Back in Black
21 Alternative Reality Part II. Final.
Notas iniciais
"No sexo, no casamento e na vida como um todo, jamais erre o alvo. Ou o tiro vai sair pela culatra."
– Holando HaleRgia
Retornamos para casa mais tarde e durante o trajeto todo, Sam conversava com Abbra sobre seu dia. A menina não me parecia muito inclinada a responder nada.
Eu por mim, preferi não me manifestar até o momento. Se não fosse Sam, é claro. De vez em quando ele tentava desviar o assunto para mim, pra que de algum jeito eu falasse com Abbra. Mas eu apenas balançava a cabeça afirmando ou respondendo com alguns monossílabos rápidos.
Sam pareceu perceber que eu estava desconfortável. A cara rabugenta que eu deveria estar aparentando, seria difícil se ele não percebesse alguma coisa. Mas ao menos, ele fingiu não ter visto e sendo assim, não tocou no assunto. Melhor assim... para nós dois.
Grande parte da minha preocupação tinha haver com ele. Estava pensativa sobre como iria convencê-lo. Pois o mesmo parecia acomodado e eu até diria que... feliz.
Poucas vezes vi Sam sorrir. Pelo menos sinceramente, não da forma sem graça ou cheia de segundas intenções. Mas hoje, ele parecia estar alegre e mais vivo do que costumava estar.
Me pergunto se Abbra tinha haver com toda essa felicidade repentina...
Enfim, eu havia deixado claro o bastante para ele e até mesmo para mim que eu estava ali por um único e simples -nem tão simples assim- motivo. A minha missão. E no momento se aquilo era o certo à fazer, não me importava muito as consequências. Mais tarde, de uma forma ou de outra, ele iria me agradecer. Eu sei que iria.
Por outro lado, meu outro motivo. Minha outra razão para me preocupar estava ali, do outro lado da rua. Estava.
O fato de eu estar tão preocupada com uma figura que eu não sabia distinguir se era apenas um fruto da minha imaginação, me deixava tensa, nervosa.
Eu não gostava do jeito em que aquele homem me olhava. Eu não gostava dos calafrios que a expressão dele fria, misturada com sarcasmo e ironia me causava e mais que tudo, eu odiava o fato de ele ser estranhamente familiar pra mim.
~~//~~
Sam destrancava a porta em uma rapidez um tanto... incrível. Se é que essa palavra transmite o que eu realmente quero dizer.
Pelo bolo de chaves que tinha em um único chaveiro inútil, me pergunto se eu não faria o mesmo me seu lugar... não, não faria. Mas finalmente, Sam pareceu destravar essa habilidade. Eu me perguntava se o velho -nem tão velho assim- Sam demoraria tanto. Provavelmente se ele tivesse apenas a presilha dos cabelos de Abbra, ele conseguiria abrir a bendita porta em questão de segundos.
– Lar, doce lar... - disse Sam.
Não concordei com a parte do doce...Nem do lar.
Só queria ir embora. Voltar para... a casa. Se é assim que posso chamar.
Abbra entrou primeiro e Sam fez um gesto para que eu fosse na frente dele.
Entrei e sem rodeio algum, fui logo em direção às escadas. Mas Sam segurou minha mão.
– Só um segundo... — disse enquanto usava a outra mão para trancar a porta. — Pronto, podemos conversar.
Antes de falar qualquer coisa, puxei minha mão. Enquanto demonstrava meu total desconforto. Aquela aproximação de uma hora para outra me deixou mais tensa do que eu já me encontrava.
Sam franziu o cenho. Lançando um olhar desconfiado pra mim, enquanto eu desviava minha atenção para qualquer lugar, menos para ele. Ele parecia como se quisesse entrar na minha mente e descobrir o porquê de eu estar agindo diferente com ele, mas pareceu perceber que me incomodava. Ele sabia também que, um dos problemas era a falta de espaço entre nós dois.
Ele deu um passo em minha direção. De modo que se eu virasse meu rosto para olhá-lo, era capaz de enfiar meu nariz em seu peito. Eu dei um passo para trás. Admito. Por birra de minha parte. Porém, assim que senti o material gelado da escada sob minhas costas, percebi que havia me encurralado.
Voltei a encarar ele, como se nada tivesse acontecido, e exclamei um "o que foi" irritada.
