Baby, I Was Born This Way.
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Jordana observou os campos dançarem conforme o vento os conduzia. Era extremamente prazeroso sentir a brisa fraca bater em seu rosto, como se estivesse lhe fazendo carinho depois de uma intensa briga.
As palavras dolorosas ainda estavam frescas em sua mente e talvez estariam por muito tempo.
“— Por que você tem que agir assim, Jordana? Por que precisa andar que nem um macho pelas ruas, hein? Com essas bermudas de homem, esse cabelo curto e essa gravata!”
Jordana sorriu.
Não era um sorriso encantador, nem mesmo feliz. Era repleto de dor. Dor por viver uma vida de “mentiras”, segundo sua própria mãe.
Mãe?
Mães não deveriam apoiar os filhos? Independente de quaisquer coisas? Mães não deviam amar os filhos? Incluir em vez de excluir?
“— E pra piorar… Você é machorra! Seu pai teria nojo de você caso estivesse vivo agora.”
O que havia de errado? Jordana gostaria de entender.
“— Espero que Deus te perdoe por tudo isso… Essas escolhas sempre têm consequências, saiba disso, Jordana.”
Escolhas? Não, Jordana não escolheu gostar de garotas. Jordana não tinha culpa se a sociedade impunha que se você for mulher deve ser feminina.
— Por que Deus me fez assim, então? — questionou Jordana, em voz alta, como se esperasse uma resposta do céu alaranjado.
A resposta veio, mas não dos céus e nem mesmo do tão famigerado Deus.
— Porque Deus não comete erros — respondeu a segunda, sentando-se ao lado de Jordana.
Apesar do susto, Jordana sorriu.
— O que está fazendo aqui, Juliana? Não devia estar na aula? — questionou Jordana, com as expressões mandonas.
— Ei, mamãe, hoje eu não tenho aula. É feriado! — Juliana sorriu levemente, o batom vermelho estava levemente borrado, mas eram os olhos brilhantes roubavam a cena. — Mas eu não quero falar de mim… Quero falar de você!
— O que tem eu?
— Por que disse aquilo? Aconteceu alguma coisa? E… ei o que houve com sua gravata?! — Juliana arrancou a gravata das mãos de Jordana. — Isso é sangue?! — questionou, assustada.
O vermelho alvo estava respingado por toda gravata rasgada.
— Não, Juliana. É tinta — respondeu Jordana, dando de ombros.
Jordana sorriu. Adorava a energia que Juliana tinha. Era uma garota de dezesseis anos, muito animada e muito companheira. E apesar de Jordana ter seus dezenove anos, ambas davam-se bem.
— E por que ela está assim? Essa aqui eu te dei de aniversário! Você deveria cuidar melhor das coisas que te dou — Juliana revirou os olhos, assim como Jordana.
— Eu tentei, certo? Mas ela arrancou de mim! — exclamou a mais velha, com raiva contida em sua voz.
— Ela quem?
O silêncio reinou. Havia receio em pronunciar o nome da mãe. Mas não porque não quisesse que Juliana soubesse do ocorrido, longe disso… Jordana apenas estava com medo de chorar enquanto contava.
O seu peito parecia um enorme vulcão, em erupção. Pronto para destruir uma cidade.
No entanto, sabia que se não dissesse nada, cedo ou tarde explodiria. E talvez o resultado não fosse nem um pouco agradável.
— Minha mãe. Brigamos de novo — respondeu Jordana, depois de longos minutos em silêncio.
— Ela disse aquelas coisas de novo? — a preocupação de Juliana era tangível.
— Sim. Mas dessa vez foi pior. Ela estava bêbada, atirou uma bíblia em mim, acredita? — Jojo tentou rir, mas não conseguia sequer repuxar os lábios. — E depois arrancou minha gravata e a jogou no chão, justamente onde havia tinta…
— Sua mãe é ridícula. Me desculpa falar isso, Jojo, mas é que sua mãe me irrita tanto! Ela vai toda semana na Igreja, onde se diz certinha, mas quando vê um mendigo na rua o esnoba; quando vê dois homens de mãos dadas diz que Deus criou essas aberrações… —
— Certo, certo, certo. Você está certa. Nem precisa me dar mais motivos para ter nojo dela — sussurrou Jordana.
Juliana sorriu e em seguida, encostou a cabeça no ombro da companheira.
Apesar de todos os problemas, sentia-se livre e, o mais importante, sentia-se amada quando estava com Juliana.
— Sabe, Jojo, minha mãe me disse certas coisas quando eu era pequena… — começou Juliana, olhando para as flores que se balançavam suavemente.
— O que ela disse? — questionou, interessada.
— Ela disse que todos nós nascemos superestrelas. “Não há nada de errado em amar quem você é” ela dizia, “pois Ele te fez perfeita, querida”, “Então levante a sua cabeça, garota, e você irá longe”.
— Ela te dizia isso, Ju?
— Sim. E essas coisas me fizeram pensar… Eu sou bonita do meu jeito, porque Deus não comete erros. Não vou me cobrir de arrependimentos; apenas me amarei e então estarei bem. — Juliana suspirou, observando os olhos profundos e castanhos de Jojo.
