Baby Care

34 Meu mundo


“Descobri que “eu te amo” são palavras de muito valor”

— de Ace para Sabo, após a descoberta da gravidez.

Koala conseguiu calcular que já era algo entre uma da tarde e duas horas. Apesar de ser da área de humanas, isso não a fazia ruim em matemática. Na verdade, ganhara um prémio de matemática quando estava no segundo ano do ginasial. Ficara muito feliz aquele dia.

— Mamãe, tô com fome. — Blaze a tirou de seus devaneios, puxando seu casaco.

Isso não era hora de pensar no passado, lembrou-se procurando uma papinha que mandara na bolsa de Blaze. Tinha que pensar em uma alternativa, em algum jeito de convencer Sterry a deixar seu bebê ir embora. Como poderia persuadi-lo ao ponto de acreditar que ela sozinha ali valeria o mesmo? Blaze era o herdeiro da família Portgas, seria difícil demais dele aceitar.

Sua barriga começou a reclamar de fome, mas ignorou. Não comeria nem uma migalha da comida de seu menino. Não sabia por quanto tempo ele os manteria ali, e tinha que mantê-lo alimentado pelo máximo de tempo possível. Foi gratificante vê-lo comer, alheio ao que acontecia. Ser criança era mesmo uma dádiva.

Quando Blaze terminou, deu a ele seu trem de volta. Sentadinho ao seu lado, ele começou a brincar de passá-lo no chão, fazendo o barulho do apito.

Minutos depois, a porta foi aberta.

— Parece que já se acostumou com seu novo lar.

Assustou-se por um instante, mas logo se recompôs.

— Vamos ter que ficar aqui por quanto tempo?

— O tempo que eu achar necessário — ele deu um sorriso irônico, andando pelo quarto. — Ou pelo tempo que meu querido irmãozão levar pra juntar todo o dinheiro. Huh, estou ansioso.

Ele passou o braço acidentalmente em uma cômoda empeirada, sujando a manga do paletó. Com uma careta, ele tentou tirar com a mão, mas não saiu tudo. Ele resolveu tirar a peça, ficando apenas de blusa social.

Mas o que Sterry queria dizer com irmão? Será que ele era...

— Você é filho dos pais biológicos do Sabo-kun?

Se fosse verdade, fazia sentido ele ser tão maluco quanto os pais. Sabo deveria ter lhe contado, mas também compreendia o porquê dele ter escondido alguém tão insano.

Com o paletó nos braços, ele a avaliou por alguns instantes.

— Não. — respondeu rapidamente, ouvindo pela primeira vez um tom que parecia sincero. — eu fui adotado quando era moleque.

— O que houve com seus pais verdadeiros?

Ele estalou a língua, dando uma risada por dentro.

— Isso é alguma tentativa de me fazer criar uma relação com você, não?

— Não é isso. — negou, embora, no fundo, tivesse um pouco de verdade. — eu também perdi meus pais. E depois fui adotada, e meu pai morreu, este ano.

— Eu não ligo pros meus pais verdadeiros, e também não ligo pros que me adotaram. No dia que meu pai adotivo morreu — ele se aproximou um pouco. — eu dancei em seu túmulo.

Essa era uma tentativa dele de parecer mais assustador, mas não funcionou. Não tinha certeza se fora causada por eles, mas Sterry tinha algumas cicatrizes antigas no pescoço que poderia ver melhor agora sem o paletó.

— Foram eles que fizeram isso em você?

Ele pôs a mão no pescoço, surpreso por ela notar, e se afastou rapidamente. Rangeu os dentes, e notou que ela o atingira num ponto sensível.

— Tudo — ele disse lentamente, mas com raiva na voz. — que aconteceu de ruim até agora na minha vida é por causa dele.

— Do seu pai?

— Não. Do Sabo! — ele cerrou os punhos. — ele é quem deveria sofrer. Ele que eles odiavam, e não a mim. Eu era o filho perfeito, porque comparado a ele, eu era ótimo! Mas quando aquele desgraçado... — ele engoliu o seco. — aquele desgraçado foi esperto, e procurou uma família melhor. Os D! Veja só, que legal. E então, eu me tornei o alvo.

