Bacanal

16 O Gato Vermelho


Notas iniciais
Queridos leitores, venho por meio desta informar que estou de mudança imediata para um lugar muito distante, tipo Plutão ou o Mundo Invertido, visto que sinto correr sério risco de vida depois desse capítulo... O importante é, tenho um pedido sério, porém simples a fazer, que seria apenas... NÃO MORRAM! É sério, não importa o que aconteça nesse cap, resistam! Eu me sentiria muito culpada se isso acontecesse. Pense que, normalmente, as coisas pioram antes de melhorar... Normalmente... Ps:. deem uma atenção especial as notinhas finais hoje, elas são importantes ;) Boa leitura ♥

Se eu te dissesse o que eu era
Você viraria as costas para mim?
E se eu parecesse perigoso
Você ficaria com medo?
Tenho a sensação apenas, porque
Tudo o que eu toco não é obscuro o bastante
Se o problema está em mim (...)
Um monstro, um monstro
Eu estou virando um monstro...

— Imagine Dragons, “Monster”

Apolo olhou para o líquido rubro dentro do seu copo sem leva-lo aos lábios, encarando o reflexo turvo das próprias íris azuis. Depois ergueu a face para o palco, onde o menino dos seus olhos ainda dançava loucamente, a música alta e frenética tamborilando em descompassos nos seus ouvidos. Então voltou os olhos paro o copo. Para o menino. E para o copo outra vez.

Estava assim há uma hora.

“Eu vejo o Tártaro preso nas garras de um gato vermelho” Apolo se lembrava, pela octogésima nona vez. Tinha imaginado muitas coisas quando as palavras saíram do seu oráculo.

Mas nunca, nunca, nunca imaginaria aquilo...

***

— Cinco horas atrás –

— Perdão, o que disse? — Eros tentou, os lábios partidos, na esperança de que a sua mente finalmente estivesse cobrando pela insônia recente e lhe pregando peças. Qualquer coisa era melhor do que ele achou que tinha ouvido.

— Ele disse “Gigantes” – foi Apolo quem respondeu, num tom mortalmente austero e rígido. As íris cravadas a sua frente.

TUM!

O barulho continuava. Cada vez mais alto, pesado e sombrio. E em toda bacada ruidosa, o chão sobre eles estremecia. Os tijolos do Palácio do Vinho rangiam. Aves celestes que cantarolavam displicentemente pelos jardins do Olimpo, alçaram voou num desespero coletivo, quase batendo as asas entre si. O ar começou a permear-se com um cheiro pinicante e desagradável de enxofre, podridão e piche.

Maldição. Apolo pensou, esticando a braço direito, num movimento treinado e já instintivo. O ar perto dos seus dedos começou a reluzir. Como que tomado por faíscas erráticas sem origem nem destino, que apenas surgiam e morriam dentro de um espaço pequeno. Pode-se ouvir uma leve descompressão, parecida com o ar vasado ao se estourar um balão, quando as barreiras do espaço-tempo eram manipuladas e expandidas. Com esse som mínimo e mais uma série de lampejos elétricos, um arco dourado e elegante surgiu em sua mão.

Eros quase pulou para trás, num arquejo surpreso. Legal. Não evitou pensar, vendo o Sol também materializar uma aljava cheia. Não importa o que aconteça, ele vai ter que me ensinar isso um dia.

— Hermes – Apolo chamou, num tom autoritário e urgente.

— Eu sei – o irmão adiantou, as asinhas já empurrando o ar embaixo dos seus pés, elevando-o acima de todos – Proteja-os – Mercúrio pediu, embora seu timbre beirasse a exigência, dando um último olhar discreto para Cupido. Então partiu tão veloz que foi impossível acompanhá-lo com os olhos em segundos.

— Aonde ele vai? — Eros perguntou, a voz lhe saindo ligeiramente aguda.

— Reunir todos os deuses guerreiros que estiverem no Olimpo – Apolo o respondeu sem olhar, acomodando a alça da aljava familiar e pesada em torno do peito – Estamos muito perto. É provável que ainda não tenham ouvido.

TUM!

Um ruído particularmente alto ecoou pelo lugar, rachando a terra a poucos metros e causando um calafrio em Cupido.

— Ele v-vai lutar? — questionou, soando baixo e tremido.

— Vai – Apolo retrucou mecanicamente, nem vendo o quando aquilo o deixou empalidecido – Agora vocês precisam entrar – ordenou, virando­-se para os três deuses que ainda estavam ali – Voltem para o Palácio. Alertem os servos para que não saiam em hipótese nenhuma. Tranquem tudo pelo caminho. Se houver algum espaço subterrâneo, tanto melhor. Acomodem todos lá e esperem – ele disparou todas as ordens numa constância ordenada e clara. Como se fizesse isso todos os dias da sua vida.

Eros arregalou os orbes pretos.

— M-Mas... – balbuciou, beirando o desespero, quando sentiu os dedos gelados de Anteros se fecharem no seu braço esquerdo.

— Vamos – a Ordem anunciou, começando a quase arrastá-lo para dentro, no que Eros só conseguia piscar esbaforido.

Apolo viu os filhos de Afrodite passarem pela porta com um sentimento de meio dever cumprido. Não duvidava dos poderes de cada um. Mas tudo tem a sua utilidade e seu momento. Eros não era um guerreiro e estava desarmado. E mesmo o dom atroz de Anteros seria inútil contra algo daquele tamanho. Se insistissem naquilo, só fariam atrapalhar e se machucarem sem motivo.

TUM!

O Sol rilhou os dentes, rezando baixinho. Que as moiras tenham clemencia e pelo menos Zeus, Ares e Atena estejam aqui. Pediu ao destino, sabendo que não tinham muito tempo. Seja rápido, irmão. O deus da música fechou os olhos e apurou os ouvidos. Tentando capitar melhor cada nuance daquele barulho infernal.

— São pelo menos dois... – murmurou para si mesmo, ainda de olhos trancados – Não mais do que cinco...

— São três – uma voz anunciou, completamente convicta.

Apolo abriu os orbes em pálpebras arregaladas quando percebeu que a voz viera de Dionísio. O pequeno continuava exatamente no mesmo lugar. Os ombros tensos e írises fixas. O narizinho sensível franzido em resposta aquele odor nauseabundo. O estomago do deus do sol pareceu afundar ao vê-lo tão próximo daquele perigo.

— O que está fazendo aqui? — ele vociferou, exasperado e um tanto agressivo, aproximando-se rápido e duro – Eu disse para entrar!

— Você diz muitas coisas – ele respondeu tranquilamente, sem se dar ao trabalho de olhá-lo, a voz soando propositalmente doce e completamente indiferente.

TUM!

— O que? — Apolo quase gritou, incrédulo, apartando as pálpebras em torno dos olhos azuis.

TUM!

