Sonhou com o dia em que mostrara a Henry seus poderes. Ambos tinham 16 anos, então, e havia pouco tempo que Henry tinha sido coroado. Ela tinha ido visitá-lo no castelo e dissera-lhe que tinha algo importante para lhe contar.

— É um segredo. — Ela disse. — Você não poderá contar a ninguém. — Então ela se lembrou de que ele já era rei e acrescentou rapidamente: — Vossa Majestade.

Henry tinha sorrido e segurado as mãos dela entre as dele.

— Guardarei seu segredo. — Falou. — Eu juro.

Eles cavalgaram para longe do castelo, até o bosque, para que ninguém os visse. Henry sempre soubera que Mia guardava um segredo, e parecia animado e curioso para descobrir o que era.

Pararam à beira do riacho e desceram do cavalo. Mia respirou fundo.

— O que é? — Henry indagou. Ela hesitou por um momento.

— É mais fácil eu lhe mostrar. — Ela então mostrou a palma de sua mão, lembrando-se do encantamento para conjurar fogo. Murmurou as palavras do feitiço e uma chama nasceu na palma de sua mão, tremeluzindo levemente ao vento.

Henry deu um passo para trás, incrivelmente assustado. Mia fechou a mão em punho, extinguindo a chama. Estraguei tudo, pensou desgostosa.

— Você... Você é... — O jovem rei gaguejou.

— Uma bruxa. — Mia disse. Henry deu outro passo para trás, tropeçando e caindo. Mia se adiantou para ajudá-lo a levantar, mas ele se afastou.

Ela recuou magoada.

— Está tudo bem. — Falou tentando esconder a tristeza. — Não precisa ter medo. Eu não vou lhe machucar.

— N... Não... Eu sei que não. — Ele se levantou e pigarreou, tentando manter o tom de voz normal. — Eu sei que você nunca me machucaria. Eu só... Você me assustou.

Ela lhe sorriu tristemente. Ergueu a mão na direção do riacho, movimentando o pulso com leveza em movimentos circulares. Um filete de água se separou do riacho, vindo até a mão dela e envolvendo-a como uma luva. Henry observou a tudo com olhos maravilhados.

— Você sempre foi... Você sabe... — Ele hesitou. Mia sorriu para ele.

— Uma bruxa? — Henry assentiu e ela continuou: — Sim. Minha mãe erauma bruxa.

— Lady Felícia? — O rei arregalou seus olhos azuis. — Felícia Cigam? Mas... Como...?

— A família Cigam sempre foi composta por feiticeiros. — Mia sorriu. — Mesmo aqueles que não carregam o sobrenome. Os Cigam vêm de uma antiga ordem de bruxos. Geralmente só se casam com bruxos, mas creio que minha mãe tenha quebrado a tradição. — Ela ergueu os olhos para Henry e sorriu timidamente. — E creio que eu também vá quebrá-la.

Henry sorriu de volta, observando ela devolver a água ao riacho. Então ela ergueu a manga do vestido e retirou sua luva, mostrando a ele uma mancha escura contra sua pele pálida: tinha a forma de uma lua crescente.

— Isso é a marca. — Ela disse. — É assim que os Cigam sabem aqueles que são feiticeiros na família e os que não são. Cada família bruxa tem uma marca diferente. Conheço uma que a marca é um sol. Outra tem como marca um dragão. — Ela sorriu, lembrando-se desta última família, os Drayfar. Conhecera o herdeiro da família, Cam Drayfar, um rapaz de cabelos louro-pálidos e olhos negros, sempre com um sorriso orgulhoso no rosto. Era um grande amigo seu, e fora quem lhe ensinara a maioria dos feitiços que ela conhecia, já que sua mãe morrera sem lhe ensinar muita coisa.

— Então há pessoas nas famílias de feiticeiros que não são bruxos? — Henry indagou arrancando-a de seus pensamentos. Mia assentiu.

