Back In Time
3 Capítulo 3
—Então, qual o problema que fizeram vocês voltarem no passado? — Holly perguntou, se abraçando no travesseiro da cama, encarando o teto de madeira.
Victor estava sentado na cama com ela e Amy estava se arrumando para deitar-se. Por um segundo, os dois irmãos se encararam, pensando na mesma coisa. Valeria a pena contar para ela?
—Vocês vão apagar minha memória de qualquer jeito, então que mal há em explicar agora para que eu possa servir de ajuda ao invés de ser apenas um fardo? — Holly disse depois de perceber o silêncio embaraçoso que se firmou no quarto. Ela sentou-se na cama, encostando-se na parede fria, ainda agarrada no travesseiro.
Victor olhou para sua irmã mais velha. Ela deu de ombros e deitou-se na cama.
—Existe esse livro — Victor começou a explicar. Holly olhou profundamente em seus olhos, apenas esperando pelo resto. — que, supostamente, diz tudo o que você quer ouvir. As palavras nunca são as mesmas, muda de pessoa pra pessoa. É um objeto mágico, uma coisa muito rara em nosso tempo. Nós nunca sabemos o que o livro está dizendo para as pessoas. Por vezes, ficamos sabendo de guerras que aconteceram por causa das coisas escritas no livro. Ninguém realmente sabe como esse livro surgiu.
—E ninguém sabe como ele funciona. — Amy completou. Victor levantou-se da cama para apagar a luz do quarto. — É um completo mistério.
—E existem mais objetos mágicos como esse? — Holly perguntou.
—Sim. Mas o mais problemático de todos é esse, por que nunca sabemos o que está escrito. — Victor disse sentando-se novamente na cama.
—Você não vai dormir? — Holly perguntou olhando para Victor. Havia duas camas de casal no quarto.
—Alguém precisa ficar acordado para cuidar de você.
—Ah, por favor, não é como se eu fosse fugir no meio da madrugada para viver num mundo que eu desconheço por completo. — Holly disse, deitando-se na cama, desarrumando as cobertas por completo. A maneira como Holly deixou Victor um pouco desconcertado. — Eu só quero voltar para casa.
Amy e Victor trocaram um olhar secreto no escuro.
—Deite-se, Victor. Descanse um pouco, você deve estar cansado. — Amy disse, finalmente, dando um voto de confiança em Holly. Amy mexeu-se na cama, dando espaço para o seu irmão deitar-se ao seu lado.
Em poucas horas, os dois quartos silenciaram-se e todos dormiram. Roncos alastraram-se ao lado de Holly. Ela não conseguia identificar se vinha de Victor ou de Amy. Quem quer que fosse, o ronco era alto demais. Ela não estava conseguindo dormir.
Holly sentou-se na cama, com insônia. Escorou-se na janela aberta e começou a pensar nas diversas coisas que aconteceram aquela noite. Viagens no tempo. Quem diria.
Ela recapitulou mentalmente as coisas que tinham acontecido aquela noite. Ela tinha fugido de sua casa, foi sequestrada, aprendeu a dirigir, viajou no tempo, aprendeu que fantasia e ficção científica andam juntas. Era muita informação para conseguir descanso.
Holly observou uma iluminação pela janela. Luzes alaranjadas no fim da rua. Achou que fosse o nascer do sol, mas estava enganada. Parecia ser uma feira de rua, um circo. Pera, um circo? Se existia alguma coisa que ela adorava, era circos.
Ela olhou para trás, para os irmãos porcos e olhou para a janela. Se ela voltasse depois, tecnicamente, não seria como se ela tivesse fugido. Holly pulou a janela sem pensar duas vezes.
A caminho, percebera que estava certa. Era realmente um circo e parecia que estava começando a fechar, pela quantidade pequena de pessoas que haviam ali. Ela observou as coisas que haviam ao redor. Aquela pipoca e aquelas comidas típicas foram feitas anos antes de nascer, provavelmente seriam a mesma coisa que ela costumava comer em sua época. Mas aquilo não deixava de ser uma tentação para Holly.
Como ela queria experimentar aquela maçã do amor, caramelizada com perfeição, tão brilhosa e suculenta...
Não somente isso, mas as atrações ao seu redor eram espetaculares. Ela sentia como se... Holly sorriu ao se dar conta do fato. Ela tinha voltado no tempo.
—Você parece que não é daqui. — Um homem falou perto do ouvido de Holly, assustando-a momentaneamente. Ela pulou, com a mão no coração. Ele sorriu diante do susto dela. Holly olhou bem para ele. Ele parecia ter em torno de vinte e dois anos, tinha cabelos loiros e olhos verdes, iguais aos de seu pai. Não, aquele não era seu pai. Ela já tinha visto fotos dele naquela idade. Não era ele, ela tinha certeza.