— Não é hora de brincar – o Sol ralhou, num tom grave e imperioso, que faria qualquer um se encolher. E vendo que ele não fazia a menor menção de se mexer, tentou pegá-lo pelo braço.

O som do tapa estalado pareceu ecoar quase tão alto quando os passos dos gigantes, e Apolo olhou inacreditado para a mão que Dionísio acabara de golpear, lançando longe. Sendo que não deveria sequer tê-la visto, já que mantinha o olhar preso no horizonte.

— O que pensa que está fazendo? — Dionísio questionou, olhando-o apenas pelo canto, o timbre baixo, frio e feroz.

Apolo piscou uma centena de vezes.

— Estou tentando proteger você! – declarou, num bramido frustrado. A raiva lhe corando as bochechas.

Para chocá-lo um pouco mais, Dionísio torceu os lábios sobre os dentes e, pelo nariz, soltou uma risadinha de mais puro e completo desdém.

— Eu não preciso da sua proteção – ele anunciou calmamente – Nem de você – acrescentou, baixando a voz para nada mais do que um sussurro ferino.

TUM! TUM! TUM!

Desculpe, Dionísio, mas essa é uma péssima hora para enlouquecer! Apolo pensou, já decidido a arrastá-lo a força e trancá-lo lá dentro, nem que tivesse que desmaia-lo e leva-lo sobre os ombros. Não o deixaria em perigo. Mesmo que ele o odiasse mais ainda. Era um preço pequeno para mantê-lo seguro. Mas entre querer e fazer há um abismo de coisas inexploradas e assustadoras. E no único passo que Apolo deu em sua direção, Baco estendeu o braço, espalmando a mão no seu peito e o empurrando com uma violência traumática pelo o mármore do chão.

Apolo ofegou quando o golpe expulsou o ar dos seus pulmões. Ele continuou de pé, e apenas as sandálias deslizaram pelo piso. O baque fora muito forte, mas absolutamente preciso, de um lutador instruído que não gasta energia desnecessária. E aquilo, mesmo que não o tivesse derrubado, seguramente deixaria dolorosas marcas arroxeadas. Um pouco mais para qualquer lado e certamente teria quebrado pelo menos uma costela.

Apolo, com uma mão sobre o peito batido, ergueu os olhos para o deus do vinho outra vez, ofegando em busca do ar expulso. Completamente pendido entre o assombro e fascínio. Os acontecimentos recentes já haviam indicado que Dionísio era muito mais forte do que seu físico pequeno sugeria. E a impressão dos dedos dele na sua bochecha o lembraram disso. Mas aquilo não era apenas uma força surreal. Era técnica, método e calma. Era experiência e treino. Era saber.

— O que você acha que eu sou? — Baco sibilou, virando-lhe a cabeça num movimento quase bestial e felino. As íris ferozes e escurecidas. De uma insanidade latente, densa e muito pesada – Um mortal frágil? — ele perguntou, aproximando-se um passo – Uma flor delicada? — e outro passo se completou.

Apolo puxou o ar entre os dentes ao vê-lo quase colado em si, sem mover-se um milímetro. Uma parte do seu cérebro registrando aquela referencia pensada e cruel ao seu Jacinto, e entristecendo-se com isso. O cheiro dele ainda era doce a amadeirado, mas com algo mais forte e selvagem por cima. Algo como terra virada, mato prensado e sangue.

Muito sangue.

— Você quer me proteger? — ele perguntou, inclinando a cabeça para o lado. E embora seus cachinhos tenham deslizado sobre os olhos de maneira delicada e adorável, ele não pareceu aquele gatinho confuso de outrora.

Dionísio pareceu um leopardo faminto escolhendo onde cravar os dentes.

Sem esperar por uma resposta, um sorriso mínimo floresceu no canto vermelho dos seus lábios. Então se alargou, mostrando todos os seus pequenos dentes, alinhados e brancos. Uma risadinha sutil escapou por entre eles. Uma risadinha que daria uma donzela ao beijarem sua mão. Mas ela cresceu, no que ele fechou os olhos de divertimento, como um bêbado ouvido uma piada num bar. Logo ela nem parecia mais algo humano e Baco jogou a cabeça para trás, gargalhando. Alto. Louco. E completamente histérico.

Apolo só conseguia olhar para ele. Absolutamente atônito. O cérebro congelado num branco completo. Embora seu corpo estivesse respondendo. A pele do seu rosto corou por baixo do seu bronzeado brilhoso. Os pelos da nuca se eriçaram, e a adrenalina correu solta e desenfreada pelo icor do seu sangue, advertindo-o daquele perigo próximo e legítimo. Mas a ocitocina também fez o seu papel e deixou-lhe o baixo ventre em fogo vivo. Ele também devia estar enlouquecendo. Era o que pensaria ao notar-se excitado diante daquela loucura sombria. Mas não conseguia pensar sequer nisso.

— Ah... – Dionísio gemeu longamente, apoiando a bochecha carmim no ombro pequeno, ao acabar aquela risada enlouquecida. E ele ergueu os enormes olhos verdes para Apolo, as pupilas dilatadas, como que tomado por um prazer perverso e irresistível – Nesse caso... – ele ronronou docemente, bamboleando levemente a cabeça morena, fazendo os cachinhos dançarem – Faça-me um favor... — disse, aproximam-se mais, e erguendo o corpo pequeno na ponta dos pés, o rosto corado tão perto que, por um momento, o Sol sentiu o coração falhar ao achar que ele iria lhe beijar. Mas ele parou. Os lábios a meros milímetros. E deu o sorriso mais diabólico e louco que ele já vira na vida – Não me atrapalhe...

O sussurro dele pareceu invadi-lo pelos poros, e Apolo estremeceu, fechando os olhos em seguida. Ouviu uma balada ritmada sendo cantarolada por um timbre doce e cálido, e quando abriu as pálpebras, viu o menino se afastando tranquilamente, no que os pés não faziam nenhum barulho, e ele estava cantando e até mesmo dançando sutilmente com os ombros delicados e os quadris. Como uma criancinha feliz num parque de diversões. Aquilo o arrepiou inteiro.

A poucos metros, o corpo do primeiro gigante começou a surgir.

Apolo deu um tapa no próprio rosto. Que acabou acertando a pele já maltratada e ainda sensível pelo golpe anterior, que lhe trouxe uma ardência cruel, mas conseguiu desperta-lo daquele torpor. Pense, maldito, pense. Ele ordenou a si mesmo, os olhos presos na cabeça gigantesca e deformada que surgia na linha do horizonte. O tempo tinha acabado. Não podia segurar aquilo para dar tempo o suficiente ao irmão e ainda lutar com Dionísio. Ele tinha que entrar por vontade própria. E tem que ser agora! O Sol pensou, a beira do pânico.

Na entrada do Olimpo, o primeiro gigante urrou.

