Backdoor

15 Perigosamente armado


Lee Know despertou ao se mover para o lado, buscando uma posição mais confortável. Mesmo em uma cama macia, a serenidade do sono lhe escapava. Haviam encontrado abrigo em uma moradia abandonada, onde decidiram passar a noite. Ao olhar o quarto, notou a ausência de Han.

— Hannie? — Murmurou suavemente, fixando o olhar na porta entreaberta. Levantou-se e acendeu uma vela; a habitação encontrava-se desprovida de energia e os corredores imersos em trevas. Movendo-se na ponta dos pés para não perturbar os demais rapazes, percebeu luzes intermitentes provenientes do andar inferior, cujo reflexo se projetava na escada. Lee Know aproximou-se cautelosamente, indagando-se sobre a origem dessas luzes, uma vez que a casa não dispunha de eletricidade.

— Hannie? Você está aí?

As luzes se extinguiram, deixando apenas a iluminação da vela que Lee Know segurava em sua mão. Utilizando-a para clarear o caminho e evitar obstáculos, adentrou a sala de estar. Com visibilidade limitada, percebeu uma silhueta imóvel na cozinha. Surpreendido, deixou a vela escapar de suas mãos, extinguindo a chama e mergulhando o ambiente na escuridão total. Com o coração acelerado, Lee Know tateou o chão, recuperou a vela e, com o isqueiro retirado do bolso, conseguiu reacendê-la.

Ao mirar na direção onde avistara a silhueta, constatou que não havia mais nada ali. No entanto, ao virar-se, deparou-se com Han parado, encarando-o.

— HANNIE! — Lee Know colocou a mão no coração, o susto tinha sido grande — Graças a Deus te achei.

— O que faz aqui? Você deveria estar dormindo.

— Eu não consigo dormir — Lee Know estranhou um pouco a forma como Han estava falando — Não consigo dormir sem você ao meu lado.

Iluminado pela luz da vela, o rosto de Han estava inexpressivo.

— Você não pode depender de mim para suas necessidades básicas, como dormir. Cientificamente falando, não tenho influência nenhuma sobre seu sono.

— Ok mas, eu fico preocupado se não estiver por perto.

— Então venha, vamos dormir — Han se virou para subir para o quarto.

— Espere! — Lee Know segurou seu braço e por uma fração de segundos sentiu que Han não gostou — Está tudo bem com você?

— E por que não estaria?

— Eu não sei. Você está diferente. O que estava fazendo aqui? Vi algumas luzes. O que era aquilo?

— Vim apenas buscar por água. Minha lanterna não estava funcionando direito, talvez seja essa a luz que viu.

— Não parecia luz de lanterna, era muito…

Lee Know foi surpreendido quando Han o beijou. Fechou os olhos, entregando-se à sensação familiar daquele beijo tão esperado de seu amado, a quem sentira tanta falta. Han tinha o dom de tirar seu fôlego e dissipar todas as suas dúvidas com um simples toque. No entanto, algo parecia diferente, apesar de serem os lábios que beijava todos os dias há anos e a mesma boca macia. Havia uma sutil diferença, como se faltasse paixão naquele beijo. Lee Know sentiu como se Han estivesse beijando por obrigação, como se a essência do amor que costumava transbordar estivesse ausente. Han, geralmente tão dedicado e sensível, agora parecia realizar o gesto de maneira um tanto mecânica. Lee Know deduziu que isso poderia estar relacionado aos traumas que Han enfrentou enquanto esteve preso. Quando Han interrompeu o beijo sem dar a habitual mordidinha leve em seus lábios, Lee Know ficou um tanto apreensivo. Han estava diferente. Percebeu que seria necessário exercitar paciência e compreensão para ajudá-lo a superar tudo aquilo e voltar a ser o Han que sempre conhecera.

— Teremos um dia cansativo pela frente — Disse Han com um sorriso amistoso — Precisamos descansar… amor.

— Tem razão, Hannie. Vamos deitar e dormir um pouco.

Han segurou o pulso de Lee Know.

— Lino… eu te amo.

— Eu também te amo, Hannie — Lee Know sorriu e suavizou sua expressão, ali estava seu Han de sempre.

