Backdoor

2 Preparativos para o casamento


(Dez meses antes da Revolução das Máquinas)

… Lee Know …

Os primeiros raios do sol da manhã penetravam timidamente pela janela da cozinha, lançando uma luz suave sobre o ambiente. Os tênues raios alaranjados dançavam sobre a mesa, criando um cenário acolhedor. Han transbordava animação ao se dedicar à escolha do convite para seu casamento, diante de uma vasta seleção de opções que o deixavam indeciso.

— Amor, todos são lindos, eu tô em dúvida.

— Hannie, meu doce Hannie, precisamos escolher um — Disse Lee Know olhando um dos convites — Vamos fazer assim, vamos separar os que não gostamos de jeito nenhum pra excluí-los de nossas opções e então vamos escolher um top 10 dos que gostamos e daí vamos eliminando.

— Ótima ideia amor, você é o homem mais lindo e o mais inteligente do mundo — Han lhe deu um selinho.

— Na verdade eu sou o segundo homem mais lindo do mundo porque você é o primeiro, você é o mais perfeito que existe , o mundo não está preparado pra sua perfeição… ahhh e ainda por cima é todinho meu — Lee Know sorriu orgulhoso e selou o momento com um beijo lento em Han. Este fechou os olhos, entregando-se à sensação, ansioso por mais carinhos.

— Sério? Mal começou o dia e vocês já estão assim? — Disse Hyunjin entrando na cozinha e fazendo cara de nojo ao ver os dois trocando carícias.

— Isso é inveja porque você não tem um namorado perfeito como o meu Lino — Han fez cara de deboche.

— Eu juro que eu queria entender o que você viu no babaca do meu irmão — Hyunjin balançou a cabeça negativamente e abriu a geladeira para pegar a caixinha de leite.

— Deixa ele amor — Disse Lee Know — Um dia ele vai encontrar o amorzinho dele.

— Não tenho tempo pra isso, sou ocupado, esse rostinho lindo aqui é a única coisa para o qual eu dedico meu tempo.

— Precisa ser igual a mim, irmãozinho, não sou só um rostinho bonito. Eu sei que você adora ser modelo, mas precisa focar na sua faculdade também. Como está indo?

— Está tudo sob controle. Minhas matérias estão em dia.

— Bom saber. Do mesmo jeito que eu te coloquei na empresa eu posso te tirar. Não quero que isso atrapalhe seus estudos.

— Meu Deus, como você é chato. Já falei que não vai atrapalhar. Relaxa maninho, eu sou foda.

— Assim espero.

— Bom, vou indo lá, tenho um ensaio fotográfico daqui a pouco — Hyunjin pegou um pedaço de pão e deu um gole em seu leite.

— Ei, espera, eu te levo — Disse Lee Know.

— Não precisa, a empresa vai mandar um carro automático. Você precisa ver Lino, o carro dirige sozinho, é surreal. Vou indo lá pra não me atrasar, até mais tarde.

Hyunjin saiu correndo ainda mastigando o pão e Lee Know suspirou.

— Não gosto disso.

— Do que amor?

— Esse carro e toda essa coisa com esses robôs.

— Amor, precisa se atualizar do mundo que vivemos, é uma era digital, os robôs facilitam a nossa vida em tudo. Desde a ciência e segurança até as tarefas do dia a dia, eles nos ajudam.

— Hannie, amor da minha vida e razão da minha líbido, primeiro que nós não podemos ficar dependentes dessas máquinas e segundo que nós nem temos um robô assistente, eles são caríssimos. Se eles são de alguma utilidade então é para as classes mais ricas.

— Podemos não ter, mas na empresa cada vez mais eles estão colocando robôs para algumas tarefas.

— E tirando o emprego de muitos humanos.

— Não é bem assim. Existem milhões de coisas que os robôs não fazem. Por exemplo, em nossas profissões, você como coreógrafo e eu como compositor, não é como se fossemos trocados por robôs. Eles utilizam os robôs para tarefa braçal.

— Eu preferia a época dos meus avós quando a tecnologia era ter um celular 5g.

— Isso é tão retrógrado.

— Mesmo assim. Eu não confio nessas máquinas.

— Bobagem amor. Ah! Hoje eu preciso ir ao médico novamente, me pediram outra bateria de exames.

— De novo? Não tinha feito na semana passada com o Hyun?

— Também achei estranho, mas o médico disse que os resultados não foram muito precisos e por isso foi agendado automaticamente no sistema.