Apolo apertou os olhos azuis.

— Dionísio, por favor, eu estou te implorando, você precisa entrar ago... – ele parou.

Dionísio estava completamente nu. Tinha tirado o valioso chiton azul e o colocado perto da porta do palácio, perfeitamente dobrado. Ambos os broches dos ombros e cinto alocados equilibradamente me cima dele. E agora a sua pele clara e tenra, os músculos suaves e curva delicadas, os pelos escuros e macios, estavam completamente e despudoramente expostos ao vento e a vista.

O deus do vinho estava ajoelhado no chão. Os olhos fechados. Ambas as palmas das mãos sobre o piso liso. Então jogou a cabeça para o lado com um estalo violento. Destacando o pescoço alvo e esguio. Seus lábios se franziram para mostrar os dentes, e o deus rosnou entre eles, num timbre baixo e primitivo. Sem aviso, ele arqueou os dedos e então cravou as unhas na pedra sólida do chão, deslizando-as para frente. O som arranhado e estilhaçado que elas fizeram vibrava estridentemente na coluna. Nos seus dois lados, surgiram trilhas na pedra, manchadas com seu sangue. Ele rosnou outra vez, ainda mais alto, jogando a cabeça para o outro lado. Num movimento veloz, estava de quatro. Os ombros dele dançaram, lentos e languidos, como os de um leopardo antes de dar o bote.

Por tudo o que é mais sagrado, o que está acontecendo? Apolo gritou na sua cabeça, sem ter a mínima ideia do que fazer.

— Dionísio!

O menino virou a cabeça para ele, rosnando entre os dentes e abrindo os olhos.

Apolo achou que fosse enfartar.

Não havia mais nenhum espaço branco nos seus olhos. E um tom de verde sombrio que beirava o negro tomava tudo ao redor. E as pupilas não eram mais redondas e pequenas. Eram fendas estreitas. Como as de Floquinho.

Como as de qualquer felino.

Ele virou o rosto de novo, com um bramido feroz e dolorido. O corpo pendeu levemente para o lado esquerdo e ele tremeu, como se estivesse convulsionando. Antes que um Apolo desesperado pudesse chegar perto dele, sua pele começou a mudar.

Era o mesmo que ver o céu abandonado o azul do dia pelo laranja-rosado do pôr-do-sol. A sua pele nua, tão leitosa e suave, começou a se avermelhar, como que se corasse por inteiro. Os espasmos no seu corpo continuavam, e ele gritou quando as presas cresceram na sua boca pequena, cortando os seus lábios. Os braços e pernas, apoiados no chão, começaram a tomar outras formas. Os joelhos se voltaram para trás, num estalo alto, arrancando dele outro grito rosnado. Os dedos dobraram sobre si mesmos, e das falanges saíram garras, rasgando a sua carne. O nariz pequeno agora estava escuro e úmido. Bigodes claros e compridos se alongaram pelas suas bochechas. A coluna começou a despontar para fora do corpo, formando uma calda longa em segundos. O cabelo castanho em cachos foi sumindo, recolhido para dentro dele, e no seu lugar, nasceram pelos rubros que se espalharam por toda a superfície da sua pele.

Apolo não conseguia acreditar no que estava vendo.

Dionísio não estava mais ali. No seu lugar, havia um felino gigantesco.

Seu pelo era liso e vermelho como o de uma raposa, mais com um tom bem mais escuro e profundo nas patas, calda e focinho. Como se ele tivesse andado e fuçado por um mar raso de sangue fresco. As patas eram longas como as de um guepardo, mas de compleição muito mais forte e robusta, lembrando a de uma onça pintada ou uma pantera parda. As orelhas longas e afiladas, de um carmim quase negro nas pontas donde se destacava uma mecha de pelo alongado como de um lince. A calda era comprida, forte e preênsil, começando esguia e acabando em pelos grossos e volumosos.

Ele estava completamente transformado, mas não pronto. Foi com um assombro completo que Apolo o viu crescer. Estava do tamanho de Floquinho. Então do de um cavalo nórdico de grande porte. E logo maior do que uma carruagem. A sombra dele engoliu o deus do sol quando parou, no tamanho um cômodo inteiro.

O felino soltou o ar entre as narinas estreitas, alongando o corpo musculoso e monstruosamente grande. A calda serpenteou lentamente atrás dele. As patas foram prensadas do chão, expondo as garras negras e compridas. Ele arreganhou os lábios para exibir as presas longas e afiadíssimas, sibilando para o inimigo.

— Dionísio? – Apolo sussurrou, congelado ao lado naquele felino gigante.

O deus em forma animal virou o focinho para ele, escondendo os dentes letais, parando aquele sibilo mortífero. Seus olhos felinos eram contornados por linhas pretas, que alongavam e delineavam seus orbes verdes, as pupilas fendidas presas nos seus olhos. Ele ainda estava ali. Apolo conseguia enxerga-lo claramente naquelas íris escuras, refletindo seu próprio rosto. Dionísio não rosnou para ele dessa vez. Apenas o encarou. E pela primeira vez no dia, o Sol viu algo que não foi fúria ou loucura nos seus olhos. Viu algo tão humano e sensível que quase o destroçou. Viu afeto, pesar e uma tristeza avassaladora. Como se soubesse que tinha acabado de perder algo sem preço.

— Dionísio...

Um berro grotesco e grave ecoou pelo Olimpo, estremecendo os alicerces dos palácios e partindo dezenas de vidros. O primeiro gigante já colocava ambos os pés sólidos em chão divino. Erguendo­-se diante deles com seus oito metros de altura, em músculos saltados seminus.

O Gato Vermelho virou-se para o inimigo. Uma vibração grave e profunda saindo da sua garganta. Os olhos brilhando num instinto assassino. Ele empurrou o corpo languido e imenso para trás, curvando as patas traseiras, equilibrando a calda comprida, e preparando-se para o salto. Com um relance de humanidade, deu um último olhar intenso e ardente para Apolo. E então lançou-se para frente, num pulo impossivelmente alto e extenso. Mal as patas pesadas tocavam o chão, e ele estava correndo, sem emitir um único ruído.

O gigante mal teve tempo de perceber o que estava acontecendo antes que Dionísio se atirasse sobre ele, desequilibrando-o com seu peso, escalando pelas suas pernas e peito, as unhas entrando na sua pele, e, depois, cravasse as presas longas na sua garganta...

Se antes a mente de Apolo era uma folha em branco, agora era um turbilhão de rabiscos. No que algumas lembranças pipocavam violentamente na frente dos seus olhos e dentro a sua cabeça.

“Os galhos das árvores baixas lanhavam a sua pele. Os espinhos das flores o arranhavam, tirando-lhe sangue, e rasgavam suas roupas. Haviam pedras e troncos no seu caminho, e você se chocava com eles. E caia. Mas não parava de jeito nenhum. Eu corri atrás de você, o mais rápido que consegui nessa forma. E mesmo assim não pude alcançá-lo. Nem mesmo tocá-lo...”

