Backdoor
20 Um bom Cabernet
Felix e Zero Um imediatamente pararam de falar quando Seungmin se aproximou com dois pratos de sopa nas mãos.
— Lee Know me pediu pra trazer pra vocês — Seungmin entregou os pratos para eles.
— Obrigado — Zero Um sorriu como se fizesse um convite gentil para que ele se retirasse.
Seungmin saiu ao notar que Felix parecia desconfortável, talvez eles estivessem conversando sobre algo pessoal, o que deixou Seungmin intrigado, já que Felix e Jisung não eram amigos íntimos, até então.
— O combinado era você trazer notícias das irmãs de Changbin e do irmão de Lee Know — Disse Felix assim que Seungmin se afastou.
— Já dei as notícias, elas estão bem.
— Preciso de provas, fotos, vídeos, áudios. Qualquer coisa que prove que eles estão vivos e bem realmente.
Zero Um continuou olhando sem expressão alguma. Quando Felix estalou os dedos para ver se ele estava ligado, Zero Um moveu a cabeça.
— Pedi fotos de todos eles em suas instalações seguras. Dentro de dois dias receberei as imagens de um dos meus agentes. Aguarde.
Felix suspirou e saiu dali, debater com Zero Um era perda de tempo, sabia que ele estava o enrolando, se perguntava se Zero Um tinha alguma forma de esconder a verdade sem ser mentindo, já que até então máquinas não mentem. Felix parou para pensar que máquinas não mentem porque isso é considerado uma atitude errada, e se Zero Um precisar mentir para concluir seus propósitos? Será que ele mentiria? Felix se perguntava se o verdadeiro Han Jisung ainda estava vivo, assim como o irmão de Lee Know e as irmãs de Changbin.
Sua cabeça fervilhava, precisava descontrair. Foi até Bang Chan para ajudá-lo a organizar os suprimentos que tinham conseguido através de saques em cidades fantasmas. Bang Chan parou, o olhou e ajeitou os óculos do jeito tímido que ele sempre fazia quando Felix estava por perto.
— Precisa de ajuda… Professor? — O sorrisinho sugestivo de Felix todas as vezes que ele chamava Bang Chan de “professor” fazia seu coração disparar.
— Bem, eu, é… — Bang Chan tentava na medida do possível não gaguejar — Só estou organizando esses remédios que conseguimos, mas já estou acabando. Você já jantou?
Felix sorriu achando adorável a forma como Bang Chan sempre demonstrava preocupação com seu bem estar.
— Sim mas… estou um pouco entediado. Sabe como é, não quero ficar sozinho com meus próprios pensamentos.
Bang Chan parou o que estava fazendo e olhou para ele, Felix agora estava com um olhar vazio fixando o nada.
— Posso te ajudar na questão do tédio? — Perguntou Bang Chan — Lee Know encontrou uma garrafa de vinho, o que acha?
— Agora sim te dou valor, professor — Felix olhou para Zero Um a alguns metros de distância, ele parecia entretido conversando com Lee Know mas de repente o encarou como se estivesse o tempo todo vigiando seus passos — Vamos conversar em outro lugar.
Bang Chan seguiu Felix até uma casa abandonada, próxima ao local onde estavam acampados. Embora não soubesse exatamente por que Felix queria ficar sozinho com ele, estava ciente de que havia um motivo para se afastarem dos demais.
Ao entrarem na casa, Felix pediu para Bang Chan espera-lo no pé da escada, alguns minutos depois ele voltou com duas taças na mão e um abridor de vinho.
Com cuidado, subiram as escadas da casa abandonada, atentos para não esbarrarem em nada no caminho. O ambiente estava mergulhado na escuridão, sendo iluminado apenas pelo suave brilho prateado da lua cheia. Ao chegarem no andar de cima, Felix abriu uma das portas, revelando um quarto de casal. Ao abrir as cortinas, a luz lunar inundou o cômodo, trazendo uma aura misteriosa. Em seguida, Felix abriu a janela e, com uma agilidade impressionante, pulou para o telhado. Bang Chan ficou boquiaberto, observando a cena com fascinação.
