BPM - Batidas pelo Multiverso
9 Em busca de Larissa!
Notas iniciais
O que raios significa isso?!
Ela releu mais algumas vezes com uma ruga de expressão na testa, tentando entender o que tudo aquilo queria dizer, certamente seria algo que Pedro iria ficar curioso em descobrir. Dobrou cuidadosamente o papel e ajeitou seus óculos antes de se dirigir ao quarto.
Talvez fosse pela tensão, mas as luzes dos corredores estavam ficando cada vez mais fracas, e piscando de maneira estranha. Ingrid apertou o passo, talvez fosse sua imaginação afinal.
Ou talvez não fosse.
Correu um pouco, olhando pra trás uma vez ou outra. Nunca mais vou ser a última a ir dormir...
Os corredores pareciam mais longos do que o usual, e a constante sensação de estar sendo seguida não ajudava em nada as palpitações da garota diminuírem, até os fios de seus cabelos soltos causavam um leve espasmo ao encostarem sem querer em seu rosto, que devia estar frio com o nervosismo.
Parou por um instante, tentando se localizar, aquele lugar já era fácil de se perder de dia, mais ainda então de noite, correndo de uma suposta entidade que fazia as luzes piscarem. Olhou pra baixo, verificando o GPS.
— Ok, – sussurrou. – o quarto... Onde fica o quarto...
Mas foi interrompida por uma mão gélida tocando seu ombro. O coração parou, e ela congelou no mesmo instante, seu medo era tão forte que não conseguia nem tremer, apenas ficar paralisada. Os olhos se fecharam fortemente ao ouvir aquela respiração devagar e senti-la próxima à nuca.
— Ingrid?
— Carla?! – se virou. – Você quer me matar do coração?! O que está fazendo fora do quarto?!
— Calma, o que aconteceu? Só não estava conseguindo dormir.
Sentiu suas pernas bambearem de alívio, e também de raiva, poderia estrangular Carla naquele mesmo instante por andar como um fantasma por aí.
— Nunca mais coloque suas mãos em mim desse jeito!
— Ok, “intocável”.
Ingrid suspirou, tentando retomar sua linha de raciocínio, e então se lembrou do que tinha vindo fazer.
— Eu achei um bilhete caído no chão.
— Isso é... Realmente... Nada interessante.
Embora estivesse meio escuro, ainda foi possível ver os olhos dela por trás dos óculos se fechando como se fosse uma tentativa de não cometer um homicídio naquele momento.
— Esse bilhete estava perto do lugar onde a Larissa sumiu, e receio que seja dela.
— E por que não foi contar para a equipe?
— Eu teria contado antes, se não fosse um espírito me seguindo por aí...
— Você foi seguida por um espírito?!
— Acho que eu preferiria que tivesse sido um...
[...]
O quarto masculino era incrivelmente idêntico ao das garotas, exceto pelo fato de ter três camas. Eric já tinha ajeitado a sua para ir dormir, enquanto Luciano ficava no banheiro escovando os dentes, e Jeferson tentava comer o GPS.
— Cara, eu acho que ele não é comestível. – deitou na cama.
— O Luciano? – falou com o GPS na boca.
— Quê? Não! Quer dizer, ele também não... Eu acho.
— Se me comerem vão ter que escovar os dentes depois! – gritou do banheiro. – Isso se ainda tiverem dentes. – cuspiu a pasta de dente.
— Essa conversa é errada em tantos níveis... – Eric se cobriu.
Alguém bateu na porta, e Eric deu um pequeno grito de raiva com seu travesseiro abafando.
— Pedro, eu quero dormir! Alguém dorme nesse prédio?
— É a Ingrid! – disse uma voz feminina do lado de fora.
— E a Carla!
— Garotos não têm paz hoje em dia. – Luciano caminhou até a porta.
Assim que a abriu, as garotas rapidamente entraram e se posicionaram perto de uma das paredes.
— Nem perguntaram se podiam entrar... – fechou a porta.
— O que a Ingrid tem a dizer é mais importante que conceitos básicos de educação!
— Ok, ok, – Eric se sentou. – falem o que precisam.
— Bem, eu estava na sala de reuniões e...
— Você é comestível? – perguntou Jeferson olhando para Carla.
— O-o quê?
Todos ficaram encarando o garoto do topete por alguns segundos em um silêncio constrangedor.
— Eu pensei que o Eric que era o pervertido da equipe... – ajeitou os óculos.
— Pervertido? Como assim? – Jeferson olhou pra Ingrid.
— Aaah! – Eric bufou. – Falem logo!
— Eu estava na sala de reuniões, depois que todos saíram pra ir dormir...
— É, e eu ainda não dormi!
— Eric, se você me deixar falar, você vai poder dormir!
Ele se escorou em um travesseiro, contrariado.
— Então eu ouvi algo nos corredores, e saí pra checar o que era, acabei vendo um fio de cabelo loiro.
Luciano colocou a mão no peito dramaticamente e começou a cantar.
— Um fio de cabelo no meu paletóóó.
Carla colocou a mão na boca de Jeferson antes que ele começasse a cantar também.
— Um fio loiro? – Eric se sentou em uma postura melhor. – Então era da Larissa?
— Muito provavelmente, já que Larissa apareceu logo depois andando em um dos corredores, porém ela não me viu.