A imagem do menino ajoelhado entre as suas pernas apareceu diante das suas íris com perfeição. Tinha acabado de curar a leve queimadura que lhe causara nos lábios, e o pequeno contava que tinha sonhado com ele naquela noite. Apolo estava tão culpado por tê-lo machucado, tão preocupado e aturdido pelo que estava sentindo naquele momento que não reparou naquelas duas palavras.

“Nessa forma”. Ele dissera, como que sugerisse que tinha outra. Mais rápida e talvez mais forte.

“- Onde? – perguntou baixinho.

— No alto das coisas – recitou Mercúrio – Ali... – e apontou para a cópula arredondada do topo da torre mais alta do Palácio Dionisíaco.

Apolo deixou o queixo cair.

— O quê? Aquilo deve ter uns... noventa metros de altura!

— Noventa e cinco metros e sete centímetros... – Hermes murmurou desatento. O irmão o encarou – Ah, é fácil de perceber.

— É claro que sim – o Sol ironizou, antes de apertar os olhos para a construção – Como raios ele subiu ali?

— Esta é uma excelente pergunta...”

Ele nunca tinha entendido como Dionísio tinha conseguido escalar aquela altura com seus braços e pernas infantis, num espaço de tempo tão curto. E depois de tudo o que acontecera, tinha esquecido completamente disso. Agora ele estava ali, escalando o gigante, como ele se fosse um trepa-trepa de criança.

“- Seu coração está dançado – ele disse, num murmúrio surpreso, sentindo as batidas rápidas e fortes contra os dedos – A culpa é minha? – perguntou curioso, até mesmo receoso, levantando os olhos para o Sol.

— É claro que sim... – Apolo respondeu com um sorriso suave – Você quase caiu do telhado! – concluiu devagar, mentindo apenas em parte.

Dionísio sorriu travessamente, tirando as mãos dele. E depois encolheu os ombros pequenos.

— Não se preocupe – ele disse, mostrando as presas branquinhas – Gatos sempre caem de pé...

— Gatos?

Gatos... É claro...

— Apolo! APOLO, VOCE ESTÁ ME OUVINDO? — uma voz gritou.

O deus do sol não estava sendo apenas chamado aos berros como sacodido. Mas não tirou os olhos da cena nem por um segundo sequer.

— Atena e Zeus estão vindo! – Hermes lhe gritou, apesar da sua visível apatia – Ares não... está aqui, nem... Poseidon ou Artêmis. Teremos de ser suficientes! — ele disse, arquejando nas pausas para respirar, e recuperar-se minimamente do que foi aquele voou ensandecido – Precisamos distraí-los enquanto isso e... – ele parou, finalmente virando-se para onde os olhos de Apolo não deixavam de jeito nenhum – Por todas as almas do Hades, deuses do Olimpo e mortais na terra... o-que-é-AQUILO? — exclamou, absolutamente assombrado. Os olhos âmbar também no gigante que sangrava um líquido negro e denso por cortes profundos ao redor da garganta e tentava desesperadamente arrancar o que parecia um gato vermelho enorme, acocorado as suas costas, prendendo aquele pedaço do Tártaro firmemente entre as garras compridas.

Sentiu Apolo agarra-lo pelo antebraço e virou-se para ele.

— “Aquilo”, Hermes – ele começou, o tom baixo, atônito e deslumbrado, e apontou para o felino antes de completar – É o meu pequeno e frágil Dionísio...

**

Aquela foi uma luta árdua e difícil. Por sorte do destino só havia três deles, nenhum com a altura máxima da espécie. E, no fim, a vitória foi dos deuses.

O placar final foi algo como: Dionísio – 1; Zeus – 1; Apolo, Atena e Hermes – 1/2; e Eros mais – 1/2.

(Sim, meus queridos, vocês leram certinho).

Pode-se dizer que metade do trabalho necessário para derrubar o último gigante foi o delicado e amável Cupido quem fez.

Ele estava decidido a ser obediente. Entrar no palácio, proteger a criadagem e não atrapalhar.

— Eros – o irmão chamou, quando acabavam de entrar de volta na sala – Tem algum espaço subterrâneo aqui? – perguntou com seriedade.

— As adegas – respondeu de imediato.

Anteros apenas assentiu, antes de erguer o rosto e o tom para ordenar que todo qualquer ser vivo dentro daquele palácio se dirigisse as adegas imediatamente. Nem pensando no porque disso, uma fileira ordenada se formou em direção as câmeras subterrâneas do lugar, no que suas pernas os levavam obedecendo a voz do deus.

Anteros soltou o ar imperceptivelmente, vendo o efeito perfeito da sua ordem se fazendo.

— Vamos – disse a Eros, que o seguiu sem pestanejar.

As bacantes, sátiros e servos eram numerosos, e os deuses tiveram que dividi-los apressadamente pelas adegas, que por sorte eram muitas, instruindo a todos que permanecessem abaixados e quietos, acalmando-os no possível. Os servos eram dóceis e bem treinados, obedecendo de imediato. Os sátiros pareciam nem se importar com o que estava acontecendo. Já as bacantes eram escandalosas e emotivas, e a maioria chorava alto ou abraçavam-se entre si.

— M-Mestre E-Eros... – chamou uma delas, choramingando baixinho.

— Sim, querida – ele respondeu amavelmente. Reconhecendo-a de imediato. Era a loira chorona que havia lhe procurado quando Dionísio sumiu da própria festa.

Espera...

Um estalo de pânico tomou o Cupido.

— Onde está m-meu mestre? – ela completou, entre dois soluços. Verbalizando o que ele tinha acabo de se perguntar, ao lançar um olhar desesperado para todos no recinto e constatar...

Onde raios estava Dionísio?

Sem esperar mais um segundo sequer, Eros disparou para fora do cômodo lotado, praguejando alto e xingando baixinho. Cupido burro e desnaturado, como foi que você esqueceu seu melhor amigo?! Questionava-se, indignado, querendo puxar os próprios cabelos. Ele derrapou pelo piso da sala, quase caindo, mas conseguiu manter a corrida. Escalou parte dos moveis e subiu na borda da primeira vidraça alta que encontrou, torcendo para ter uma boa visão do lado de fora e achar Dionísio. E por pouco não caiu de lá de cima ao topar com a imagem daquele felino vermelho monstruoso, dançando em volta de um gigante.

— Dísi... – murmurou tremido, agarrando-se a borda da janela.

Ele sabia que amigo tinha aquele poder, embora nunca o tivesse visto. Transmutação. Um dom herdado de Zeus, que não se privava de usa-lo mesmo em suas investidas amorosas, chegando a transmutar-se em um cisne uma vez, para seduzir uma mortal chamada Leda. Mas saber e ver eram coisas absolutamente distintas. E Eros ouviu o seu coração batendo nos ouvidos.

