Back to the TARDIS
1 "Bem-Vindo a Storybrooke"
Notas iniciais
Eram 3 da tarde quando o céu começou a escurecer. Os trovões eram o único barulho que eu ouvia além do motor da Belina, mas logo as pesadas gotas de chuva se juntaram a sinfonia batendo insistentemente no capô. Sorri ao me lembrar do meu avô dizendo “O Delorean pode voar, você quer ver?”. Eu, uma criança na época, dizia “É uma Belina, vô!”, mas ele sabia que eu amava imaginar que aquele carro fosse realmente a máquina do tempo do filme De Volta para o Futuro. Então ele acelerava e gargalhava, fazendo o barulho de estrondo que o Delorean fazia no filme. Ele nunca foi bom nisso, mas nunca questionei. Além do mais, nunca chegamos a atingir a velocidade de 140 km/h.
A estrada estava completamente vazia e os relâmpagos a iluminavam de minuto a minuto, cada vez mais claros. Acelerei. Queria chegar o mais rápido possível em casa. Foi quando o limpador de para-brisa resolveu parar de vez. O vidro embaçou e eu, enlouquecida, tentei limpar por dentro com a manga da blusa de frio. Então o raio atingiu a Belina. No momento, não sabia exatamente se era um raio, mas um barulho alto retumbou o ar no instante em que me atingiu fazendo com que eu perdesse o controle e parasse no acostamento.
A cabeça doía. Coloquei a mão sobre a têmpora esquerda e ela voltou molhada de sangue. Resmunguei. Um baque no vidro me fez virar abruptamente, o que piorou a dor. Alguém estava do lado de fora, mas a escuridão não deixava ver quem era. Tentei ligar o carro várias vezes, mas não obtive nada além de engasgos do motor. O ser estranho bateu novamente no vidro, desta vez aproximando o rosto dele.
—Meu Deus...-sussurrei.
Fui para o banco de trás e me encolhi. Seja lá quem fosse, não iria conseguir entrar com as portas trancadas, a menos que quebrasse o vidro. Essa ideia me causava arrepios.
∞
Acordei com a luz do sol iluminando meu rosto. O ofuscante brilho me fez piscar algumas vezes.
—Bom dia-disse uma voz de dentro do carro.
—Socorro! — gritei, assustada e indignada, ainda um tanto adormecida.
Havia um homem sentado no banco do carona, e eu não entendia absolutamente nada. Minha primeira reação foi dar um ponta pé na cara do indivíduo e lutar para sair dali. Puxei a maçaneta da porta e fui jogada para fora quando ela abriu para cima. Sim, para cima. Me arrastei pelo asfalto ainda molhado pela chuva da noite anterior.
—Por que fez isso? -disse o homem enquanto eu me levantava e corria estrada a fora- Pare, eu não irei machucar você!
Olhei para trás, confusa e caí. Isso de certo modo me fez lembrar das aulas de Educação Física, afinal, nunca fui boa com esportes e sempre acabava sendo mandada de volta para casa com lesões consideráveis. Fechei os olhos, ainda no chão, desejando realmente desmaiar. Senti sacolejos, e abri os olhos devagar.
—Eu não irei machucar você-repetiu ele-Eu sou o Doutor.
Levantei com a ajuda dele, não acreditando no que estava vendo. Ali estava o Doutor, sua décima primeira face estampada com um sorriso amigável, um tanto manchado pelo sangue que saía de seu nariz.
—Me desculpe-murmurei, sem ter mais o que dizer.
—Não se preocupe-ele limpou o sangue com a manga do paletó-Eu sou o Doutor... Espere, eu já lhe disse isso.
—Não, não precisava dizer -eu disse, as palavras saindo em um gaguejo- Eu já sabia.
—Como? Já nos conhecemos?
—Não... Ai! -a cabeça voltou a latejar- O que é isso, uma pegadinha?
Não queria falar exatamente aquilo, mas se ele estava ali, outras pessoas também deveriam estar. Bancar a maluca Whovian (fã de DW) não iria contribuir para uma boa imagem. Logo me pus a procurar câmeras nas árvores, plantas e até na minha roupa. Enquanto fazia isso, disse:
—Fala muito bem o português, Matt Smith.
—Quem é Matt? -perguntou ele.
—Muito engraçado-respondi- Em que programa eu estou? Minha vó falou sobre eu gostar de Doctor Who? Ela vai aparecer na tevê também?
—Doctor Who? Que tevê?
Parei. Se aquilo fosse mesmo um programa de televisão, alguém teria aparecido para socorrer o ator e a mim também.
—Isso é sério?
—Isso o que? -ele parecia confuso.
—Isso.
—Mas o que é “Isso”?
—Eu não sei- disse. Nós dois estávamos confusos- Você sabe?
—Não-ele respondeu-Por que você tem um Delorean?
Olhei para a Belinda. É, agora ela não era uma Belinda, mas sim um Delorean. Minha nossa, eu tenho um Delorean! Meu Deus, era uma Belina Del Rey, e agora é um Delorean. Será que eu peguei o carro errado? Eu já disse Delorean?!
—Como sabe quem eu sou? -perguntou o Doutor.
Sentei no meio da estrada vazia tentando pôr os pensamentos em ordem. Depois, levantando a cabeça para a silhueta do Doutor conta a luz do sol, expliquei:
—Você é o Doutor, um personagem fictício de uma série de televisão chamada Doctor Who lançada em 1963. Você é um viajante do tempo que tem uma caixa azul chamada Tardis, que é maior por dentro do que por fora.
—Então,-disse ele, os olhos fixos no chão asfaltado- não há chances de você entrar na Tardis e dizer “É maior por dentro!”?
—Com certeza, não! Mas esse não é o fato principal. Você é um ser fictício no mundo real.
