Back To Life
1 Broken
Notas iniciais
Julieta não vai procurar Elisabeta para revelar seu maior segredo - mesmo ja tendo contado parte dele para ela. Ao invés da jovem Julieta busca o apoio em Aurélio e ela finalmente começa a livrar-se de seus dêmonios.
Havia tanta dor. Tantos sentimentos fervendo em sua cabeça tirando-lhe a capacidade de raciocinar com clareza. Camilo a odiava e não sabia metade das atrocidades que ela tinha cometido contra seu relacionamento com Jane e agora estava envolvido com lutas clandestinas e ela sabia que tinha culpa nisso, privou seus contatos de dar trabalho ao seu filho, enquanto o ódio lhe cegava ela acreditava que tudo aquilo era certo, mas a venda foi tirada de seus olhos e ela sabia que cada soco desferido contra ele um deles era dela. Como se não bastasse, a dor do passado consumia sua paz e Darcy foi quem presenciou um dos seus rompantes alguns dias atrás, quando ela finalmente criou coragem para destruir o túmulo do porco que um dia chamou de marido.
Ela precisava despejar sua raiva, sua dor, sua angústia, tudo que manteve retido para si mesma durante tantos anos. Olegário dirigia o carro em silêncio, olhando algumas vezes para a mulher que contraia os lábios a cada cinco segundos, esforçando-se para que as lágrimas não caíssem. O endereço que foi passado ao empregado foi o que mais o surpreendeu, estranhamente era onde Aurélio Cavalcante estava hospedado, a casa do Coronel Brandão, algum tempo atrás ela esteve lá, agradeceu ao filho do Barão pela ajuda e saiu notoriamente nervosa.
Quando o carro estacionou Julieta agradeceu mentalmente, seu coração saltaria para fora do peito a qualquer instante. O nervosismo e o medo, juntamente com seu consciente traidor, pediam para que ela voltasse para casa, esquecesse daquela ideia insana e chorasse sozinha mais uma vez. O medo instalou-se logo abaixo do seu estômago, mas ela negou-se a ouvir o que dizia sua razão. Tocou duas vezes na porta de madeira e ela desejou com todas as forças que restava em seu corpo que Aurélio estivesse em casa e principalmente que ele estivesse sozinho.
Quando a porta da casa do Coronel abriu-se suas esperanças quase caíram por terra, mas foi Aurélio quem abriu, seus olhos azuis pareciam estranhar a cena incomum. Julieta, em qualquer outra ocasião, poderia oferecer a ele um sorriso ou talvez um cumprimento de boa noite, mas ela precisava poupar as palavras para despejá-las no momento certo. No entanto, a alegria de Aurélio foi destruída quando ele viu Olegário logo atrás dela, como sempre. Ele não gostava nenhum pouco do homem e não conseguia entender porque Julieta insistia em mantê-lo por perto.
— Julieta, entre por favor — Ela só precisou ouvir o comando para entrar lentamente, seus olhos desgrudando-se dos dele finalmente.
— Eu tenho ordens para deixá-la aqui e só voltar quando for chamado, mas eu imploro, como amigo de Dona Julieta, cuide dela, ela precisa de ajuda — As palavras sussurradas por Olegário não foram ouvidas por Julieta que já se encontrava na sala, mas foram audíveis o suficiente aos ouvidos de Aurélio que alarmou-se com o pedido inusitado do homem.
Olegário deu as costas e partiu. Aurélio fechou a porta e voltou para a sala. Era quase palpável a tensão que rondava Julieta, ela tentava dissipar todo o nervosismo esfregando uma mão na outra, mordendo os lábios e olhando para os cantos buscando alguma coisa para fixar seu olhar apavorado.
— Julieta, está tudo bem? O que aconteceu?
— Tantas coisas acontecendo — Mesmo respondendo sua pergunta, o seu tom de voz parecia estar respondendo para o nada, seu olhar estava fixo na janela logo a sua frente —. Tantos problemas, tantas coisas.
— Você precisa de ajuda com essas coisas? — Tentou buscar algum contato visual mas era inútil.
— Meu filho, Camilo, ele me odeia, Aurélio. Meu próprio filho, carne e sangue me odeia e eu não posso culpá-lo.
— Julieta, eu sei de tudo que aconteceu entre você e Camilo e eu sei que ambos estão feridos, mas como você mesma acaba de dizer, vocês são carne e sangue, uma ligação que nenhuma briga pode romper.