— Acontece sempre que feiticeiros se casam com não feiticeiros. — Mia tornou a calçar sua luva. — Minha mãe temeu que eu não fosse ser uma feiticeira. Mas eu sou. — Ela suspirou.

Ficaram em silêncio por um momento, até que Henry pediu:

— Conte-me mais.

Mia o olhou de esguelha e então baixou os olhos. Ajoelhou-se e remexeu em sua bota. Quando se levantou, tinha nas mãos algo parecido com um graveto, grosso e comprido, negro como a noite com um pequeno cristal azul em uma das pontas.

— Isto — Ela disse estendendo o objeto para Henry ver melhor. —, é uma varinha. Alguns feiticeiros conseguem fazer magia sem a varinha, mas ela ajuda a canalizar melhor os nossos poderes.

Henry pegou a varinha e a revirou nas mãos. Era feita de madeira e ele desconfiava que a pedra na ponta fosse uma safira. Havia runas inscritas na madeira.

O jovem devolveu a varinha a Mia. Ela agitou-a, e as inscrições brilharam em um tom de azul hipnotizante; a pedra na ponta também se acendeu. Houve um estalo e, no segundo seguinte, havia um belo conjunto de mesa de prata com duas cadeiras à frente de Mia e Henry, à beira do riacho. Henry arregalou os olhos.

— Posso fazer coisas aparecerem do nada. — Ela disse. — Posso curar doenças. Posso fazer plantações crescerem. Posso fazer inimigos gostarem um do outro, ou amigos de infância se odiarem, em um piscar de olhos. — Ela sentou-se em uma das cadeiras e pousou a varinha sobre a mesa, olhando-a com olhos sérios e pensativos. — Posso fazer o que eu quiser. — Sussurrou. — Só não posso reverter a morte. É a única coisa que a magia não podeconseguir. — Ergueu os olhos para Henry. — Castelos, ouros, seda, veludo, comida, bebida... Posso conseguir tudo com magia. Só não trazer de volta aqueles que morreram. — Pensava em sua mãe enquanto falava isso. A mulher morrera quando quebrou o pescoço ao cair do cavalo. Mia tinha nove anos na época. Procurara obstinadamente por uma reversão para a morte, mas por fim se deu conta de que isso não existia.

— Você pode... Hm... Matar? — Henry indagou sentando-se na outra cadeira. Mia desviou o olhar do dele, tornando a encarar a varinha.

— Posso. — Disse a contragosto. — Mas nunca matei. E nem pretendo. — Respirou fundo e tomou coragem para encarar seu rei. — Quero usar meus poderes para fazer o bem. Ajudar os outros. Ajudar o reino a crescer. Não vou usar minha magia para o ódio e a guerra. Isso não leva a nada.

Ela temeu o que ele diria a seguir, mas o olhar que Henry lhe lançou era de admiração. Ele sorriu com certo orgulho e se inclinou para beijá-la. A boca dele tinha gosto de canela, e a sensação de seus lábios contra os de Mia a deixava tonta.

— Então você é realmente a pessoa que eu quero como esposa. — Henry disse ao se afastar. — Você é exatamente a rainha que este reino precisa.

Ela corou.

— Tive medo de que você não aceitasse. — Ela confessou. — Achei que você ia, hm, ordenar que eu fosse queimada em uma fogueira ou algo assim.

— Cheguei a pensar nisso por um segundo. — Henry admitiu parecendo envergonhado. — Mas depois do que você acabou de me dizer... — Ele balançou a cabeça, ainda maravilhado. — Eu não vou deixar que ninguém lhe machuque por isso.

— Então vai guardar segredo?

Ele deu um sorriso de lado.

— Prometi que ia, não prometi?


Encontrou-a adormecida, encolhida contra a parede. Henry acenou com a cabeça para o guarda na entrada. Este fechou a porta da cela atrás do rei quando ele adentrou-a, segurando apenas uma velha lanterna. Usava um manto negro com capuz, de veludo, e tinha a espada embainhada na cintura.

