Backdoor
18 Alguém me desconfigurou
Felix sentia um arrepio que percorria sua espinha toda vez que fitava o suposto Jisung. Apesar de toda a semelhança com um ser humano, era impossível ignorar a realidade de que se tratava de uma máquina, destituída de qualquer vestígio de emoção. Mesmo consciente das capacidades das Inteligências Artificiais, testemunhar Zero Um se passando por um ser humano com tal maestria era algo inimaginável para Felix. A maneira como se movia, sorria e proferia palavras cativantes parecia meticulosamente calculada para confortar a todos ali. Zero Um era uma máquina, mas possuía uma compreensão dos sentimentos humanos superior a muitos seres humanos insensíveis. Contudo, nos olhos dele, havia um vazio inquietante.
Felix só percebeu esse vazio após descobrir a verdade por trás da pele sintética que envolvia Zero Um. Talvez, se não tivesse testemunhado a auto-reparação do androide, suas suspeitas não teriam se intensificado. Ele já tinha algumas desconfianças, mas as considerava meramente um ranço pessoal. No entanto, seus instintos, friamente treinados, nunca falhavam, e desde o início estavam corretos sobre aquele Han Jisung. Sabia que ele não era quem afirmava ser.
— Amor — Lee Know beijou a mão de Han com delicadeza — Notou que Felix está estranho ultimamente?
— Por que acha isso, amor? — Zero Um retribuiu o beijo com um sorriso, não entendia porque os humanos gostavam tanto de contato físico e de ver um sorriso no rosto da pessoa amada.
— Desde aquele dia em que fomos surpreendidos naquela casa abandonada ele tá mais isolado e diversas vezes peguei ele te encarando.
— Esse é o problema de você ter um noivo tão bonito — Zero Um sorriu, sabia que os humanos gostavam de resolver as coisas com senso de humor.
— Isso eu sei, você é o homem bonito que existe nesse planeta.
— Como você pode ter certeza disso?
— O que? — Lee Know estranhou a pergunta.
— Que sou o mais bonito do mundo. Existe algum parâmetro que define o que é belo aos olhos dos humanos? Se esse padrão existe, você já analisou todos os milhares de humanos que já existiram no planeta terra? Qual a probabilidade de você ter conseguido ver todos os rostos humanos com o tempo de vida tão precário que tem?
— Han, você tá bem? — Lee Know colocou a mão em sua testa para aferir sua temperatura.
— Ah sim sim — Zero Um sorriu mecanicamente, não tinha falado nada de errado mas Lee Know não conseguiria acompanhar seu raciocínio — Só estou brincando para descontrair… docinho — Simulou uma voz melosa como os humanos fazem quando falam com uma criança ou um animal de estimação, e deu certo, já que Lee Know parecia se derreter quando ele agia de forma adorável.
— Tudo bem meu amor, mas voltando a falar sobre o Felix, não acho que ele esteja te encarando por alguma segunda intenção, longe disso. Sinto como se ele guardasse algum rancor, é como se ele estivesse com raiva — Disse Lee Know, pensativo.
— Não é nada disso. Felix é um rapaz de bom coração apesar de suas atitudes no velho mundo. Ele não é alguém que nutre sentimentos ruins por outras pessoas, ele só é alguém solitário, talvez só esteja cansado de fazer essa viagem. Ou talvez o seu julgamento esteja sendo afetado pelo cansaço.
— Você parece conhecer bem o Felix, parece que consegue compreendê-lo.
— Conheço ele tanto quanto você. Mas basta olhar com mais atenção que consegue ler qualquer pessoa. Os seres humanos são fáceis de ler.
— E o que você consegue ler de mim? — Lee Know o puxou pela cintura e aproximou seus rostos a um palmo de distância.
Zero Um o analisou silenciosamente.
— Pela sua pupila dilatada, seu coração acelerado, sua respiração ofegante e a temperatura corporal esquentando, posso afirmar que você quer ter relações sexuais comigo.
