Bacanal
6 Que o deus da Ordem esteja comigo…
Notas iniciais
Então, você tem coragem?
Fico me perguntando se seu coração ainda está aberto
E se estiver, eu quero saber que horas ele fecha.
Se acalme e prepare seus lábios.
Sinto muito interromper, é só que estou constantemente à beira
De tentar beijar você.
Eu não sei se você sente o mesmo que eu sinto,
Mas nós poderíamos estar juntos...
se você quisesse.
— Arctic Monkeys, “Do I Wanna Know?” (Traduzida)
— Cara? — sugeriu Dionísio, inclinando a cabeça para lado esquerdo, como um gatinho.
— Não! — exclamou. — Quem dizer, sim... Quer dizer, não! — Quanta eloquência, Apolo... — Ah... — Apertou o alto do nariz, fechando os olhos com força. — Me desculpe por isso. — murmurou, abrindo os globos azuis. — Eu pensei que fosse outra pessoa...
— Tadinha dela. — disse solidariamente, com todas as suas várias toneladas de sinceridade explícita.
Apolo corou de vergonha.
Ele não era um gigante como Ares ou Zeus, e mesmo assim passava com facilidade dos um e noventa de altura. Eros era uns bons dez centímetros mais baixo, mas ainda conseguia olhá-lo nos olhos. Já Dionísio, com suas belas formas infantes de músculos acanhados e pele lisa, no que um mortal acharia quinze ou dezesseis anos, nem chegava aos um e setenta, e Apolo o fitava de cima.
O menino lhe sorriu com inocência na beira da porta. Tinha dentes pequeninos e brilhantes, como um alinhamento de pérolas brancas. Os cabelos jaziam estranhamente soltos e Apolo levou alguns segundos para perceber que ele não usava a tradicional coroa de vinhas. Os cachos castanhos estavam num desordeno inédito, caindo uns por sobre os outros e sobre a face macia, pareciam eles mesmos cachinhos de parreira, feitos de cetim. O corpo pequeno estava coberto por um chiton sem adornos, cor de tijolos de argila-vermelha, preso por alfinetes simples de cobre polido. E havia uma curiosa marca vermelha despontando na pele clara da sua garganta. Apolo nunca o vira tão modesto e desarranjado. E não possuía a mais ínfima ideia de como alguém podia ser tão belo com tão pouco.
Talvez seja até mesmo mais belo com menos ainda...
Dionísio piscou para ele um par de vezes, antes de deitar as íris escuras sobre a fresta da porta.
— Está ocupado? — perguntou.
Apolo quase arfou quando notou a própria descortesia.
— Não, não... — disse depressa, abrindo passagem. Não me desconcentre assim. Não é justo... — Entre, por favor.
Só quando o menino transpôs o vão da porta, passando por ele, percebeu seu erro terrível.
De repente, todos os seus ossos e músculos angulosos pesavam menos que uma folha sobre a tensão fina da superfície de um rio. Seu abdome tornou-se quente de dentro para fora, lentamente. A noite mal dormida desapareceu tal qual poeira soprada pelo vento. Os ligamentos e tendões viraram bambu, flexível, sem pressão. E ele estava flutuando numa lagoa de vinho tinto dentro de uma clareira fechada. Nadando nela. Bebendo dela.
Morrendo nela.
— Espero que não se importe de eu ter trago...
— Floquinho... — Apolo completou, ao notar o felino cinzento esperando educadamente na porta, após ser parcialmente desperto pela voz cálida do menino, da sua própria embriaguez languida e deliciosamente perigosa. — Pode entrar, garoto. — murmurou para o leopardo.
Floquinho olhou-o seriamente com as pupilas em forma de fenda e as íris cinza-azuladas, como gelo no mar. Então deu um par de passos elegantes e cautelosos para dentro, sem tirar a vista do anfitrião. De tão perto, Apolo notou uma cicatriz irregular e comprida na base do pescoço do felino, quase toda encoberta por seus pelos espessos. O deus da luz raramente agia com afetação e gestos de carinho público eram absolutamente estrangeiros a ele. Mas sentia-se estranho: leve, mole, manso. Por alguma razão, teve um impulso espontâneo e quase irrefreável de afeição pelo animal, e levou a mão ao alto da sua cabeça.
