vai me dizer então o que eu vou ganhar? — tentei mais uma vez empregando a minha melhor cara de pidona.
—Desaprendeu a ver horas? Não deu nem dez da noite ainda.
—Ah, Ron, mas falta muito! — fiz manha.
—Não se preocupa que eu vou te distrair direitinho, vem — ele puxou a minha mão com um olhar nada inocente no rosto.
Entramos no meu quarto já presos um nos braços do outro, ele me puxava para si, apertando a minha cintura, antes de insinuar as mãos por debaixo da minha blusa, arranhando de leve a pele das minhas costas.
—Eu devia deixar qualquer acesso às minhas roupas só para depois da meia noite — provoquei.
—Mas aí o tempo vai passar mais devagar.
—Detesto quando você está certo — queixei-me, mas sem nenhuma convicção.
Não demoramos muito para nos livrar de todas as peças de roupa e começar a nossa “distração” no chuveiro. Ele realmente fez o trabalho direito, tirando o tal presente da minha mente, me fazendo pensar apenas em nós dois ali juntos. Quando terminamos, eu saí do banheiro enrolada na minha toalha, mas ele me puxou rapidamente para a cama dispensando qualquer pensamento que eu pudesse ter de me vestir. De acordo com ele, ainda tínhamos muito tempo, o relógio concordava. Podia parecer exagero, mas a verdade era que eu não cansava de te-lo perto de mim, nossas mãos e corpos entrelaçados, podia até ser que um dia aquilo perdesse algum brilho, mas com certeza não seria hoje.
Ficamos deitados conversando, matando os últimos minutos que ainda restavam, minha cabeça apoiada no ombro dele, enquanto eu deslizava os dedos pelo seu peito descoberto. De repente, ele levantou a cabeça e constatou no relógio que ficava no meu criado mudo, que já passava um pouco da meia noite.
—Feliz aniversário, Mione — se inclinou e me deu um beijo.
—Obrigada.
Antes que eu pudesse perguntar mais uma vez sobre o meu presente, ele se desvencilhou dos meus braços e levantou da cama. Ele abriu o meu armário para pegar uma cueca boxer preta que estava ali e se dirigiu a porta do quarto.
—Ei, onde você está indo? — fiz menção de segui-lo mas ele me interrompeu.
—Pode ficar quieta aí, já volto.
Claro que eu não escutei, pulei da cama, peguei meu roupão vermelho que estava pendurado atrás da porta do banheiro, vesti e fui atrás dele. Não cheguei muito longe, pois ele já estava voltando com uma sacola grande na mão.
—Você é impossível mesmo… — ele riu ao me pegar já na porta do quarto — anda, volta pra cama, senão não vai ganhar nada — ele apontou para a minha cama rindo.
—Mandão — torci o nariz, mas fui mesmo assim, meu nível de curiosidade estava nas alturas para saber o que tinha dentro da embalagem que ele trazia.
Ele veio se sentar ao meu lado e fez suspense de propósito antes de abrir a sacola.
—Bom, eu fiquei pensando um bom tempo no que ia te dar de aniversário — já tinha começado bem, nem tentei tirar o meu sorriso imenso do rosto, ainda mais quando ele me olhava todo feliz — aí eu me dei conta que já foram cinco aniversário que eu não te dei nada, então…
Ele começou a tirar embrulhos de tamanhos diferentes daquela sacola imensa, e depositou quatro na minha frente, eu nem esperei para pegar o que estava mais perto de mim, mas ele me parou.
—Espera, ainda não acabei — me encostei de novo — tem uma ordem correta para os presentes.
—Ordem?
—Abre primeiro esse — ele pegou o menor pacote, era retangular e pequeno, e deu na minha mão — esse eu teria dado para a Mione no primeiro ano que eu a conheci.
Rasguei sem nenhum cuidado a embalagem e caí na risada com o conteúdo, era o DVD do filme o diabo veste prada.
—A Mione de cinco anos atrás teria adorado, a de hoje também gostou, um clássico! Você sabe que vai ter que ver comigo, né? — provoquei.
—Eu sabia que corria esse risco, pelo menos tem aquela chefe do mal….
—Você vai gostar, nem sei como não viu até hoje.
—Você é tudo o que eu sei do mundo da moda — ele deu de ombros.
—Já temos com o que começar a mudar isso — balancei o meu primeiro presente fazendo-o rir.
—Continuando, no segundo aniversário eu já te conheceria melhor, então o presente fica mais legal — foi a vez do maior pacote ser entregue a mim.
—Ai meu Deus! — só de ver a caixa eu já sabia o que era, um conjunto maravilhoso de desenho, que deixava até o meu mais novo morrendo de vergonha — adorei! — dei um beijo nele que estava sorrindo tão animado quanto eu.
