Back to the Rain
2 Frente Fria
Notas iniciais

As suas roupas estavam completamente molhadas. Muita água escorria pelos seus cabelos e seus pés escorregavam dentro dos sapatos. Xingou baixinho. Estava muito longe do colégio, e até lá provavelmente iria pegar um resfriado.
Porque ela tinha que se esquecer de pegar o guarda-chuva?
As gotas engrossavam cada vez mais. O jeito era ficar embaixo de um toldo e esperar a chuva passar. A garota encostou-se na parede da loja e fechou os olhos, esperando.
– Ei. – alguém disse ao seu lado.
Hinalya deu um pulo e virou-se para ver. Lá estava Niar, dessa vez usando um short jeans e um moletom azul marinho. Carregava consigo um guarda-chuva
– Niar! – a garota colocou as mãos no peito, assustada – Que susto!
– Desculpe – disse com um meio sorriso – achei que gostaria de um guarda-chuva.
– Onde você o conseguiu?
– Peguei da sua casa, ora.
– Da minha casa? – Hinalya arregalou os olhos – Você entrou na minha casa?
– Não, ele estava na varanda. Eu só pulei o murinho e o peguei. –disse simplesmente.
A garota soltou uma risada e estendeu a mão, pegando o guarda-chuva – Obrigado.
– Não tem de quê. – ele colocou as mãos nos bolsos do casaco e deu meia volta, preparando-se para ir embora.
– Espera. Não quer me acompanhar até o colégio? – Hinalya sorriu.
Niar abriu e fechou a boca
– Tudo bem, então – disse, dando de ombros.
A garota abriu o guarda-chuva e deu um passo para frente.
– Não. Pode deixar que eu seguro – o espírito tirou o cabo do guarda-chuva da mão de Hinalya e se aproximou, encostando seu ombro no dela. Cobriu a cabeça de ambos com o guarda-chuva e olhou para a garota pelo canto do olho – Vamos?
A garota sorriu.
– Vamos.
Começaram a caminhar. O vento estava bem forte, mas Niar segurava o guarda-chuva com força para ele não sair voando. O espírito olhava sempre para frente, com olhar distante, absorto em seus pensamentos. Ele parecia, como sempre, triste.
Hinalya não sabia ao certo se era uma boa idéia pergunta-lhe qual era o motivo de sua tristeza. Mas ela sentiu que precisava ajudá-lo, de alguma maneira.
– Niar... Eu estava pensando... O que você faz enquanto está chovendo? Fica simplesmente por aí, andando?
– Bom, é...
– Que coisa sem graça! Você passa sua vida inteira pisando em poças?
Ele suspirou.
– Sim.
– Você tem que se divertir um pouco, Niar! Olha, o que você acha de nós passearmos um pouco pelo centro da cidade?
– Pelo centro? Mas você não tem aula agora? – perguntou.
– Tenho, mas não tem problema! Qualquer coisa eu digo para a minha mãe que as aulas foram canceladas por causa das chuvas fortes, e que eu passeei um pouco na cidade para passar o tempo.
– Tem certeza? Quero dizer, você pode se ferrar depois. Não que fazer você ter problemas. – disse, olhando para mim.
– Você fica tão fofo quando está preocupado! –quando disse isso, Niar corou – Sério, não tem problema. Vamos nos divertir bastante! E aí?
O espírito a olhou com um olhar pensativo por alguns segundos, mas depois sorriu.
– Aceito seu convite.
A chuva continuava a cair cada vez mais forte. Os dois jovens deram meia-volta e viraram uma esquina logo depois, seguindo o caminho em direção ao centro da cidade. Hinalya ia chutando poças de água que encontrava pelo chão, enquanto Niar continuava com um olhar distante. Talvez Hinalya precisasse de mais para fazê-lo se animar.
Caminharam mais um pouco até chegar ao centro. Não havia tanta gente lá como de costume, por conta da chuva. As ruas estavam cheias de água, algumas pessoas se escondiam embaixo de toldos e outras embaixo de guarda-chuvas. Hinalya viu um garotinho correr ao seu lado, chutando poças d’água.
Dirigiu seu olhar a Niar.
– Que tal passarmos no cinema?
– Não sei, eu nunca assisti a um filme no cinema... – murmurou, olhando para o lado.
Hinalya colocou o dedo indicador nos lábio de Niar, calando-o.
– Vamos, vai ser divertido.
Segurou seu braço e o arrastou em direção ao cinema. O moreno corou, mas não disse nada.