Dionísio estava encantado com o interior do Palácio Da Luz. Era tudo tão dourado, luminoso e bonito. Como o dono. Pensou, se virando para o anfitrião, a ponto de ver o final do seu movimento potencialmente fatídico. Ah meu Zeus!
— Apolo, não! — exclamou, alarmado.
Mas era muito tarde. Os dedos longos e morenos do deus do sol se entremearam nos pelos cinza e pretos do enorme leopardo-das-neves, num carinho suave.
Para a completa e absoluta surpresa do dono, o felino apenas encarou o deus com olhos desconfiados e receosos, mas quando Apolo continuou o afago com tranquilidade, fechou os globos azulados, e permitiu o toque numa inércia preguiçosa.
— O quê? — perguntou o Sol, tardiamente. Se surpreendendo ao encontrar Dionísio numa expressão completamente chocada, a boquinha colorada adoravelmente aberta e os olhos verdes enormes.
— Isto… foi… incrível! — disse o deus do vinho, destacando cada palavra, o rosto corado totalmente maravilhado.
— O quê? — Apolo repetiu, confuso e amortecido, o cenho moreno levemente franzido. Enquanto Floquinho se soltava dos seus dígitos e passava por ele, esfregando-se languidamente por suas pernas, e ia até o dono. Dionísio afagou-o energeticamente, como um pai orgulhoso.
— Floquinho não deixa ninguém tocá-lo além de mim! — explicou — Há não ser que eu mande, e mesmo assim sempre o faz de má vontade. — olhou para o animal, com as íris escuras arregaladas, e depois para o Sol, quase com adoração. — Ele gosta muito de você!
Apolo ergueu ambas as sobrancelhas cor de ouro, sem saber como interpretar aquela informação. Baixou a vista pala o felino, que se mantinha por detrás das pernas expostas de Baco, numa tentativa tímida e completamente vã de esconder o corpo imenso. E mais uma vez o Sol teve a impressão de ele quase entendia o que era dito.
— Qual é a história dele? — perguntou suavemente, guiando os visitantes para sua primeira sala. Duvidava que com o carinho que Dionísio mostrava com o felino, tivesse o tirado filhote da liberdade da natureza.
Ali havia dois sofás compridos de corpo arredondado, estofados em azul celeste, com pés e detalhes dourados, postos frente um ao outro, e separados por uma mesinha de centro circular de mogno claro. Ambos lotados de almofadas brancas, ouro-velho e anil. Apolo indicou o primeiro a Dionísio e se sentou no outro a sua frente.
— Eu o encontrei um ano atrás. — começou o deus do vinho, acomodando-se entre as almofadas, com Floquinho sentado aos seus pés. — Estava andando no mundo mortal. À toa, sabe... – confessou sem nenhum acanhamento. — E próximo a um mercado famoso, ouvi um rosnado dolorido num canto afastado, coberto de floreta. — largou os olhos no leopardo, levemente tristonho. — Um grupo de bárbaros metidos a artistas de trupe o tinham capturado há meses, na tentativa de incluí-lo no show de horrores que chamavam de circo. — continuou, a melancolia sendo substituída por uma raiva mal contida. — Mas ele era forte, agressivo e selvagem demais. E eles o machucaram muito... — deslizou a palma da mão pequena pela lombar do felino, com carinho. — Depois dele ter mordido gravemente um deles, finalmente chegaram a conclusão de que era inútil tentar domá-lo. Mas em vez de apenas o soltarem, decidiram… sacrificá-lo. — e apertou os dentinhos colericamente. — Felizmente eu cheguei a tempo. — Floquinho levantou a cabeça e esfregou o focinho na mão do dono. Dionísio sorriu para ele. — Desde então somos uma dupla, não é mesmo, garoto? — o felino deu-lhe uma lambida longa e afável na sua mão.
— O que aconteceu com eles? — Apolo perguntou, ele mesmo apertando os dentes, indignado.
Dionísio sorriu.
