Back to the Past
6 Which then are revealed the dreams
Notas iniciais
Eu pensei comigo mesma e resolvi que não contaria à ele como eu sabia dos sinais que pareciam cometas e muito menos do medalhão, ele poderia achar que eu era uma espécie de louca ou stalker que perseguia ele e acabar se afastando de mim... E isso eu não queria, não queria mesmo.
Ok, tenho sempre um plano B, C, D e E, ou todo o alfabeto. Espero que isso dê certo.
— Quando eu soube que você perdeu boa parte da memória, eu jurei para mim mesma que não tocaria nesse assunto, muito menos forçaria algo... Mas como você está interessado, vou te testar, ok? — Disse no tom mais inocente possível enquanto olhava para ele e já pensava no que fazer. — Volto num minuto.
— Não vou a lugar nenhum.
E disparei escada acima em direção ao meu quarto à procura do que usaria para o teste; ouvi ele dizer algo lá, mas não dei importância.
Eu pensava e pensava no que usaria até que achei o medalhão, na época, ele disse ser algo de família e que serviria como um amuleto para mim.
É Isso!
— Ritsu! Aqui está o que eu queria te mostrar.
Sentei-me à frente dele e mostrei o medalhão para Ritsu, esse que me olhava um tanto confuso como se buscasse alguma lembrança no fundo de sua mente.
— Vamos, olhe bem para o medalhão, eu vou hipno...
— Fui interrompida assim que ele pegou o medalhão de minha mão e começou a observá-lo de perto. Ele alternou o olhar entre mim e o medalhão repetidas vezes com a mesma expressão confusa.
— Eu já vi isso antes. Esse medalhão, ele é tão familiar. Ele é meu... Como ele veio parar aqui?
Pega de surpresa? Com certeza, agora teria que inventar uma desculpa para explicar como o medalhão acabou comigo. E eu sou horrível em sustentar mentiras.
— Familiar? Legal mas, não é seu, não. Eu comprei em um antiquário. Agora anda, devolve aqui e se acalma que, se der certo, tudo vai se arrumar.
Peguei o medalhão das mãos dele e dei início à minha sessão de hipnose barata; o medalhão balançava de um lado para o outro fazendo tic tac, enquanto Ritsu olhava fixamente para ele. Sendo sincera, quem sentia sono era eu.
— Olhe bem para o medalhão, siga minha voz, você está caindo. Caindo no sono e, assim que eu contar até três, você irá dormir, e se lembrará de tudo.
— Procurei minha voz mais doce e calma, e também segurei o riso. Aquilo era uma grande piada, eu não sabia hipnotizar ninguém!
— Vamos lá...1, 2, 3 e... Ah, desisto! — Caí no riso bem na frente dele enquanto guardava o medalhão. Ele também começou a sorrir e parecia o sorriso mais lindo do planeta.
— Então a senhorita me enganou. Não sabe hipnotizar, não é? Fez isso só para eu ficar aqui mais tempo? Olha, como não vai dizer como o meu medalhão foi parar com você, muito menos como sabe dos cometas, eu vou embora.
— Ele fez questão de dar ênfase à palavra "meu"; o que significava que não havia caído na mentira.
— Se é isso que você acha, não irei discordar. Mas antes, feche seus olhos, por favor.
— O que pretende aprontar dessa vez?
— Fecha os olhos, Ritsu! Não vou fazer nada demais.
E assim que ele os fechou, depositei um beijo em sua testa; o que fez ele praticamente pular do sofá e me encarar com o rosto vermelho e extremamente confuso. Novamente, tive que usar todas as minhas forças para não rir da situação.
— Você...? O que você...? Está ficando louca?!
— Calma, calma! Foi apenas um beijo, faz parte do processo.
Embora ele já tenha ganhado outros desses naquele tempo, ele esqueceu mas eu não eu jamais esqueceria, sua reação foi uma das melhores.
— Você tem parafusos a menos, não tem?
— Claro! E as melhores pessoas também, não concorda?
— É, um pouco.
— Hum... "Um pouco" não é resposta. Você concorda ou não?
— Geniosa, você. Sim, eu concordo, um pouco de loucura não faz mal mas, no seu caso, é bom que procure tratamento.
Encarei ele procurando minha expressão mais brava possível, mas em alguns segundos, caímos novamente no riso; ficamos assim por alguns minutos até que ele resolveu ir embora, e eu não quis permitir.
Nos despedimos da porta; fiquei o observando pela janela enquanto ele andava pela rua, era linda aquela aparência de garoto durão mas que por dentro era um cara incrível. Mesmo que quebrado pela falta de memórias, eu sabia que ele ainda era o mesmo carinha que eu amava.
***
Ela é louca, sem dúvida alguma! Mas também tenho que concordar que aquele beijo foi algo bom, e consideravelmente novo ao mesmo tempo; porém, quando ela fez aquilo, não foi somente um susto que levei mas também fui atingido por uma forte sensação de nostalgia.