Sam remexeu os lábios finos, formando-se uma reta enquanto respirava profundamente. Eu tinha a impressão de que ele escolhia as palavras pra falar comigo. Não gostava disso.
– Olha... desde que fomos buscar Abbra você está agindo diferente comigo — fez uma pequena pausa, parecendo pensar mais um pouco. -, na verdade, desde que acordamos pela manhã você está distante de mim e eu queria saber o porquê.
Arqueei as sobrancelhas.
– Não tem nada a ver com você.
– Então tem a ver com quem?
Para minha surpresa, Sam havia se prontificado e parecia ainda mais determinado quando respondeu rapidamente.
– Com quem não lhe diz respeito. Agora me dê licença... e por favor saia de cima de mim.
Sam não disse nada e se afastou como eu havia pedido.
Olhei envolta para saber se Abbra havia assistido ao nosso "pequeno desentendimento de casal", mas ao que pareceu ela havia ido para seu quarto, no andar de cima.
"Ainda bem." pensei. "Não estou com a mínima vontade de explicar ou entrar em uma situação "complicada" com uma garotinha de 10 anos."
Olhei de relance para trás.
Sam ainda estava no mesmo local de antes, me encarando. Como se só agora ele tivesse percebido que tinha algo errado.
Agora vou torcer para que ele perceba também que isso tudo, está errado.
Sem me virar ou encarar ele, subi as escadas rapidamente. Vez em quando pulando dois ou três degraus para chegar mais rápido, o que era meio impossível, graças ao bendito salto alto.
Avistei a porta do quarto de Sam. Por mais incrível que pareça, ela era uma das únicas que eu havia decorado. Depois daquele incidente matutino, seria meio difícil esquecer e apesar de eu querer, sabia que aquele era um dos únicos lugares que eu teria privacidade. Eu esperava que Sam soubesse que eu queria ficar sozinha e respeitasse isso.
Assim que abri a porta, uma mão me segurou. Eu já estava pronta pra empurrar um certo ser moreno, mas me enganei. O "ser" não era moreno e nem homem. Não era maior que eu, pelo contrário, eu dava duas de seu tamanho. Só então percebi que a mão que estava na metade de meu pulso, era pequena e frágil e o apertava de forma doce e carinhosa.
Abbra estava em minha frente com os ombros encolhidos. Notei que ela estava um pouco ruborizada.
– E-Eu... eu preciso falar com você. — disse baixo e eu tive de me esforçar para conseguir escutá-la
Só então eu percebi uma coisa: ela fez alguma coisa errada.
Suspirei.
"De repente, todas as pessoas querem conversar comigo" pensei.
– Você não é a única... -sussurrei.
– O quê? — perguntou Abbra.
Acabei de perceber outra coisa: a audição de humanos é péssima.
– Nada. — suspirei. — Diga-me, o que houve?
Ela retraiu ainda mais os ombros, envergonhada.
– O que você fez de errado?
– Nada. — respondeu rapidamente. — Eu só queria pedir...
– Olha, se for pra ir em uma festa ou na casa de um garoto... pergunte para seu tio. Eu não tenho nada haver com isso.
– Mas porque eu perguntaria para o tio Dean?
Eu abri a boca pra falar alguma coisa, mas fechei-a rapidamente. Dean não era o pai dela? Tudo bem, isso explica algumas coisas como: ter foto dele e Abbra nessa casa, mas então porque ele ligou para Sam e pediu que ele pegasse Abbra na escola?
– Tio Dean...? — automaticamente perguntei.
Abbra deu uma risadinha.
– Bem que papai falou que você não estava se sentindo bem hoje...
"Seu pai é um filho da puta" pensei.
– Tá. — ainda estava tentando assimilar a ideia de que Abbra era filha de Sam. — Tudo bem. Sobre o que você queria falar comigo mesmo?
– Ah... era que... — ela voltou com a expressão envergonhada. — minha amiga perguntou se eu posso dormir na casa dela, hoje.
Quando eu iria responder, Abbra acresentou:
– M-Mas não é nada, s-se você não quiser eu posso dizer que não posso e...
– Acalme-se, não tem o porquê de você ficar nesse estado. — ela estava começando a ficar trêmula. — Você pode ir sim.
Os olhos da menina começaram a brilhar e aos poucos ela parou de ficar tão reservada. A prova disso foi quando ela em um salto agarrou minhas pernas.
Por pouco, quase fomos para o chão juntas.