Era uma visão hipnótica. Aquele gato imenso e belo, que parecia uma mistura de pantera com lince vermelho, lutando de par a par com aquela criatura gigantesca e infernal. A calda longa bamboleando provocadoramente, os dentes expostos manchados de sangue.

Um duelo de monstros.

Os sentimentos de Eros se dividiram. Por um lado soube que, no estado que estavam as coisas, jamais poderia tirar o amigo daquela luta e mantê-lo a salvo consigo. Por outro, se tivesse que arriscar, diria que o gigante parecia muito mais propenso a precisar de ajuda do que Dionísio, já que sangrava visivelmente por cortes no pescoço e ambos os calcanhares, onde o Gato Vermelho mordia cruelmente e se afastava em pulos velozes antes que ele pudesse alcançá-lo ou chutá-lo. Além do mais, o Cupido poderia estar enganado, porém, a seu ver, Baco não parecia ter ferimento nenhum.

— Ah, Dísi, meu amorzinho... – Eros murmurou para si mesmo, mordendo os lábios macios – Por favor, tenha cuidado...

Sabia que estava sendo egoísta. Que aquele era um perigo real que afetava a todos e tudo. E se Dionísio era poderoso o suficiente para lutar com aquilo, não só podia como devia fazê-lo. Mas só de imaginar o amigo ferido, Eros teve uma nova vontade de puxar os cabelos.

— Você é o único inútil aqui! – o Cupido ralhou com sigo mesmo. E, por um momento, detestou não ter mais do pai. Odiou­-se por não estar ao lado do amigo. Por não poder ajudar em nada – O que o Ares diria se te visse encolhido e imprestável aqui, hein, donzelinha delicada? — perguntou seu ao reflexo da vidraça. Aquele rosto perfeito que só conseguia lhe olhar de volta.

Então largou um suspiro longo e frustrado, apoiando a testa no vidro e embaçando a superfície com seu hálito, magoado com o próprio comentário. Ele sabia o que o pai pensaria. Ele sabia muito bem...

Um raio branco cortou o céu, cegando-o por um momento. O barulho que veio depois foi ensurdecedor, tremendo as bases do castelo. E Eros não sabia se cobria os ouvidos ou segurava melhor na borda da janela. Ele piscou os olhos depressa, tentando livrar as pupilas daquele feixe de luz que parecia preso nas retinas.

— Zeus – percebeu, notando uma queimadura grotesca ainda borbulhando no ombro esquerdo e peito do segundo gigante, o maior de todos, que agora urrava de dor, segurando a carne tostada onde o raio o atingira.

Aquela luta estava bem equilibrada.

O que fez o Cupido dedicar o olhar ao terceiro oponente. E ele levou certo tempo para entender o que estava acontecendo. Quase não conseguia ver os outros deuses aquela distancia. E não sabia o que estavam fazendo. Mas o gigante em si faria qualquer um rir em outra ocasião. Ele parecia um bêbado enfurecido, tentando espantar moscas e pisar em formigas imaginarias. Agitando os braços em torno de si e batendo os pés enormes no chão.

Eros custou a notar umas trilhas finíssimas de sangue negro, descendo de pontos como o pescoço, nuca, entre as omoplatas, virilha e a parte de trás dos seus joelhos. O próprio gigante não parecia sentir, e girava em torno do próprio corpo com uma fúria desgastante e imprudente.

O Cupido arregalou os olhos quando o entendimento caiu-lhe como uma pedra. Dionísio conseguia disputar em força física com seu oponente. Já Zeus, parecia disposto a queimar o seu até as cinzas. Ao terceiro grupo restou um jogo de precisão e resistência. Não tinham força bruta nem raios encandecestes.

Fariam aquele gigante sangrar até morte.

Foi com assombro que Eros finalmente percebeu que as “formigas” eram Apolo e Atena, que circulavam o monstro, evitando os seus pés pesados, e acertando dardos e flechas em pontos sensíveis. E a “mosca”, que distraia e irritava o gigante cada vez mais, era seu colorido e rápido Mercúrio.

Eros sentiu o café dançar no seu estomago. Ele estava tão perto. Provocando aquela coisa gigantesca a poucos centímetros. Os golpes que o gigante lançava no redor, tentando acertá-lo, eram tão violentos que pareciam rasgar o ar, silvando alto e tenebrosamente. Há quanto tempo estava nisso? Hermes era tão veloz que ele quase não conseguia vê-lo, vislumbrando ora ou outra um relance lilás dos seus cabelos. Uma hora ele iria se cansar. Ficaria mais vulnerável e lento. Se o monstro não houvesse sangrado o suficiente, se ainda estivesse forte e consciente, poderia acertá-lo e... Céus, o Amor estremeceu só de pensar. Se tivesse a sorte de não quebrar-se inteiro com o golpe, quebrar-se-ia na queda certa.

Como que para provar seu ponto sombrio, o gigante parou por um momento. Estreitando os olhos na face, apenas acompanhando os movimentos dele com os globos opacos. E então, num surto de velocidade, esticou o braço para frente e fechou os dedos no ar.

O coração de Eros saltou pela boca.

Não, não, não... ele mentalizou, completamente desesperado. Quase arranhando o vidro com as unhas. Os orbes pretos arregalados de horror.

Se ele o tivesse pegado, só restariam migalhas dentro dos seus dedos.

Quase desmaiou de alívio quando viu um pontinho lavanda dar a volta velozmente ao redor daquela mão, livre do aperto. Mas passara perto. Muito perto. Ele devia estar se cansando. Eros podia vê-lo com mais clareza agora. E mesmo o gigante parecia ter entendido a lógica dos seus movimentos. Na próxima, ele não teria tanta sorte.

Eros saltou da janela para o chão, num deslocamento leve e elegante, como um pássaro no poleiro. E pôs-se a correr alucinadamente. O coração batendo na garganta.

Preciso fazer alguma coisa! Preciso fazer alguma coisa! Preciso... ele gritava para si mesmo. Exigindo o máximo das suas pernas. Naquela corrida desenfreada, não viu Anteros a sua frente, e o salvou os dois de um impacto escandaloso foram os reflexos dele, que girou o corpo rápido o suficiente para que o irmão passasse por ele num silvo.

— Eros, o q...

O Cupido não ouvir o resto. Já estava longe.