Eu não conseguia parar de me fazer milhões de perguntas sem respostas. Como ela sabia dos "meus" cometas? E meu medalhão, como ela o tinha? Aquela história de antiquário não me desceu nada bem. Aquele medalhão era meu, sem dúvida alguma, e isto estava agora na lista de "futuras investigações"; ou, como posso dizer melhor...? "Tirar a limpo com ela".
Mas o beijo, droga, o beijo, porque não esquecia aquilo? Era algo tão normal! As pessoas usualmente fazem isso! Porém ela ainda é uma estranha, uma estranha familiar.
E, se um beijo na testa de uma estranha maluca te deixa assim, imagine em outros lugares...
Ri com meu próprio pensamento, outros lugares?! O que eu pensava? Que receberia mais daquilo? Ah, não mesmo, antes de qualquer coisa, minha prioridade é entender como ela me conhece a tal ponto de saber coisas que ninguém além de mim tem conhecimento.
— Amanhã, Ritsu. E com calma! Amanhã você fará todas as perguntas para ela.
Sussurrei para mim enquanto parava à frente da porta de casa e procurava as chaves.
Ao chegar em casa, fingi não ouvir as reclamações da minha mãe pois, como sempre, ela estava dizendo algo sobre eu chegar tarde e sobre meus amigos; era sempre a mesma coisa, as mesmas reclamações, o mesmo discurso. Pelo jeito, ela não sabia dar um dia de paz aos meu ouvidos, eu já estava cansando disso.
Eu não aguento mais, sinceramente não aguento mais.
Subi para meu quarto e fui dormir ainda com o pensamento voltado para ela, as mesmas perguntas.
No meio da noite, acordei após um sonho muito estranho, mais estranho que os de costume.
Eu me vi pequeno no sonho, como se eu estivesse vendo um filme de mim mesmo; o estranho é que eu não mudei, porém o que mais me assustou é que eu não estava sozinho nesse sonho.
Havia uma garota lá. E eu não podia reconhecê-la por estar com o rosto envolto em neblina, mas de uma coisa eu tenha certeza, eu a conhecia de algum lugar. Seja la quem for, fez meu coração disparar na hora.
Eu vi um medalhão, um medalhão pendurado em seu pescoço. O sorriso que essa garota lançava para mim era o mais lindo do mundo! Mesmo que eu não pudesse vê-lo claramente.
E ainda, no sonho, ela me beijou provocando uma sensação que me fez querer não acordar.
Porém acordei e mesmo depois de desperto, eu ainda sentia aquela mesma sensação. Sentia o beijo, foi tudo tão real. Faltava algo na minha vida, faltava alguém... Eu sabia disso, meu coração e até mesmo minha mente mostravam isso, eu precisava descobrir quem era essa garota.
Depois de um tempo acordado e pensando em quem era a garota misteriosa, voltei a dormir e só acordei um pouco antes do despertador tocar...
Que saco, escola de novo! Hum, ao menos a maluquinha vai estar lá.
Fui para escola o mais rápido possível pois queria tirar a limpo aquele assunto com ela, nada daquilo era coincidência.
No meio do caminho, encontrei meus amigos, que perceberam que eu estava um pouco distraído e até mesmo "sonhando acordado", como diziam. Caçoaram de mim, dizendo que eu estava apaixonado. Logo eu... Apaixonado?! Aquilo me irritou um pouco, mas como eles sabiam que não gostava desse tipo de brincadeira, logo pararam.
E ainda bem que pararam, não estou afim de estresse hoje.
Quando cheguei no colégio, estava tão distraído que não reparei em todos que estavam me olhando e cochichando sobre o que tinha ocorrido no dia anterior. É ridículo como as pessoas gostam de observar e falar da vida alheia.
Mas eu estava mais interessado em falar com ela do que discutir à essa hora manhã, e também chega de brigas por um tempo, eu preciso sossegar.
Fiz questão de olhar para todos, parando meu olhar em cada um dos que murmuravam sobre mim; ao perceberem isso, não tardaram a se calar. Me sentei ainda calado, agora seria apenas esperar ela aparecer e iríamos resolver tudo aquilo.
***
Acordei minutos depois de meio dia, infelizmente, em más condições.
Sério?! Há quanto tempo não fico doente desse jeito?
Pelo visto, minha avó viu que eu não estava nada bem e resolveu que não poderia ir à escola hoje; o que é um belo de um alívio, um dia em casa não é nada mal.
Tentei me levantar mas acabei por cair sentada como um saco de batatas, eu sentia o corpo totalmente pesado, talvez ainda estivesse com febre; e isso era mal.
— Vó, a senhora está em casa...?
— Vó?
— Chamei diversas vezes mas só consegui silêncio como resposta, ela deve ter saído e eu precisava levantar. Era o melhor que eu poderia fazer.
Tentei levantar para tomar um banho para ver se a febre baixava um pouco, porém quando saí do quarto, tudo ficou escuro novamente e meu corpo pesou. Pesou até demais, até que caí novamente no chão, dessa vez apagando subitamente.
