Babá Shaka
2 Domingo
Notas iniciais
Amanheceu e logo cedo os três levantaram e viram o céu bonito e limpo que fazia naquela manhã de domingo. Shaka foi guardar o “acampamento” que eles fizeram para dormir na sala com a ajuda dos meninos. Mu parecia tentar fazer uma média para que o babá não falasse com seu pai, mas logo a criança viria saber que essa conversa já havia acontecido. Depois de dar uma ajudinha para Shun por causa do “probleminha” chamado fralda noturna, ele teve uma conversa franca com o rapazinho, falando de um jeito que ele entendesse as coisas. O pequeno Mu até tentou protestar e quando viu que não conseguiu chorou um pouquinho, porém, depois de ver que o virginiano se manteve firme, ele se agarrou num abraço pedindo desculpas sinceras e foi correspondido pelo jovem.
— Agora está tudo bem Mu, acalme-se — foram até o quintal onde avistaram Shun observando as plantinhas.
— Shaka-chan! Mu-kun! Eu acho que as plantinhas estão com sede, olha só! — apontou para a terra seca nos vasinhos de planta — Elas precisam tomar café que nem a gente!
— Está certíssimo Shun, elas precisam se alimentar também — riu do jeitinho fofo que o menino falava as coisas — E aí Mu, quer ajudar a gente? Assim podemos acabar mais rápido e fazer as coisas legais que eu planejei pra hoje. Que tal?
— Tá bom! O que a gente vai fazer? — perguntou o filho de Shion.
— Depois de molhar as plantinhas e tomar o café o da manhã, nós vamos lá pra pracinha para vocês brincarem e a voltamos na hora do almoço.
— E depois, Shaka-chan?
— O Ikki me contou que colocou um joguinho bem legal na sua mala, podemos brincar com ele.
Os três regaram as plantinhas do quintal de Shaka e tomaram o café da manhã. Em seguida, se arrumaram para ir a pracinha próxima à casa. Mu usava um conjuntinho amarelo claro e deixou os longos cabelos lilases presos para conseguir brincar melhor. Já Shun deixou seus curtos cabelos verdinhos soltos, usava uma bermuda branca com suspensórios e sua blusa verde escura, a escolha foi do próprio menino, o cunhado até tentou sugerir uma cor diferente para a bermuda para ele brincar sem se preocupar de se sujar, porém a resposta perspicaz da criança o convenceu, com um: “Shaka-chan, qualquer cor que eu usar vai sujar na brincadeira”. Shaka acabou optando pelo branco, sentiu vontade de usar uma bata e calça de tecido leve com um cinto marrom simples.
Não demorou muito para que eles chegassem na pracinha e começassem a brincar. Shaka sentou em um banco onde tinha uma visão boa do que as crianças faziam. Havia dado algumas instruções simples para os meninos para que não entrassem em encrencas, coisas do tipo “não ponham nada na boca” e “alguns brinquedos são perigosos de brincar sem um adulto por perto, então me chamem quando quiserem brincar neles”. O virginiano mais velho não estava tendo problemas, até trocava algumas mensagens com seus amigos e alguns não perderam a oportunidade de zoar o “mais novo babá do pedaço” como o Milo. Estava tudo numa paz até os pequenos o solicitarem ao mesmo tempo.
— Shaka-chan — Shun puxou de leve o tecido da blusa do cunhado — Você pode me levar no escorrega? — apontou para o escorregador grande um pouco distante deles.
— Shaka-san, me leva no balanço, por favor! — Mu apontou para os balanços que ficavam na direção oposta do escorregador.
— Meninos, nós podemos fazer o seguinte. Podemos ir todos juntos para cada brinquedo, um por vez — apontou para os balanços — O outro balanço desocupou agora, podemos ir pra lá primeiro e ficar alguns minutinhos. Quem sabe vocês consigam alcançar alguma nuvem? — instigou a imaginação das crianças.