Por Zeus, onde? ele se perguntava, embrenhando nos corredores escuros e desertos daquele castelo. Quem tinha construído o Palácio da Uva devia estar — para variar — louco ou muito bêbado. Não havia nem a impressão de alguma ordem nos cômodos, escadas e corredores. E o lugar era cheio de coisas como becos sem saída, quartos completamente lacrados e degraus que acabavam em paredes. Poderia ser um verdadeiro labirinto para desavisados. Eros perdera a conta de quantas vezes já se perdera ali ao tentar explorar sem a presença de Dionísio, e acabava tendo que gritar até que o amigo o achasse. Com o passar dos anos, aquilo foi parando de acontecer, no que ele aprendia a se mover lá dentro. Mas nem por isso conhecia tudo. E o medo que não achar o que procurava a tempo o estava corroendo.

Eros abriu uma porta num rompante nada delicado de pressa desesperada. Era um cômodo completamente vazio. Ele praguejou para o vento e correu para o próximo. Estava trancado ou emperrado, e nem se mexeu quando ele se jogou de ombros contra a madeira. Dessa vez foi um gemido de dor que saiu dos seus lábios, quando ele continuou tentando. O cômodo seguinte estava totalmente lotado de plantas de cores e formas estranhas. O outro, abarrotado de lenha. O seguinte tinha uma taça de ouro vazia no meio exato do piso, e nada mais. Deuses, Dísi... O Amor exclamou em pensamentos, ao abrir um quarto mobilhado em madeira antiga e seda vermelha, onde desciam correntes dependuradas no teto e pelo menos uma dúzia de chicotes de tamanhos diferentes exibiam-se numa parede. Essas coisas você não me conta! Pensou emburrado, já abrindo a porta seguinte.

E foi a segunda vez no dia que quase desmaiou de alívio. Achei...

Todo palácio do Olimpo tinha, pelo menos, um pequeno arsenal. Normalmente com peças simples usados para treino ou jogos, no que a maioria dos deuses guerreiros tinham armas especiais. Mas aquilo teria que servir, pensava Cupido, metendo-se pelas fileiras de espadas, maças, lanças, dardos e tudo o mais que existisse de mortal no mundo. Estava empeirado ali dentro, mas os equipamentos se mostravam em bom estado. Arco e flecha. Arco e flecha. Arco e flecha... ele repetia freneticamente, como fosse ajuda-lo a acha-los mais depressa.

Um suspiro longo escapou da sua boca rosada quando enfim viu os arcos no fundo do recinto. Um olhar de dois meros segundos foi o suficiente para que ele encontrasse e apanhasse o mais adequado para o seu tamanho e força. Mesmo assim, o modesto objeto de madeira pareceu estranho e desajeitado na sua mão, tão diferente do seu amado e esguio arco platinado. Mas ele não tinha tempo para lamentar ser tão horrível em materialização. E prometendo que faria Dionísio ou Apolo o ensinarem melhor aquilo, ele pegou uma aljava cheia, uma corda nova e partiu para fora.

Foi montando o arco no caminho. Os treinados permitiam que mantivesse os olhos no trajeto. Passou pela sala pulando móveis e deslizando no tapete. Já tinha as mãos na porta da frente quando ouviu.

— Eros, o que você está fazendo?

O Cupido congelou com a voz fria do irmão. Ele virou-se devagar. A expressão de um adolescente pego tentando sair de casa de madrugada. Mas não deu tempo a uma intervenção, e sem resposta alguma, simplesmente saiu pela porta, passando o trinco pelo lado de fora. E prendendo o irmão lá dentro.

Quase no momento exato em que a madeira estalava, indicando a tranca, ele ouviu uma pancada violenta do lado de dentro. Como se alguém a tivesse golpeado, ou mesmo lançado o peso o corpo contra ela.

— Eros – Anteros chamou, abafado porta. A impassibilidade levemente ameaçada na sua voz – Abra essa porta.

O Cupido encostou a testa na madeira, ofegante e assustado. E acabou dando um sorriso leve e triste, sabendo que era o único capaz de arrancar esse mínimo de emoção do outro.

— Desculpe, irmão – ele murmurou para a fresta da passagem lacrada. E sem esperar outra manifestação, partiu com o arco pronto em mãos.

**

A entrada do Olimpo era a própria desolação. As marcas da luta manchando o chão e poluindo o ar. O céu estava escuro e revolto, no principio de uma tempestade. O vento tinha cheiro de chuva eminente, estática acumulada, enxofre e carne queimada. A terra estava virada; as pedras quebradas; estruturas, estátuas e jardins inteiros completamente destruídos. Sangue preto e oleoso se misturava a icor dourado.

Eros conseguia ver tudo ali de cima. Ele bateu as asas cegamente brancas naquele ar poluído, que começou a mancha-las de cinzas. Estava relativamente longe da confusão em si. Ninguém parecia tê-lo visto ali, sendo molhado pelas nuvens pesadas de precipitação. O vento estava forte e úmido, escorregando entre os seus dedos. A visibilidade era ruim, no que a chuva contida fechava o céu. E o arco-que-não-era-seu equilibrava-se desconfortavelmente na sua mão.

Não importava.

Trinta e dois metros de distancia. Trinta e cinco graus de inclinação. Velocidade do vento. Relevo irregular. Densidade alta do ar. Alvo minúsculo e em movimento.

Os cálculos se faziam sozinhos na sua cabeça. Alocou a seta no lugar.

Uma garoa suave e suja começou a cair, escorrendo pelos seus cabelos soltos. Pingando entre os seus cílios.

Outra variável a considerar.

Eros estreitou os olhos pretos. Teria e ser um tiro de mestre.

Por sorte, no que se referia a arquearia, ele sabia ser um deles.

Hermes passou velozmente perto do rosto do monstro, onde ele mirava. Eros mostrou parte dos dentes, sem perceber. Quiete um pouco, Colorido. Pensou, acalmando a própria respiração. Estou tentando te ajudar. Se fizer com que eu te acerte sem querer, ficarei muito chateado com você...

Ele não tinha muito tempo. Cupido podia perceber oscilações erráticas em seus voos com seus olhos de rapina, erros que ele não cometeria se já não beirasse a exaustão.

Puxou a corda do arco. As penas acinzentadas fazendo cócegas nos seus lábios.

Um tiro na cabeça seria o mais óbvio. Mas ele viu, pelos lances de Apolo e Atena, que miravam entre juntas e pontos sensíveis, sem estrutura óssea ou músculos saltados. E Eros imaginou que acertar aquele crânio duro só serviria para espatifar a flecha em pedacinhos. Esse não era o seu alvo. Era com Hermes que estava preocupado. Cada vez mais vulnerável aos golpes atrozes do gigante. Mas, bem, ele não poderia acertá-lo se não o enxergasse...

Certo?

Eros soltou.

A seta partiu num silvo agudo, cortando gotas de chuva enquanto ainda caiam. Ela girou. E girou. Se afastando. Diminuindo. Encharcando. Pesando. Sendo puxada pela gravidade. Empurrada pelo vendo. E girando mais, e mais...

Até cravar-se fundo no meio exato da pupila esquerda do monstro.