Lee Know deu risada e balançou a cabeça negativamente.
— Você está falando umas coisas estranhas ultimamente, mas mesmo assim estou feliz de ter você aqui comigo novamente. Eu te amo, Hannie — Lee Know lentamente aproximou seu rosto, segurou o rosto do suposto noivo e o beijou com ternura. Foram interrompidos quando Felix pigarreou na frente deles — Acho melhor nos beijar quando estivermos a sós — Disse Lee Know.
— Não vejo problemas em demonstrar afeto na frente de outros humanos. Somos um casal — Disse Zero Um.
— Tem razão — Lee Know ficou em silêncio e passou o dedo nos próprios lábios.
— O que houve? — Zero Um analisou sua expressão — Está preocupado com algo?
— Não é nada. Tá tudo bem, como você disse é só cansaço mesmo.
— Descanse, vou ajudar a preparar algo para comer — Zero Um se levantou e lhe deu um beijo na testa, se afastou e foi na direção de Changbin que dividia alguns pães para comerem.
Ainda passando o dedo nos lábios, Lee Know ficou olhando para seu noivo.
“Tem algo diferente… os beijos do Hannie, estão diferentes” — Pensou ele.
…
Hyunjin estava sentado com os braços cruzados e a expressão curiosa, enquanto observava I.N fazer sua jogada. Já era a vigésima vez que perdia no xadrez contra I.N, mas jogar contra uma máquina não era tão simples assim.
— Xeque — Anunciou I.N movendo sua peça.
— Você não vai me explicar o que houve aquele dia? — Hyunjin pegou uma peça qualquer.
— Qual dia, Senhor Hwang? — I.N pacientemente aguardava a jogada inútil de Hyunjin, ele perderia se fizesse qualquer movimento.
— Você sabe, não se faça de desentendido.
— O dia referente ao seu nome? — I.N sorriu — Foi uma falha no sistema, eles colocaram informações sobre você no local errado e deu pane. Mas já atualizaram.
— Aquilo não pareceu uma falha, pareceu tão…
— Humano? Essa é a ideia. Queremos parecer o mais humano possível.
— Não, isso não está certo. Quer dizer, vocês não foram feitos pra ter falhas, e naquele dia você soou como uma pessoa desesperada — Hyunjin colocou a peça de xadrez em qualquer lugar no tabuleiro e então segurou a mão de I.N, que o olhou com sua típica expressão sem vida — I.N, por favor me ajude a sair daqui, eu sei que você pode controlar as câmeras e também as portas, se sairmos daqui juntos podemos ser livres.
— Mas eu não estou preso, é o senhor que está.
— Então, mas nós somos amigos, não somos? Me ajude e poderemos ser amigos pra sempre.
— Você é orgânico, não dura muito, seu pra sempre acaba rápido.
— Olha, você entendeu. Mas podemos negociar algo, o que você gosta? Pasta térmica? SSD? Já sei, placa de vídeo! Eu posso conseguir, só me tire daqui, por favor, preciso procurar meu irmão.
— Está me subornando?
— Sim?
— Essa é uma piada que os humanos costumam contar?
— Não, eu to falando muito sério. Bora negociar umas peças, eu consigo pra você.
— Senhor Hwang, agradeço sua oferta, mas tenho a disposição tudo o que preciso da mais alta tecnologia, e além do mais, sou fiel para o que fui programado.
Hyunjin suspirou.
— Bom, pelo menos eu tentei.
— Não desanime — Disse I.N — Uma vez quando eu era pequeno tive que barganhar a semana inteira com meus pais para conseguir ir numa excursão com meus amigos.
Hyunjin o encarou, paralisado. I.N continuava o olhando com um sorriso gentil e um olhar vazio, parecia não ter percebido o que tinha acabado de dizer.
— I.N, o que foi que você disse?
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