Notas iniciais
[Capítulo revisado e corrigido]

A sala de refeições era um dos lugares mais normais que eles tinham visto naquele prédio, não havia máquinas nem robôs, apenas uma longa mesa de mogno e grande variedade de alimentos. Atrás, um bar com vários copos diferenciados chamava a atenção.

— Por que haveria um bar se somos todos de menor? – Carla começou a analisar os copos.

Ingrid ajustou seu relógio.

— Mesmo se eu fosse maior de idade, não beberia nada, aqui é Proerd na veia e nas anotações da minha mão.

— A única droga que você deve ser viciada é tinta de caneta, você anota tantas coisas na sua mão que sua pele já deve ser dependente química.

— Minha pele fez o Proerd junto comigo, ela nunca seria dependente.

Carla revirou os olhos.

— Como nós chegamos nessa sala de treinamento? Pedro não mencionou nada sobre o caminho. – ela passava a mão na mesa, sentindo sua textura.

— Vou ver se anotei alguma coisa na minha mão...

Eric segurou o braço dela, impedindo-a de terminar sua ação.

— Pessoal vocês estão de brincadeira né? Pra que serve o GPS?

— Ah é mesmo! – Ingrid se desvencilhou das mãos dele. – Está escrito “olhar GPS”.

Carla olhou para ela como se a fuzilasse com os olhos.

— Vocês reclamam das minhas anotações, mas não admitem que sempre se beneficiam delas.

Desistindo de convencer Ingrid a parar de escrever uma bíblia em sua mão, a garota de cabelos compridos olhou para o pequeno corpo jogado no chão e suspirou.

— Só há um porém... – ela enrolou a ponta de seus cabelos. – O Luciano está desmaiado.

— E de quem é a culpa? – Eric a encarou.

Carla mostrou a língua para ele e logo depois começou a rir.

— Nossa sorte é de que ele é pequeno... Assim será mais fácil de carregá-lo até lá.

— Também temos sorte de termos meia hora até o treinamento começar. – Ingrid completou.

Os outros dois olharam para ela.

— O que foi? Eu fiquei decorando nosso cronograma, não é muito diferente de decorar os horários da escola.

— Se você diz... – o garoto pegou os pés de Luciano. – Alguém me ajude a levar ele!

— Eu ajudo! – Carla foi saltitando até ele.

Era uma ótima oportunidade para ficar perto de Eric.

— Bem, enquanto vocês dois carregam ele, eu fico guiando vocês olhando no GPS.

Eles deixaram a sala de refeições, enquanto alguns robôs entravam para recolher a mesa.

— Eu acho que nós poderíamos nós mesmos arrumar a mesa... – Carla falou. – Não vejo necessidade de tantas máquinas.

Eric olhou pra trás.

— Acho que temos algumas prioridades... Entre salvar o mundo e lavar a louça, o que você escolheria?

— Lavar a louça não é tão perigoso!

— Claro que é. – Ingrid ajeitou seus óculos. – Vai que a faca escorrega da sua mão e cai bem no seu pé.

Aos poucos, Luciano foi abrindo os olhos, a primeira coisa que viu foi o teto do corredor, enquanto sentia suas pernas e braços serem carregados. Naturalmente, o que pensou foi que Pedro havia capturado ele para fazer um experimento e tirar seus órgãos internos.

— Me soltem! – ele deu um impulso que acabou derrubando Eric.

— Ei! Pra alguém do seu tamanho, você ta muito esquentadinho!

O garoto esfregou os olhos.

— Eric? Ingrid? Vocês também vão retirar meus órgãos?

Ele sentiu um tapa na sua nuca.

— Ei!

— Pare de falar coisas sem sentido! – Carla suspirou. – Você desmaiou depois do peteleco que eu te dei, nós só carregamos você até aqui para te levar pra sala de treinamento!

— Espera, o quê?! Que horas são?

Ingrid olhou seu relógio.

— Oito e quarenta e cinco.

— Droga! Fiquei desmaiado durante todo o café da manhã! E aquelas comidas pareciam deliciosas! – ele fez bico.

A garota dos cabelos grandes ofereceu a mão para ele.

— Vamos, levante daí, agora você pode andar por si mesmo.

Contrariado, o pequeno garoto levantou, e, depois de bater em suas roupas para se arrumar, começou a acompanhar o restante da turma.

— Pelo menos vocês não amassaram meu cabelo...

— Luciano, caso você continue falando, eu vou te dar outro peteleco.

Ele cruzou os braços.