— A gente vai balançar até chegar tão alto assim? — perguntou o filho de Shion.
— Não custa nada tentar.
— É verdade que as nuvens são feitas de algodão doce, Shaka-chan? — já andavam até o brinquedo.
— Isso eu não sei, infelizmente não consegui pegar nenhuma nuvem para saber, mas tem uma carrocinha vendendo algodão doce aqui perto. Se vocês não conseguirem pegar um pedacinho de nuvem eu compro o doce ali para vocês.
— Então se a gente conseguir pegar a nuvem, nós não vamos ganhar nada?
— Aí eu vou comprar apenas um para nós compararmos o sabor, entendeu Mu? — deu uma piscadela.
Shaka colocou os pequenos nos balanços que ainda bem que um deles possuía a trava de segurança, feito para crianças menores como Shun. Com Mu teria que ter mais cuidado, pois ele queria ir cada vez mais alto para alcançar as nuvens. Depois do balanço e nenhuma nuvem capturada, as crianças foram até o escorregador que o pequeno virginiano tanto queria ir e deu para perceber o quanto ele estava feliz a cada descida.
— Uma pena que a gente não pegou nenhuma nuvem Mu-kun.
— Você tava indo muito baixo Shun-kun — resmungou a criança mais velha — Eu fui bem alto e não consegui.
— Os dois foram alto, não deu desta vez e está tudo bem. Vai ficar de experiência para uma próxima vez – andava de mãos dadas com eles até o carrinho do algodão doce — Três, por favor.
— Alguma preferência de cor, senhor? — perguntou o vendedor.
— Para mim pode ser o branco mesmo. Meninos, vocês escolhem.
— Eu quero o amarelo — pediu Mu.
— Aquele rosinha, por favor — apontou Shun.
Depois da pausa para o algodão doce as crianças foram gastar essa energia extra a qual foi proporcionada pelo doce na gangorra e outros brinquedos. O sinal de alerta de que precisavam voltar para casa eram os pequenos esparramados cansados no banco de praça que o babá estava sentado, ele deu uma olhada no relógio e decidiu voltar para casa com os meninos. Acabou que os dois foram carregados no colo pelo universitário, pois alegavam estar exaustos, porém isso não impediu Mu de brincar com os longos cabelos loiros que Shaka com muito custo conseguiu fazer voltar a coloração normal. Shun quis imitar o amiguinho e gostou de sentir o cheiro do creme de pentear do cunhado, logo se cansou da brincadeira e fechou os olhinhos se aninhando mais sobre o peito do mais velho.
Logo os três chegaram na pequena casa e os pequenos foram tomar banho, juntos dessa vez para evitar o incidente da noite anterior, e colocaram uma roupinha fresquinha. Shaka preparou o almoço deles e tudo estava tranquilo até a hora da sobremesa. O virginiano tirou as gelatinas que Ikki havia trazido de dentro da geladeira que eram de sabores diferentes. Ele não comeria por ser procedente de origem animal, mas não impediria os meninos de consumirem, já estavam em uma dieta vegetariana nesses dois dias por causa dele, uma mísera gelatina não haveria de ser um motivo de discórdia, por parte do indiano.
— Eu detesto limão! Não vou comer essa gelatina! — decretou Mu — Essa que você pegou é de quê?
— Acho que é de uva, tem um desenho de uva aqui, ó! — Shun apontava para a figura — Eu também gosto da de limão, vai querer trocar Mu-kun?
— Eu quero sim! — não escondeu sua vontade de comer a gelatina que estava com seu coleguinha — Obrigado, Shun-kun.
— De nada! — Pegou para abrir o lacre do potinho e olhou para o cunhado — Não vai comer a sobremesa, Shaka-chan? Meu nii-chan não trouxe pra você? — ergueu o potinho na direção do babá — Eu posso dividir com você.