Ela pareceu se lembrar de algo e voltou ao lugar inicial com o rosto ruborizado novamente. Que mudança radical.
– M-Mas e se papai não deixar?
Eu me perguntou qual o motivo para ela temer tanto assim.
– Aí ele se entende comigo. Se ele falar alguma coisa pra você, venha me ver novamente.
– Muito obrigada, mamãe. — disse e saiu saltitante.
Um arrepio percorreu meu corpo.
"Mamãe".
~~//~~
Já dentro do quarto fiquei pensativa. Não só com essa história de "mamãe e papai", mas com tudo. Absolutamente tudo.
Essa realidade era uma confusão que só. Além é claro, de aqui eu não ter como fazer nada. Sentia minha energia esgotada e sei lá para onde havia ido minha graça.
O jeito era bolar um plano. Usar todas as minhas táticas e todos os truques que eu havia sob minha manga. Eu tinha de fazer Sam lembrar, mas não sabia por onde começar.
Tinha tantas coisas... Tantas memórias... porém, apenas algumas eu havia vivenciado com ele.
Eu tinha de fazer Sam lembrar como era a vida de caçador. Como era a realidade, aquela em que os monstros viviam entre os humanos e aquela em que ele batalhava todo santo dia para salvar as pessoas, sem receber nada em troca. Muitas vezes nem um "obrigado".
Porém eu tinha vivido tempo o suficiente nessa realidade para descobrir que demônios e criaturas sobrenaturais não existiam aqui. Ele não sonhava com aquilo que lhe traria a realidade, mas... sonhou comigo. E ainda por cima, Sam me imaginou como sua esposa.
– Toc...Toc... — escutei as batidas repentinas na porta do quarto.
– E-Entre. — disse, me recuperando de meu estado quase vegetal.
Sam apareceu na porta.
– Querida, estou incomodando?
"Está".
– Não. Pode entrar, eu gostaria mesmo de falar com você.
Sam entrou e fechou a porta logo atrás de si.
– Você... você deixou Abbra dormir na casa de sua colega? — Sam sentou-se na beira da cama, perto de mim.
Ela falou pra ele. Ele questionou e ela mandou ele vir falar comigo. Além de sapeca a guria é obediente... gostei dela.
– Sim. Porque não deveria?
– Abbra tem uma prova importante amanhã.
– Ela me disse que vai estudar com sua amiga.
– E você confia nela?
– Lhe dei um voto de confiança.
Sam ficou calado.
Um silêncio se estendeu durante alguns minutos longos. Sam olhava todas as partes e detalhes do quarto, menos para mim. E eu continuei encarando ele, sem desviar minha atenção.
– Olha, eu queria pedir... — começou envergonhado, mas eu o interrompi.
– Desculpas? Não foi culpa sua, então não tem o porque você se desculpar.
"E nem eu."
– Não foi só por nossa discussão, mas... por hoje de manhã... — ele sorriu sem graça e só depois me dei conta do que se tratava.
– Ah... então nesse caso eu devo pedir desculpas, por ter te derrubado no chão.
Ele riu gostosamente.
– Eu te perdoo nesse caso, apenas se você aceitar sair comigo amanhã.
– Amanhã? — ele fez que sim com a cabeça — Amanhã não posso. Se tudo der certo, estaremos ocupados.
Sam franziu o cenho e sua expressão mudou.
– Irei levar Abbra para a casa de sua amiga. — disse seco.
– Tudo bem. — respondi desviando o olhar.
Sam se levantou e foi até a porta, mas antes de sair, se virou e me encarou curioso.
– Estaremos ocupados amanhã? Com o que?
Reprimi a vontade de sorrir.
– Você verá...
~~//~~
Estava decidida. Hoje eu e Sam voltaríamos para a nossa devida realidade e tudo voltaria ao normal.
Sam havia saído meia hora atrás para levar Abbra. A menina estava bem animada e me abraçou como sinal de agradecimento. Ele havia se arrumado pois, segundo ele, passaria em seu escritório para ver se estava tudo em ordem e avisou que não demoraria muito tempo.
Assim que Sam e ela saíram, me dirigi ao quarto de casal. Tomei uma ducha rápida e passei alguns dos vários perfumes que havia espalhado pela cômoda. Senti falta de um espelho na hora de me maquiar. Pois por incrível que pareça, não havia encontrado nenhum até o momento.