Sterry deu uma risada forçada, mas sem humor nenhum, e então puxou mais o colarinho, para que ela pudesse ver mais escoriações. Eram várias.

— A diversão deles era me tratar como se fosse ele.

— Isso não é culpa do Sabo-kun — defendeu-o, sentindo os olhos lacrimejarem. — vocês dois são vítimas. Eram só crianças quando...

— Cale a boca! — ele gritou, e Blaze começou a chorar assustado. — cale a boca! Cale a boca! É tudo culpa dele! Tudo o que ele tem deveria ser meu! Eu é quem deveria ter sido um D! Ele deveria ter ficado lá, mofando naquela família decadente.

Estava claro que Sterry era uma pessoa com traumas, e embora isso não o isentasse da culpa de tê-la sequestrado, uma parte dela sentiu pena dele. Algum dia, ele foi apenas um garotinho, que sofreu anos de maus-tratos.

Talvez, se algum dia, alguém o tivesse simplesmente abraçado, como fazia agora com Blaze, ele não houvesse chegado ao extremo de se tornar uma pessoa tão ruim.

(...)

— Eu tive uma ideia.

Todos estavam tão ocupados debatendo entre si qual o melhor modo de proceder depois que a polícia foi embora — sem ajudar em absolutamente nada — que quase se esqueceram do garotinho de doze anos que estava ali. Ao lado dele, Shanks pôs a mão em sua cabeça.

— Deixe que os adultos resolvam isso, rapaz.

— Mas eu tenho uma ideia mesmo! — ele contestou. — é minha irmã, e eu também quero ajudar a salvá-la.

Agora um pouco mais calmo e otimista, Sabo andou até ele, olhando-o bem nos olhos.

— Sabe como essa situação é séria, não sabe, Shin? Não quero que fique aqui para dar ideia irreais e imaginárias.

Shin fechou a cara, e se levantou para passar mais seriedade. Ele tinha pelo menos metade da altura de Sabo, então não foi muito efetivo, mas serviu para que o loiro entendesse.

— Minha ideia — continuou o menino. — é que entreguemos o dinheiro. Não todo, mas pelo menos uma parte, um adiantamento.

— Como isso iria nos garantir a sobrevivência dos dois? — Nami perguntou.

— A gente coloca o dinheiro junto com dois rastreadores, um escondido, mas um pouco mais óbvio, pra que eles achem fácil, e outro bem mais escondido, que eles não vão procurar, porque pensam que já acharam!

Todos ficaram em silêncio por alguns instantes, até que Law falou:

— É uma boa ideia, mas não vai funcionar. Eles ainda não revelaram nenhum ponto de encontro, não teríamos como contatá-los.

— Podemos falar na TV, eles vão ver.

— Não tem como — Sabo negou. — a mídia não pode saber do sequestro, ou então jornalistas e colunistas vão acampar na nossa porta e atrapalhar as investigações.

Vendo-se sem argumentos, Shin cruzou os braços, chateado. Suspirando, Sabo deu-lhe um abraço.

— Tá tudo bem, garoto. Vamos encontrá-los.

Shin aceitou o abraço, fungando um pouco.

— Se tivéssemos como rastreá-los, seria perfeito. — comentou Kid, sem tirar os olhos do computador. — eu sou especialista nisso.

— O Blaze-ya não tem nada rastreável? — Law questionou Sabo. — um celular? Um tablet?

— Eu não dou um celular nem um tablet pra uma criança de dois anos. — Sabo respondeu como se aquilo fosse um absurdo. — somente Shin tem um celular, nenhuma das outras crianças têm. O máximo que eles ganharam foi o alarme de segurança, porque vão a pé para a escola.

Isso despertou interesse em Dragon, que encarou o filho com interesse.

— Que alarme deu a eles? — o homem perguntou.

— Os oficiais da R.A, é claro — respondeu. — ainda não começaram a serem vendidos, achei que era uma boa chance de testar.

— A quem deu eles? A todas as crianças? Blaze também?

— Eu cheguei a colocar um na mochila do Blaze — Sabo passou a mão pelos cabelos, preocupando com o tom ansioso do pai. — mas ele não tinha responsabilidade pra ter um, ficava acionando o alarme, então eu tirei.

O rosto de Dragon se contorceu em decepção.

— Era a nossa chance...

