Back to You
1 Prólogo
Notas iniciais
Não tive chance de despedir-me da minha casa.
Sua casa não — lembrei meu subconsciente – agora é somente a casa dos seus pais.
Depois de tudo que ocorreu nesses último ano, a rapidez com que minha carreira decolou, o tempo livre era algo muito longe da minha realidade – não que eu esteja reclamando – porém queria ter tido um momento para sentar na sala de estar com meus pais e discutir sobre meu futuro.
Desde que assinei um contrato com a Island Records, tudo que tenho feito é ir de cidade em cidade em meu ônibus (casa), cantando por todo Canadá. Sei que isso é o que sempre quis e também o que muitos com a minha idade sonham, mas não posso deixar de pensar em como seria estar agora na minha antiga escola, cursando o último ano do ensino médio, como alguém não famoso, com meus amigos não famosos, fazendo coisas que não famosos fazem.
— Shawn, Gatineau em uma hora e 17 minutos. – diz Andrew, meu empresário extremamente pontual. Não posso deixar de rir de sua exagerada preocupação com meus horários, e logo o orgulho e admiração por minha equipe leva para longe todos os pensamentos contrários à essa vida.
—Tudo bem, Andy – ele me olha com reprovação, a mesma expressão desde a primeira vez que tentei uma aproximação. Por mais próximos que tenhamos ficado, ele ainda odeia esse apelido. – Vou tentar descansar um pouco, o show em Ottawa acabou com o que restava da minha garganta.
A equipe à minha volta troca olhares de preocupação, e tento deixá-los mais tranquilos sorrindo. Por mais que eu sinta dor, eles precisam de mim, e está fora de cogitação não fazer um show, tento nunca esquecer que a família dessas pessoas depende de quanto eu rendo.
Viro-me e vou em direção a minha cama, a parte debaixo de uma beliche que divido com Danny, o assistente de palco da equipe. Dou pulos de alegria mentalmente por ter tomado banho logo depois do show — já perdi a conta de quanto tempo perdi do meu precioso sono, apenas por ser preguiçoso e esperar para tomar banho em alguma lanchonete de beira de estrada -.
Após ajeitar-me na cama, fecho a cortina e ouço as risadas do pessoal no cantinho do ônibus, que apelidamos carinhosamente de “Cantinho da Sarah” – Sarah é uma das mulheres mais velhas na equipe, e está sempre falando, então, como o ônibus é pequeno, deixamos a salinha como o único lugar de conversação livre para o pessoal poder descansar em outros lugares -, enquanto dou uma olhada em minhas redes sociais; sinto que estou em casa. É reconfortante perceber que todos estão bem, apesar de longe de tudo que é superficialmente chamado de “lar”.
Adormeço feliz.
***
Levanto em um pulo. Ouço gritos por todos os lados, e por um breve instante amaldiçoo Sarah por sua voz alta, até perceber que nem ela conseguiria me acordar, depois do cansaço do último show.
Chegamos — afirmo em meus pensamentos.
Espio pela janela só para confirmar o que já tinha certeza: uma multidão de pessoas, em sua maioria meninas aos berros e pulos. Amo tudo isso, por maior que seja o medo de ser pisoteado até a morte quando sair do ônibus.
— MENDES! – Grita Andrew, olhando-me dos pés à cabeça – Você nem trocou de roupa ainda?
— Calma, calma. Onde estão minhas roupas? – reviro tudo, começando a entrar em pânico, odeio atrasos – Precisamos de uma arrumadeira na equipe. Vic, você viu minha camisa? – Grito a minha personal stylist, o que só faz a gritaria lá fora aumentar.
—No cabide atrás de você, Shawny! – grita ela em resposta.
Visto minhas roupas rapidamente, e paro na porta fechada, a única coisa que me separa de minhas fãs.
Deus, só não deixe elas me morderem – Relembro a vez em que fiquei marcado por duas doidas que entraram no ônibus escondidas. E saio.
Mal a porta abre, meus ouvidos explodem com todo o amor e carinho expelido pelas cordas vocais das pessoas à minha volta, e enquanto vou andando pelo corredor de acesso ao estádio Pierre Lafontaine, aperto mãos e tiro fotos. Existem fãs melhores?
Me sinto tão tímido e ao mesmo tempo tão feliz e amado, que fico apreciando a multidão, e no meio dela, posso ver olhos muito escuros totalmente vidrados em meu rosto; porém não há avidez nem felicidade naquele olhar, e sim algo parecido com raiva, muita raiva.
Aceno para ela, que parece por um momento surpresa, logo voltando a fulminar-me com o olhar.
Interessante. — não deixo de pensar, e continuo a caminhar.
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