Backdoor

8 Infância roubada


(Dois anos antes da Revolução das Máquinas)

… Lee Felix …

Enquanto trabalhava, Felix assobiava alegremente uma música de Natal, ocasionalmente arriscando uma reboladinha para seguir o ritmo. Demonstrava uma calma incomum diante da situação, preenchendo os sacos com notas de dinheiro e algumas barras de ouro. O alarme soou alto, indicando que era hora de deixarem o banco, pois a polícia estava prestes a chegar.

Como filho de um hábil e astuto assaltante de bancos, Felix aprendeu desde cedo a arte de sobreviver no mundo do crime. Ele nunca foi uma pessoa violenta, muito menos cometia assaltos contra trabalhadores comuns; no entanto, se havia algo que sua consciência permitia, era roubar bancos.

Seu pai perdeu a vida durante um desses assaltos quando Felix tinha apenas doze anos. Sua mãe já havia falecido quando ele era criança, e, portanto, suas únicas lições de vida foram aquelas que seu pai, de forma dissimulada, transmitiu a ele.

Apesar de agir com aparente despreocupação durante os assaltos, Felix tinha plena consciência do que estava fazendo e seguia meticulosamente um plano que havia sido cuidadosamente elaborado meses antes.

Ele não se limitava apenas a assaltos a bancos para obter renda. Sua aparência angelical enganava muitos empresários carentes em busca de uma noite de prazer, e Felix sabia muito bem como se safar dessas situações, arrancando ainda uma boa quantia de dinheiro de homens gananciosos. Em seu meio social, era costumeiro apresentar-se como alguém meigo, inocente e carente, uma persona que definitivamente não condizia com sua verdadeira personalidade. Felix costumava dizer a todos que era apenas um jovem tímido, com problemas de dicção, que trabalhava como contador em uma pequena empresa de empréstimos bancários.

Aquele era apenas mais um dia comum para Felix e sua equipe, fugindo de mais um assalto ao banco. Eram quase duas da manhã quando corriam pela estrada, buscando despistar qualquer vestígio de sua presença no banco. Ao atingirem um determinado quilômetro na rodovia, fizeram a troca de carros e seguiram em direção a uma pequena cidade, lá, eles alugaram um quarto para passar a noite.

Logo pela manhã, Felix dirigiu-se a uma loja de conveniência, sentindo uma urgência por café, já que sua cabeça latejava implorando por cafeína. Ao entrar na loja, deparou-se com uma pequena fila formada no caixa, com apenas uma atendente, o que causava impaciência em alguns clientes.

Um homem corpulento desferia grosserias contra a atendente, enquanto Felix observava a atitude desagradável do sujeito à distância. Outro homem se aproximou, tentando apaziguar a situação. Felix examinou-o de cima a baixo; ele era alto, bonito, robusto, com cabelos claros. Apesar da feição marcante, o homem ostentava um sorriso contagiante que acentuava as covinhas em suas bochechas. No entanto, o senso de moda dele era terrível, as roupas escolhidas lembravam as de um avô.

O "gostosão antiquado", como Felix o apelidou mentalmente, persistia em tentar acalmar o homem enfurecido, mas seus esforços eram em vão. O sujeito continuava a gritar furiosamente, agindo como em um verdadeiro espetáculo de raiva. Quando o homem avançou na direção da atendente, o outro, de sorriso encantador, tentou contê-lo, mas acabou recebendo um soco preciso no estômago. Felix deu alguns passos à frente, observando atentamente a situação.

— Meu caro amigo! — Disse Felix para o homem que socou o outro — Que bom vê-lo por aqui.

— Você está me confundindo, baixinho. Saia daqui se não quer apanhar como aquele idiota ali — Disse o homem com asperaza.

Felix observou o homem bonito ajoelhado no chão, tentando se recuperar do soco. Notou o crachá que ele usava, indicando que era um professor de uma universidade próxima dali. Explicava a abordagem pacífica dele na tentativa de resolver a situação. Contudo, diante da ineficácia dessa abordagem com o indivíduo enfurecido, Felix se aproximou silenciosamente e encostou sua arma nas costas do homem, que instantaneamente congelou.