— Chance de que, pai?

— Todos os eletrônicos da Revolutionary Army são conectados. Até os produtos mais banais, como os alarmes de segurança — ele contou. — por isso, a equipe de criação desenvolveu eles para que pudessem ser rastreáveis por qualquer celular ou computador da R.A.

Coberto de frustração, Sabo cerrou os punhos. Se tivesse sido mais persistente, se tivesse explicado a Blaze mais vezes que não podia ficar mexendo no dispositivo, agora eles teriam uma chance. Era tudo culpa sua!

— Eu devolvi pra ele! — disse Shin de supetão, como se ele próprio estivesse surpreso por se lembrar. — era... Era um azul, não era? Isso, eu devolvi pra ele! Fiquei com pena quando Sabo tomou dele.

— Shin. — Sabo se ajoelhou, segurando os meninos pelos braços. — pelo amor de tudo o que é mais sagrado, você viu onde o Blaze colocou? Ele não deixou jogado depois, deixou?

Um pouco assustado por conta de todos os olhares cheios de expectativa dentro de si, o menino hesitou por uns segundos, até que com firmeza, balançou a cabeça.

— Não. Ele guardou. Eu vi, e deve estar no mesmo lugar até agora.

— Onde?

— No vagão.

— Que vagão?

— Dentro do vagão do trenzinho preferido dele.

(...)

Tudo aconteceu numa velocidade muito grande. Primeiro, ligaram para Pudding para saber se o trem de Blaze estava em casa ou não. Depois dela, Sanji e o resto das crianças virarem o apartamento de cabeça para baixo e não ao encontrarem nada, todos concluíram que Blaze estava com o trem na bolsa.

Restou a Kid rastrear a localização pelo código, que Hack e os demais funcionários prontamente enviaram, e o ruivo conseguiu uma resposta após alguns minutos teclando o computador sem parar.

Segundos depois, todos os homens — menos Shin, para seu pesar. — lotaram três carros e partiram para o local indicado. Tudo isso levou tempo, e já era fim de tarde.

Sabo estava nervoso. Seu coração não parava de palpitar, pensando nas piores coisas que podiam estar acontecendo àqueles dois.

— Se acalme. — disse seu pai, ao seu lado. — se precisar disso aí, vai ter que estar calmo.

Olhou para o revolver em sua mão, e concentrou-se em respirar. Ele tinha razão. Tinha que se acalmar. Por eles. Porque... Porque a vida não existiria sem os dois. Eles eram seu mundo. Tinham muito o que fazer, muito o que dizer... E...

Ah, por Deus... Ele nunca...

Nunca dissera que a amava.

(...)

Alguma coisa estava errada. Ouviu Sterry e os capangas conversando no lado de fora, mas a voz deles estava muito distante para que pudesse distinguir suas palavras. Mas pelo menos conseguia perceber o tom de suas vozes, e Sterry, principalmente, parecia bastante nervoso. Ele berrava e batia o punho em um carro — ou provavelmente a van — várias e várias vezes.

Passado alguns minutos, ele entrou novamente no quarto, com a respiração pesada.

— O que é?! — gritou quando ela o ficou olhando.

— Não está conseguindo negociar?

Ele continuou rangendo os dentes, e começou a puxar o próprio cabelo.

— Ele está planejando alguma coisa — murmurava. — eu tenho certeza. Esse silêncio é muito suspeito. Eu sei disso!

Koala respirou fundo, aninhando Blaze em seu colo.

— Se nos soltar agora, as consequências vão ser menores.

Com um olhar de puro desdenho, ele a encarou.

— Acha mesmo que depois de anos planejando essa vingança, eu vou dar para trás? Está muito enganada, empregadinha. — ele cuspiu no chão. — eu dei dinheiro demais àquele homem pra pôr tudo à perder.

— De que homem está falando?

Ele pensou por um segundo, até que resolveu falar:

— Quer saber? Eu vou te contar, até porque — o sorriso dele ficou mais largo. — não vai ter como contar isso a ninguém depois de qualquer forma.

Se ele queria assustá-la, agora ele havia conseguido.