— Aurélio, você diz isso porque não sabe do que eu fui capaz, não sabe o que fiz. Eu sempre fui ausente, eu nunca consegui ser uma boa mãe para Camilo — sua voz sufocou no último segundo —. Eu sempre o afastei, o menino. Eu nunca consegui agir como mãe dele, nunca fui quem Camilo precisava. Eu nunca consegui abraçá-lo, tocá-lo, dar o carinho que ele necessitava.
Por alguns segundos o silêncio se fez presente. Ele tentou aproveitar aquele momento de silêncio para entender o que estava acontecendo. Julieta despejava algumas verdades sobre seu relacionamento com Camilo, mas no fundo ele sabia que havia algo mais, a tristeza dela era mais profundo e ele conseguia ver que a qualquer momento ela poderia desabar ali mesmo. Manteve-se a uma distância segura, aproximar-se dela faria com que ela se afastasse e ele sabia disso, entretanto algo dentro dele gritava para que ele corresse até ela e a acalentasse.
— Você não pode se martirizar por isso. Camilo entende tudo o que você fez, seus momentos de ausência, estava sempre ocupada, você fez o melhor que pôde e veja o que ele se tornou agora, um garoto formidável, com uma esposa maravilhosa e logo estará construindo uma família.
— Consegui enxergar isso só agora me dói mais. Mas Camilo jamais me entenderá, Aurélio Eu nunca vou conseguir ser a pessoa que meu filho precisa e isso me dói
— É claro que consegue. Você sempre foi tudo que Camilo sempre precisou, mesmo com sua ausência e às vezes seu excesso de superproteção.
— Se Camilo soubesse, se ele ao menos soubesse tudo o que aconteceu comigo, ele entenderia meus motivos.
— Então por que você não conta? Se guardar isso está te fazendo tanto mal você pode contar a Camilo e talvez ele entenda as suas motivações.
— Eu nunca poderia falar isso para o meu filho porque só o faria se sentir pior e foi exatamente isso que eu tentei evitar durante tantos anos — O fitou pela primeira vez e ele conseguiu ver os olhos dela começaram a brilhar pelas lágrimas que ameaçavam cair —. Mas eu preciso jogar isso para fora, eu preciso tirar essa dor e você é a única pessoa em que eu confio para fazer isso.
Ele não conseguiu responder a ela. Julieta confiava nele para desabafar? Ela confiava nele para despejar toda sua dor?
— Aurélio, eu sempre fui uma mãe distante, ausente, fria e nunca consegui ser a mãe que Camilo precisava porque meu filho é fruto de um estupro.
Estupro! As palavras dele ecoaram em sua cabeça, quando ele ouviu sair da boca dela pareceu ser tão irreal, tão impossível de ter acontecido. Julieta havia sido estuprada? Camilo não era filho de Osório Bittencourt? Alguém algum dia atreveu-se a machucá-la?
— O que? O que você disse? — Ele finalmente conseguiu falar, mas a dor da revelação quando finalmente se concretizou em seu cérebro perfurou seu coração —. Então Camilo não de filho de Osório?
Ela sentiu a primeira lágrima escorrer por sua bochecha, a lágrima que ela havia reprimido durante todo o caminho. Aurélio suplicava internamente para que ela não chorasse, ele não conseguiria vê-la chorar.
— Eu não sei o que é pior, ter sido estuprada ou ter casado com meu estuprador.
Ele sentiu outra pontada no coração, desta vez doeu tanto quanto a anterior.
— Osório? Ele... ele te violentou?
Aurélio viu quando ela quase padeceu novamente, os joelhos dela se curvaram levemente, ele desejou aproximar-se mas não poderia.
— Eu era somente uma menina, Aurélio, tão jovem quanto Ema quando meu pai armou uma união com Osório, um homem que tinha a mesma idade que ele. Ele me forçou a ficar o noiva daquele homem e quando, aos meus dezesseis anos, eu não suportei mais a injustiça de estar sendo vendida a um homem que tinha idade para ser meu pai, tentei romper o enlace, mas, mas ele me violentou.
Foi como uma facada no peito dele novamente. Ela ofegou, incontáveis vezes antes das lágrimas começarem a inundar seu rosto. Aurélio sentiu-se um inútil, ela precisava de seu apoio e ele não conseguia dizer nada.
— Ele me marcou para sempre. E dessa violência nasceu Camilo. O meu filho, que era tão vítima daquela situação quanto eu, mas que eu simplesmente não conseguia e não consigo olhar nos olhos sem lembrar do que aconteceu.
— Julieta, eu sinto muito. Eu não consigo acredito que você casou-se com um homem tão desprezível.