O urro que ele soltou vibrou nas suas células. A cabeça do gigante foi jogada para trás, desequilibrando seu corpo imenso. Ele não caiu, mas cambaleou. As mãos no rosto, sem coragem de puxar a seta enterrada na sua retina, sangue preto e grosso escorrendo entre seus dedos. Completamente esquecido dos oponentes que agora acertavam suas fraquezas livremente.

Eros nem sorriu. Fique de pé, aberração, ainda não acabei com você. Pensou, numa fúria cáustica e estranha. O calor da luta atiçando instintos que ele não sabia que tinha. Misturando-se a sua natureza cuidadosa, afetiva e apaixonada. Perigosamente apaixonada. Aquele monstro tinha passado tão perto. De machucá-lo de verdade. Se alguém vai bater naquela cabeça lilás sou eu! Pensou, decidido. Como pode arriscarse tanto...

O Cupido pegou outra flecha, já retesando a corda nova. Esse seria mais difícil. O gigante estava agitado, louco de dor, movendo-se de maneira errática e imprevisível. Foi com desespero que Eros percebeu que Hermes continuava lá, voando em volta dele. Corajoso idiota! Xingou em pensamentos. Mas, para bem ou para mal, aquilo irritou a criatura, que tirou as mãos do rosto na ânsia de pegá-lo de vez. Expondo o alvo de novo.

Nem um segundo depois, Eros disparou a segunda flecha. Numa trajetória quase idêntica a primeira, ela girou até o rosto desforme do gigante e acertou o olho restante, dessa vez por cima da pálpebra, mantendo aquele orbe opaco fechado para sempre.

Só então Eros sorriu. Isso...

Sua satisfação não durou nem meio minuto.

**

Ele estava completamente cego, Hermes concluíra, mortificado. Em segundos, a luta toda havia mudado.

Não admitiria a ninguém, mas estava começando a se desesperar. Por mais que tentasse, não conseguia mais manter o ritmo do início. Os seus pulmões doíam cruelmente e o ar parecia venenoso, queimando dentro deles. Os golpes do gigante iam parecendo mais próximos e rápidos, e sua visão começou a ficar levemente turva. Houve um momento em que realmente achou que estivesse perdido, quando o monstro quase o esmagou na palma da mão, e por pouco ele conseguiu escapar entre os seus dedos. Cada minuto a mais era uma tortura. Mas não podia parar. Sabia que, sem a sua distração, a chance do gigante achar os seus irmãos lá embaixo e simplesmente sapatear em cima deles aumentava astronomicamente. Não os poria em risco por si mesmo. Teria que aguentar. Um pouco mais.

Só um pouco...

Foi quando ouviu o primeiro silvo. O urro estrondoso que veio depois doeu barbaramente nos seus tímpanos. De uma maneira que, pelos segundos seguintes, não ouviu absolutamente nada. Temporariamente surdo e desequilibrado pelo barulho inumano. O que...? Se perguntou zonzo. Segurando as orelhas como se elas fossem cair. E demorou para perceber que quem estava caindo era ele.

Retomou o voou com um ofego de susto, dando uma volta levemente desorientada pelo inimigo, que nem tentou acertá-lo com as mãos gigantescas, ocupado em apertar o próprio rosto. Foi quando ele viu um penacho humilde e cinzento saindo entre os seus dedos, junto a uma quantidade descabida de sangue preto.

Uma flecha? Questionou, assombrado. Bem no meio exato do seu olho esquerdo. A criatura gritava e se sacodia, tentando manter o equilíbrio. Dando espaço para que os deuses no solo o alvejassem sem misericórdia.

Hermes sacodiu a cabeça, tentando livrar-se de um zumbido agudo e agoniante que ficara depois da surdez breve. Da onde veio isso? Perguntou-se, estreitando os olhos e chegando perigosamente mais perto da face maculada do monstro. Por um instante, chegou a pensar que fora um tiro de Apolo, mas foi uma hipótese tola que durou pouco. Lá debaixo, ele dificilmente teria ângulo e tempo para um tiro preciso daqueles. E, além do mais, as suas fechas eram douradas e luminosas, enquanto aquela parecia uma seta peculiarmente comum, que qualquer aprendiz infante usaria num treino. E aquilo fez as sobrancelhas coloridas se juntarem seus olhos. Mas, como...

Não teve tempo para pensar no final, logo que viu uma mão imensa tentando esmagá-lo em pleno movimento. Fazendo-o descer de altitude num loop acentuado, o vento deslocado pelo golpe da criatura agitando seus cabelos.

Foi quando ouviu o segundo tiro. E novamente, o berro do gigante fez sangrarem os seus ouvidos.

Então sim, ele estava completamente cego, ferido, desorientado e enlouquecido pela dor. Eles finalmente poderiam derrubá-lo.

Mercúrio ficou tão embasbacado com aquilo, que praticamente se esqueceu da própria fadiga e do risco enorme tão perto dele, pondo-se a vasculhar a vista em busca do herói que tinha salvado aquela disputa. Pelo ângulo do tiro, teria que ter vindo de cima. E Hermes procurou desesperadamente entre as nuvens escuras, uma garoa chata e fina caindo nos seus olhos, que ele limpava sem nenhuma paciência. Quando achou ver um par de asas escandalosamente brancas batendo equilibradamente a muitos metros de distancia.

Eros?

Perdido na própria pergunta, meio cego pela chuva, e levemente surdo pelo gigante, ele não percebeu o punho monstruoso vindo na sua direção.

Sobre a pergunta anterior, de que ele não seria capaz de acertá-lo se não o enxergasse. A resposta era: errado.

Muito, muito errado.

Porque o gigante não o viu, nem sequer tentava acertá-lo. Apenas sacodia os braços no ar, desesperado no seu mundo completamente escuro. E nem mesmo percebeu ter atingido o deus irritante que perseguira por toda a luta. Lançando-o no ar dezenas de metros a frente.

Eros não teve tempo de praguejar.

Logo que Hermes foi atirado ao vento, por sorte na sua direção, fechou as asas em torno de si mesmo e mergulhou pela garoa cinzenta.

O tempo pareceu quase parar.

Gotas geladas e sujas açoitavam seu rosto. A poeira do ar ardendo nas retinas. O vento cortando jogava seus cabelos para trás, levando lágrimas aos seus olhos escuros. E ele apertava as pálpebras, mantendo a visão que podia, os braços esticados a sua frente.

Hermes estava caindo. Os olhos fechados e o corpo amolecido. Braços e pernas compridos soltos no ar. As asinhas das sandálias imóveis, nem tentando traze-lo de volta para cima. O cabelo girando em volta dele, mas apenas pelo vento.

Os metros iam sendo engolidos pelos segundos. O chão duro aproximando implacavelmente. A gravidade cruel os puxando para baixo. Muito, muito rápido.