— Aquela grande e formosa família D, formada por pessoas inteligentes e pessoas burras, tinha dentre eles um homem de muita visão, que era envolvido com a yakuza, emprestava dinheiro e sabia cobrar dívidas como ninguém. Ele vivia bem e tranquilo, até que um pirralho chamado Sabo foi fazer um estágio na empresa e... Olhe só, uma criança descobriu todos os seus segredos! E, é claro, não hesitou em contar ao seu papai.

Sabo havia lhe contado, de fato, que chegara a trabalhar ao lado do pai quando era adolescente. Quantos anos tinha? Dezesseis? Se havia descoberto um segredo desses, não estava surpresa considerando tudo o que diziam sobre suas capacidades.

— Só o que restou a esse pobre homem foi procurar pessoas que também o odiavam, e usar pessoas para arrancar seu dinheiro e fortuna. Infelizmente, este homem nunca conseguiu completar seus objetivos, mas eu ainda estou aqui. E eu vou fazer isso.

O desespero começou a voltar com força total.

— Não pode fazer isso. Matar o Sabo-kun seria...

Seria o fim de sua vida. Mas não podia dizer isso.

— Ele é importante demais, Sterry. Você não conseguiria viver depois disso.

— Viver?! — ele gritou, dando um chute na cômoda. — Acha que isso é viver?! Eu prefiro morrer exterminando com a pessoa que transformou minha vida nessa merda. Eu vou fazer com que ele sofra até o último segundo, assim como eu sofri! Eu vou...!

A porta foi aberta, e a mulher que a sequestrara apareceu com o rosto pálido.

— O que é, Catarina?!

— Tem pessoas chegando. Pessoas demais. Reconheci alguns dos carros... Acho que a Bigmom foi envolvida nisso.

Bigmom? Essa era a mãe de Pudding, sua... Avó? Isso, sua avó. Não parara para pensar nisso, e sinceramente, isso era o que menos importava agora. Alguém estava vindo para resgatá-los, e isso era de um alívio muito grande.

— Droga! A Bigmom! — Sterry deu um chilique. — por que aquela mulher está envolvida nisso? Essa garota é só uma amiga da filha dela! Grr... Mande Jesus preparar o carro! Temos que fugir pelo outro lado!

Ele virou de costas, tirando a arma para fora. Koala se levantou num pulo, com Blaze no colo.

— Você vai vir comigo agora — ele disse em tom baixo e assustador, com a pistola apontada para ela. Santo Deus, aquele homem estava fora de si. — se tentar alguma gracinha, eu atiro, e... — ele olhou para Blaze — não vai ser em você.

“Papai” Koala disse em pensamento, sentindo as lágrimas começarem a descer. “Se você estiver me ouvindo, por favor, por favor, nos ajude a sair dessa. Nada pode acontecer com Blaze. Nada pode acontecer com o meu menino. Eu o amo demais, ele... Ele tem que viver.”

Seu pai fora um homem nada perfeito, e era a primeira a admitir isso. Mas nunca, jamais, ele lhe negara ajuda, e naquele momento, soube que mesmo em outro plano, ele continuaria a cuidar de sua garotinha.

Quando olhou para frente e distinguiu a silhueta que ali estava, quase caiu de joelhos. Era Sabo. Era ele! Seu príncipe, seu amor, e a pessoa que mais desejava ver no mundo.

Ele tinha uma arma em mãos, e olhava fixamente para Sterry, com a pose mais assustadora que vira em toda sua vida. Era como um leão, ameaçando outro, pronto para atacar.

— Tira suas mãos dela... Agora! — ele gritou. — se dá valor à sua vida, vai se afastar dela agora.

Mas Sterry não o fez. Muito pelo contrário, ele sorriu e a destravou a arma, apontando para os dois.

— Ora, ora, ora, veja só quem temos aqui... O grande e poderoso Monkey D. Sabo. Esse nome combina mais com você, sabia? É muito melhor do que o meu sobrenome, que, por acaso, também era o seu. Outlook Sabo... É, não é tão imponente, sabia?

— Pare de ficar tagarelando asneiras! — Sabo gritou, mirando-o bem nos olhos. — Anda! Sai de perto deles agora ou eu estouro sua cabeça!

— Como se você tivesse coragem pra isso. — o ruivo zombou. — você sempre foi frouxo. Ainda é. Se tivesse ficado lá e aguentado, eles não teriam feito comigo o que fazia com você!

