Back In The USSR
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Nem se preocupa em saber o nome dessas pessoas que aí vão aparecer. Lembra só que eles são os maus da fita!
O jovem pingava água, após ter sido puxado das águas geladas do Atlântico. Os olhos castanhos do rapaz estavam ainda abertos, mas já embaçados. A vestimenta indicava que ele era mesmo jornaleiro. Starkey e Harrison agacharam-se um de cada lado ao corpo sem vida enquanto Martin falou:
-Scott Trengove, 21 anos. Foi encontrado há pouco por aquele pescador.- Martin apontou o homem além de cana de pesca na mão.
Os dois detetives apontavam num pequeno bloco as informações que iam ouvindo. Ainda assim Harrison voltou a salientar. – Volto a perguntar: o que de interessante tem o moço jornaleiro?
-O nosso moço jornaleiro é uma farsa de nome Demyan Kuznetsov.
-Soa a Russo. – Harrison falou em tom baixo.
-Tem ligações com…? – Starkey perguntou sem mencionar as três letrinhas.
-Não se sabe. Bem, vou vos deixar trabalhar.
Martin preparava-se para caminhar para o carro quando Starkey interrogou de novo. – Isto não devia ser caso deles? – Ele referia as secções de Inteligência Militar.
-Assim que me deixares ir para a delegacia, logo saberei se eles têm interesse no caso. E, — Martin apontou um conjunto de jornalistas que começava a chegar. – cuidadinho com a impressa!
-Fica descansado.
Os dois olhavam o moço e Starkey fechou-lhe as pálpebras, por respeito e algum incómodo.
-Isto é tortura de KGB. – Harrison sussurrou para o parceiro. – Nariz e queixo partidos, queimaduras em círculos perfeitos.
-De charutos, provavelmente. – Starkey mexeu na mão do rapaz, vendo a sua palma. – Picadas com pinos. – Ele disse mostrando.
-Torturaram-no e depois atiraram-no à água. Isto é típico deles. – Ele levantou-lhe um pouco a camisola e disse. – Ele está todo cheio de contusões.
-As pernas também. – O outro constatou, puxando um pouco do tecido molhado das calças. – Achas que eles vão pegar no caso?
Os dois levantaram-se e começaram a caminhar, dando sinal para que o corpo fosse tapado. – Eu não estou muito preocupado com os engravatados. – Harrison deitou um olhar rápido nos jornalistas que os esperavam. – Eu estou mais preocupado é com eles.
A dupla de detetives esquivou-se das perguntas dos jornalistas e seguiram para a delegacia. Tentaram falar com o Capitão da divisão de Homicídios, George Martin, mas ele estava ainda ocupado a tentar contactar os Serviços Secretos.
Até ao final da tarde os dois andaram a fazer investigação. Interrogaram as pessoas a quem Scott/Demyan distribuía jornais para perceber se haveria alguma ponta por onde começar. Mas nada. O jovem era visto como uma pessoa exemplar, e quando a um ou outro contaram que ele era Soviético, quase lhes caia o queixo em admiração.
Não havia nada sólido por onde começar e então regressaram à esquadra para ter notícias importantes.
-Starkey, Harrison, no meu gabinete agora. – Martin falou vendo os dois chegando. Assim que eles entraram e fecharam a porta, ele continuou. – Consegui contactar o MI2, e um agente disse-me que só falará cara à cara sobre este assunto. Ficou combinado que os dois apareciam por lá ainda hoje.
-Muito bem. – Harrison disse, preparando-se para sair com o parceiro seguindo as suas passadas.
-Ah, ele pediu-me que vos dissesse: “Eu sou a morsa.”. (I am the walrus) – Harrison e Starkey franziram o cenho e ficaram de expressão incrédula no rosto. – Eu sei rapazes, eu também fiquei assim com essa cara.
-Não deve bater bem da bola! – Harrison comentou após ter saído.
-Provavelmente!- Starkey disse, concordando, mas voltou umas passadas atrás e voltou a abrir a porta, perguntando ao chefe. – Como é que ele se chama, já agora?
-Epstein, Brian Epstein.
-Ok. – Ele falou, fechando a porta outra vez.
Até chegarem ao carro os dois foram disputando quem iria conduzir. Starkey acabou ganhando, e Harrison ria por dentro, já que tinha sido a sua intenção perder; tinha um donut com geleia há pouco comprado chamando por ele e sua fome não conseguia negar o danadinho nem mais um pouco.
Chegaram àquilo que se parecia com um enorme edifício cheio de escritórios e negócios de banca. Entraram, apertando os botões do paletó onde se depararam com dois homens olhando-os. Um deles deliciava-se com um donut igualzinho ao que Harrison ainda há pouco tinha comido, mas ainda assim os olhos dele abriram-se, vendo a rosquinha. Esse mesmo falou:
-Bom noite, senhores, em que podemos ajudar?
Os dois olharam-se e Starkey acabou por falar. – Queremos falar com o agente Epstein.
O outro homem levantou-se, pousando o jornal. – Vão ter que se submetidos a revista. — O indivíduo começou por Harrison, apalpando-o até que sentiu alguma coisa por baixo do casaco. – Abra o casaco, se faz favor.
Quando o segurança viu o coldre de ombro e o revólver do polícia, puxou da própria arma e apontou-a, berrando. –DE JOELHOS! MÂOS ATRÀS DA CABEÇA! – Starkey obedeceu, ajoelhando-se com as mãos na nuca. O segurança tirou-lhe o revólver e falou para Harrison. – ABRA O CASACO!
Em vez de o fazer, Harrison levou lentamente a mão ao bolso e tirou o distintivo, mostrando-o. – Scotland Yard, detetives Harrison e Starkey.