—São lindas palavras… — sussurrou.
— É… E, bem, um amor diferente não é um pecado, sabe?
— Ah é?
— É.
— Sua mãe te disse essas coisas? — perguntou Jordana novamente, com surpresa.
— Sim, ela disse.
— Uau! Eu não sabia que sua mãe era Lady Gaga! Por que nunca me contou? — Juliana gargalhou e deu um soco fraco no braço da amante, Jordana acompanhou a gargalhada.
— Ei, Jojo… Eu gosto de te ver sorrir assim, faça isso mais vezes, por nós — pediu a garota.
Jordana escorou-se na árvore e olhou para a gravata em sua frente. Nela haviam duas lembranças; a primeira retratava um momento de muita felicidade, quando ganhou a gravata de Juliana. Já a segunda lembrança era pouco mais intensa, mas era uma intensidade ruim; a lembrava de todo o sofrimento, o preconceito e as palavras que aguentou calada em dezenove anos de sua vida.
Gostaria de jogá-la fora, para esquecer do ocorrido. Mas permaneceria com ela, porque significava muito, afinal, foi um presente carinhoso da única pessoa que parecia lhe amar.
— E lembre-se sempre, Jojo, não tem nada errado com você, certo? E se deus (Lady Gaga) falou, então não deveremos contestar — completou Juliana, sorrindo largamente.
— Você é tão idiota, Juliana… — Jordana riu e levantou-se da grama fofa.
— Agradeço o elogio… Onde você vai? — a garota também se levantou e passou a acompanhá-la.
— Vamos comprar uma gravata nova! — respondeu Jordana, surpreendendo a si mesma.
Não havia tamanha felicidade nos olhos de Jordana. Quem a via logo pensava que aquela era uma garota esquisita, porém feliz. Ninguém parecia notar o sofrimento estampado em seu rosto, ninguém parecia enxergar as marcas de dor, ninguém conseguia perceber os rótulos grudados em seu corpo, machucando-a intensamente.
Entretanto, quando Jordana estava com Juliana, havia apenas momentos de companheirismo. Havia apenas a felicidade de saber que sempre teria um abraço, sempre teria amor.
Jordana não sabia por quanto tempo isso duraria, mas ela não pensava no futuro e sim no hoje. E hoje, agora, ela estava feliz por experimentar várias gravatas diferentes, aos olhares tortos dos clientes e funcionários.
— Ei o que acha dessa? — perguntou Juliana, provando uma gravata de borboleta.
— Você ficou péssima — Jordana gargalhou e Juliana fez uma careta.
— Que grande namorada, hein! Era pra ter dito que eu arrasei, lacrei e sambei. — Juliana tinha um tom infantil e um semblante de falsa indignação.
— Você ouviu? São namoradas… — cochichou um homem para o outro. Havia escárnio em sua voz.
Jordana revirou os olhos. Eles falavam alto o suficiente para que ambas escutassem, pareciam querer expulsá-las dali com palavras de repudio.
— Somos namoradas mesmo. E dai? Algum problema, fofo? — questionou Juliana, olhando-os com raiva.
— Nenhum, não tenho preconceito, tenho até amigas que são. Mas não precisam demonstrar em publico, é feio — disse um deles, dando de ombros.
— Feio é esse seu preconceito! — ralhou Jordana, retirando a gravata e saindo o mais rápido dali.
Não era a primeira vez e nem mesmo a última. Jordana sempre fora uma garota calma, mas não conseguia se conter quando alguém fazia questão de tentar barrá-las.
— Ei, não liga não, Jojo. Ele é só um “omi” fazendo “omice” — Juliana sorriu.
— Por que as pessoas fazem questão de cuidar da vida alheia? — questionou Jojo, sentando-se no banco da calçada.
— Acho que elas se sentem frustradas com as próprias vidas, por isso precisam fazer o mesmo com outros. Li isso em algum lugar… Até que faz sentido — murmurou Juliana.
— Eu sinto pena dessas pessoas…
— Né? Sinto também. Pobres pessoas, não conseguem nem mesmo viver a própria vida sem cuidar da vida alheia.
— E no fim eu nem escolhi uma gravata… — Jordana suspirou pesadamente.
— Podemos procurar em outra loja. Devem haver várias por aí, vem, vamos — Juliana levantou-se bruscamente, agarrando a mão da namorada.
— Está anoitecendo, Juliana. Vamos deixar para outro dia.
— Para que deixar para outro dia quando podemos fazer agora? — a garota então saiu saltitante como uma criança.
Jordana revirou os olhos. Eram pequenos momentos infantis e ate mesmo clichês que a faziam sorrir; sentir-se feliz e especial.
Não havia melhor alegria do que o companheirismo, não só o de Juliana, mas de todas as mulheres oprimidas por não serem femininas ou por serem lésbicas.
Por fim, Jordana decidiu que guardaria a gravata com carinho porque aquele era o símbolo de quem ela era; representava quem gostava de ser. E aquele simples objeto não era só uma gravata. Era Jordana.
Porque, no fim, como disse Lady Gaga certa vez, você nasceu assim e não há nada de errado, porque Deus não comete erros.
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