Vasculhei o closet de Allice e consegui encontrar a roupa que queria. Era preta e possuía um cinto embutido. O decote não era muito profundo, mas o bastante para demonstrar minhas intenções. O tecido era macio. Dando por sua aparência, o vestido ficaria justo em mim.
Era o meu tamanho.
Coloquei uma lingerie preta, juntamente com uma cinta liga rendada. Pus o vestido logo em seguida e por fim, calcei um salto alto preto de bico fino. Apesar de realçar minha panturrilha e acentuar meu traseiro, eu tinha de tomar cuidado e escolher o menor, pois minha intenção não era ficar do tamanho de Sam.
Escutei o ronco do motor do carro perto da casa. Me levantei apressadamente da cama e desci as escadas. Em seguida fui para a sala, onde eu havia deixado tudo arrumado. Me sentei no sofá e fiquei esperando... Apenas esperando para por meu plano em prática.
~~//~~
O barulho das chaves tilintava e causava ecos dentro da casa vazia. Assim que a porta foi destrancava fora aberta aos poucos, causando um rangido agudo e nervoso. Sam entrou. Com os olhos atentos e expressão curiosa, insolente.
Soltei uma risada baixa e abafada contra a taça de vinho que tinha em mãos. Sem tirar os olhos de Sam virei-a novamente, fazendo o líquido vermelho escorregar para dentro de minha boca. Enquanto ia deixando o gosto amargo e quente por toda a extensão de minha garganta.
Sam virou-se para onde eu estava. Ele me encarou surpreso e com as sobrancelhas arqueadas, até seus olhos desviarem dos meus e começarem a estudar o estado em que eu me encontrava. Percebi onde seus olhares pararam. E para atiçar a curiosidade do maior, desfiz o entrelaçamento de minhas duas panturrilhas e cruzei as pernas, ignorando o fato de meu vestido ter levantado um pouco.
Sam engoliu em seco. E quase que automaticamente fechou a porta e a trancou, sem prestar muita atenção no que fazia.
Ele caminhou até mim em largos, porém lentos passos. E assim que passou pelo portal do cômodo, observou a sala em silêncio.
As luzes de toda a casa estavam apagadas, exceto uma chama vacilante da lareira. A qual estava iluminando o aposento e o primeiro andar inteiro.
Uma música baixa e lenta estava tocando no som de nosso lado esquerdo. Duas taças de vinho e uma taça estavam em um balde de gelo. A outra taça era a que eu estava segurando.
Por fim, Sam me encarou. Sua expressão parecia ter melhorado e desde que veio até mim, ele parecia mais relaxado.
– Sente-se. — exclamei. — E peço perdão por não ter esperado você chegar... — disse enquanto olhava para o líquido em minha taça.
Sam sorriu. Porém eu não conseguia desvendar a expressão que ele havia adquirido.
– Existe algum motivo para toda essa produção? — Sam perguntou. Ainda sem tirar o sorriso de seu rosto.
– Não, nada de especial. — respondi. — Apenas, estava querendo lhe recompensar por o que havia acontecido durante o dia.
– Eu tenho a ligeira impressão de que vou gostar...
Ele me olhou desconfiado, mas não disse mais nada.
"Você não sabe o quanto..." pensei.
Me inclinei sobre a mesa e retirei a taça e a garrafa de vinho de dentro do balde. Abri-a e despejei seu conteúdo avermelhado na taça. Estendi-a para Sam e o mesmo aceitou.
Enquanto tomou em um único gole, enquanto me encarava por cima da taça. Seus olhos estavam atentos para qualquer movimento meu.
Assim que terminou de beber, Sam deixou a taça sobre a mesa e me encarou. Me levantei e me inclinei sobre ele.
– Dê-me seu paletó, para que possa ficar mais confortável... querido.
Era estranha aquela palavra. Porém, fiz de tudo para que Sam não percebesse meu tom irônico.
Ele se levantou e desabotoou a parte de cima de seu paletó. Logo, após virou-se para que eu pudesse retirá-lo. Retirei e coloquei com cuidado sobre a poltrona que havia ao lado.
Olhei novamente para meu lado, porém Sam não estava no mesmo lugar. Agora ele estava ao lado do som e aumentava aos poucos o volume da música. Depois veio até mim e me estendeu a mão.
Assim que descobri de que se tratava, resolvi achar uma desculpa.
– Ah, não. Estou cansada...
– Vem! — exclamou Sam.