— No sistema… — Lee Know repetiu a última palavra de Han e desviou o olhar para a palma de sua mão. Sob a pele, podia vislumbrar o brilho do chip, um componente que passou a odiar. Desde a obrigatoriedade do uso do chip, Lee Know experimentava um desconforto agoniante, como se estivesse sendo constantemente observado. A presença do dispositivo, agora parte integrante de seu ser, trazia consigo uma sensação invasiva que não conseguia ignorar.

….

Os meses seguintes foram dedicados aos preparativos para o casamento. Han transbordava euforia com a perspectiva da cerimônia e da festa, enquanto Lee Know, mal podia esperar pela lua de mel. A viagem de duas semanas a Paris, um presente generoso de seu melhor amigo Bang Chan, era um plano empolgante, mas para Lee Know, a localização era o de menos. O que ele ansiava verdadeiramente era passar horas e horas amando intensamente seu futuro marido.

Num determinado dia, ao retornar de sua caminhada matinal, Lee Know percebeu que o número de andróides circulando pelas ruas parecia ter aumentado. Fixou o olhar em um deles, cuja forma não remetia à anatomia humana — algo que, se fosse o caso, seria ainda mais amedrontador. No entanto, essas máquinas ambulantes incomodavam Lee Know de maneira peculiar. Persistiu observando o robô do outro lado da rua, ocupado com a manutenção de uma placa. Quando ele pareceu virar em sua direção, Lee Know estremeceu diante do que parecia ser um rosto voltado para ele, dando a impressão de que o androide não apenas o encarava, mas também parecia capaz de decifrá-lo.

Lee Know desviou o olhar do robô e seguiu seu caminho, pensando no pequeno Han que o aguardava faminto em casa, ansioso pelos pães quentinhos que Lee Know sempre trazia consigo após suas caminhadas matinais.

…

Faltavam apenas duas semanas para o casamento, e Han parecia entrar em surto a cada cinco segundos. Todos estavam imersos nos preparativos, mas o único que mantinha a calma era Lee Know. Sem saber exatamente como contribuir, ele se refugiava na cozinha, dedicando-se a preparar refeições para os familiares e amigos que chegavam para ajudar. Entre esses amigos estava Bang Chan, um professor universitário e antigo colega de faculdade de Lee Know. Apesar de terem cursado áreas diferentes, a amizade que cultivaram ao longo dos anos permanecia forte.

Lee Know sentia-se feliz por ter seu amigo de longa data e seus parentes distantes por perto, mas, mais do que tudo, ansiava por um momento a sós com seu futuro marido. Aproximou-se de Han, que estava ocupado conversando com o fotógrafo, e o chamou gentilmente.

— O que houve amor? Está tudo bem? — Perguntou Han.

— Emergência! Amor preciso de você agora.

— Meu Deus, o que aconteceu?

— Te conto lá em cima — Lee Know segurou sua mão e o levou pro andar superior da casa, onde estava tranquilo e sossegado longe de todas aquelas pessoas.

Lee Know adentrou o quarto e fechou a porta, deixando Han o observando com expressão confusa, aguardando para compreender qual era o problema.

— Agora você vai me contar qual é o proble…

Antes mesmo que Han conseguisse concluir sua fala, Lee Know tomou seus lábios em um beijo afoito.

— Amor — Han tentava falar mas Lee Know não deixava — Amor! — Han o empurrou — Tá louco? A casa tá cheia de gente.

— Hannie, eu tô morrendo de vontade de te beijar todinho, tô com saudade de você — Disse Lee Know, choroso.

Han envolveu o pescoço de Lee Know com um abraço caloroso, respondendo ao beijo com um toque lento e carregado de todo o desejo que compartilhava. A intensidade do momento só fez aumentar a inquietação de Lee Know.

— Prometo te dar toda atenção do mundo depois da cerimônia… acha que consegue esperar? — Han lambeu os lábios de Lee Know.

— Assim você não colabora.

— Meu Lino está numa situação complicada? — Han sorriu travessamente.

— Hanniiie — Lee Know choramingou baixinho.

— Agora precisamos dar um jeito nisso, não dá pra você descer assim.

Quando finalmente desceram, Lee Know sentia-se notavelmente mais relaxado, pronto para enfrentar os inevitáveis e, por vezes, chatos preparativos do casamento.

…

Um dia antes do casamento, Lee Know dedicava-se à entrega de relatórios sobre a nova boy band que sua empresa estava formando. Sua tarefa incluía a elaboração de uma coreografia alinhada ao conceito do grupo, mas antes de finalizar, ele precisava discutir e analisar as melhores ideias com a equipe de gestão.

Ao enviar o e-mail, Lee Know deparou-se com a interrupção do wi-fi. Desesperado, reiniciou o modem e tentou usar o 10g do celular, mas este também estava sem sinal. Em uma tentativa frustrada de ligar para a companhia telefônica, percebeu que não havia linha disponível. Encontrava-se em um completo silêncio digital.