O sorriso de uma espécie inteiramente diferente do inocente e adorável que tinha. Foi um sorriso lento, denso, duro e quase cruel. O sorriso que daria um gato selvagem ao prender um rato entre as garras compridas.
— Digamos que eles passarão os próximos anos achando que são espécies raras de galináceos e plantas aquáticas...
O Sol abriu minimamente os lábios ao entender o que ele havia dito.
— Você os enlouqueceu. — traduziu, num murmúrio.
Baco fungou com o nariz pequeno, num gesto ríspido de desdém.
— Não será permanente. — disse, insensível. — Embora merecesse ser...
Apolo enterrou os olhos azuis fechados em pálpebras estreitas nele e notou algo inquietante em suas íris verde-musgo. Algo perigoso. Descontrolado. E profundo o suficiente para afogá-lo na sua densidade escura.
Ou talvez a ambos, já que o baixo ventre do deus do Sol respondeu comprometedoramente a aquilo. Nunca na sua infinita vida ele conseguiria explicar coerentemente como aquela loucura fora excitante de ver.
Apolo fechou os olhos. Travou os dentes. Mordeu a língua. E ficou completamente imóvel. Não confiava em si mesmo para dizer uma letra. Para mexer um musculo. Tomar uma decisão.
Teria ficado assim por horas, só esperando a razão lhe dar o ar da graça novamente, se não houvesse começado a se afogar. A lagoa de vinho tinto onde flutuava indolentemente começou a arrastá-lo parabaxo. Enchendo suas narinas. Lotando seus pulmões. O Sol abriu os olhos azuis para acabar por afundar numa imensidão esverdeada. Dionísio estava ao seu lado. O rosto corado a milímetros do seu. A superfície dos joelhos expostos tocando os seus. O perfume da pele embotando lhe os sentidos.
O menino olhava-o no mais profundo das pupilas, que tomavam quase o todo das suas íris cor de verão, num desejo incontestável, sufocado inabilmente. E então, fez o impensável:
Colou seus lábios nos dele.
E a lagoa rubra finalmente se fechou sobre a sua cabeça.
Dionísio afastou-se abruptamente, tirando sua maciez cálida e corada dele por puro reflexo, dando um arquejo dolorido e surpreso. Apolo perdera totalmente o controle da própria temperatura corporal, e havia queimado lhe a superfície dos lábios vermelhos.
Só então o deus do Sol abriu os olhos que nem vira que tinha fechado, e razão lhe caindo na cabeça como uma nevasca gélida e cruel. Deu um pulo para trás, afastando-se do menino máximo que podia sem cair na beirada do sofá que agora dividiam.
— O-Oque v-você fez? — ele perguntou, a voz estrangulada, os olhos quase não cabendo dentro do seu rosto moreno e a mão de dedos elegantes sobre os lábios, que vibravam em sintonia ao seu desejo destrutivo.
Dionísio franziu o cenho macio, como se a pergunta o tivesse confundido, passando distraidamente o pequeno polegar sobre o próprio lábio inferior, onde Apolo havia chamuscado inesperadamente.
— Eu beijei você. — disse simplesmente, com tom de óbvio.
Porque de fato era.
— Ah m-mas... — Apolo gaguejou como um bobo. — Porque você fez isso?
O menino tirou o dígito da boca e apertou os lábios rubros num biquinho pensativo.
— Não sei. Fiquei com vontade. — respondeu por fim, a honestidade quase emanando dos seus poros.
— O quê? — inquiriu, exasperado. — V-Você não pode fazer isso!
— Por que não? — perguntou docilmente, inclinando a cabeça.
— Ora, porque... — Quase fez com que eu perdesse completamente a cabeça... — Não se deve beijar as pessoas sem a permissão delas!
A boca vermelha e sensibilizada do menino fez um “O” de entendimento, e ele assentiu mansamente com a cabeça, fazendo alguns os cachos soltos caírem sobre seus olhos esverdeados. No que Apolo refreou um instinto intenso de tirá-los dali, passar as mãos por suas melenas castanhas, prende-las entre os dedos, puxá-las para...
— Apolo.
— O quê? — sobressaltou-se, a expressão culpada.