—No terceiro aniversário eu podia ter sido mais fofo, então vem esse aqui — era um saco metalizado bem leve.
—Você não precisava ter comprado tanta coisa, Ron....
—Não estraga a minha ideia genial — ele se endireitou todo defendendo as escolhas dele, o que eu não consegui não achar adorável.
Tirei a fita que mantinha o embrulho fechado e encontrei uma ursinha de pelúcia usando uma roupa toda fashion.
—Que gracinha, onde você achou isso? — o casaco combinava perfeitamente com o cachecol, fazendo daquela, uma ursinha muito bem vestida.
—Na internet se acha de tudo.
—Já vai morar aqui na cama — falei colocando a ursinha sobre o travesseiro que estava do meu lado.
—Vou ter que dividir o meu espaço com ela?
—Claro! E sem reclamar — brinquei.
—Já estamos quase acabando — peguei o quarto presente e abri com a mesma pressa dos outros.
Eu tinha um porta retrato de moldura muito bonita, em tons de vermelho, com uma foto nossa tirada durante a nossa viagem, eu me lembrava direitinho do dia, os sorrisos que me encaravam eram prova dos momentos bons que passávamos aqui.
—Não temos nenhuma foto juntos fora do nossos celulares — ele explicou.
—Alguém já te disse que você é fantástico para dar presentes? — ele sorriu, mas era a mais pura verdade, cada uma das escolhas significava algo importante, eu só tinha um problema agora — só não sei onde vou colocar, acho que vou precisar de mais de um…
—Já está abusando — ele resmungou.
—Mas eu preciso colocar uma na sala, outra na minha sala no escritório — comecei a enumerar, mas ele me interrompeu.
—Tá bom, depois você escolhe as fotos que eu imprimo na empresa.
—Obrigada, amei todos os presentes — levei a mão ao rosto dele, acariciando a sua bochecha.
—Ainda falta um, não sabe mais contar até cinco?
Ele tinha deixado o último presente dentro da sacola, estiquei a mão para ele me dar, mas não recebi o que quer que fosse.
—Vira — ele me pediu para ficar de costas, achei meio estranho, mas fiz como ele requisitou, não escutei nada que denunciasse do que se tratava, só descobri o que era quando senti uma corrente fina sendo pousada no meu pescoço.
O peso do pingente que estava agora acima dos meus seios, me chamou atenção e automaticamente peguei-o entre os dedos a fim de ver o que era.
—Ron! — me virei imediatamente de frente para ele, sem conseguir pronunciar uma palavra.
—Gostou?
—É lindo! Mas você não devia…
—Não começa — ele me interrompeu levando o dedo aos meus lábios.
O pingente formava um coração em fios dourados com brilhantes, pendurado de maneira à ficar de lado na corrente, a joia fazia uma bela combinação com a pedra vermelha do centro, era simplesmente maravilhoso, delicado e elegante, eu já sabia que não sairia tão cedo do meu pescoço.
—Ron… — comecei de novo.
—Eu queria fazer uma declaração com esse aí — ele explicou.
—Qual declaração? Que você gosta de gastar muito dinheiro? — brinquei, o pingente ainda preso nos meus dedos.
—Também — ele riu — mas a principal é que você já tem meu coração.
Eu senti as tão faladas borboletas no estômago nessa hora, a maneira como ele me olhava, confirmando que tudo era verdade, só me fazia ter certeza de que para mim era a mesma coisa.
—Vou cuidar bem dele — ele sorriu e passou a mão pelo meu pescoço me trazendo para perto — você já tem o meu coração também — completei antes de beijá-lo com todo o amor que eu sentia.
Não precisamos de mais palavras para complementar o momento, apenas da proximidade um do outro. Os meu presentes foram, um por um depositados sobre o criado mudo para podermos aproveitar, sem incômodo, a cama. Meu aniversário mal tinha começado, e já era o melhor em muitos anos.
Acabamos indo dormir muito tarde, porém eu tinha que trabalhar no dia seguinte, acordar seria uma tarefa um tanto difícil, ainda mais quando fui despertada um bom tempo antes do necessário. O Ron me chacoalhou de leve, o sol nem tinha nascido ainda e ele já chamava a minha atenção.
—Acorda, Mione — senti ele distribuindo beijos pelo meu pescoço, traçando uma trilha pelas minhas costas.
—Muito cedo ainda — resmunguei afundando mais ainda o meu rosto no travesseiro.
—Vou fazer seu café, anda, você tem que acordar cedo para aproveitar o seu aniversário ao máximo — ele adicionou os dedos na carícia gostosa que me fazia.
—Se você vai me manter acordada de noite — reclamei — no mínimo pode me deixar dormir até mais tarde, amor.
Eu nem notei a palavra que saiu da minha boca de forma tão natural, nada parecia mais apropriado, mas eu senti o Ron parando na hora, ele não disse uma palavra o que eu achei estranho.