— Mia. — Ele a chamou, ajoelhando-se ao lado dela e pousando a lanternano chão. Tocou seu braço, sacudindo-o de leve. Ela acordou com umsobressalto e cerrou os olhos contra a luz.

— Henry? — Ela arregalou os olhos e chorou. — Oh, Henry.

Atirou seus braços ao redor do pescoço dele. Ele a apertou com força contra si.

— Mia, querida. — Ele suspirou. Ela o soltou e esfregou as lágrimas para longe de seus olhos.

— Eu sinto muito. — Sussurrou com a voz fraca. — Eu juro que não tive a intenção... — Ela sufocou um soluço. — A criança... Liana... Ela... Ela era uma boa garota. A peste... Tinha contraído a peste... Eu tinha que ajudar... — Ela tornou a chorar. Henry a abraçou até que ela se acalmasse.

— Eu sei, eu sei. — Ele disse. — Eu só queria que você tivesse tomado mais cuidado. — Ele suspirou.

Ela respirou fundo algumas vezes e tornou a se afastar, encarando-o com tristes olhos cinzentos.

— Eles vão me queimar amanhã, não vão? — Indagou.

Henry desviou os olhos, preferindo não responder. Quando era criança, com não mais que oito anos, lembrava-se de ter ido à execução de uma suposta bruxa. Não sabia dizer, agora, se a mulher era ou não uma bruxa de verdade, mas os gritos que a mulher dera quando as chamas a queimaram ainda estavam presos em sua cabeça. Agora sempre que tentava se lembrar do rosto da bruxa, tudo o que lhe vinha à mente era o rosto de Mia.

Ela respirou fundo de novo e balançou a cabeça.

— Posso lhe pedir uma coisa? — Ela disse. Henry a encarou.

— O que você quiser. — Disse ele, tomando as mãos dela entre as suas. Mia apertou fortemente as mãos dele.

— Não vá à minha execução. — Ela disse. — Não quero que você esteja lá. Você pode acabar querendo fazer algo realmente estúpido e eu não quero que você se machuque por minha causa.

— Você não será executada. — Henry disse com firmeza. Mia balançou acabeça.

— Henry...

— Não, Mia. Escute-me. — Ele segurou o rosto dela entre suas mãos, obrigando-a a encará-lo. — Nós vamos fugir daqui. Nós dois. Eu não vou deixar você morrer.

— Henry... — Mia o encarou com olhos assombrados. — Mas... Você é o rei. Não pode simplesmente...

— Partir? Posso sim. — Ele respirou fundo. — Eu pensei bem nisso, acredite em mim. Não vou ficar sentado assistindo eles queimarem você em uma fogueira, e também não vou me esconder em meus aposentos enquanto eles fazem isso. — O rei balançou a cabeça. — Nós dois vamos fugir para longe daqui. O mais longe que pudermos. Talvez possamos pegar um navio e ir para outro país, outro continente quem sabe. — Ele hesitou. — A menos... A menos que você não queira vir comigo. Quero dizer, eu vou entender se você não quiser, vou mesmo...

Ela o interrompeu, beijando-o apaixonadamente. Mesmo tendo passado o dia inteiro ali, naquela cela fedorenta, ela ainda cheirava a rosas. Os lábios dela pareciam se ajustar perfeitamente aos dele. Ele entregou-se ao beijo, segurando sua cintura com uma mão e enterrando a outra mão em seus cachos negros, desfazendo sua trança por acidente. Ela o puxou para si, seus lábios movendo-se contra os dele com certa urgência, como se aquele fosse o último beijo deles.

Quando por fim se separaram, ambos estavam corados e ofegantes. Ele continuou abraçando-a, sua testa encostada à dela.

— Eu vou. — Ela disse ainda um pouco ofegante. — Vou com você. Para onde você quiser. Até o fim do mundo se preciso for. — Pressionou os lábios contra os dele e suspirou. — Contanto que fiquemos juntos.

— Contanto que fiquemos juntos. — Ele repetiu em concordância, entrelaçando seus dedos nos dela.