—É porque eu não sou. — Ela riu, nervosamente, encaixando uma mecha de cabelo atrás de sua orelha. — Eu estou... de viagem. E resolvi parar aqui por um tempo. — Ela teve que esconder o riso ao perceber que não estava realmente mentindo.
O homem parecia estar sorrindo também. Ele tinha um sorriso hipnótico.
—Eu sinto como se eu já tivesse visto você em algum lugar... — Holly disse, sem realmente perceber suas palavras. Então, ela tentou calar sua boca, mas já era tarde demais.
—Isso foi um flerte? — Ele riu. Holly ficou vermelha.
—Não, não! — Ela tentou, mas já era tarde demais. Agora ele estava rindo dela. Ela com certeza ficou mais vermelha ainda. — Desculpa, é que você realmente parece familiar.
—Talvez eu realmente tenha um rosto familiar. — Ele disse, passando as mãos pelo cabelo, sentindo-se um pouco galante.
—Talvez. — Ela disse, concordando com ele, mais aliviada que sua gafe foi deixada para trás.
—Talvez a senhorita gostaria de uma maçã do amor? — Ele disse. Ele era tão alto que Holly tinha que erguer a cabeça um pouco para enxergar o rosto dele. Ela não conseguiu responder a pergunta dele. Ela parecia ter ficado tão vermelha quanto as maçãs. — Ah, perdão. — Agora era vez dele de ficar sem graça. — É que eu vi você olhando para as maçãs mais cedo e...
Ela pigarreou e sorriu nervosamente.
—Bom, acho que só uma maçã não mataria ninguém. — Holly disse, não conseguindo controlar seu sorriso.
***
Alguns minutos depois de Holly pular a janela, Victor acordara violentamente depois de pular de susto por causa de um barulho alto demais. Ele olhou ao seu redor, percebendo que tinha acordado mais uma vez com seus próprios roncos. Então, ele suspirou e tentou voltar a dormir.
Victor estava cansado. Toda aquela viagem no tempo fazia ele ficar confuso, não sabia quantas horas fazia desde a última vez que dormira. Porém, aquela noite, provavelmente, não seria quando ele finalmente descansaria. A cama ao seu lado estava vazia, a janela aberta.
Ele pulou da cama, irritado. Ele tinha confiado nela! Victor olhou para sua irmã, deveria acordá-la? Não, aquilo foi um erro que ele mesmo tinha cometido. Ele teria que aprender a corrigir seus próprios erros sozinho. Já estava na hora de amadurecer. E ele iria atrás de Holly, afinal ela era seu dever.
Ele pulou a janela e, sem ter que procurar muito, Victor encontrou Holly perto do circo, comendo uma maçã do amor enquanto conversava animadamente com um homem alto e loiro.
Victor chegou perto dos dois, chamando Holly de uma distância controlada.
Ela virou-se para encarar Victor, horror espantado em seus olhos arregalados. Então, com a maior naturalidade que ela pôde fingir, Holly foi até Victor. O homem continuava atrás de Holly.
—Eu achei que você tinha dito que não iria fugir. — Victor disse baixinho, sua raiva transparecendo somente em suas palavras.
—Tecnicamente, eu não fugi. Eu apenas sai para dar uma volta. Eu pretendia voltar. E, sinceramente, eu não sei como sua irmã consegue dormir ao seu lado. Você ronca feito um porco. — Holly disse, deixando Victor claramente irritado.
O homem loiro aproximou-se de Holly e de Victor, colocando sua mão no ombro de Holly e cumprimentando.
—Olá, Victor. — O homem disse, com uma familiaridade em sua voz. Os olhos de Victor arregalaram-se. Como alguém como ele poderia saber quem ele era? A menos que...
—Kelly? — Victor perguntou, horror subindo à sua voz.
—Kelly? — Holly perguntou, como se fosse a primeira vez que ouvisse aquele nome. — Quem é Kelly?
O homem loiro, Kelly, sorriu e apertou o ombro de Holly um pouco mais forte. Holly sentiu seu corpo pesar e seus olhos ameaçarem fechar. O sono tinha finalmente invadido seu corpo. A maçã que estava na mão dela, caiu no chão, rolando perto dos pés de Victor.
—Obrigado por deixar que eu a levasse. Eu tenho certeza de que Rose ficará muito contente quando ouvir. — Kelly disse, com malícia em sua voz, carregando Holly em seu colo, pisando com força na maçã do amor que estava jogada no chão. Uma fumaça emergiu da maçã, sufocando Victor, dando à Kelly a perfeita chance para fugir com Holly em seus braços.
Quando Victor se deu por si, estava sozinho. Não havia luzes, não havia circo, não havia diversão. Não tinha nenhum traço que algum dia houve um circo ali de seu lado, exceto pela maçã amassada no chão, perto de seu pé.