— Pode comer sua gelatina, pequeno. Eu não posso comer por ser um costume da minha terra natal, mas agradeço por sua boa intenção — retirou um mamão da geladeira — Vou comer uma fruta mesmo — sorriu para o menino.
— Então tá bom, Shaka-chan — sorriu de volta.
Após a sobremesa, Shaka foi lavar a louça e os meninos estavam deitados no sofá descansando o almoço. O namorado de Ikki percebeu que o menor estava com um ar mais sonolento e falou com ele para parar de lutar contra o sono e ir descansar um pouco. Novamente o ajudou com a questão da fralda da hora de dormir e o deixou acomodado no quarto cercado de travesseiros e almofadas. Já Mu estava mais bem disposto e logo queria brincar de alguma coisa, no final ele brincou com o babá de um jogo de tabuleiro que dependia bastante da sorte nos dados, só na hora da comemoração precisaria ser mais contida para não acordar Shun do seu soninho de anjo.
No final da tarde Shun já estava acordado e fazia bastante calor. Para a conta de luz de Shaka não ir para as alturas com ar-condicionado ligado, o indiano teve uma boa ideia. Algo que já havia feito uma vez com Ikki e o irmão na casa deles, um banho de borracha (mangueira). Os três usavam shorts e começaram a se refrescar no quintal, Shaka fazia a mangueira soltar esguichos d’água para o alto, como se fosse um chafariz e as crianças riam e brincavam divertidas.
— Daqui a pouco teremos que parar, logo mais estará na hora do Ikki e do senhor Shion chegarem — disse o universitário.
— Aaah — o menino de cabelos verdinhos resmungou um pouquinho — O Mitsu-chan tava gostando de brincar na água — erguia o patinho de borracha.
— Fala pro meu otō-san pra atrasar mais umas horinhas... — resmungou Mu — Tá muito bom brincar aqui!
— Fico feliz que vocês dois tenham gostado do nosso dia de hoje, mas precisamos ainda guardar as coisas e colocar esses shorts para secar o máximo que der. Acho que dá tempo de assistir algum filme curtinho lá na sala — barganhava com os pequenos.
— Posso escolher o filme, Shaka-san?
— Eu darei as opções, está bem Mu?
— Ok! — se deu por vencido.
— Eu ajudo! Eu ajudo! — o mais novo se prontificou em ajudar na escolha do filme — Vai fazer pipoca pra gente ver o filme, Shaka-chan?
— Claro! Faço sim Shun. — Ele não resistiu a apertar de leve as bochechas do menino que carregava o patinho de borracha nas mãos.
— Preciso perguntar uma coisa, Shaka-san...
— Pode perguntar — fechou o registro da mangueira.
— Por que você não fala “aquelas coisinhas” no final dos nossos nomes? Não sabia que é falta de educação? — falou o menino que aprontou com ele no dia anterior.
— “Aquelas coisinhas”? — o indiano tentava entender o que o rapazinho se referia — Ah sim! Os sufixos! Desculpem por isso crianças — riu de si mesmo — Eu sou um estrangeiro nesse país e não costumo usar sufixos com todos. Às vezes uso com alguns professores onde eu estudo, meus amigos sabem que não quero ofender, apenas sou desligado com esse detalhe.
— Ah sim, entendi! Tá tudo bem então — Mu deu de ombros e foi tirar a bermuda molhada.
Passados alguns minutos eles estavam arrumados na sala assistindo ao filme “A Bela e a Fera” que foi escolhido pelas crianças, principalmente pela insistência e o poder de persuasão do pequeno virginiano. A vasilha de pipoca havia acabado nos primeiros quinze minutos de filme e logo Shaka precisou fazer mais. Ele respondia as mensagens de Ikki no celular e o leonino estava assustado ao ouvir que estava tudo indo bem hoje comparado com o dia anterior.