Dionísio olhou no mais profundo dos olhos dele antes de dizer:
— Posso beijar você?
(Um minuto de silencio para absorver a informação...)
— O QUÊ? — gritou.
— Posso beijar você? — repetiu, exatamente no mesmo tom.
Sim...
— Não!
O menino moreno fez uma cara tão desolada que Floquinho saiu do lugar de onde estava e esfregou o focinho no joelho dele, num consolo desajeitado.
— Por que não? — perguntou num murmúrio de uma criança duramente repreendida. — Eu pedi permissão agora.
— Ah... eu... porque...
— Você não gosta de beijar? — inquiriu manhosamente, inclinando a cabeça para o outro lado agora.
Apolo já havia gravado aquela mania. Meio infantil. Meio felina. Algo mínimo, apenas alguns graus para os lados em suas interrogações. Poucos centímetros de diferença. E, ainda sim, uma diferença tão grande. Tão adorável. Tão doce.
— Eros diz que eu gosto muito de beijar. — o menino acrescentou, distraidamente. — Mas é mentira, ele gosta mais! — afirmou com uma seriedade imatura.
Com a menção do deus da paixão, os olhos de Apolo desceram involuntariamente para o pedacinho especial de pele marcada na sua garganta. Pequena e circular, do tamanho de uma digital, vermelho-arroxeada contra a cútis branca, indolente e quase discreta.
Qual é a chance de que Eros tenha feito isso?
— Isso o quê?
O Sol arregalou os olhos, horrorizado, ao perceber que dissera aquilo alto. Baco seguiu o seu olhar e acabou por colocar os dedos sobre a própria garganta.
— Ah, isso? — perguntou, deslizando o indicador pelo pseudo-círculo arroxeado. — Foi Eros. — confirmou, com tom de irrelevância. — Embora seja intrigante. Ele não tem o costume de deixar-me marcas, é sempre muito delicado.
Diferente de mim... Constatou Apolo, olhando culpado para a superfície enfaticamente enrubescida que inflamara nos lábios dele. E mordeu com força a parte de dentro da própria boca antes de murmurar, com toda a coragem que tinha:
— Dionísio, venha cá...
O menino moreno o obedeceu sem ao menos hesitar. Mas em vez de aproximar-se dele pelo sofá, levantou-se do móvel, dando passos lentos na sua direção, contornou Floquinho, que o encarava com curiosidade, e simplesmente ajoelhou-se a sua frente. O peito liso tocando em seus joelhos, o corpo pequeno entre as suas pernas.
Apolo prendeu a respiração.
Você gosta de me ver sofrer, não...?Pensou, estremecendo. Que o deus da Ordem esteja comigo. Rezou, ao pegar o rostinho de Dionísio entre as mãos, nem se lembrando de que Anteros era irmão de Eros, e provavelmente nunca o favoreceria.
Baco fitava Apolo com seus olhos imensos, sem ao menos piscar. Mas tudo o que o Sol via era a sua boca. Pequena, cheinha, a forma gêmea de um coração, e vermelha como âmago de uma romã madura.
Apolo deslizou o polegar da mão direta pela pele branca e lisa do seu maxilar, se surpreendendo com uma maciez ainda mais acentuada do que ele esperava, suave que nem seda chinesa ou algodão egípcio. Então pressionou o dedo no cantinho do seu lábio inferior e arrastou a superfície da sua digital por toda a sua extensão, numa lentidão muito mais evidente do que o necessário. Dionísio arquejou minimamente quando a dor pinçou a queimadura recente, mas depois largou um suspiro longo e aliviado, quase prazeroso, quando o incomodo foi substituído por um calor suave e analgésico. Apolo fez o mesmo com seu lábio superior, talvez ainda mais demoradamente, vendo a marca do seu beijo abrasado sumir instantaneamente dali. Fez todo o caminho inverso do seu movimento, como pretexto fraco de garantir que o tinha perfeitamente curado. Depois, sem mais desculpas para tocá-lo, tirou as mãos morenas do seu rosto vagarosamente. Só depois disso o olhou nos olhos, perto e por tempo o suficiente para notar um punhado de pontos castanhos colorindo suas íris esverdeadas próximos à pupila, tal qual cascalho perdido num tapete de musgo macio. E então virou o rosto num gesto brusco, baixando os olhos ao chão, como se as cores do menino o ferissem.