Suspirei, imaginando que quanto mais cedo eu aceitar, mais cedo iria acabar.
Me levantei com um pouco de dificuldade e decidi que seria melhor eu tirar meu salto alto.
Antes de ir na direção em que Sam havia se dirigido, descalcei os saltos diminuindo de tamanho e aos poucos a dor que eu estava sentindo diminuiu. Arrumei o par de saltos de lado e fui em direção a Sam, que ainda sorria pacientemente à espera de sua parceira de dança.
Assim que a música terminou e uma nova começou a tocar, Sam enlaçou seu braço esquerdo em minha cintura, enquanto o direito escorregou pela extensão de meu braço até chegar a minha mão. Onde seus dedos se entrelaçaram juntamente com os meus.
Eu tive de me esforçar um pouco para que meu braço consegui-se alcançar o ombro de Sam e no fim, ele me puxou mais perto fazendo com que eu pisasse sobre seus pés. Não reagi, embora eu não estivesse contando com o quão próximo nós estávamos agora, pude ter uma visão privilegiada do rosto de Sam com aquela pouca iluminação. Incrível, aquilo realmente ajudava a destacar seus olhos verdes.
Sam começou a dar passos leves sobre o assoalho e em momento algum desviou o olhar de meu rosto. Pelo contrário, ele parecia estudar os mínimos detalhes de minha face e querer desvendar o que eu estava pensando. Por um minuto, meus olhos se desviaram para seus lábios. Aqueles que estavam mais convidativos do que o normal.
Talvez fosse a aproximação, ou o efeito do álcool, mas eu tinha a ligeira impressão de que Sam tinha plena consciência disso. Ele tinha consciência do que os meus desejos carnais queriam dele, tinha consciência de meus pecados e dos que eu gostaria de fazer com ele e era como se ele me incentivasse à fazê-los se tornarem realidade.
Resolvi acompanhar Sam por conta própria. Saí de cima de seus pés e me prontifiquei em sua frente.
– Eu não sei dançar muito bem...
– Apenas relaxe, querida.
Logo, nossos passos começaram a acompanhar cada timbre da música, parecendo que havíamos ensaiado, muitas e muitas vezes. Quem diria? Sam e eu dançando? Isso com certeza deve ser alguma piadinha do destino.
Quando a música finalmente parou pensei que Sam também gostaria de dar uma pausa. Pois agora, a camiseta dele de manga comprida escura estava úmida de suo, grudada em sua pele, destacando ainda mais sua ótima capacidade atlética.
Porém ele ainda parecia estar disposto e com certeza não me deixaria descansar.
Quando uma música lenta começou a tocar no lugar da última, Sam soltou minha mão e com os dois braços enlaçou minha cintura, puxando meu quadril para mais perto do seu. Automaticamente rodeei seu pescoço com minhas mãos, ficando a centímetros de distância de seu rosto. Àquela altura do campeonato, não havia mais como eu voltar. Havia feito uma escolha para que meu plano desse certo. E no momento estava dando.
Aquela posição impossibilitava o desvio de nosso olhar e Sam continuou me encarando até eu me sentir um pouco tonta, talvez fosse o efeito do álcool voltando com tudo. Minha visão começou a ficar embaçada e quando percebi, Sam estava se curvando em minha direção, com um ar determinado.
A firmeza em que ele me segurava deixava claro que se eu quisesse sair dali, não conseguiria. Meu estado de tontura também não ajudaria muito afinal, se eu tentasse me afastar, cairia de cara no chão. Eu ainda estava pensativa quando senti o contato dos lábios quentes de Sam, pressionando os meus e forçando-os para que dessem-lhe o espaço necessário. Meus olhos se arregalaram com o choque, mas assim que vi os olhos de Sam fechados e sua expressão calma, tratei de fechar os meus imediatamente.
Inspirei sobre a pele quente e deliciosa de Sam, sentindo minhas pernas fraquejarem de tanta emoção. Aquilo podia não estar acontecendo realmente, mas a forma que ele me abraçava, a sua respiração ofegante e sua língua quente deslizando sobre meus lábios era tão real que eu poderia desmaiar ali, em seus braços.
Senti os braços de Sam me apertarem mais firmemente, porém logo depois ele os afrouxou. Provavelmente porque eu ainda não o havia correspondido.