—Ron? — chamei me virando para vê-lo deitado do meu lado me olhando com os olhos reluzentes.
—Pode falar de novo? — ele perguntou baixinho, e foi aí que eu entendi a causa de tudo.
Rindo da carinha de ansiedade dele, eu sorri, me apoiei nos cotovelos e aproximei meus lábios do ouvido dele.
—Bom dia, amor — completei a saudação com um beijo, ficando feliz com a felicidade dele.
Ele disse que ia fazer o café da manhã, e enquanto isso eu comecei a me arrumar para o trabalho, tudo bem que estava cedo demais, mas para que adiar o que teria que ser feito? Tomei um banho demorado, ao sair, selecionei uma calça mostarda juntamente a uma blusa preta que permaneceu no cabide enquanto eu ainda arrumava meus cabelos. Eu ainda estava terminando de dar um jeito nos meus cachos quando escutei uma batida de leve na porta. Minha vizinha veio me desejar feliz aniversário e me presentear com uma bolsa linda que eu já coloquei a uso na mesma hora. Fomos para a cozinha nos juntar ao Ron que já tinha a comida toda pronta. A convite nosso, ela ficou para tomar café da manhã com a gente, se despedindo um tempo depois.
—Bom, temos que ver como vai ser o resto do dia hoje — ele me falou assim que a irmã passou pela porta.
—Temos planos? — perguntei curiosa.
—Mas é claro, até meia noite é seu aniversário. Reservei um restaurante para jantarmos hoje.
—Hum.. — aprovei animada.
—Mas a reserva é cedo, às 19, foi a única que tinha disponível, não sei se vai dar tempo de você vir em casa.
—Vai ser difícil conseguir sair mais cedo — não era por ser o meu aniversário que o trabalho pararia.
—Eu posso te deixar no trabalho hoje e aí te busco às 18:30, o que você acha? Assim consigo te tirar de lá na hora — ele zombou, já conhecendo meu ritmo meio estranho de horários.
—Não precisa desse trabalho todo.
—Não me custa nada, desse jeito eu tenho certeza que vamos chegar a tempo da reserva, se for preciso peço ajuda do Ced para te expulsar da sua sala — eu ri do plano mirabolante dele.
—Tá bom, 18:30 eu estarei livre.
Ele me deixou na porta do prédio como prometido. Passei o dia recebendo felicitações e ligações, inclusive dos meus pais que estavam empolgados com o presente que me compraram, dizendo que deveria chegar em breve. O Ced fez um show para me dar o presente que ele tinha escolhido, e que no final das contas merecia mesmo, era um par de sapatos maravilhoso que não tinha nem chegado às lojas ainda.
—Como você conseguiu? — perguntei sem tirar os olhos do sapato vermelho.
—Tenho meus segredos — ele piscou mantendo o mistério — mas pode me dar um presente equivalente no ano que vem — ele brincou.
Nem a reunião com a minha chefe conseguiu estragar o meu bom humor naquele dia, trabalhei com um sorriso no rosto, esperando ansiosamente a hora em que o Ron chegaria. Para minha surpresa, ele passou pela porta da minha sala antes do horário, pensei que ele ligaria para que eu descesse, mas as 18:00 ele veio me encontrar. A falta de anúncio me dizia que tinha o dedo do Ced nisso, mas não importava, eu estava feliz. Ele acabou me convencendo a sair alguns minutos depois. Peguei as minhas coisas e fomos embora, estávamos esperando o elevador quando escutei a voz da Dondoca atrás de mim.
—Já vai indo, Hermione?
—Sim, terminei por hoje — virei para me despedir, porém a atenção dela não estava mais em mim, ela tinha os olhos cravados no Ron, percebi a minha gafe e me apressei a apresentar os dois, mas quando olhei na direção dele, ele estava petrificado, toda a cor do seu rosto tinha desaparecido, literalmente parecia que ele tinha visto um fantasma. Aquilo me pareceu muito estranho, abri a boca para perguntar, mas ele calou as minhas palavras.
—Lilá? — a pergunta saiu baixa e incerta.
Como ele conhecia a nossa consultora? Eu não estava entendendo nada.
—Quanto tempo Uon Uon — ela abriu sorriso maldoso.
Aquela expressão, a reação dele, tudo adicionado daquele apelido idiota, foi o que eu precisei para compreender o que estava se passando. Senti na hora o meu estômago se afundar, minha mão subiu automaticamente para pegar o braço dele no meu, mas mesmo assim, o ciúme já estava criando raízes. Ali na minha frente estava a ex esposa dele, o tempo todo tão perto de mim, a mulher que tinha partido o coração do meu namorado, e eu não tinha ideia de como lidar com isso.
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