Logo puderam avistar uma porta grande de madeira, parecendo a entrada de um castelo da época medieval. Ingrid empurrou um dos lados da porta, revelando a enorme sala em formato de círculo por trás dela.

— Essa sala é maior que nossa escola inteira... – sussurrou Eric.

Sentado perto do tronco de uma árvore, encontrava-se Pedro com sua xícara, acariciando a borda dela. Assim que os viu, ele levantou.

— Finalmente vocês chegaram.

Era a primeira vez que Eric e Luciano viam aquela xícara com braços e pernas, que não demorou a latir para eles.

— Você tem uma xícara de estimação?! – disseram em conjunto.

Pedro pareceu ignorar a pergunta e ficou olhando para o vazio, aos poucos, Carla e Ingrid foram se aproximando de seus amigos.

— Se vocês não estivessem tentando matar um ao outro hoje de manhã, vocês veriam que ela estava junto com o Pedro!

— É Eric, – a garota ajeitou os óculos. – Carla sentiu sua falta por você ter demorado tanto.

— Calada! – ela corou.

Diferentemente do dia anterior, Pedro não estava usando um jaleco. Na verdade, estava parecendo alguém comum, como um aluno, exceto pelos seus cabelos bagunçados, que ainda lembravam o estereótipo de um cientista louco. Ele parecia ter o olhar perdido, enquanto acariciava sua xícara e às vezes mexia no pingente em formato de losango do seu colar.

Dessa vez, foi Carla quem sussurrou.

— Por que estamos todos em silêncio?

O garoto parou de encarar a árvore, olhou nos olhos esverdeados de Carla e sorriu.

— Estamos meditando, isto requer calma e paciência. – ele voltou a ter o olhar perdido.

— Por que carambolas estamos meditando?! – Luciano saiu de seu semblante calado. – Nós viemos aqui para lutar! Queremos guerra, e não ficar falando “Aóóón” de olhos fechados!

Com sua mão direita, tirou algumas agulhas de seu bolso da calça, e atirou em direção a Luciano sem nem mesmo olhar para ele.

— Calado!

O garoto tentou desviar imitando a cena do filme Matrix, mas acabou caindo no chão.

— Eu disse que vamos meditar.

—Meditar! – ele exclamou. – Que legal! Amo meditar!

Ninguém se atreveu a mencionar uma palavra sequer. Todos olharam pra baixo, esperando que o tempo passasse mais rápido. Carla e Ingrid foram as que tiveram mais dificuldade, pois os cabelos de Carla tampavam os olhos dela, e Ingrid tinha que ficar arrumando seus óculos o tempo todo. Após cinco minutos, Pedro se pronunciou.

—Muito bem, o treinamento está terminado!

O grupo, com um olhar perplexo, olhou para ele.

—O quê?!

Ingrid se aproximou.

— Você está de brincadeira! – ela tentou acertar um golpe em Pedro.

— Não me importo de apanhar de uma garota tão bonita.

— Seu...

Ela foi interrompida por uma voz feminina que vinha de cima da árvore.

— Desculpe o atraso, Pedro.

Tentando focar nos galhos da árvore, podia-se ver uma garota sentada lá, com cabelos longos loiros, e uma saia vermelha.

— Desde quando essa árvore estava aí? – perguntou Ingrid.

Pedro sorriu para a garota loira, e logo voltou a olhar para o grupo.

— O treinamento acabou... Mas acabou só o meu turno! Agora, deixo vocês nas mãos da Larissa.

— Você podia ter dito isso antes! – gritou Ingrid dando uma bofetada na cara de Pedro.

— Ingrid, você amassou o rosto dele... – disse Eric.

— Não se preocupe, eu tenho uma máquina para consertar rostos amassados.

Ele deu um último sorriso, e saiu da sala.

A garota desceu da árvore em um pulo e se agachou, levantando lentamente.

— Como Pedro mencionou, meu nome é Larissa, vou ser a professora auxiliar de vocês.

Carla se aproximou dela como se a reconhecesse.

— Espera... Larissa?! A mesma Larissa que eu criei pras minhas histórias?!

— Essa mesma.

— Como isso é possível?! Primeiro o Pedro... Agora você!

Os olhos azuis de Larissa pareciam cintilar toda vez que ela olhava para alguém

— Muito bem, vamos começar o treinamento. – ela foi em direção à árvore.

— Até que em fim! – disse Luciano. – Luta de verdade! Sangue, ferimentos e dor!

O sangue de Carla ferveu.

— Você quer morrer é?! – gritou.

Larissa abriu sua mochila calmamente, pegando alguns papéis.