Duas horas se passaram e Shion havia chegado com Ikki para buscar o seu filho travesso e ficou surpreso com o clima tranquilo da casa. O filme estava nos créditos e as crianças estavam quietinhas no sofá abraçadas um tanto sonolentas. Shion se aproximou de Shaka e disse:
— Pelo visto hoje o dia foi mais tranquilo. Dá até uma pena de tirar ele desse sofá — o ariano mais velho fez um carinho no filho e o chamou devagar — Mu-kun, vamos levantar. Se despeça do seu amiguinho e do Shaka-san.
— Tchau, Shun-kun — abraçou o menor na despedida — Foi legal brincar com você!
— Tchau, Mu-kun! Gostei de brincar com você também — sorriu — Queria poder brincar mais com você, só que amanhã tem escola.
— Tchau, Shaka-san! — chamou o mais velho com o dedinho para que se abaixasse — Desculpa pela bagunça, você é legal.
— Aah sim. Obrigado, Mu-kun — usou o sufixo pela primeira vez com o menino — Tchau, Shion-san.
— Você fez um milagre rapaz — disse para o virginiano —Qual é a área que você estuda mesmo?
— Ciências sociais, senhor.
— Poderia trabalhar com crianças se quisesse. Vejo que Mu está muito bem cuidado! — elogiava o ariano e o universitário estava parado na porta sem reação.
— Eu ajudo a pôr as coisas do Mu lá no carro — ofereceu-se Ikki para quebrar o clima constrangedor que havia ficado.
— Ah sim! Tudo bem, obrigado rapaz — foram até a porta — Tchauzinho!
Não demorou muito para que Ikki retornasse para dentro de casa e se jogasse no sofá cansado. O namorado se permitiu fazer o mesmo, tomou cuidado com o irmãozinho que estava sentado ao lado contando todas as novidades para o mais velho. O leonino ouvia com atenção ao relato de Shun e imaginando o tamanho do trabalho que Shaka teve com os dois, ao mesmo tempo ficava com um sorriso bobo no rosto orgulhoso da inteligência do seu pequeno.
Em seguida pediram uma comida por aplicativo para se pouparem por estarem exaustos. Ficou decidido que os irmãos passariam aquela noite ali e Ikki sairia com Shun para a creche pela manhã. Por causa dessa viagem à trabalho no final de semana, ele ficaria de folga na segunda-feira e outro dia que escolhesse na semana seguinte, o que seria bom para colocar a matéria em dia, pois ao contrário do namorado, ele era mais organizado no trabalho do que nos estudos. Também seria uma ótima oportunidade para que ele pagasse a “taxa extra” para Shaka por ter omitido alguns detalhes sobre o trabalho de babá, pois ele provavelmente não aceitaria.
— Ele acabou dormindo, parece um anjinho. Nós deveríamos fazer isso também — Ikki o carregou nos braços até a cama.
— Sim, ele parece mesmo um anjinho — sorriu — Acabou que seu irmão me ajudou bastante neste final de semana — colocou algumas almofadas do lado, pois ele ainda iria trocar de roupa.
— Eu vi que você ficou congelado quando o senhor Shion falou sobre cuidar de crianças. Acho que ele vai querer repetir a dose – insinuou risonho.
— Krishna me defenda — sussurrou para não acordar o menino — Posso até rever o filho dele, como um amigo, não como babá. Aiolia vai me ouvir depois de tudo o que acabei me metendo por causa dele.
— E minha também — deu um beijo suave no virginiano irritado — Se a gente tivesse que demorar mais um dia nessa viagem eu duvido que sua paciência de buda iria durar mais.
— Até eu tenho as minhas dúvidas — pegou seu pijama e foi para o banheiro, mas antes de fechar a porta disse: — Amanhã depois da aula, você me paga.
— Não tenho objeções — abriu um sorriso zombeteiro — Parabéns, babá Shaka.
— Me erra, Ikki — fechou a porta.
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