Agora, ele precisava acordar sua irmã.
***
—Mas que maravilha, Victor! — Amy disse, sentada na cama de Rose. Arthur tentava digitar mais rápido em seu relógio, mas de nada adiantaria. Ainda demoraria, pois o conserto que seu relógio fazia era automático e não havia maneira de acelerar o processo. — Eu falei para você cuidar dela!
—Como que eu ia saber que o Kelly ia roubar ela? — Victor disse, nervoso. — E, por falar nisso, porque ele está aqui, Rose? Achei que ele tinha ficado em 2067.
—Rose? — Amy a chamou. Rose estava tão perdida em seus pensamentos, mordendo seu polegar, que mal tinha percebido os rostos preocupados de cada um deles.
—Acho que agora seja uma boa hora para contar para eles, Rose. — Arthur disse, observando atentamente o rosto apreensivo de Rose.
—Contar o que? — Amy perguntou.
—Nossa missão nunca foi recuperar o livro de Max Payton. — Rose disse, seus dentes soltando seu polegar. Sua mão caiu na cama. Seus olhos ainda estavam distantes. — Nós tínhamos que voltar para pegar o livro antes que Kelly roubasse.
—Como é? — Amy perguntou, mais nervosa ainda. Agora, ela estava estressada. Suas bochechas vermelhas deixavam isso transparecer. Ela quase nunca ficava vermelha, mas quando ficava, até mesmo seu irmão ficava com medo. — Você mentiu pra mim?
—Eu não queria admitir que ele tinha feito isso, Amy. Você não sabe o quão humilhante isso é. — Rose disse, ainda olhando para o chão, tentando desviar seus olhos de Amy, para evitar que se irritasse. — Ele me enganou. Ele me usou e traiu, roubou uma das máquinas do tempo. E agora, ele pegou Holly. De alguma forma, ele sabia o que ia acontecer, e agora... — Rose disse, colocando as mãos em sua cabeça. — Não sabemos o que ele irá fazer.
—Mas o que tem de tão especial nela que faria até mesmo Kelly ir atrás dela? — Victor perguntou. — O que ele vê nela que é tão importante assim?
—Vai demorar muito, Arthur? — Rose perguntou, ignorando o comentário de Victor.
—Mais algumas horas. — Arthur disse. — Eu não posso adiantar o processo. Posso acabar estragando a máquina.
—Eu só espero que ela não faça nada de estúpido. — Victor disse. Aquilo era uma coisa para se esperar, porém, diante do pouco tempo que eles passaram juntos, sabia que era como pedir por um milagre.
Holly não agia cautelosamente. Ela agia por instinto, sem se importar com consequências.
E isso poderia se transformar em um grande problema.
***
Holly não estava em nenhum lugar em especial. Se aquele lugar deveria significar alguma coisa, ela não sabia. Nunca tinha visto aquele lugar em sua vida. Ela estava sentada em um sofá macio no meio de uma sala pouco decorada, mas que não deixava de ser aconchegante.
Havia uma lareira na sua frente. O livro com capa dura de couro estava aberto em sua frente. As palavras iam surgindo conforme seus olhos se mexiam ritmicamente.
"...Pense em todas as pessoas que te alienaram. Que te maltrataram. Que brincaram com você sem mostrar nenhum remorso. Eles se arrependem hoje? Não, nenhum um pouco. Porque eles não se preocupam com você. Você não existe mais na vida deles, você foi colocada ali somente para servir de saco de pancadas.
Eles nunca se importaram em saber quem você é. Quem você pode ser. Eles não sabem o poder que seu nome contém. Mas agora, é hora de mudar isso. É hora de mostrar à eles.
É hora de ser maior do que eles. Porque você sabe que você será a vitoriosa a dançar no topo"
Os olhos de Holly pararam de se mexer. Kelly apenas observava, interessado, desejando saber o que ela estava lendo. Mas, ele sabia que, não importa o que fosse, seria as palavras certas.
Holly fechou o livro. Kelly sorriu internamente. Então, Holly esboçou um leve sorriso sarcástico. Sua expressão mudando completamente.
Seu sorriso agora era outro, seus olhos eram outros. Ela continuava sendo a mesma Holly de sempre, mas, ela não se sentia como Holly. Se sentia mais leve.
Seus pensamentos focaram-se por um instante em sua mãe, nos colegas que ela teve na primeira série, não parando somente aí. Ela tinha que se lembrar também do ensino médio, sendo carregada de um lado sem o menor escrúpulo.
Ela lembrou de Lindsay, a única menina que ela odiava mais do que tudo nesse mundo. Holly sentia-se livre. Ela poderia fazer o que quiser e quando quiser.
Holly, agora, tinha o mundo em suas mãos. E não descansaria até vencer.
E era exatamente isso que Kelly precisava.
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