— Sem brigas com os companheiros de equipe. Os integrantes do grupo devem estar unidos.

— Unida é a minha mão na cara dele! – disse Carla.

Quando todos se acalmaram, Larissa deu um papel para cada um.

— Todos vocês tem um ponto forte, precisarão usufruir desses pontos nas batalhas e missões.

— Para de ficar falando palavras complicadas e diz logo para que serve esse papel! – disse Luciano.

Ela olhou seriamente para ele antes de continuar.

— Em cada papel está escrito o ponto forte de vocês, por gentileza, leiam todos em voz alta.

Ingrid foi a primeira a desenrolar o papel;

—Defesa? Oi?

— Ingrid, seus óculos tem múltiplas funções. – ela começou. – Detecta metais, raios lasers escondidos, e possui visão noturna.

— Pensei que a única função dele fosse ficar caindo pra eu ter que ajeitar.

— Com todas essas vantagens, você consegue ver com mais facilidade os perigos e armadilhas, por isso será responsável por avisar e tentar proteger a todos desses perigos. Seu relógio será útil também, mas isso veremos mais tarde.

—Entendo...

— Em missões que vocês terão que realizar em florestas, você será a primeira da fila.

Ela anotou tudo em sua mão.

— Estratégia... – disse Eric.

— Você será responsável pelos comandos de ataque e defesa da equipe. Daremos alguns rastreadores para que consiga colocar na roupa do inimigo. Claro que, você não irá controlar cada movimento da equipe, mas fará a estratégia das missões. Lembrando: isso não significa que você não possa atacar, o que você irá executar depende da estratégia.

Eric olhou para a garota a sua frente. Com certeza era muito bonita, com aqueles cabelos que pareciam esvoaçar a cada movimento que ela fazia.

— Você ensina melhor que o Pedro! Quer ser minha professora? – O tom dele era de flerte.

Carla olhou para ele abismada.

— Estamos bem com o Pedro. – ela encarou Larissa.

Realmente, Eric com certeza preferiria aquela garota, ela era encantadora. Carla olhou triste para baixo enquanto pensava nisso.

— Só mais uma informação, em missões que vocês terão que realizar em florestas, você será o segundo da fila.

Dessa vez foi Luciano quem abriu o papel.

— Ataque.

— O meu também é ataque! – disse Carla.

— Uma equipe sempre precisa ter no mínimo dois atacantes. E essa é a função perfeita para vocês dois!

Luciano a olhou com uma cara de desdém.

— Juntos pelo destino, infelizmente.

Carla dá um peteleco na testa dele, e esse, novamente, sai voando.

— Desculpe... Minha mão escorregou... Continue, Larissa!

Ela encarou o garoto de olhos castanhos no chão.

— Luciano tem a pele sólida, um ataque para ele é algo executado facilmente, também é uma ótima defesa, pois é difícil machucá-lo. Por exemplo: você conseguiu o fazer voar com o peteleco, mas ele não sofreu nenhum arranhão.

— É mesmo! – ele levantou do chão tirando o pó de seu ombro.

— E Carla, eu não preciso nem dizer que você é forte, podemos ver pela mesa que você quebrou na sala de reuniões...

— Foi sem querer! – disse envergonhada.

— Sua classe vai te ajudar muito a atuar com essa função.

— Minha classe? Como assim?

— Você saberá, no tempo certo.

Luciano se juntou à equipe.

— E qual é meu lugar na fila?

— Você vai no quarto lugar e a Carla vai no último.

— Posso ir ao quinto?

Os olhos frios de Larissa miraram o pequeno garoto.

— Não será possível.

— Vamos, não custa nada!

— A resposta já foi dada.

— Que droga! – cruzou os braços. – Quando as coisas vão dar certo pra mim?

— As coisas começam a fluir quando você passa a agradecer ao invés de só pedir. – ela também cruzou os braços.

—Certo, – disse Carla. – nós falamos, falamos e falamos, mas o treinamento que é bom, nada! Pelo menos o Pedro vai direto ao ponto!

Ela nunca diria algo assim, mas estava com ciúmes ao ver Eric se interessando por outra garota.

— Meu jeito de trabalhar varia muito em relação ao jeito do Pedro, melhor se acostumarem.

— Chega de conversa! – exclamou Luciano. – Quando começamos a treinar?

— Certo, vocês já esperaram demais.

Notas finais
Momento de curiosidades: — Larissa tem dezessete anos; — Larissa, assim como Pedro, era uma personagem fictícia a qual Carla criou;