— Me desculpe por machucar você... — murmurou, quase inaudivelmente.
Dionísio colocou ambas as mãos sobre a boca, sentindo o calor tenro que ele havia deixado ali esquentar lhe as pontas dos dedos e piscou demoradamente.
— Não precisa se desculpar. — disse, com um sorriso mínimo, depois de recolher as mãos e apertar os braços junto ao peito, sentando-se sobre os calcanhares. — Creio que eu tenha assumido o risco.
Apolo não conseguia olhar para ele. O toque da sua boca e pele ainda ardendo nos seus dedos, numa vingança justificável e inquietante.
— Eu sonhei com você hoje à noite. — ele ouviu o menino dizer, ainda acomodado de joelhos no vão entre suas pernas longas e morenas. — Você estava correndo numa floresta fechada. Correndo rápido demais. Eu o vi e gritei para você, pedi que fosse mais devagar, tinha medo de que se machucasse. Mas você não me ouviu, ou não quis me ouvir, e continuou correndo. — escutou os pulmões dele se enchendo devagar. — Os galhos das árvores baixas lanhavam a sua pele. Os espinhos das flores o arranhavam, tirando-lhe sangue, e rasgavam suas roupas. Havia pedras e troncos no seu caminho, e você se chocava com eles e caia. Mas não parava de jeito nenhum. Eu corri atrás de você, o mais rápido que consegui nessa forma, e mesmo assim não pude alcançá-lo. Nem mesmo tocá-lo. — fez uma pausa discreta. — Então cheguei à beira de uma clareira por onde tinha passado. As folhas baixas das árvores próximas estavam todas queimadas, se desfazendo em cinzas escuras. A grama no chão ainda fumegava, soltando fumaça numa ardência crepitante. E no meio da clareira, em vez da vegetação verde e rasteira, havia apenas um buraco imenso e profundo. Um abismo enorme. Eu me inclinei ao máximo, e mesmo sob a luz forte, não fui capaz de ver seu fim. Só havia trevas ali. E nenhum sinal de seu... — sentiu uma mãozinha cálida e macia pousar no seu joelho esquerdo. — Eu acordei sem saber se tinha caído.
Apolo ouviu a tudo aquilo calado, os globos azulados teimosamente fixos no piso de pedra clara. Mas então sentiu Dionísio se mexer entre suas pernas. O menino tinha começado a se erguer devagar, se aproximando dele.
Apolo espalmou as duas mãos sobre seus ombros pequenos e o empurrou de volta para baixo, prendendo-o no chão.
— Não.
Sua voz estalou como um chicote, dura e cortante. Fazendo Dionísio se encolher.
Não aguento mais isso. Não aguento mais... O Sol respirava em intervalos curtos, tentando levar o mínimo possível do ar impregnado com seu aroma embriagante as narinas, mas sabia que sua razão já estava completamente comprometida. No momento, tinha que usar todo seu recentemente frágil autocontrole para manter-se sentado. Parado. Contido. Se abrisse uma única brecha agora, se perdesse o controle por um segundo, se Dionísio chegasse ainda mais perto, ele sem duvida alguma o arrastaria sem licença ou cortesia nenhuma para o seu quarto e só as senhoras do destino sabiam o que seria capaz de fazer com ele.
Oh, a quem queria enganar, não suportaria nem mesmo chegar ao quarto...
— Desculpe. — Baco murmurou, fragilmente. Os olhos imensos. — Eu não pedi permissão...
Eu também não pediria.
— Dionísio... — Apolo disse lentamente, entre os dentes cerrados. — o que você veio fazer aqui?
O menino piscou meio dúzia de vezes, a dúvida e o receio lutando por espaço no seu semblante.
— Ah... — murmurou, conseguindo ficar ainda mais corado que o normal. — Eu vim… por isso… — hesitou por alguns segundos antes de colar as palmas das mãos uma sobre a outra, inversamente. Quando as afastou, havia surgido ali um envelope roxo com cheiro de uva.