Ainda era madrugada quando um estrondo vindo do andar de baixo os arrancou do sono, reverberando pela casa. A porta da frente fora brutalmente arrancada e arremessada contra a parede, preenchendo o ambiente com o eco assustador do impacto.

Lee Know, ágil, saltou da cama, agarrando a arma estrategicamente deixada no móvel ao lado. Lançou um olhar significativo para Han, instruindo-o a permanecer na cama. Silenciosamente, dirigiu-se à porta e a abriu cuidadosamente, encontrando o corredor agora em silêncio, como se o tumulto anterior jamais tivesse ocorrido.

A porta do quarto ao lado se abriu, Bang Chan saiu ajustando seus óculos. Seungmin o seguiu, lançando olhares ao redor e tentando evitar qualquer ruído desnecessário.

— Que barulho foi esse? — Sussurrou Bang Chan.

— Também não sei, veio lá de baixo, parece que arrancaram a porta — Respondeu Lee Know.

No fim do corredor, do último quarto, Changbin e Felix vieram na direção deles a passos cuidadosos.

— Precisamos ir embora, eles nos acharam — Disse Felix recarregando a arma.

— Isso não é possível. Nenhum de nós tem chip, não tem como eles nos rastrear — Respondeu Lee Know.

— Mas nos rastrearam de alguma forma — Disse Seungmin — O que é estranho. Por mais inteligentes que essas máquinas sejam, não tem como eles lerem materiais orgânicos, eles precisam que estejamos conectados à Rede para nos rastrear e creio eu que nenhum de nós acessou o Instagram esses dias. A menos que alguém aqui tenha acesso a internet.

Eles se entreolharam, ninguém tinha celular. Felix olhou para Lee Know à procura de Jisung.

— Cadê ele? — Perguntou impaciente — Cadê o Han? É muita coincidência que agora que ele está com a gente essas malditas máquinas tenham nos achado.

— O que você está sugerindo? — Lee Know o encarou.

— Que tem alguma coisa errada com seu namoradinho — Felix apontou o dedo no peito de Lee Know de forma desafiadora.

— Han é uma pessoa confiável. Uma pessoa do bem. Não é um ladrãozinho de banco como você.

— Parem com isso! — Pediu Seungmin — Tem literalmente a porra de um robo lá embaixo, não é hora de brigarmos entre nós. Precisamos sair daqui e se possível evitar enfrentá-los.

— Seungmin tem razão — Bang Chan tocou o braço de Lee Know para que ele se acalmasse.

— Tudo bem — Lee Know suspirou — Vamos descer, cada um vai para um lado e nos encontramos no quintal dos fundos. Vou descer com Han logo em seguida.

Com um gesto afirmativo, concordaram com o plano. Enquanto Lee Know retornava ao quarto para buscar Jisung, Chan e os demais desceram as escadas.

Bang Chan, consciente de sua inaptidão para manusear armas e sua natureza pacífica, assumiu o papel de iluminar o caminho. Changbin liderava o grupo, empunhando uma espingarda calibre 12 que ele considerava a arma perfeita — forte e poderosa. Felix, por sua vez, carregava uma Magnum 44 com silenciador, sua arma de estimação utilizada em assaltos a bancos, era quase como um amuleto da sorte. Seungmin, embora tivesse amplo conhecimento teórico sobre armas devido ao seu domínio no GTA, nunca havia tocado em uma na vida real, sua experiência mais letal se resumia a um spray inseticida para baratas. No momento, sua única opção era um taco de beisebol encontrado em um dos quartos. Juntos, desceram as escadas com a intenção de evitar qualquer ruído, e a casa permanecia silenciosa, como se o caos anterior fosse apenas um eco distante.

Seungmin, avistando algo movendo-se rapidamente perto da porta dos fundos, agiu impulsivamente e correu em sua direção.

— SEUNGMIN! — Changbin gritou assustado.

Tudo se desenrolou em uma sucessão rápida de eventos. Em um momento, Seungmin estava ao lado deles; nos segundos seguintes, ele era rapidamente arrastado para fora da casa por um androide de aparência humana, porém, sem rosto. O único som que se ouviu era o impacto do taco de beisebol ao atingir o chão.