Enquanto ele falava, lentamente Koala ia colocando Blaze no chão, atrás de si.

— E você sempre foi igual aqueles dois, ambiciosos e não valorizam nada que não tenha a ver com dinheiro.

— Isso é tudo culpa sua. Foi embora e nos deixou com migalhas!

— Eu fui embora porque ele quase conseguiu me matar!

— Mentira!

— Você também deveria ter ido embora, Sterry — Sabo engoliu o seco, revivendo tudo aquilo em sua mente — devia ter ido assim que viu como eles eram malucos.

— Ir pra onde?! Acha mesmo que eu tinha para onde ir?! Acha mesmo que eu não teria me tornado o alvo depois de você?!

— Eu te odeio... Eu te odeio mais do que qualquer pessoa agora, mas... Droga! Se tivesse me pedido ajuda, eu teria ajudado! Se me dissesse, eu teria feito alguma coisa!

— A culpa não é sua. — Koala pôs a mão no ombro dele, em um tom maternal. — você é tão vítima quanto todos os envolvidos. Eles foram ruins com vocês. Eles fizeram vocês sofrerem. Fizeram vocês se odiarem, e talvez nunca vão conseguir se recuperar completamente disso. Mas... É dessa forma que você quer acabar?

Ele ficou calado, pensando.

— Se soltar essa arma agora — disse Sabo mais calmo, mas ainda suando muito. — podemos recomeçar. Não seremos irmãos, mas posso te ajudar. Eu juro.

Por um instante, todos acreditaram que ele estava se rendendo. Ele afastou a pistola da mira de Koala aos poucos, e Sabo relaxou um pouco em sua posição.

Mas então os instintos de Koala se alertaram, e em um milésimo de segundo, ela pulou em cima dele assim que ele disparou a arma, fazendo-o dar um tiro para o teto. Com uma habilidade que Sabo jamais vira antes, ela dera uma joelhada e uma cotovelada, tomando a arma de sua mão e derrubando-o no chão. Ele gemera ao cair, mas não fez menção de se levantar, pois rapidamente ela apontara o revólver para seu rosto.

— Paradinho aí.

— Koala, como... — Sabo estava chocado. — como aprendeu isso?

— Meu pai. Ele me ensinou mais do que plantar batatas. — então, ela deu um chute nos estômago que Sterry, que começou a se contorcer no chão. — Jamais, jamais aponte uma arma para o meu filho novamente, entendeu?!

Ela se agachou, olhando para Sterry com uma expressão tão assustadora que o homem magricela estremecia de medo.

— Nunca. Mais.

Ele assentiu apressadamente, mas não respondeu. Provavelmente, estava assustado demais para conseguir falar.

— Blaze, querido — Koala falava com o menino, que encarava tudo sem entender nada. — jamais devemos agredir os outros, entendeu?

— Etendi. — ele respondeu prontamente, e correu até Sabo. — papai, papai, sabia que mamãe e eu ficamos pesos aqui? Mas fiquei com medo não, sabia?

Como se todo o peso do mundo desaparecesse, Sabo deu um sorriso aliviado, sentindo vontade de chorar, e se agachou, dando um abraço apertado em seu filho. Os homens de Bigmom chegaram rapidamente e algemaram Sterry.

— Koala — Sabo levantou o rosto. — vem cá, abraça a gente também...

No entanto, naquele momento, sua namorada caiu, desmaiando.

(...)

A primeira coisa que Koala viu quando acordou foi uma luz muito intensa. Nos primeiros instantes, chegou a cogitar que havia morrido. Sempre ouvira que dizer que a primeira visão da morte era uma luz, certo? Mas ao piscar algumas vezes e olhar em volta, reparou que não estava no céu. Estava em uma cama de hospital, com um tubo ligado ao seu braço. Devia ser soro.

Seu corpo estava um pouco dolorido, e sentiu algo estranho em sua bochecha esquerda. Pôs a mão ali, sentindo um curativo. Engraçado, não se lembrava de ter se machucado ali.

Olhou para seu lado esquerdo, e por algum motivo, se surpreendeu. Era Sabo, sentando na cadeira ao seu lado com a cabeça apoiada na cama, dormindo profundamente. Ele usava o mesmo terno amassado de quando ele a resgatara. O resgate... Será que Blaze estava bem?!