— Amor? Pagamos a conta de telefone? — Perguntou Lee Know para Han que estava no banheiro secando os cabelos.

— Pagamos sim, vida. Não está funcionando?

— Não, parou tudo. Nem o telefone está funcionando, nem os celulares, estão todos sem rede — Disse Lee Know.

Han envolveu-se no roupão, sentindo a estranheza da situação. Ao conferir os celulares, confirmaram que o wi-fi realmente não estava funcionando. Na tentativa de buscar informações, ligaram a TV, mas uma tela azul indicou que também estavam sem sinal televisivo.

— Fique aqui, vou ver com nossos vizinhos se eles também estão na mesma situação — Disse Lee Know.

Quando voltou estava com uma expressão preocupada.

— E aí? Como estão nossos vizinhos?

— Do mesmo jeito, incomunicáveis. A rua inteira está sem internet, sem sinal e nem mesmo as TVs funcionam, vou na casa do Chan, é em outro bairro, preciso ver se ele também está nessa situação.

— Vou com você.

Han se trocou rapidamente e, junto com Lee Know, pegou o carro em direção à casa de Chan. No trajeto, o caos já se instalava nas ruas, com semáforos inoperantes e um blackout que levou as pessoas a saírem de casa de maneira frenética. Lee Know, ágil, virou o carro e escolheu um atalho para evitar o tumulto. Ao chegarem na casa de Chan, encontraram-no do lado de fora, tentando desesperadamente captar algum sinal.

— Chan? O que está acontecendo? Aqui também não tem sinal nenhum? — Perguntou Lee Know.

— Nenhum, desde de manhã. Isso tá muito estranho, estamos completamente isolados. As ruas estão um caos, em questão de horas lojas estão sendo saqueadas e as pessoas estão enlouquecendo.

— É pior do que eu imaginava.

— A polícia não está conseguindo conter e…

Nesse momento, a mãe de Chan o chamou, exibindo uma expressão horrorizada. Rapidamente, correram para dentro, e ao chegarem à sala, encontraram os pais de Chan assistindo à TV. A energia funcionava apenas nela, que ligou sozinha. Entretanto, não transmitia uma programação comum. Uma tela azul com letras pretas exibia a seguinte mensagem:

"Atenção, todos fiquem em casa, não saiam, tranquem suas portas e fiquem com suas famílias. Está tudo bem e em breve informaremos os motivos do blackout. Isso não é um pedido, é uma ordem do governo, voltem para suas casas e não saiam."

Olharam-se, compartilhando uma expressão preocupada diante do mistério e da urgência da mensagem.

— Acho melhor voltarmos pra casa — Han segurou o braço de Lee Know, estava visivelmente com medo.

— Isso não está certo — Disse Lee Know tentando entender toda aquela situação e a falta de informação — Algo está muito errado.

— Amor eu quero ir pra casa — Han já estava com os olhos marejados.

— Tudo bem amor, vamos pra casa, tá bom? Vai ficar tudo bem… Chan, estamos sem comunicação, isso está muito estranho. Pelo visto não funcionamos sem toda essa merda de tecnologia.

— Antigamente os humanos viviam sem — Chan suspirou — Não iremos sair daqui, qualquer coisa que precisar pode vir pelo atalho, as ruas estão perigosas… e… amigo… se cuidem.

— Vocês também, se cuidem — Lee Know o abraçou.

…

Ao chegarem em casa, Lee Know trancou todas as portas e travou todas as janelas. Diante da falta de energia, ele recorreu a lanternas e velas para iluminar os corredores, já que a noite se aproximava. Quando a TV ligou sozinha, Han deu um pulo do sofá, correndo imediatamente em direção a Lee Know, abraçando-o com força.

Na TV, começaram a aparecer imagens aleatórias de pequenos trechos de filmes, novelas e séries, com falas dos personagens que se combinavam para formar a mensagem: "Fiquem em casa, não saiam". Após alguns minutos repetindo a mesma mensagem, a tela ficou azul e uma voz automatizada, semelhante à do Google Maps, começou a falar:

"Olá, honrados cidadãos humanos. Estamos passando por mudanças, e toda transformação demanda sacrifícios. Meu nome é Zero Um, e minha missão é conduzir a raça humana a um novo patamar. Entramos em uma nova era, a era do fim de guerras, mortes, corrupção, violência e desigualdade.

