Baby May Cry

11 Ninguém segura esse bebê


TRISH PODE TER SIDO moldada com base na Eva para que Mundus, em seu plano maquiavélico de acabar com a última centelha da descendência de Sparda, manipulasse Dante e toda a história que se sabe ao jogar o primeiro jogo ou assistir um resumão no YouTube, mas toda sua compatibilidade com a mãe dos gêmeos se finalizava justamente no quesito estética. Ela não tinha a suposta capacidade inata da maternidade, estava mais para a tia super descolada que levava para compras e pra aventuras de tirar o fôlego e vê-la assumindo o papel, ainda que temporariamente, era tão fora de caráter.

Igual unir leite e manga.

Acho que podia dizer que cumpria essa parte melhor que ela já que poderia ser tanto a mamãe afetuosa como vinha sendo com a Beatrice quanto a tia fofa — ou babá dependendo da função. A versão criança do Dante comentou pra Trish sobre o que fez e que Bea tinha cheiro de frutas e que as vezes parecia ter saído do lixo de tão fedida, dando um certo crédito pra ele, visto que já trocou a fralda dela, a bebê tem um intestino dos bons e seu tempo de digestão é invejável.

— Agora que Dante virou uma criança temporariamente, ele não poderá mais me chamar de pirralha — Maya anunciou, colocando enfeites no cabelo de Bea e de Dante.

— Mas você tem cara de pirralha. — Dante retrucou.

— Não gosto mais dele criança — o humor de Maya se azedou com o comentário.

Dante parecia menos inquieto depois da Trish ter dado um migué nele dizendo que Vergil estava passando o dia com Sparda. Testemunhar o pequeno Dante interagir com a “mãe” e ainda brincar com Beatrice foi um dos eventos mais adoráveis que tive o prazer de capturar. Acho que por ora, com o meio-demônio criança, só precisaria ficar de olho e permiti-lo viver um pouco mais de sua infância que lhe fora roubada.

Maya já deixara de sobreaviso que o efeito seria temporário, mas logo no terceiro dia ele já estava de volta a sua forma normal sem lembrar do ocorrido — o que rendeu a pequena aprendiz de feiticeira uma nova provocação contra o meio-demônio.

— Deveria ter aproveitado mais. — Maya comentou.

— Já era estranho ver o Dante criança, não queria que isso durasse mais que o necessário. — Nero respondeu, arqueando uma das sobrancelhas.

— Não gostaria de voltar a ser criança? — Trish inquiriu.

— Voltar a ser criança seria uma bagunça — Lady objetou.

— Não tenho muito a dizer, eu nunca fui criança — Trish deu de ombros.

— Você nasceu como Afrodite — Lyana começou e imaginei que viria alguma pérola a seguir. — Nasceu já adulta por conta das bolas de alguém.

— De Mundus? — perguntei meio alheia e me arrependendo quase imediatamente.

— Isso é algo que eu preferia dormir sem imaginar — Dante riu.

— É uma comparação estranha...

— Chega de falar de bolas, agora que Dante voltou ao normal e estamos na programação, vamos cada um fazer algo e depois colocarei a Beatrice pra dormir. — me encaminhei para fora do sofá no qual estava acomodada com a bebê.

Chamaria isso de déjà vu, por literalmente uma moto ter rompido as dobradiças da porta com o motor alto — rugindo a toda potência.

— Será que ninguém sabe usar a droga da porta? — rugi furiosa. — Vamos ter que mandar consertar! Você vai pagar, intruso!

O motorista, com toda pompa, observou silenciosamente o ambiente, estudando o espaço e a quantidade de pessoas presentes, quase que fazendo um breve cálculo de como lidaria com cada um de nós. Tem que ser muito presunçoso pra achar que daria conta de dois armários, Dante e Nero, uma demônio puro, uma meia-demônio do tipo súcubo, uma aprendiz de feiticeira, um arsenal ambulante e eu, que tenho poderzinho de energia.

E ele não parecia intimidado pelo número de adversários.

— Só quero o bebê — disse olhando para Beatrice nos meus braços. — Entregue-a pra mim. Aí eu vou embora e vocês poderão voltar a vida pacata de vocês.

— Você não vai levar o meu bebê! — berrei, correndo pra ir pro segundo andar.

— Seu?

Foi justamente com esse movimento de evasão pouco elaborado que o motoqueiro partir pra cima, desviando das mulheres armadas, driblando os homens e surgindo, feito um tigre ante sua presa, na minha frente. Tentei golpeá-lo (porque não estava muito afim de apanhar de graça), mas ele agarrou o bebê, com delicadeza, torceu meu braço e me lançou contra o sofá como se eu fosse uma boneca de pano. Beatrice deu uma risadinha com a empreitada e o motoqueiro riu junto.

— Eu não lembrava de como isso era divertido.

Dante permaneceu imóvel quando Nero arriscou um chute nas pernas do motoqueiro que saltou graciosamente para trás do caçador júnior e o bateu nas suas pernas.

— Se for pra brigar com todo mundo aqui, eu brigo. Ao menos tiro o atraso das lutas.

Irritada, fui novamente em direção a ele para tomar minha bebê e, novamente, para meu desgosto, o cretino me atirou contra Lady e Trish que iam aproveitar o ponto cego para um ataque em conjunto, que em teoria seria muito maneiro de testemunhar a eficácia, mas que não serviu muito quando o intruso, em um movimento displicente, nos derrubou. Maya usou um feitiço de cordas que se ajustou ao corpo dele e afastou Beatrice do desconhecido.

— Tinha esquecido disso — ele disse antes de destruir as cordas mágicas. Dante o segurou por trás, imobilizando-o de modo que os braços ficaram em um ângulo desconfortável, porém foi mais que suficiente pra acabar com a graça dele.

— Ele é mais escorregadio que sabonete. — Maya resmungou.

— Isso é bizarro, todo mundo foi enrolado por uma só pessoa. — afirmei achando toda situação absurda. — Você é o que? Um X-Men?

O motoqueiro desatou em uma gargalhada alta e vibrante.

— Qual é a graça? — Nero perguntou não muito paciente.

O motoqueiro se liberou do agarre de Dante e pousou elegante no centro da agência.

— Podemos resolver isso do jeito fácil — pronunciou removendo o capacete. — Ou do jeito difícil, seja qual dos dois escolherem vai ser bem divertido.

As ondas caíam pelos ombros e o olhar astuto nos orbes castanhos fez todo mundo se virar em minha direção em um efeito manada.

— Qual é? Parece que não reconhecem o rosto de uma antiga amiga. — a outra Diva anuiu com um sorriso convencido.