Sua movimentação nas pernas o acordou, e levou uns segundos para que ele também processasse o que acontecia. Quando deu por si, ele arregalou os olhos.

— Koala — ele pôs as mãos em seu rosto. — você... Você acordou, finalmente.

— O Blaze... — céus, como sua garganta estava seca.

— Ele está bem. — o loiro fungou. — estão cuidando dele, não precisa se preocupar.

Percebendo que ela encarava uma jarra de água, ele prontamente encheu um copo, dando para ela na boca.

Sabo nunca fizera algo assim. Nunca ficara doente ao ponto precisar, mas jamais o vira ser tão cuidadoso. Quando deu a última golada, ele perguntou se queria mais, mas negou com a cabeça.

— Você desmaiou depois que pegaram o Sterry — explicou, antes que ela perguntasse qualquer coisa.

— Eu desmaiei por quê?

— Law disse que provavelmente seu corpo e sua mente estavam muito tensos com o sequestro, e quando viu que estava bem, seu corpo relaxou muito ao ponto de desmaiar. Você também passou o dia sem comer nem dormir. — ele viu que ela tocou a bochecha. — Isso foi de quando caiu e bateu o rosto. Sinto muito, não deu tempo de te pegar.

Ela balançou a cabeça.

— Está tudo bem. Estou satisfeita que tudo tenha acabado.

Achou que ele diria algo, mas Sabo apenas ficou parado, olhando-a ali. Que curioso, ela tinha tanto a dizer a ele. Mas agora... As palavras simplesmente não vinham. Mas, talvez, fosse porque ela queria ouvir algo dele.

— Você está dormindo desde ontem. — ele contou, e ela percebeu que já era a manhã do dia seguinte. — eu não te deixei desde então. Porque...

Era difícil para ele se expressar, e ela entendia. Compreendia de verdade, e iria apoiá-lo. Por isso, pôs a mão em cima da sua, incentivando-o a prosseguir.

— Porque eu fiquei com medo que nunca acordasse. — ele quase sussurrou. — eu me arrependi. Eu pensei melhor. Eu fui até o seu apartamento naquele dia, e não te encontrei lá, eu queria...

— Você foi?

— Fui. Eu juro. — ele segurou a mão dela mais forte. — mas você já tinha saído. Não te achei em lugar nenhum. Vocês tinham sumido, Koala, e eu fiquei louco todo esse tempo, porque não conseguia ver um futuro. Não existe um futuro meu — ele pôs os dedos no queixo dela, os olhos cintilando de tanta emoção. — que não exista você.

— Sabo-kun, o que... — ela sentiu lágrimas quentes começarem a descer. — o que está me dizendo?

— O que eu quero dizer, é que em meio a agonia de querer rasgar meu próprio coração, o pior de tudo foi perceber que... — ele soluçou, também lacrimejando. — que se algo pior acontecesse, eu nunca teria dito que te amo.

O corpo inteiro dela se arrepiou, e quase não acreditou quando ouviu aquelas palavras saindo da boca dele.

— V-Você...

— Eu amo você. — ele disse mais firmeza, olhando no fundo de seus olhos azulados. — Eu tenho certeza disso, e não tenho medo de dizer. Eu te amo agora, amanhã, e pra sempre, e vou te compensar dizendo isso todos os dias da minha vida, até que eu morra. E mesmo quando eu morrer, eu vou virar um fantasma, e vou te assustar toda noite sussurrando que te amo no seu ouvindo.

— Ora, seu... — ela riu enquanto chorava. — só você mesmo para me fazer rir.

— Isso é algo bom, não é? Eu te fiz sorrir. — foi a vez dele sorrir.

— Você é um bobo. — ela secou uma lágrima dele.

— Mas sou o seu bobo. Pra sempre.

Ele olhou para sua mão, e ela seguiu o olhar. Só então reparou que em sua mão havia um anel.

— Isso é um anel de noivado — ele esclareceu, de repente parecendo mais nervoso. — quando te procurei, eu queria te dar isso, mas não consegui. Agora, não quero perder tempo. — ele engoliu o seco. — eu sei que vai querer um tempo para pensar, e eu entendo completamente, então-

— Sim. — ela respondeu de imediato, passando os braços por cima de seus ombros — eu te amo, Sabo-kun. Amo tudo sobre você, todos os seus defeitos e acertos.