Em um impulso elétrico, senti meus ossos e cada parte do meu corpo despertar. E com ela, me veio o desejo de não deixar Sam se separar de mim. Não enquanto eu o tinha ali, tão perto de mim, mesmo que apenas em um sonho.
Enrosquei os meus dedos em seu cabelos medianos puxando ele para mim. Prensei nossos corpos mais do que o possível, sentindo meu coração bater fortemente em meu peito. Em um ato desesperado uma de minhas mãos puxou suas costas, fazendo ele se curvar mais sobre mim e prensar mais ainda seus lábios contra os meus.
Eu gemi baixo por entre os beijos, quando percebi que ele se recuperou da pequena surpresa e voltou a me desejar tanto quanto eu o desejava.
Sam deslizou suas mãos por debaixo de meu vestido. Agarrando minhas coxas e as apertando fortemente. Eu desfiz o nó da gravata dele, jogando-a em um canto qualquer. Ainda sem separar nossos lábios, desabotoei rapidamente sua camisa e sua mão subiu pelas minhas costas, encontrando o zíper do vestido. Ele o puxou para baixo, até a metade de minha coluna e agarrou-me novamente.
Separando nossos lábios com um pouco de dificuldade, ele desceu seus lábios por meu queixo e começou a distribuir chupões e mordidinhas sobre a região.
– Querido... — suspirei entre as mãos quentes e grandes de Sam. — ...fale meu nome.
Sam pareceu receoso, mas não parou com a sessão de carícias.
– Meu amor... — ele exclamou contra minha pele.
Eu abri meus olhos e afastei Sam de perto de mim.
– Fale meu nome, Sam. — encarei ele, séria desta vez.
Sam estático, piscava algumas vez para mim sem entender.
Eu me desviei de suas mãos e afastada, comecei a colocar o vestido novamente.
Por fim bufou, indignado.
–Você deve estar afim de me fazer de palhaço, não? — apontou pra mim e em seguida foi em direção a parede à sua esquerda.
Agora que eu havia notado. Sam tinha um suporte para armas logo acima da lareira, onde estava apoiado uma arma de caça. Como eu não havia percebido isso antes?
Porém Sam não havia pego a arma. Ele apenas acendeu o interruptor que ficava ao lado da lareira e desligou-a logo em seguida. Depois, virou-se para mim novamente.
– Não sei o que há de errado com você, Amélia...- e disse mais alguma coisa que eu não prestei atenção.
Engoli em seco.
Amélia...
Senti uma súbita vontade de correr dali, me esconder e nunca mais ver Sam e nem ninguém. Involuntariamente abaixei minha cabeça e só então percebi que aquela não era eu... tanto no nome quanto na aparência física.
Era ela. Com a pele ligeiramente mais pálida do que eu. A postura completamente diferente de mim. Olhei mais para baixo e percebi que o vestido não havia ficado justo, ele ficava um pouco solto em relação a cintura. Pois era meu número e não o dela.
Percebi também o motivo de eu olhar para Sam e me sentir tão baixa... Ela era bem mais baixa do que eu. E me lembrei de nunca ter tido mechas encaracoladas antes, as quais deslizavam pelos meus ombros. Eu não tinha, mas ela sim.
Então Sam não havia sonhado comigo...
...eu não era a mulher perfeita para Sam...
...eu o desejei tanto, enquanto ele tinha seus pensamentos voltados para uma outra mulher.
O que eu estou fazendo aqui?
...
– Amélia?– no fundo escutei a voz insistente de Sam, a qual me tirou de meus devaneios.
Quando percebi do que ele havia me chamado, meu coração se apertou ainda mais. Senti um nó se formar na minha garganta e minhas pernas fraquejarem. Minha visão foi ficando embasada e senti que não aguentaria muito tempo. Me xinguei de tudo quanto foi nome quando percebi que tudo aquilo, todos aqueles agrados e aquela encenação... de nada serviram. Eu havia feito tudo com cuidado, para que pudesse dizer com calma o porquê de eu estar ali. Tinha medo de Sam não acreditar e de alguma forma não me dar ouvidos. Tinha medo de falar rapidamente e algo dar errado... mas agora eu queria que tudo fosse para o inferno.
– Você quer saber o quê há? — disse me recuperando de meu estado sentimental. A única coisa que eu sentia de Sam era raiva e de mim, culpa. — Meu nome não é Amélia! Nunca foi!
Sam pareceu ficar surpreso com meu tom repentino. E percebendo que ele não iria retrucar, continuei.