— Todos os dias eu ainda penso nisso, ainda dói como uma ferida que nunca vai cicatrizar. É como se eu pudesse senti-lo em cima do meu corpo, empurrando-se contra mim, de novo e de novo, várias e várias vezes.
Ela padeceu, seus joelhos não suportavam mais mantê-la de pé, a força da revelação e a dor das lembranças foram arrebatadoras. Aurélio acompanhou com os olhos quando os joelhos dela cederam a dor. Ela chorava, ele jamais havia visto ela chorar, quem a visse vestida de preto com pose altiva e ríspida jamais pensaria que um dia veria aquela cena.
— Julieta — chamou por seu nome e ajoelhou-se lentamente, tentando evitar que ela tivesse algum tipo de reação exasperada.
Quando tentou aproximar-se ela interviu, esticando um pouco a mão para alertar que ele não avançasse, mas não pediu que ele levantasse e mesmo que o tivesse feito ele jamais levantaria.
— Quem olhar para mim hoje não sabe o que eu passei. Não sabe o que ele homem fez e continua fazendo, as consequências de seus atos estão marcados até hoje em mim. Gravados na minha alma e coração, me torturando. Todos acham mesmo que eu nasci de preto? Que eu sempre fui tão dura?
Aurélio silenciou-se, algumas vezes ouviu seu pai ironizar sobre isso, que ela provavelmente nasceu de preto, que não tinha um coração e deveria agradecer por ter tido um marido que tivesse paciência e coragem de suportá-la. Doeu vê-la se desfazendo.
— Eu sei que dói e eu agradeço que você tenha vindo até mim para desabafar, e eu quero ajudá-la.
— Eu só precisava falar, tirar isso de mim, essa dor que está me sufocando a anos e me matando aos poucos.
Ela precisava arrancar aquilo do seu coração ou não suportaria mais. Ela desejou falar mas só vieram lágrimas. Ela precisou aliviar-se, suas mãos trêmulas rasgaram a gola do vestido enquanto um pequeno grito saiu acidentalmente dos seus lábios. Aquilo foi o ponto final, ele não podia vê-la se debatendo em sua dor e não fazer nada. O pedido dela de alguns minutos atrás era que ele se ficasse afastado mas Aurélio ignorou e avançou rapidamente na direção dela, Julieta murmurava ‘nãos’ em resposta a sua iniciativa, mas já era tarde. Ele a envolveu em seus braços e ela inicialmente relutou.
Os braços dele a envolveram como se ela fosse uma criança, a puxou para mais perto quando ela finalmente decidiu parar de lutar. O corpo dela uniu-se ao seu, Julieta sentiu o calor do corpo dele abraçar o seu e conseguia ouvir as batidas aceleradas do coração de Aurélio. Puxou a gola da camisa dele, o trazendo para mais perto, suas lágrimas molhavam o tecido fino enquanto as mãos dele esfregavam suas costas finalmente a acalentando.
— Vai ficar tudo bem — Ele murmurava no ouvido dela —. Eu estou aqui.
Ela estava fraca, ela estava quebrada e naquele momento tudo que ela precisava era de paz. Aurélio sentou-se no chão, aninhando-a em seus braços, como se naquele ato pudesse protegê-la de todos os males do mundo. Ela chorou por muito tempo, soluçou algumas vezes. Aurélio desejou pela primeira vez que Osório estivesse vivo para ter a oportunidade de matá-lo com suas próprias mãos. Quem faria mal a alguém como Julieta? Que tipo de homem marcaria uma mulher daquela forma? Julieta era tão pequena e naquela forma ela parecia tão indefesa.
Uma das mãos dela buscou uma das suas transformando-as em uma só, como eles estavam naquele momento, eles eram um só. Uma hora os soluços pararam e o corpo dela relaxou completamente, a mão dela que segurava sua camisa soltou o tecido. Ela havia finalmente dormido e ele agradeceu a Deus por isso. Aurélio limpou as lágrimas que escorriam pelo próprio rosto, ele não foi forte o suficiente para vê-la sofrer e quando se deu conta estava chorando junto com ela.
Ele levantou-se com ela nos braços e ela resmungou alguma coisa e o puxou para mais perto, repousando a cabeça no ombro dele e envolvendo o pescoço de Aurélio com seus braços.
— Tudo vai ficar bem, meu amor — Murmurou novamente.