Ao entrar no cinema, foram ver as seções daquele dia. O único filme disponível naquele momento era um filme de comédia, que parecia ser bem ruim. Hinalya soprou os cabelos na frente de seu rosto, decepcionada.
– Ah, tudo bem. Pelo menos vamos ver alguma coisa, certo? Quero dizer, por mais que o filme pareça péssimo e tudo mais... – Niar parou de falar. Aparentemente, ele não consegue soar otimista.
Por sua vez, Hinalya riu.
– Você está certo. Vem, vamos entrar na fila!
Chegando a sua vez na fila, Hinalya colocou sua carteira de estudante em cima do balcão da bilheteria e pediu para a vendedora:
– Duas meias para aquele filme, por favor – disse, apontando para o filme na televisão logo acima do balcão.
– Desculpe, mas preciso dos documentos do garoto também – declarou a mulher, apontando para Niar com uma caneta – Se não, ele vai pagar uma inteira.
–Ah, qual é – a garota colocou a mão no ombro do espírito, tentando convencer a mulher – Olha só a cara dele de adolescente. Você não precisa de documentos para saber a idade dele. – Niar apenas revirou os olhos, tentando disfarçar o constrangimento.
– Se ele não tem documentos, paga uma inteira. – falou a mulher monotonamente. Hinalya bufou.
– Tudo bem Hinalya – falou Niar baixinho, perto de seu ouvido – Vamos embora.
Hinalya estremeceu com o suspiro do espírito na sua nuca. Balançou negativamente a cabeça.
– Não. Hoje é seu dia. Eu vou pagar.
O moreno não insistiu. Hinalya pagou os ingressos e escolheu uma cadeira para sentar. O filme já ia começar, então correram para pegar uma pipoca e procurar a sala do filme.
– Ummm... Sala 3. – murmurou Niar, olhando o ingresso. Parecia meio desconfortável no meio da multidão do cinema.
– Certo. É por ali – apontou Hinalya, com a mão que não estava segurando a pipoca.
Entrando na sala 3, viram que o filme já havia começado. Procuraram rapidamente suas cadeiras no escuro. Hinalya tropeçou várias vezes e quase derrubou a pipoca. Sentaram-se na fileira H, que escolheram justamente por ter menos pessoas nela. O moreno não gostava muito de pessoas ao seu redor.
O filme durou 1 hora e meia. Foi tão ruim que Hinalya ficou impressionada como tinha tanta gente assistindo. Mesmo assim, riu muito das partes idiotas, e Niar riu com ela. Hinalya teve a impressão de que o espírito pegava pipoca sempre ao mesmo tempo em que ela, para tocar em sua mão.
Talvez tenha sido só sua impressão, mesmo.
Ao final do filme, Niar pareceu mais animado, apesar de não estar rindo tanto quando Hinalya. A garota jogou o pacote de pipoca vazio no lixo, e os dois foram caminhando até a saída do cinema, enquanto iam conversando.
O espírito pegou o seu guarda-chuva pendurado na chapeleira próximo à saída, abrindo-o. Já fora do cinema, cobriu a sua cabeça e a de Hinalya, protegendo-os da chuva.
Continuaram caminhando e conversando nas ruas molhadas. Até que, em um momento da conversa, Niar perguntou, interrompendo Hinalya:
– Por que fez isso?
A garota o olhou sem entender.
– Fiz o que?
– Isso. Você faltou sua aula para sair comigo sabendo que poderia se envolver em problemas. Assistiu a esse filme idiota comigo. Pagou um ingresso inteiro para mim. Quero dizer, o que eu fiz para você me tratar como alguém tão especial?
– Você não fez nada. Mas eu sinto que você parece... Triste. Quero fazer você feliz.
Niar corou. O espírito desviou o olhar e contraiu os lábios.
– Desculpe de te ofendi. Nunca lidei muito bem com pessoas.
– Não se preocupe – disse Hinalya – Mas foi divertido, não foi?
– Foi.
Continuaram a caminhar, em silêncio. Até que, perto da cada de Hinalya, a chuva começou a diminuir. Niar estava começando a ficar transparente.
– Ah. Já estou indo embora – sussurrou Niar, olhando para os lados para conferir se não havia ninguém por perto.
Enquanto ia ficando transparente, o espírito olhou nos olhos de Hinalya. Ela fitou seus belos olhos negros.
Antes de desaparecer por completo, Niar sorriu e disse:
– Obrigado.
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