—Tem certeza? -perguntou ele e depois apontou para uma placa verde do outro lado da estrada- Você já ouviu falar em Storybrooke?
Levantei e andei em direção a placa. Toquei nela, só para averiguar se era real. Nela estava escrito “Bem-vindo a Storybrooke” em grandes letras brancas.
—Storybrooke! -li, pasma -Sim, já ouvi falar. É o cenário principal da série Once Upon a Time!
—E do que se trata esse entretenimento televisivo?
—Fala sobre contos de fadas que por uma maldição acabaram vindo para o mundo real.
—Talvez tenha acontecido o contrário com você-disse o Doutor, andando em círculos com a expressão pensativa. Depois olhou para mim-Você já foi amaldiçoada?
—Não-respondi- Não que eu saiba.
Tudo aquilo ainda me parecia uma brincadeira. Não era possível que eu e um viajante do tempo estivéssemos perdidos em Storybrooke com um Delorean enguiçado. E, parecendo ler meus pensamentos, o Time Lord foi em direção ao veículo, tirou a chave sônica de seu paletó, abriu o capô e pude ouvir o familiar zumbido do instrumento. Por fim, ele entrou no carro e o ligou. Foi então que um pensamento invadiu minha mente:
—Doutor, onde está a Tardis?
—Também gostaria de saber. Em um momento eu estava com Amy e Rory a caminho das belas Ilhas Flutuantes de Aer-respondeu ele- e no outro eu estava encharcado no meio de uma estrada.
∞
Estacionei na frente do restaurante da Vovó. Storybrooke estava vazia, e o único barulho que se ouvia era de dentro da estalagem. O Doutor se remexeu no banco da frente, visivelmente animado e ainda segurando um pequeno lenço branco contra o nariz ensanguentado.
—Vamos entrar aqui? -perguntei, um medo na voz a fazia estremecer.
—Bem, você mesmo disse que o restaurante é muito frequentado- respondeu o Doutor, jogando o lenço para o banco de trás- Vamos conseguir informações aqui.
No instante em que saímos do Delorean (sim, Delorean!), pude ouvir um som familiar. Então, em uma esquina a poucos passos de onde estávamos, uma leve silhueta azul surgiu, pálida a luz da manhã. O Doutor correu em direção a ela e tentou toca-la, mas assim que o fez ela desapareceu.
—Está instável-disse ele, mais para si mesmo do que para mim- Ela não consegue pousar.
Ele usou a chave sônica no ar e, carregado por uma decepção visível, entrou no restaurante e eu o segui.
Todos pararam suas conversas altas para nos encarar. Me senti uma fora da lei entrando em um Saloon, embora imediatamente nos ignoraram e voltaram a seus afazeres.
— Pessoas novas! — disse uma voz, logo acompanhada de um jovem garoto que eu bem conhecia. Ele abriu um grande livro de capa encouraçada sobre o balcão- Olá, eu sou Henry, e preciso fazer umas perguntas. Primeiro, quais os nomes de vocês?
—Eu sou o Doutor.
—Milena-respondi, um tanto pasma com todos aqueles personagens de uma série que eu via, bem ali, sentados e saboreando um belo café da manhã.
—Vieram das Histórias não Contadas?
—Não-respondemos o Doutor e eu.
Henry franziu o cenho.
—Por que estão todos perturbados? — perguntou o Doutor, alto demais, encarando cada um ali presente.
—Houve um tremor hoje de manhã-disse Emma Swan, se levantando de uma mesa ao fundo do restaurante onde estavam sentados Gancho, Branca e Encantado, que segurando nos braços o pequeno Nil, sorriu para nós.
—Tremor? — perguntou o Doutor, que voltou a tirar a chave do paletó- Forte?
—Não, só quebrou alguns copos da Vovó há uma hora atrás- respondeu Emma.
—Houve algo mais além de tremor? — o Doutor indagou, fazendo sua habitual sonificação do lugar.
—Um clarão-respondeu Branca, ou melhor, Mary Margaret- E uma sensação horrível de que esquecemos alguma coisa.
Olhei ao redor. Aquela deveria ser a sexta temporada. Ou não?
—Sentiram a falta de alguma coisa? – perguntei.
Todos se entreolharam. Havia algo na expressão deles que dizia “Sim”, ou talvez um “Talvez”.
—Estamos em Storybrooke, certo? — comecei, mapeando as coisas na minha cabeça confusa, colocando em pauta os acontecimentos principais- O Reino da Histórias Não Contadas está aqui por causa do Sr. Hyde e Regina se dividiu em duas...
—Quem é Sr. Hyde? — perguntou Encantado, ou David Nolan, como preferir- E como assim a Regina se dividiu em duas?!
A agitação estava na face de cada um ali presente, até a Vovó parecia perturbada.
—Como acham que o Reino das Histórias não Contadas veio parar aqui em Storybrooke?
—Junto com o tremor- respondeu Henry.
—Mas o tremor não foi há uma hora? -perguntou o Doutor.
—Sim! -respondeu Emma, colocando a mão na testa em sinal de desespero- O que está acontecendo conosco? Por que essas pessoas estranhas estão aqui?
A àquela altura, todos na lanchonete nos encaravam com olhares assustados, como se não soubessem onde estavam ou quem eram. Isso me fez pensar se tudo aquilo era real. Me sentei próxima ao balcão contemplando o silêncio que agora pendurava.
—Tome, querida- disse a Vovó, me entregando uma xícara de chocolate quente- Está muito pálida e parece ter frio. Gostariam de quartos?
—Não temos dinheiro- disse o Doutor e eu logo tirei a xicara dos lábios e pus de volta à mesa.
—Se conseguir esclarecer o que houve- disse Emma- eu mesma pagarei a hospedagem de vocês.
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