Por favor, me deixe alcançá-lo... Eros pedia ao próprio destino. Os dedos o procurando desesperadamente. Por favor...

Raios cegantes dançaram em volta deles, errando o maior dos monstros, obrigando Zeus a recuar. O primeiro gigante conseguiu finalmente tocar em Dionísio pela primeira vez, pisando na sua calda, esmigalhando pelo menos duas vertebras sobre seu peso, e prendendo-o no chão. Para depois acertar-lhe uma joelhada que lançou o corpo do felino sobre uma das torres do Palácio da Uva, destruindo um salão inteiro, apavorando os servos presos nas adegas.

Dionísio sumiu no meio dos descombros.

Só nada disso existia para Eros. Apenas a chuva. O vendo. E o corpo de Hermes caindo. E caindo.

E caindo.

Mas quando as pedrinhas esquecidas pelo chão já eram detalhadamente visíveis. Eros o alcançou.

Dor.

Uma dor dilacerante.

Foi tudo o que ele conseguiu sentir. Foi tudo em que ele conseguiu pensar.

Uma dor física que ele nunca tinha sentido antes.

As suas asas...

Elas tinham se enrolado em volta deles por instinto. Envolvendo ambos num casulo de penas espessas. Amortecendo o impacto atroz.

Terra. Pedra. Plantas. E madeira. Todos voaram, bateram, quebraram e se estilhaçaram contra elas. No que os dois perfuravam o solo com a sua queda dura, maculando terreno como a um meteoro errático e violento.

Farpas entraram na pele entre as penugens. Penas foram arrancadas pelo atrito. Ossos se comprimiram em ângulos improváveis. A dor continuava enquanto eles ainda deslizavam, no que parecia uma eternidade.

Até que parou.

Eros tinha caindo por cima. O torso esguio de Hermes contra o seu. Suas asas lhe protegendo as suas costas do chão, e agora presas sob o seu peso. O Cupido puxou o ar, os lábios abertos num grito mudo, os braços comprimidos entre os corpos de ambos. Ele quis desmaiar. Largar o peso todo em cima dele. Fugir da dor para algum espaço escuro e quieto. Mas não pode. Por que Mercúrio não se mexia debaixo dele. Os olhos continuavam fechados. A cabeça pendia desconfortavelmente em um dos lados. E os cabelos não se moviam. Estavam parados.

Completamente e enlouquecedoramente parados.

-... Hermes – ele mal conseguiu murmurar, a voz estrangulada e quebradiça, frágil e desesperada – Hermes... – tentou mexer os braços para tocá-lo, mas não tinha forças para isso. Apenas machucando-se nos poucos movimentos que fazia — Hermes, fale comigo — implorou. Lágrimas de dor e agonia se acumulando nos seus cílios. O tom se tornando nada mais do que um choramingo — Por favor, Hermes, fale comigo...

As pálpebras dele tremeram.

Eros sentiu quando foi levemente erguido, no que a caixa torácica dele se expandia para dar espaço ao ar, silvando entre seus lábios escuros. E os olhos dele finalmente se abriam.

**

O mundo de Hermes era uma dança alucinada de luzes e pontos coloridos. Ele sentia o corpo parado, apertado, protegido. Mesmo assim, sua cabeça girava sem controle, fogos de artifício brincando nas suas pálpebras. Ouviu uma voz lhe chamando. Ele não queria ir. Estava tão cansado. Tão mortificativamente cansado. Mesmo respirar parecia demais, um esforço desnecessário. Queria dormir. Deixar um véu escuro encobri-lo por inteiro. Levá-lo para o fundo de onde o puxava. Mas a voz chamou de novo. Era uma voz tão meiga. Tão macia. Tão doída. Ele não pode. Não conseguiu deixá-la de vez. E com tudo o que restava das suas forças, tentou voltar para ela.

A primeira coisa que viu foi o preto. O preto absoluto e avassalador dos seus olhos escuros, no que as pupilas se perdiam completamente. Os cílios quase brancos os rodeando como penugens macias. Os cabelos dele caiam em volta do seu rosto, parecendo duas cortinas desalinhas de seda clara. Os lábios estavam a poucos centímetros. Entreabertos. Sempre convidativos. Tremendo levemente.

— Eros... – ele conseguiu murmurar, erguendo lentamente um braço livre. Sentiu que o Cupido estremeceu quando tocou na sua bochecha. Nada mais que um roçar de dedos delicado e suave, como que para atestar a veracidade daquela visão tão linda. Viu as asas em torno deles, brancas e macias. Algumas penas pequenas e perdidas ainda rodopiando ao seu redor. E ele era tão leve, não pesava nada sobre si. Delicado, gracioso e leve como... – Você parece um passarinho... – Hermes sussurrou, arrebatado e distraído.

Antes que Eros pudesse responder, a mão dele deslizou pela sua pele, caindo no seu próprio peito, no que ele enfim perdia todos os sentidos.

Notas finais
Então... pois é... tá todo mundo vivo aí... né? **INFORMAÇÃO MUITO IMPORTANTE** De acordo com a mitologia grega, Dionísio REALMENTE se transformava em um felino enorme e atacava, matava ou expulsava os gigantes que tentavam invadir, agindo como um verdadeiro um cão de guarda do Olimpo, de forma que Zeus chegou a considerá-lo como o mais poderoso de todos os seus filhos (rá, frágil e delicado é o caralho! Chupa essa Apolo...). É provável que o felino em si fosse uma espécie de leão, mas como eu sou mais... exuberante (no sentido "pavão" da palavra), decidi criar algo diferente. De qualquer maneira, eu estava totalmente decidida a fazer uma cena que envolvesse isso mesmo antes de começar a publicar a fic. Sei que deve ter parecido meio abrupto - e espero não ter matado ninguém do coração - mas vamos combinar que a cara de Apolo vendo ele se transformar e se jogar no gigante deve ter sido impagável... Ps2.: desculpem pelo cap gigantesco (atenção para o trocadilho), não era para eu ter me demorado tando nessa luta, mas acho que me empolguei... hihi... Ps3.: eu simplesmente não consigo decidir se quem foi mais foda nesse capítulo foi Eros ou Dionísio... Ps4.: então, o que é que estão achando do casalzinho novo da fic? Eu particularmente estou amando ♥♥♥ Precisamos de nomes de casal!!!! Ps5 .: lindos do meu coração, eu juro que sempre tento fazer os parágrafos ficarem alinhadinhos, mas nunca dá certo! Mesmo quando arrumo um por um! Isso me irrita! :( Ps6.: a uns caps atrás um monte de leitores novos me levaram as nuvens de alegria, falando comigo pela primeira vez. Mas, de repente, vários voltaram para o mundo assombrado dos fantasminhas. E eu não entendo o que aconteceu... Voces perderam o interesse na fic? :´( Beijos gigantes e obrigado por existirem ♥