O menino estendeu timidamente o retângulo de papel colorido para ele. Apolo o fitou rigidamente por alguns instantes, depois tirou as mãos que ainda pressionavam seus ombros e pegou a carta. Dionísio o assistiu ler todos os caracteres pelo menos duas vezes, o rosto sem expressão, como o pilar de um templo vazio.
— Você vai? — perguntou, a voz quase sumindo. O Sol o encarou por cima do papel e não disse absolutamente nada. Ele suspirou. — Sei que quer que eu saia... — sussurrou baixinho, deixando os olhos verdes caírem até o chão. — Mas não vou embora enquanto não disser que vai! — declarou decididamente, apertando a boca vermelha. — Então… você vai?
Apolo não queria.
Apolo não podia.
Apolo sabia que não devia.
Mas disse mesmo assim:
— Sim...
*
Existem alguns dias da nossa vida que nós gostaríamos de apagar inteiramente da memória. Os seres que vivem muito tem esse instinto ainda maior, já que possuem muito dias e não lhes é de grande sacrifício perder alguns, ao preço de se livrarem de uma lembrança desgastante que os acompanharia por anos sem conta.
Aurora queria apagar aquela semana inteira.
Apolo tivera quatro crises. Quatro! Em apenas sete dias. Isso nunca havia acontecido com essa frequência. Ele chegou a desmaiar em uma delas, completamente esgotado, deixando a serva em pânico a ponto de passar a dormir na porta do quarto dele. Só esperando...
Aurora não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, não sabia pelo que ele estava passando. Mas era algo sem nenhum precedente e, quando se leva em consideração seus mais de novecentos anos de existência, fica difícil imaginar essa situação. Apolo não dizia uma palavra sobre aquilo e ela não se atrevia a perguntar.
No entanto, algo quase instintivo lhe dizia que tinha alguma coisa a ver com seu irmão mais novo.
Senhor Dionísio...
A ninfa dourada morava terminantemente no Palácio Da Luz e só tinha contato com os deuses que pisavam ali, de forma que nunca havia visto o deus do vinho até aquela ocasião. Havia sido de relance, apenas por alguns segundos, antes de deixar a sala e dar privacidade ao seu senhor. E mesmo assim, nesse instante ínfimo, com apenas a visão breve das suas formas, teve um impulso incrivelmente violento que apertar-lhe as bochechas e sacudi-lo até a morte. Como pode alguma criatura ser tão absurdamente fofa deste modo? Isso é errado! Pensava a serva do Sol. Não entendia como seu senhor havia conseguido se conter. Talvez não tenha. Talvez não queira. Talvez esse seja o cerne do problema.Ela pensava, ajustando um cinto dourado cravejado de safiras escuras na cintura de Apolo. Se for o caso, essa festa será um ponto de acerto ou uma tragédia catastrófica...
— Está muito pensativa, Aurora. — o Sol murmurou, acompanhando os movimentos da mulher pelo reflexo do espelho gigantesco a sua frente.
— Apenas distraída, meu senhor, peço desculpas. — respondeu, afastando-se dele o suficiente para poder estudá-lo com precisão.
Ela nunca deixava de se encantar pela beleza avassaladora de Apolo. Agora ressaltada pela túnica de seda branquíssima que destacava lhe o bronzeado da pele por sobre os músculos esculpidos, as joias do cinto e dos broches de ouro nos seus ombros em sintonia com o azul incrível dos seus olhos, moldurados pelos cílios dourados e compridos.
— A capa azul-marinho. — concluiu precisamente, depois de esquadrinhá-lo bem. — Ela é perfeita e está esperando por uma oportunidade de ser usada.
Apolo deu ombros com indiferença.
— A capa azul-marinho então...
Aurora trouxe a peça de roupa nova, afagando encantadoramente o tecido fino, e ficou na ponta dos pés para colocá-la ao redor dos seus ombros largos. Ajustou toda a extensão do pano caro e escuro as suas costas, para depois assentir orgulhosamente para a visão que teve. Nem as deusas castas teriam capacidade de negar sua beleza agora, meu senhor.