— Parece que meu amigo aqui não se lembra de mim — Felix sorriu de forma tão angelical que a atendente sentiu como se tivesse sido aquecida pela luz agradável do sol de primavera — Peço desculpas pela atitude do meu amigo, ele está passando por alguns problemas mas não vai mais incomodar vocês. Não é amigo?

O homem tremeu, uma gota de suor escorreu de sua testa.

— Me deixa ir, por favor, eu tenho família — O homem sussurrou para Felix.

— Meus amigos estão lá fora. Entre no seu carro e suma, não apareça mais aqui — Respondeu Felix num sussurro para que somente o homem ouvisse.

O homem saiu a passos cambaleantes, e Felix não pôde deixar de rir com a mudança repentina de postura. Toda aquela masculinidade havia desaparecido. Após a saída do homem grosseiro, Felix aproximou-se do homem bonito, que grunhiu de dor enquanto se encurvava com as mãos no estômago.

— Tudo bem aí, Senhor… — Felix leu o nome no crachá — Christopher?

— Ah sim, sim obrigado, foi um soco e tanto.

— Respire fundo e tente ficar com a postura ereta, vai ajudar. Acredite, já levei muitos socos assim.

Bang Chan o olhou surpreso, quem teria coragem de bater em um rapaz tão angelical como ele?

— Você? Sinceramente fiquei curioso com o que você trabalha pra levar tantos socos assim.

— Socos da vida, tentei ser metafórico — Felix sorriu para tentar se corrigir, era infalível como seu sorriso cativava as pessoas. Essa era sua melhor arma — Na verdade eu trabalho com contabilidade.

— Ah sim, isso faz muito mais sentido. E… será que você pode me dizer seu nome? Eu posso te pagar um café.

— Aceito o café, mas meu nome eu digo no nosso próximo encontro.

— E teremos um próximo encontro?

— Se o destino permitir, sim — Felix pegou o café que a moça tinha preparado para Bang Chan — O bonitão aqui vai pagar pra mim, obrigado — Olhou para Bang Chan e se despediu com uma piscadinha. Se não tivesse fugindo da polícia com toda certeza levaria esse homem para seu quarto, mas, não podia relaxar, precisava continuar com seu plano.

…

Um ano após o início do caos, Felix fugiu o máximo que pôde. Embora não tenha sido convocado para sabe-se lá o que as máquinas estavam fazendo com os humanos, ele estava entre os procurados. Enganar robôs de inteligência artificial não era tão fácil quanto enganar humanos tolos, mas, aos trancos e barrancos, conseguiu escapar. Já se passavam duas semanas desde que o mundo mergulhara no caos, e a humanidade ficara incomunicável devido à falta de tecnologia. Felix concentrava-se apenas em sobreviver àquele tumulto.

Encontrou um pequeno bairro pobre onde alguns rebeldes contra o novo sistema se reuniam. No entanto, sem leis ou qualquer coisa que os protegesse, o mundo agora pertencia aos mais fortes. E era exatamente disso que ele precisava, alguém forte fisicamente. Sua aparência meiga não teria serventia naquela selva, então ele buscou alguém que impusesse respeito de alguma forma, e encontrou a pessoa perfeita.

Era um rapaz de estatura baixa, mas com um corpo escultural e forte. Sua expressão firme dava a entender que podia facilmente ser alguém durão, exceto para Felix, que possuía a incrível habilidade de ler as pessoas. Ele percebeu que, apesar das tentativas desesperadas do rapaz de parecer intimidador, na verdade, era alguém assustado e, possivelmente, com uma boa índole.

Felix se aproximou com um sorriso no rosto.

— Olá. Não vou te fazer mal, só quero propor algo que seja lucrativo para nós dois. Me chamo Lee Felix e eu trabalhava como contabilista em um escritório, como pode notar não sou muito bom de briga e sou completamente vulnerável… então, o que acha de unirmos forças para sobreviver?

O rapaz o olhou desconfiado.

— Como sabe que sou uma pessoa confiável? Eu… era um… um… assassino de aluguel.

Felix deu risada.