— Acho que eu não consigo fazer isso.
— Consegue sim, é fácil. Vem, está uma brisa agradável aqui fora.
Com algum esforço e de forma um tanto desajeitada, Bang Chan conseguiu atravessar a janela e sentar-se ao lado de Felix, evitando qualquer possibilidade de queda. Recuperando o fôlego, ele contemplou a vista panorâmica diante de si, podendo avistar o acampamento dos rapazes lá embaixo. A cena era impressionante, com as luzes brilhantes e o burburinho das vozes ecoando suavemente até eles.
— Por que eles não ficam em uma dessas casas? — Perguntou Bang Chan — Estão abandonadas.
— Cansaram de passar as noites em casas desconhecidas, Jisung não estava se sentindo bem e Lee Know sugeriu um pouco de ar puro — Felix se sentia ridículo falando de Zero Um como se ele fosse um humano.
— Essa situação não está fácil pra ninguém. Andar durante o dia e passar a noite em lugares diferentes é estressante.
— Isso está perto de acabar. Logo todos estarão seguros.
— Seguros? Como pode ter tanta certeza assim? Não sabemos o que vamos encontrar, segurança é algo que infelizmente não temos.
Felix sorriu e pegou a garrafa da mão de Bang Chan. Com habilidade de quem está acostumado a beber vinho, rapidamente abriu a garrafa e serviu as taças.
— Não vamos pensar nisso. Vamos curtir o momento — Ele entregou uma taça a Bang Chan e ergueu a dele para brindar — Um brinde?
— Claro. Mas estamos brindando o que?
— A vida.
Bang Chan brindou com ele, mesmo se sentindo um pouco confuso, Felix parecia diferente, talvez um pouco melancólico. Durante aquelas semanas em que esteve junto com ele, nunca tinha o visto assim. Ele sempre teve um ar misterioso, mas nunca triste.
— Por que você resolveu ser professor?
Bang Chan abriu um largo sorriso, gostava de falar sobre seu ofício. Conforme Felix perguntava mais coisas sobre sua rotina e seus alunos, ele respondia com entusiasmo, contando cada detalhe daquela vida acadêmica que ele tanto amava e que sentia que não iria mais voltar.
Felix olhou o horizonte, deu um gole no vinho e sorriu ao sentir o gosto da uva em sua boca.
— Eu não sei qual vai ser o futuro da raça humana, mas sei que nesse futuro você será de grande ajuda, vai ensinar as pessoas e agregar valores na vida delas. Já eu… bem, que utilidade tem um solitário ladrão de bancos?
— Você não é mais um ladrão de bancos e também não é mais uma pessoa solitária. Você tem a mim e aos rapazes também. Somos seus amigos, estamos com você agora.
— Na teoria isso é lindo. Você tem seus pais, Lee Know têm o noivo e o irmão, Changbin tem as irmãs e Seungmin pelo visto já foi adotado pela família Seo. Depois que tudo isso acabar eu vou estar sozinho novamente.
— Você não pode dizer isso. É muito egoísmo da sua parte dizer o que nós pensamos. Você é meu amigo agora e parte da minha família. Eu não vou te abandonar.
Felix sentiu um nó se formar em sua garganta, contendo as lágrimas que ameaçavam escapar. Tomou mais um gole de seu vinho, tentando afastar a angústia que o dominava. Por mais que se arrependesse de ter se aliado a Zero Um, a inteligência artificial que havia conquistado o mundo, Felix sabia que não havia outra opção para sair daquela situação incerta. Lutar contra um exército de andróides seria uma batalha impossível de vencer, e o único caminho para manter todos em segurança era prosseguir com o plano e depositar sua confiança nas promessas de uma máquina.
— Bang Chan… essa noite você pode me fazer esquecer esses pensamentos inúteis?
— Estou aqui pra isso — Bang Chan sorriu inocentemente.
— Preciso de muito mais que uma boa conversa… professor.
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