– Você quer saber do que mais? Você é um puta de um mal agradecido! — Eu sentia minha cabeça arder e meus punhos pegarem fogo. — E nunca mais me chame de Amélia! NUNCA MAIS!
Berrei sentindo o tom de minha voz mudar.
– Você me escutou, "Sammy"?
Em um momento, aquele apelido havia se transformado em apenas uma palavra. A palavra pela qual era pronunciada sem nenhuma gosta de afeto, mas sim de ironia.
Sam pareceu levar um choque e cambaleou para trás.
– N-Não me chame assim.
E finalmente eu percebi que essa era a chave. O segredo.
– Porque não?
– Porque é um apelido idiota! E só quem me chama assim é Dean e...
Minha expressão acalmou-se aos poucos, porém ainda não conseguia encarar Sam durante muito tempo.
– E mais quem, "Sammy"?
Sam arregalou os olhos e continuou em silêncio durante um bom tempo.
– ...A-Allice.
Eu senti outro aperto em meu peito, mas esse doía mais que o primeiro. E eu tive a ligeira impressão de que esse aperto nunca mais passaria. Talvez porque eu finalmente percebi que, nós nunca deveríamos ter ido longe demais, só se eu estiver completamente enganada.
Alguma outra coisa mudou também, pois Sam me encarava pasmo. Senti o vestido cair e junto com ele a pele branca e sedosa que passei a odiar desde o momento que Castiel me contou aquela história e agora, eu odiava mais do que qualquer outra coisa.
Senti minha força se revigorando. Sam parecia ainda mais confuso.
Quando finalmente aquela familiaridade havia voltado, olhei para as minhas mãos e fiquei grata por ter voltado ao meu tom de pele natural. Senti que Sam havia ficado mais próximo de minha altura e sorri internamente. Senti meus cabelos lisos e desgrenhados baterem até metade de minhas costas. E senti que Sam havia me reconhecido finalmente.
– Allice... o que está acontecendo aqui afinal? — ele olhou para baixo. — Porque estou vestido de agente? É um caso?
Achei graça por um instante. Era realmente ele.
– Vai ficar tudo bem, Sam.
Me surpreendi com minha voz monótona e com a frieza que havia nela. Pelo jeito, Sam também.
– O que houve? — disse cuidadoso.
Soltei um soluço inaudível e tive dificuldades para continuar controlando meu tom de voz. Deveria ser novidade um anjo ter seu coração completamente partido por um humano. Por um Winchester.
– Só... vamos voltar para casa. — exclamei cabisbaixa.
Assim que tive certeza de ter escondido toda a feição de dor e a tristeza de minha face, voltei a encará-lo.
Sam parecia perceber meu estado desconfortável e quando foi dizer algo, senti o chão tremer sob meus pés. As paredes ficaram definitivamente menores e começaram a balançar. Pedaços de gesso começaram a cair sobre nossas cabeças e os móveis pareciam dançar uma ritmada e agitada música. Tive de me desviar de uma estante para que pudesse continuar viva naquela realidade.
– Allice o que diabos está acontecendo aqui?! — Sam berrou.
– Escute-me Sam. Isso daqui não é real... Cuidado! — gritei bem a tempo de avisar Sam.
Outro móvel quase acertou Sam e assim que entrou em contato com o chão, se espatifou, causando ainda mais barulhos.
No andar de cima podíamos escutar as coisas caindo e se quebrando. Sam correu para o meu lado.
– Como assim?! Quase fui acertado por uma cômoda e me pareceu bem real!
– Sam, estamos eu um sonho! Você precisa acordar! — eu gritava, mas parecia que era apenas um sussurro comparado barulho extremo.
Repentinamente senti uma dor súbita nas costas, um estrondo e uma voz.
A voz pertencia à Sam. Porém eu não conseguia distinguir o que ele havia dito, mas ele me parecia desesperado.
Minhas costas ardiam e doíam como se minha pele estivesse sendo arrancada lentamente. De relance olhei para cima e percebi que o enorme e dourado candelabro que costumava ficar no teto, não estava lá. E eu tinha a impressão de que sabia aonde ele estava.
Minhas pálpebras pesaram e minha cabeça começou a doer. Eu não enxergava mais Sam e então me vi sozinha novamente.
Naquele breu total. E a única coisa que eu escutava...
...eram as insistentes badaladas do relógio.
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