— Tenho a mais plena certeza que você não era, a julgar pela marca de tinta na sua roupa você deve ter crianças em casa, deve estar aqui para conseguir roubar alguma coisa que eles precisam ou talvez… você queira resgatá-las de alguma forma, só não sabe como.

— Você venceu — O rapaz suspirou — Eu estou desesperado, não sei em quem confiar, não sei pra quem pedir ajuda. Na verdade eu não sou assassino nem nada do tipo, tenho medo até de matar uma barata. Eu era babá e cuidava das minhas irmãs, mas elas foram levadas e não sei como vou fazer pra encontrá-las.

— Eu posso te ajudar, de qualquer forma não tenho pra onde ir. Mas antes de começarmos uma relação de interesse mútuo preciso esclarecer algo… Eu era assaltante de banco e não valia nada.

O rapaz riu.

— Acho que agora nada mais importa, é como se nossa vida passada tivesse ficado pra trás e você tem a chance de recomeçar. Alias, meu nome é Seo Changbin — Ele estendeu a mão para cumprimentar Felix e selar sua parceria.

— Belas palavras Bin, recomeçar é sempre bom e pra isso vou te ensinar meu ofício. Você pode recomeçar sendo meu parceiro do crime.

…

Alguns dias se passaram, e a dupla se mostrava imbatível quando qualquer pessoa tentava roubá-los ou fazer algum mal. Na verdade, Changbin precisava constantemente controlar Felix, pois, se dependesse dele, torturaria lentamente qualquer um que ousasse feri-los. Embora Changbin fosse habilidoso em combate físico, Felix contribuía com sua mente estrategista, muitas vezes evitando a necessidade de confronto direto.

Viver tornou-se arriscado e perigoso, com os humanos enlouquecidos. Nas cidades não dominadas pelos robôs, não existiam leis, governo ou policiamento. Embora os robôs tivessem orientado a permanecer em casa e não sair, prometendo suprir suas necessidades e protegê-los se obedecessem, a grande maioria não seguiu essas instruções, especialmente aqueles que perderam suas famílias, assim como Changbin.

Mesmo em meio ao caos total, ninguém era páreo para os dois. Apesar de serem opostos, encontraram benefícios naquela parceria, e uma forte amizade começou a florescer à medida que passavam horas caminhando e compartilhando histórias sobre suas vidas antes do caos.

Changbin não julgava Felix por suas atividades ilícitas; isso simplesmente não importava mais. Enquanto isso, Felix imaginava como seria incrível ter uma família grande e bonita como a de Changbin, sentindo a vontade de conhecer suas irmãs e talvez compartilhar conhecimentos úteis com elas.

Naquela tarde, as nuvens que se formavam indicavam que em breve iria chover; o céu estava escuro e as nuvens carregadas. Precisavam encontrar um abrigo, e Felix já tinha identificado o local perfeito: uma casa abandonada próxima à cidade. No entanto, precisava de alguém para verificar se era seguro. Observou ao redor, analisando quem parecia ser mais suscetível, e rapidamente identificou seu alvo.

Felix teve a sensação de já tê-lo visto em algum lugar, embora não conseguisse recordar onde. O homem alto, bastante atraente, transmitia uma imagem metódica, honesta e obediente, principalmente com seu penteado, óculos e o suéter amarrado em volta do pescoço. Era o alvo perfeito. Acompanhado por outro rapaz que parecia desesperado, buscando informações e mostrando fotos para as pessoas, provavelmente alguém em busca de sua família, como tantos outros naquela situação. Este último não representaria um problema, já que estava totalmente concentrado nas informações que as pessoas compartilhavam.

Felix chamou Changbin para um canto e explicou o que pretendia fazer. Enquanto ele planejava seduzir o homem bonito, porém ingênuo, Changbin ficaria encarregado de buscar suprimentos. Embora não estivesse totalmente satisfeito com os planos de Felix, Changbin concordou, ciente de que precisava manter-se vivo e saudável para resgatar suas irmãs.

Assim que Changbin se afastou em busca de suprimentos, Felix começou a colocar em prática sua parte do plano. Sorriu de forma amistosa quando o homem de roupas bregas dirigiu-lhe o olhar, dando início à execução de seu plano.