Ele não a deixaria no sofá e muito menos a levaria para casa. A levou carregada até o quarto e a colocou lentamente na cama, esforçando-se ao máximo para não despertá-la. Tão passiva, tão pequena e tão desprotegida. Algo parecia estar incomodando-a durante seu sono e ele notou que provavelmente era seu vestido. Relutou contra si mesmo para ir ajudá-la, questionando-se se era o certo a se fazer. O vestido estava parcialmente rasgado pelo momento de explosão emocional que ela tivera, o que facilitou a remoção do mesmo. Havia outro tecido por baixo daquele mais pesado e Aurélio sorriu com isso, Julieta talvez o matasse na manhã seguinte mas ele estava disposto a enfrentar sua ira se fosse para proporcionar a ela uma noite agradável de sono, o tecido de seda negro serviria para deixá-la mais relaxada. Removeu também as botas dela. Quando a deixou pronta para dormir ele voltou sua atenção ao rosto de Julieta, onde as lágrimas já haviam secado deixando apenas algumas marcas. Ele beijou sua testa levemente, mesmo que desejasse beijar seus lábios não se permitiria tal ousadia enquanto ela estivesse desacordada.
— Tenha uma boa noite de sono meu amor.
Aurélio saiu da cama com cautela para que a ausência de seu peso extra não a despertasse, em resposta a sua retira ela apenas mexeu-se e se encolheu em seguida. Seu rosto foi iluminado pela luz opaca da lua. Aurélio não tinha pretensão de sair e deixá-la sozinha, poderia velar o sono dela por toda a noite e ainda assim se sentir bem na manhã seguinte. A cadeira improvisada era desconfortável mas no momento era suficiente.
Enquanto a admirava seu coração doía. As palavras da revelação ainda queimavam em seu ouvido e a cena após isso ainda doía profundamente. Ele mesmo nunca poderia imaginar que tal atrocidade havia se passado na vida daquela mulher por quem ele estava perdidamente apaixonado. No fundo ele sempre soube que ela guardava algum tipo de segredo, uma experiência ruim, mas jamais passou por sua cabeça que ela tinha sido violada de maneira tão suja e cruel.
***
Não houveram raios de sol para desperta-los na manhã seguinte, apenas o som intenso da chuva no telhado da casa do Coronel e foi o suficiente para fazer com que Julieta abrisse lentamente seus olhos, despertando do melhor sono que teve desde sua briga com Camilo. Aurélio estava sentado na cadeira, já acordado há alguns minutos e viu atentamente quando ela começou a ficar inquieta na grande cama.
— Bom dia — ele disse quando viu os olhos dela abertos.
Julieta não respondeu, sua voz parecia não querer sair. Ela apoiou-se nos cotovelo para conseguir erguer o corpo e recostou-se na cabeceira da cama olhando para o homem que estava sentado em uma cadeira aparentemente desconfortável mas que carregava no rosto um pequeno sorriso de canto.
— Bom dia — Finalmente conseguiu responder mas ambos notaram uma singela rouquidão.
Quando os olhos de Julieta repousaram no próprio corpo, após notar uma estranha leveza, viu que o vestido pesado que usava não estava mais lá e sim o tecido que costumava usar por baixo dele. Seus olhos fitaram os de Aurélio em busca de uma resposta para seu estado atual.
— Eu sinto muito se fui atrevido, apenas imaginei que não conseguiria dormir tão bem usando aquele vestido desconfortável.
— Obrigada, eu realmente não conseguiria.
Ela queria e precisava falar sobre a explosão que aconteceu na noite anterior, mas novamente as palavras estacaram em sua garganta, negando-se a sair. Aurélio poderia sentir o ar ficando tenso novamente e aproximou-se dela, não houve hesitação e então ele apenas continuou, sentando-se na ponta da cama.
— Sobre ontem à noite, eu quero que você saiba que jamais direi uma palavra sobre o que você me confessou e que tem em mim um amigo e um homem que a ama.
— Agradeço. Eu pensei muito antes de vir até você e cheguei a pensar em desistir, por um momento eu pensei que... — engoliu em seco — eu cheguei a pensar que você...
— Que a repudiaria por ter sido violentada? Eu não quero pense nisso, porque eu jamais o faria. Quem merece meu desprezo, meu repúdio e meu nojo é Osório Bittencourt. Você por outro lado — aproximou-se mais e novamente ela não recuou — só merece meu carinho, meu amor e minha proteção, mesmo que diga que sabe se cuidar sozinha e que não precisa de mim, eu sempre estarei aqui.
— Então devo dizer que tomei a decisão certa ao vir aqui.