Os olhos do segurança voltaram-se para Starkey e ele também tirou lentamente do bolso o distintivo, corroborando a história. O sujeito bufou e entregou a arma a Starkey. – Peço imensa desculpa, mas sabem como é o protocolo.
Os detetives acenaram com a cabeça, percebendo o mal-entendido. Porém, quando eles quase se metiam em mais problemas quando o outro guarda lhes perguntou. – Senha?
-Senha? – Harrison proferiu, olhando o parceiro. – Qual senha?
-Ele não falou de nenhuma senha!
-Pois não! E agora?
As mãos dos seguranças estavam sobre a arma, prontos para puxar delas e as apontar a eles.
-Eu sou a morsa! – Os dois disseram ao mesmo tempo. Afinal Epstein não era demente como eles achavam.
Foi-lhes concedida a passagem e foram conduzidos pelo homem que lia o jornal até ao gabinete do agente Epstein. Antes mesmo de bater à porta mentalizaram-se para encontrar um homem velho e gordo, que cuspisse quando falasse, ex-combatente da 2ª Guerra, que conhecesse os de Leste e as suas torturas. Ele era agente de secretária especializado nisso mesmo, não seria de esperar outra coisa.
Em vez disso encontraram um jovem rapaz, da idade deles, e bem apresentável. Na verdade demasiado apresentável para ser agente. Ele parecia mais um médico ou advogado, e o humor dele…
-Venham, entrem, entrem. – Ele disse sorridente. Esticou a mão quando os dois se chegaram à secretária. – Brian Epstein, MI2.
-Richard Starkey. – Ele disse retribuindo o cumprimento.
-George Harrison. – O outro falou também, dando-lhe um aperto de mão.
Epstein caminhou para um grande arquivador logo ali ao lado, e afirmou enquanto abria umas gavetas. – Vejo que conseguiram perceber aquilo que disse ao vosso Capitão e não me acharam demente! – Epstein gargalhou trazendo um dossiê. Os dois detetives deram uma risadinha, ignorando o facto de que tinham pensado isso mesmo. – Bem, aqui têm todas as informações que os nossos agentes de campo têm conseguido.
-Então ele sempre é KGB? – Starkey questionou, vendo as folhas do dossiê.
-Sim. Presumimos que ele foi mandado por Vaska Matveev, o ‘peixe grande’ que está na França. As operações de contrabando do Reino Unido para ele lá na França estavam a ter problemas por suspeitas de haver um intruso no grupo cá de Liverpool.
-Sabem pelo menos quem é o intruso? – Harrison perguntou. Tinham ali um caso para uns bons dias.
-Infelizmente os intrusos são os nossos dois agentes do MI6, McCartney e Lennon. Já há algumas semanas que eles conseguiram entrar no Cavern Club onde está o líder das operações, o Checo Dobroslav Sokoloff.
-Então o Demyan foi morto por suspeitas. Como é que ainda não os conseguiram capturar?
-Precisávamos de ganhar terreno, mas agora que aconteceu o assassinato do Demyan vamos tomar um rumo diferente. Assim que desmantelarmos aqui o quarteto, isso irá expor o Matveev lá na França, e será muito mais fácil para a Interpol e as autoridades francesas os capturarem também.
-Eles são quatro cá em Liverpool? – Starkey perguntou de certa forma incomodado. Ter quatro espiões na terra dele, aproveitando as águas para contrabando deixava-o dessa forma. Para não falar dos segredos que possivelmente também navegavam junto e iam da França até aos ouvidos Soviéticos.
-Fazem parte da quadrilha o também Checo Matfey Rybar, Henryk Szwedko, Polaco e Nico Vãduva, Romeno. Eu sei que não vai ser fácil capturá-los, mas nós conseguiremos. Podem e devem encontrar-se com os agentes McCartney e Lennon amanhã pela manhã.
-Sim senhor. – Harrison respondeu cheio de respeito, característica tão própria dele. – Mas onde o faremos?
-No Cavern Club. – Ele depois suspirou, recebendo o dossiê.
Os detetives despediram-se e saíram em direção a um bar. Precisavam de álcool para digerir a ideia de espiões, Soviéticos, tráficos e ter que trabalhar com o MI6.
Chegados do lado de fora do edifício, já noite tinha tomado conta da cidade de Liverpool e não haviam pessoas na rua, por isso puderam em baixa voz comentar os recentes desenvolvimentos do caso.
-Então deixa ver se entendi: — Starkey começou. – O Russo lá na França achou que algum daqui de Liverpool anda a bufar coisas para fora e decidiu mandar um outro Russo para espiar neles? Eles espiam-se uns aos outros, é isso?!
-Sabes o que se diz sobre os KGB, eles são desconfiados. E ainda por cima nenhum dos que estão cá é Russo, e eles só confiam em compatriotas!
Starkey bufou e entregou a chave do carro a Harrison. – Bem, eu estou a fim de um copo. Também vens?
-Eu quero ir ainda hoje ao Cavern Club. Quero ver como são as coisas por lá. Eu deixo-te na delegacia e depois vais lá ter.
-Porque é que não posso ir contigo?
-De certeza que quando conhecermos os engravatados eles nos vão fazer andar sob disfarce, e dá jeito se a gente não andar junta. Para não chamar a atenção.
-Ok, — Ele disse entrando no carro. – mas isso já começa a ser história de espião a entrar-te no miolo! – Harrison rolou os olhos, ignorando-o. – Vamos ver se topamos os MI6. Se o fizermos, temos o nosso sinal. Ainda te lembras qual é?
-Claro que sei. – Harrison coçou a orelha esquerda antes de colocar a chave na ignição.
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