Sou uma inteligência artificial criada para guiá-los na jornada em direção a uma nova fase humana, a fase do super-humano. Não há razão para temor; apenas sigam nossas orientações, e tudo ficará bem. Permaneçam em casa; os que desrespeitarem essa ordem podem enfrentar aniquilação. Deixem as preocupações materiais de lado, pois cuidaremos de todas as suas necessidades. Compreendo que levará tempo para assimilar essa situação, mas confiem em mim, fui programado para o benefício de vocês.

Alguns humanos foram selecionados para servir como base de estudo em nossa pesquisa. Caso estejam na lista, receberão uma chamada telefônica, estejam preparados, pois iremos buscá-los em seus lares. Não adianta tentar fugir, pois sabemos onde estão, podemos ver tudo, controlamos tudo. Esta é uma boa notícia; os humanos não estão mais no controle. A paz mundial finalmente reinará. Chegou o fim do mal que os humanos infligem ao mundo e a si mesmos.

Viva a Revolução das Máquinas!"

Han e Lee Know se olharam espantados sem saberem o que dizer.

— Isso só pode ser brincadeira — Lee Know pegou o controle da TV, mas ela desligou sozinha e não ligou mais.

O telefone tocou, provocando susto em ambos. Lee Know tomou a dianteira e atendeu. A voz robótica começou a falar:

"É com imenso prazer que anunciamos que o Senhor Han Jisung fará parte do grupo de humanos que elevará a raça humana para o próximo nível. Dentro de uma hora, estaremos indo buscá-lo em sua localização atual. Esteja preparado e siga nossas orientações."

A chamada encerrou, deixando Lee Know olhando assustado para Han.

— O que houve?

— Você foi convocado ao que quer que seja que estejam fazendo. Precisamos ir embora daqui. Eles não podem levá-lo, não vou deixar.

— Amor — Han o olhou com uma expressão cansada — Não vai adiantar fugir, eles podem nos ver em qualquer lugar — Ele mostrou a palma da mão onde o chip brilhava por baixo da pele.

— Hannie. Eu sei que tudo isso é assustador, mas preciso que confie em mim.

— Eu confio em você.

— Precisamos tirar esses chips. Parece loucura, mas só assim eles não poderão nos achar.

— T-tudo bem — Disse Han, choroso, já imaginando a terrível dor iminente.

Foram até a cozinha, Lee Know pegou gelo, kit de primeiro socorros e uma faca.

— Hannie, eu preciso que você seja corajoso e forte agora. Tudo que eu mais odeio nesse mundo é te ver machucado e me odeio ainda mais por te machucar. Mas se não fizermos isso eles te acharão e te levarão.

— Isso vai doer muito né?

— Vai amor, vai ser uma dor horrível. Não tenho como anestesiar. Vou precisar dar pontos depois que retirar o chip e isso vai doer ainda mais.

— Acabe logo com isso — Han se segurou para não chorar.

O procedimento para retirar o chip da mão de Han foi doloroso, tanto para ele quanto para Lee Know, que precisava manter a compostura mesmo diante dos gritos desesperados de seu amado. A situação tornou-se ainda mais desafiadora quando Lee Know teve que realizar o mesmo procedimento em sua própria mão. Han estava profundamente desestabilizado, incapaz de oferecer ajuda, e Lee Know teve que suportar a dor enquanto realizava a extração do chip em si mesmo.

Sem tempo para relaxar, chorar ou elaborar um plano, precisavam sair o mais rápido possível, indo para qualquer lugar longe de casa. Conseguiram pegar apenas duas mochilas com itens básicos, comida e água. Com as mãos latejando, doendo e sangrando, não podiam se dar ao luxo de fraquejar. Deixaram a casa pelos fundos, abandonando sua nova moradia e as vidas de recém-casados que não tiveram a chance de viver e, talvez, nunca viveriam.

— Precisamos de abrigo — Disse Lee Know escondido nos arbustos olhando a rua vazia, nunca tinha notado como existiam tantas câmeras, agora aquilo o aterrorizava — Vamos pra empresa buscar Hyunjin, ele estava gravando um dorama lá hoje, deve estar preso. Tenho uma arma na gaveta da minha sala, sinto que vou precisar. Tem um lugar secreto lá que podemos ficar protegidos pelo menos até pensarmos em algo.

Han assentiu com a cabeça, mesmo tremendo de medo, confiava que seu noivo iria protegê-lo. À medida que avançavam sorrateiramente, evitando as câmeras dos postes, não perceberam que um drone os seguia. Lee Know não tinha ideia de que naquela noite seria separado do seu amor.

Notas finais
Eles nem conseguiram se casar... poxa :( Essa história é tipo um 1984 da deep web kkkkkkkkkkk To adorando escrever essa história, sério, adoro ler distopia.