Acho que fiquei um bom tempo deitada no chão, e era um chão um tanto quanto... macio.
Espera, Macio!? Chão... macio?
Abri os olhos com calma e me vi em uma cama, cercada de paredes brancas. Estava obviamente numa cama de hospital. Não vi ninguém ali até que minha avó entrasse no quarto, acompanhada com um homem de branco, um médico.
— Querida, vejo que já acordou, como está se sentindo?
— Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim.
O médico que estava calado até o momento, riu e se pronunciou, agora parecia até que não iria parar de falar.
— Você estava com uma febre muito alta. Sorte que sua avó não demorou até chegar e ligar para emergência.
Eu já não estava tão paciente, queria sair dali pois era um saco ficar parada em uma cama de hospital; aliás, eu odeio hospitais.
— Entendo, mas quando vou poder ir para casa?
— Perguntei com minha clássica impaciência.
— Não tenha pressa, querida. O médico disse que se sua febre não subir hoje à noite, amanhã você poderá ir para casa.
Amanhã, legal. Isso é uma tragédia! Uma noite inteira aqui.
— Ok, vovó.
— Bom, me dêem licença, vou ver alguns pacientes.
— E ele saiu, ainda bem; mas minha avó ficou e pediu para que eu dormisse mais. Dormir e dormir, era somente isso que tinha pra fazer ali.
Acordei, creio que de madrugada. Tudo estava escuro e havia apenas a iluminação que a lua proporcionava, era como se eu estivesse sonhando. Tentei levantar e desta vez consegui, estranhei não estar mais sentindo nada.
Olhei pro lado contrário ao que levantei, havia um homem sentado e dormindo numa das poltronas.
Considerei estranho e dei um passo para trás, mas ao fazer isso, ele acordou e veio até mim com um sorriso no rosto, me deu um leve beijo na testa e sussurrou:
— Ainda bem que acordou, meu amor.
— Então, me abraçou.
Quando senti o abraço, fechei os olhos, e ao abri-los novamente, eu estava deitada na cama do hospital e a minha avó estava dormindo ao meu lado.
Deduzi ter acordado dentro de outro sonho, mas o mais estranho era que aquela pessoa do sonho parecia muito ele.
Acho que dessa vez não é um sonho.
Olhei o relógio e marcava cinco horas da manhã. Possivelmente, mais um dia em que eu não irei ao Colégio.
Já passava das duas horas quando o médico veio me dizer que eu já poderia ir para casa, porém minha avó havia saído para comprar algo para nós comermos.
E então eu me peguei pensando naquela pessoa do meu sonho. O mais estranho de tudo, tirando a parte que parecia muito real, é que eu ainda sinto o beijo na testa; e não só isso, sinto o perfume como se estivesse grudado em todo o ambiente.
— Senhorita Sakurai?
— Uma voz me despertou dos meus pensamentos, vi uma moça trazendo papéis e meus olhos brilharam. Era minha tão esperada alta!
— Sim, eu mesma.
— Respondi com um enorme sorriso.
— Aqui estão os papéis de alta.
Após ele entregar os papéis, assinei junto à minha avó. E médico sair do hospital foi uma benção, ao mesmo nível que me ver novamente em meu quarto, também foi. Chegamos em casa ultrapassando as quatro horas, e logo fui obrigada à passar por mais uma sessão de "descanso".
— Querida, descanse o resto do dia. Você vai ver como amanhã estará renovada.
— Certo, vovó, eu descanso. Mas ainda...
Deixei a frase no ar e recebi um sorriso como resposta, minha avó sabia que eu não gostava nem um pouco de ficar parada e que descansar era algo que não estava em meu vocabulário.
Meu quarto estava como havia deixado, inclusive meu celular, que estava sob a cabeceira piscando.
Nele haviam mais de cinquenta notificações de mensagens recebidas. Todas enviadas por Haruka, que perguntava onde eu estava, o que estava acontecendo e, também, havia a mais famosa "Não me deixa no vácuo, não!".
Como não tinha nada melhor para fazer, li todas elas, rindo em algumas. Mas de todas as mensagens, a que mais me chamou atenção e também fez meu coração bater, foi a que dizia:
"Você não vai acreditar! O Ritsu está vindo todo dia de manhã para aula e ficou a manhã toda olhando para sua mesa com uma cara de intrigado... E, bem, preocupado também."
Tive que responder aquela mensagem sem, ao menos, ler as outras. Eu quase, quase, que contei tudo aquilo à ela; somente em saber que ele sentiu minha falta, me fez querer pular da cama e sair dançando.
Porém, ao tentar responder, recebi uma ligação da Haruka. Ela perguntava preocupada como eu estava e quando voltaria a ir às aulas.
Expliquei tudo o que tinha acontecido e ficamos conversando até a hora do jantar, só desliguei porque minha vó me chamou para jantar.
— Haruka, vou jantar, amanhã nos falamos na aula.
— Até amanhã, melhoras e, não falte! Seu Príncipe a espera.
— Não enche! Somos somente amigos.
— Hum, sei. Melhoras, ok?
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