— Estou pronto? — inquiriu Apolo, amortecido.
Aurora ergueu os olhos para ele, dizendo suavemente por fim:
— Talvez queira tirar as olheiras, senhor...
O deus da medicina encarou a si mesmo do reflexo prateado do espelho e fez uma careta de desgosto para o par de semicírculos escuros alojados por baixo dos seus olhos azuis. Ah, que seja... Resmungou em pensamentos, passando os dedos longos pela pele e sumindo com as marcas arroxeadas dali. Apenas mais uma mentira entre tantas outras.
— Muito bem, vamos acabar logo com isso. — disse para si mesmo, de um jeito agressivo, já caminhando para a porta.
— Ah, meu senhor... — ouviu Aurora chamar.
— Que foi? — perguntou, um pouco mais rude que o necessário, parando na beira da porta.
A ninfa hesitou momentaneamente, parecendo incrivelmente surpresa.
— Os louros... — ela murmurou, os olhos dourados muito abertos. — O senhor esqueceu os louros...
Apolo deixou o queixo cair, absolutamente chocado com sigo mesmo. Seguiu com os olhos para o pedestal de mármore onde a coroa de folhas sempre o aguardava. Como havia podido esquecer-se da sua segunda pele? Do adorno pesado que criara raízes na sua alma?
Como pudera esquecer-se de Dafne?...
O deus pegou a coroa de louros com delicadeza e colocou na cabeça, travando os dentes como se sentisse dor, e depois saiu em dizer uma única palavra.
Ponto de acerto ou tragédia catastrófica. Aurora ponderou em pensamentos.
Quando ouviu Apolo bater a porta da frente, começou a rezar.
**
Aquilo sim não tinha nenhum precedente.
Estava absolutamente incrível.
O maior salão, dentre os salões enormes do Palácio Dionisíaco, parecia um pedaço do Elísio. Um pedaço devasso, caótico e inacreditavelmente bonito.
Pelas paredes de mármore castanho subiam impossivelmente trepadeiras com milhares de flores fechadas. Até que um convidado esbarrasse ou tocasse lhe as pétalas, então elas se abriam emitindo uma luz fluorescente variando em roxo, vermelho e púrpura; piscando e banhando a todos os próximos com um perfume delicioso. Acontece que o salão estava completamente lotado e as flores se tornaram um espetáculo de luzes ininterrupto. O resto da iluminação era feito por fileiras paralelas de castiçais de cristal alocados no alto das paredes, também luziam em tons de roxo e violeta, fazendo tudo parecer estar por sobre as águas, cercado por um coral de criaturas que brilhavam no escuro. De fato, inúmeros vaga-lumes surgiam e sumiam por entre as folhas das paredes e mariposas de asas coloridas e acesas rodeavam os olimpianos.
Havia um palco principal em formato trapezoide tomando a vista, mas ainda vazio. Muitos outros menores se espalhavam pelo espaço. Bacantes dançantes, músicos alegres e artistas circenses dividiam a atenção da multidão.
As mulheres dançavam em duplas, as peles muito expostas se tocando entre si, pouco cobertas por roupas diáfanas cheias de vazios, varias pedrinhas cintilantes adornando os traços dos seus rostos bonitos, incitando os convidados a tomarem eles mesmos os seus pares. Os músicos tiravam notas rápidas e ritmadas de alaúdes, flautas e tambores leves, regendo os movimentos impudicos das bassárias e de quem as acompanhava com entusiasmo. Os artistas se dependuravam por cordas de tecido comprido presas ao teto abobadado, torcendo e contorcendo os corpos atléticos e lascivamente flexíveis, entremeando os membros nos vácuos uns dos outros, as roupas brilhantes coladas em todos os músculos. Outros ainda, vestidos de couro, com peças de pedra e contas de madeira entremeadas nas tranças dos cabelos perigosamente compridos, cuspiam fogo em intervalos curtos, nas batidas mais pesadas da canção frenética, iluminado em laranja as faces daqueles que os assistiam com assombro e excitação.