Eles ficaram em silêncio novamente, processando algumas coisas. Julieta levou a mão ao cabelo, sabia o quão inquieta era enquanto dormia e isso acaba bagunçando sempre seu cabelo, seu penteado estava quase desfazendo-se. Seu movimento instintivo foi levar a mão para parte de trás de sua cabeça em busca dos grampos que sustentavam o penteado.
— Aqui, deixe-me ajudá-la — Ele pediu pacientemente e veio o primeiro sinal de hesitação da parte dela naquela manhã, mas logo em seguida ela assentiu levemente.
Julieta posicionou-se na cama de uma forma que seria possível para Aurélio ajudá-la com seu pequeno problema. Ela não se lembrava de uma única vez que ele a viu com os fios soltos, na verdade as únicas pessoas que a viram dessa forma foram Susana — quando invadiu seu quarto no meio da manhã — e Osório, esse último no entanto ela não queria pensar. Quando Aurélio soltou o primeiro grampo a primeira mecha caiu sobre o rosto de Julieta e ela logo tratou de colocá-la atrás da orelha. Mais alguns grampo e o cabelo dela estava finalmente livre daquele penteado que ela sempre usava.
O cabelo castanho caiu sobre os ombros de Julieta de forma pesada e moldaram seu rosto. Ela sentiu que iria corar que Aurélio continuasse a olhando daquela forma. Ele não conseguia ocultar o fascínio quando viu o cabelo grande cair sobre os ombros dela e depois espalhar-se por suas costas, moldando o rosto delicado de Julieta enquanto ela colocava alguns fios rebeldes atrás da orelha.
— Eu devo dizer que a senhora fica muito melhor assim.
Ela apenas mostrou um pequeno sorriso e abaixou a cabeça, e Aurélio questionou seus olhos, ela estava realmente agindo de forma tímida na sua frente? Mas algo tirou Aurélio de seu pensamento o fazendo perder o sorriso.
— Julieta, eu passei toda a noite pensando em uma coisa. Naquela noite do Baile em sua casa, quando a beijei, eu realmente espero que não ter trazido más lembranças ou ter agido como Osório de alguma forma.
— Não — ela o parou antes mesmo que ele começasse a supor coisas —, você não é como ele e não pense que de alguma forma agiu como Osório ao me beijar.
— Eu agradeço por pensar assim e por não me repelir novamente.
— Agora estamos unidos por um segredo senhor Aurélio, não vou e nem quero repeli-lo novamente.
— E eu quero que saiba que eu vou estar sempre aqui quando quiser desabafar com alguém.
Ela sentiu uma lágrima quente escorrendo pelo e viu uma leve expressão de preocupação no rosto de Aurélio, mas seu sorriso o apaziguou. Julieta voltou a recostar-se na cabeceira dama e ele manteve-se onde estava, admirando a beleza dela.
— Sente-se aqui — Ela pediu e quando pensou no que disse já era um pouca tarde demais para voltar atrás.
Julieta apalpou o lado vazio da cama e Aurélio se sentir vibrar por dentro com o pedido repentino e inusitado. Sentou-se no lado vazio da cama, recostando-se também na cabeceira da cama, estava infinitamente mais confortável ali. Novamente ela tomou outra iniciativa surpreendente, colocou a cabeça em seu peitoral. Um ato que surpreendeu a ambos mas os apaziguou igualmente.
— É por apenas alguns segundos — Ela murmurou.
Aurélio afagou o cabelo solto, a puxando para mais perto do seu corpo. Julieta se encaixava perfeitamente em seu corpo. Ele nunca poderia imaginar que um dia estaria assim com ela, a Rainha do Café, Julieta Bittencourt. Estavam tão íntimos, tão próximos que suas respirações podiam ser ouvidas.
— Você pode ficar assim pelo tempo que quiser.
Ela apenas assentiu levemente. Seus dedos traçaram círculos imaginários na camisa dele. Aquela paz a agradava, gostava daquele silêncio e do calor, tudo dentro dela gritava implorando para que aquele momento nunca tivesse um fim e para que jamais se desgrudasse do calor do corpo dele. Aurélio alisava os braços dela com a ponta dos dedos enquanto um sorriso se mantinha em seus lábios.
— Julieta, eu quero que você saiba que eu...
Ele não pode prosseguir, o dedo indicador dela em seus lábios o silenciou.
— Não agora, vamos apenas ficar assim, sem palavras.
Ele apenas sorriu. O corpo de Julieta voltou a relaxar completamente nos braços dele enquanto ela caia no sono novamente. Estava abraçada ao homem que amava, deixando seu medo de lado pela primeira vez em toda sua vida. Ela só precisava senti-lo para poder sentir-se viva novamente.
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