Ela selou seus lábios, em um beijo demorado, quente e amoroso. Ele quase se derreteu inteiro.

Porque ela o amava, e ele a amava. Simples assim.

Ouviu uma batida na porta, então Law adentrou o quarto com Blaze no colo, que quando a viu, começou a chorar esticando os braços, desesperado pela mãe.

— Pronto, pronto... — ela pegou-o no colo, trazendo ele para junto do deles na cama. — estamos aqui, ninguém precisa chorar.

— Eu tava com shodadi... — Blaze tinha o nariz escorrendo e as bochechas rosadas.

— Trouxeram ele assim que acordou esta manhã — Law explicou levemente cansado. — não parou de espernear pedindo pela mãe. E esses aqui também.

Ele mostrou o celular, ligada em uma chamada de vídeo, e as crianças estavam todas grudadas ali, tentando ver a tela.

— Mana! A gente achou que você ia morrer. — Rock tinha um bico de tristeza.

— Ninguém falou nada pra gente — reclamou Nina, com os olhinhos inchados. — nos deixaram de fora de tudo.

— Como está se sentindo? — Tora indagou preocupada.

— Agora estou bem melhor, meu amores. — sorriu, se virando para Sabo. — não precisam se preocupar.

— Crianças — Sabo chamou atenção de todas. — a partir de agora, seremos uma família. De verdade.

Koala mostrou a mão, mas apenas as meninas notaram a aliança na mão em seu dedo, e ficaram empolgadas em silêncio. Shin, que era mais velho, também notou.

— E... — ele cruzou os braços, tímido. — a gente tá incluso nisso?

— É claro, querido. — ela garantiu, e Sabo assentiu.

Quando as crianças se acalmaram e Law desligou para voltar ao trabalho — era o hospital da família dele, afinal. — Blaze finalmente teve toda a atenção de seus pais, aconchegado no colo de sua até em tão babá, que acariciava seus cabelos róseos.

Koala percebeu que ele já estava bastante grande, e mais pesado. Logo faria três anos, e estava diferente de quando o conheceu, muitos meses atrás. Como havia passado rápido.

Crianças cresciam em um piscar de olhos.

— Mamãe... — ele chamou. — papai...

— Sim? — os dois responderam ao mesmo tempo.

— Fica comigo?

— É claro, meu amor. — Koala beijou o topo de sua cabeça.

— Vamos estar com você, filho. Pra todo o sempre. — garantiu Sabo.

— Todo... — Blaze bocejou. — shempe...

E dormiu.

(...)

— Entra no carro.

O novo motorista da família D, Duval, só estava naquele emprego porque precisava muito de dinheiro. Seu negócio mesmo eram motos, mas às vezes, era necessário ser responsável.

— Não.

Começou a prestar atenção na conversa do casal que precisava levar, e ficou em um dilema sobre se meter ou não na conversa deles.

— Só o senhor virá? — perguntou ao homem.

Viu este se virar com a cara feia para ele.

— Não. Ela vai também. — garantiu ele. — para de bancar a durona!

A contragosto, e chutando um dos bancos do carro, a mulher entrou de braços cruzados, irradiando revolta. Com calma, mas com o semblante muito sério, o homem entrou e fechou a porta. Eles eram uma dupla muito esquisita, em sua opinião.

— Me disseram que o senhor e a senhorita me diriam aonde ir. — contou a eles.

— Toca pro inferno, então.

— Ignore ela — o homem suspirou, cansado. — pode ir pra mansão D, por favor.

Começou o trajeto, e não demorou nada, ouviu a mulher dizer:

— O inferno é mais atrativo.

— Pode ser um pouco mais sensata, pelo amor de Deus?

— Se me deixasse em paz, eu seria tudo o que quisesse.

— Se eu te deixar em paz, você desparece de novo.

Uns segundos se passaram, até que ela estalou a língua, pisando no chão do carro com violência.

— Eu quero ir embora! Vai pro inferno, Ace!

— O inferno, Bonney... foi o que eu vivi até agora. O que vem adiante, sinceramente, não me assusta nem um pouco.