Vinho suave era servido sem pausa. Frutas secas, cubos de carne vermelha e doces coloridos também. E os convidados os devoravam já sem se importar com o que devia ser aperitivo, prato principal ou sobremesa. Só sabiam que tinham fome e sede. Então comiam e bebiam.
E dançavam.
Apolo afundou o rosto no terceiro cálice de vinho, tentando se camuflar numa parede do fundo do salão, o que lhe foi o mesmo que gritar sua presença, já que todas as flores ao seu redor se acenderam numa aquarela de sub-tons de vinho. Genial... Resmungou para si mesmo, esvaziando o copo. Alguém o encheu sem ele ao menos ver.
Príapo passou correndo desesperadamente a sua frente, perseguindo uma ninfa negra extraordinariamente bonita, que escapava dele as risadinhas. Um grupo de sátiros fazia uma dancinha devassa em torno de uma dupla de mênades. Um casal feminino se agarrava despudoramente do seu lado esquerdo. Dois deuses menores e uma ninfa da floresta davam um beijo triplo no direito.
E estavam só no começo da festa.
Uma pequena multidão de divindades se amontoava ao redor de Afrodite, que distribuía selinhos alternados naqueles que a divertiam mais, as bochechas adoravelmente rosadas, como seus lábios cheios. Lábios gêmeos aos de Eros. Aliás, era impressão sua ou deus da paixão estava caminhando a passos rápidos na sua direção? Ah, não...
Eros suspirou aliviado quando finalmente achou Apolo, tentando se infiltrar numa das paredes do salão.
— Ele está ali! — disse para a bacante loura que o seguia.
— Acha mesmo que o senhor Apolo irá ajudar? — ela perguntou, a voz pouco mais que um fiapinho receoso.
— Ele vai sim. — afirmou com tom de conclusão. Nem que eu tenha que bater nele com um castiçal!
— Maldito azar do Tártaro! — Apolo sussurrou, ao perceber que não tinha nenhuma rota de fuga.
Eros o havia mandado duas cartas naquela semana, o convidando para outra visita. Ele recusara a ambas, com desculpas fracas. A verdade é que de maneira nenhuma queria correr o risco de ficar tão perto de Dionísio de novo, assumindo que o Amor provavelmente também o convidaria.
Não queria ficar tão perto de Dionísio nunca mais.
— Você está aqui. — Eros sussurrou, finalmente chegando até ele. Os cabelos compridos enfeitados com trancinhas finas entremeadas de ametistas minúsculas, cintilando escuras contra suas mexas claras, em resposta a iluminação frágil e errática do lugar. O corpo esbelto coberto por uma túnica marfim muito fina e uma capa cor de salmão-escuro.
— Eu estou aqui... — Apolo disse, do mesmo modo mórbido que alguém diria “Estou com lepra e vou morrer”.
— Ótimo, por que precisamos de você! — disse, ignorando o tom lúgubre do outro.
— Não, eu não vou dançar com vocês. — afirmou mal-humorado, bebendo metade do que tinha na sua taça num gole só.
— Eu… o quê? — Eros estranhou, franzindo o cenho branco. — Não!
— Também não vou fazer aquilo. — acrescentou, apontando para o trio que ainda se beijava no lado esquerdo deles.
— Oi?
— Eu nem sei para onde vai tanta língua e...
— Apolo, cala a boca! — Eros cortou, impaciente. — Temos um problema sério aqui! — murmurou gritado, seus olhos pretos estavam duros. A bacante ao seu lado apertou as mãos uma na outra, nervosamente.
O Sol ergueu ambas as sobrancelhas loiras, fazendo um muxoxo de tédio.
— Muito bem, muito bem... — debochou ele, revirando os olhos. — O que aconteceu? — Apolo perguntou, sussurrando dramaticamente.
Eros olhou para a ménade, que pareceu ainda mais inquieta.
— Meu mestre... — ela murmurou, baixando os olhos castanhos, culpada. — não conseguimos encontrar meu mestre...
— O quê? — o Sol perguntou incrédulo, desfazendo a mascara de desdém.
Cupido passou um braço esbelto ao redor da bacante, que parecia prestes a chorar e disse, curto e direto.
— Dionísio sumiu.
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