— E...? – os olhos de Luciano cintilaram. – Você achou alguma cena de crime onde Larissa é a culpada?
— Quê?! Não! – suspirou, pegando o papel. – Encontrei esse bilhete no corredor que ela estava andando, que por sinal era sem saída, mas ela não estava lá.
Eric levantou da cama e pegou o bilhete, enquanto Luciano se esticava para ler o que estava escrito.
— Que coisa mais sem graça. Esperava no mínimo uma carta de confissão.
Eric deu um tapa na nuca dele.
— E também ela foi seguida por um espírito! – Carla falou.
— Quê? Um espírito? – Eric olhou pra ela.
— Agora as coisas estão mais interessantes...
— É, – ajeitou seus óculos. – e esse espírito era a Carla.
— Eu?!
— A Carla é um espírito? Ela não era uma Merceer? Está escrito no livro que a Larissa me deu.
— Não tem espírito nenhum! – suspirou. – É por isso que não faço brincadeiras...
— Bem, espírito ou não, essa é uma missão para nós! Vamos descobrir o que aconteceu com a Larissa!
— Epa, epa, epa, – Luciano se afastou. – nós uma ova! Eu não vou ajudar coisa nenhuma! Virem-se sozinhos!
Carla puxou a orelha dele.
— Ele vai sim.
[...]
— Onde você a viu pela última vez?
— Dentro desse corredor.
Curiosamente, as luzes não estavam piscando dessa vez, apenas permaneciam mais fracas. Óbvio que as coisas assustadoras só acontecem quando estou sozinha.
Colocou seus cabelos pretos pro lado do ombro, mexendo de vez em quando como que para acalmar os nervos. Pensando bem, eu que assustaria a entidade, esses cabelos rebeldes fazem eu parecer a Samara, uma Samara de pijama vermelho com estrelinhas , o que pode ser mais assustador que isso?
— Ingrid? – Eric colocou a mão no ombro dela. – Está tudo bem? Você parou de repente.
— Pausa para o lanche? – Jeferson perguntou.
Por que os garotos sempre têm cabelos tão sedosos?! Queria que o meu fosse possível de arrumar apenas com gel e secador de cabelo.
— Ingrid...?
— A Samara usa secador de cabelo?
— Ok, talvez isso seja efeito de não ter ido dormir, ela está ficando igualzinha à Carla.
— Ei! Eu não tenho culpa se sempre estou com sono! – Carla fez uma careta.
— Talvez seja porque você vai dormir tarde, não é mesmo?
— Eu não consigo dormir rápido quando deito! Não sou que nem você, Eric, que do nada apaga na cama como se fosse um celular descarregado!
— Certo, por que a Carla sabe o que acontece com o Eric quando ele dorme? – Luciano cruzou os braços.
— P-porque ele fala... Às vezes...
— Hum, vou checar duas vezes se chaveei a porta do nosso quarto, só por precaução.
Seguindo Ingrid por mais um tempo, se depararam com um corredor o qual não tinham visto antes, sem saída, apenas com dutos de ventilação.
— Foi aqui... – ela se abaixou. – Aqui que encontrei o bilhete.
— O que vocês estão fazendo acordados?
Todos viraram para trás e viram Larissa, com uma mala grande de viagem e roupas de frio, parecia que tinha trazido parte do vento junto com ela, pois o cachecol ainda balançava mesmo ela estando parada.
— Ferrou, pessoal. – Luciano deu um passo à frente. – Quero declarar que eu não tenho nada a ver com isso, eles me obrigaram a vir aqui! Agora se me dão licença...
Eric barrou a passagem de Luciano com a mão, fazendo uma expressão séria.
— Vocês deveriam estar dormindo agora.
— Pelo que eu me lembre, está dizendo que depois das nove é livre... – sussurrou Luciano, e Eric pisou no pé dele.
— Ingrid disse que viu você andando por aqui, e já que não te vimos desde o almoço, ela ficou preocupada e veio ver se você precisava de algo.
A equipe olhou para Carla, parte surpresa por ter tomado a iniciativa, parte surpresa por ter conseguido mentir tão bem, ou seria omitir naquele caso?
— Estou bem, fui resolver alguns negócios de família, voltei agora. – encarou o resto do grupo.
— Bem, – Carla continuou. – ela achou esse papel com algumas coisas estranhas.
— Posso ver?
Ingrid a entregou o bilhete.
— Isso é estranho, – encarava o papel. – onde foi que encontraram?
— Aqui mesmo. – Ingrid apontou para o chão.
— Mandarei para Pedro analisar, até lá, fiquem de olho se acharem mais coisas estranhas.
Ninguém falou nada, como se esperassem que ela completasse.
— De toda forma, obrigada pelas informações, e recomendo vocês não ficarem acordados até tarde enquanto não descobrirmos o que é isso.
— Então não é seu? – perguntou Eric.
— Não, com certeza eu não teria tempo de ficar escrevendo. – ela suspirou, colocando a mão entre o nariz e a testa, demonstrando cansaço mental.
Como se entendessem o sinal de Larissa, o grupo começou a se mobilizar.
— Boa noite então, vamos avisar caso encontremos mais alguma coisa. – Eric saiu, assim como cada um deles.
Larissa guardou o bilhete em um dos bolsos de seu sobretudo vermelho, brincou girando o dedo na alça da mala por uns segundos, e então deixou o local.
Não posso deixar que saibam a verdade...
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