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✾NOORA✾
O céu estava carregado de nuvens cinzentas, sem falar dos ventos de descabelar. Por conta da iminente chuva, as barracas dos clubes foram transferidos para o grande ginásio. Estava um amontoado de gente rindo e gritando nomes de seus clubes. Alguns pulavam e dançavam fantasiados de animais e outros de personagens de filmes, tudo para chamar atenção as inscrições. Aquilo parecia uma loucura, mas não deixava de ser divertido de olhar. Minhas aulas começariam logo, apesar do nervosismo estava pronta para essa nova fase da minha vida. Dias depois de casar com o carrancudo do Dean, me inscrevi para a faculdade comunitária da cidade. Eu sabia que não existiria alguém conhecido da elite de Pergo e foi isso que me deu a coragem que precisava para concluir a matricula. Meu curso de Artes possuía bastantes alunos e a maioria morava na periferia da cidade, sem falar que foi o único curso que consegui entrar. Fiz uma entrevista seguida de uma longa prova e então esperei ser aprovada. Nem preciso dizer que foi um dos poucos dias mais feliz da minha vida. Enquanto estava no campus, não podia sentir outra coisa que não fosse liberdade. Agora longe do meu pai eu finalmente poderia ser o que queria e sair para ver o mundo. Estando em um casamento forçado foi minha saída ao invés de uma prisão.
Eu caminhava junto com outros calouros, com folhetos de clubes nas mãos e minha cabeça girando em várias direções. Apesar da variedade, eu não sabia em qual poderia me inscrever. Desde que me entendo por gente sempre fui oprimida de fazer qualquer coisa que me desse prazer. Eu nem mesmo sei no que sou boa. Essa fase da minha vida trazia um desconhecido senso de aventura em descobrir quem eu era de verdade. Meu coração parecia pular do meu peito de felicidade que estava sentindo.
A faculdade comunitária não possuía muito prestigio, mas eu não ligava. Poder ir a uma sala de aula e aprender algo novo já bastava. Conhecer pessoas novas , conversar com alguém que não fosse eu mesma e...
—- Ei, você.- gritou uma mulher em minha direção. Eu olhei para trás e depois de volta para ela. Eu não a conhecia, então não sabia se estava falando comigo. Sem falar que tinha muita gente ao meu redor.
—- Loira!- uma outra mulher gritou animada olhando pra mim. Bom, acho que é comigo.
Eu caminhei até o estande delas, tinha fotos de pessoas se divertindo em boates em preto e branco penduradas por todo lado. Móveis vintage estavam ao lado, mais parecia um cenário montado.
—- Oi linda, qual é o seu nome?- perguntou a primeira. Ela tinha o cabelo muito volumoso e sua maquiagem era extremamente exagerada. Suas sobrancelhas eram muito arqueadas e os lábios bem grossos marcados com batom. Sua roupa fashion lembrava uma fada com asas e tudo. Brilhante e colorida a saia se arrastava até o chão onde você podia contemplar saltos plataforma lindíssimos. Ela tinha uma voz levemente grave e muito confiante.
—- Noora e o seu?- por alguma razão eu estava bem curiosa e animada perto daquela mulher.
—- La-teesha Fairy, querida! — Ela abriu um leque dourado lindo repentinamente e um estrondo ecoou. Eu tive um pequeno ataque cardíaco.
—- Qual a origem do seu nome? Alemão?-ela olhou para a amiga ao lado.
—- Sei lá, gente branca coloca nomes estranhos nos filhos.-respondeu a amiga. Ao contrário de La-teesha, ela usava maquiagem leve, mas seu cabelo longo ondulado lhe dava uma imagem poderosa de feminilidade.
—- Vadia, por favor né. Como se Zaierra fosse um nome nada estranho.- a amiga caiu na risada, mas fingiu que bateria em La-teesha . -- Sua mãe estava doida no ácido quando te deu esse nome, sério, é a única explicação.- ela olhou pra mim como se fosse a coisa mais sensata a se pensar. ao mesmo tempo se abanava com o leque de uma forma graciosa. Não pude me segurar, estava rindo junto com elas. -- É um prazer, Noora. Quer entrar no nosso clube? E não, não é de stripe...Ainda.
—- O que vocês fazem?- perguntei entretida.
—- Modelagem, fotografia, propagandas e promovemos festas de casas noturnas.- explicou Zaierra.
Eu não parava de sorrir a cada pose que La-teesha fazia como se estivesse em um desfile de passarela. Muitas pessoas curiosas eram atraídas até o estande.
—- Somos um clube diferente, querida. Não fazemos apenas uma coisa, seria chato demais.- Zaierra concordou com a cabeça. -- Antes eramos um clube de dança, mas as outras garotas deram no pé.
—- Ah, elas se formaram?-perguntei enquanto observava mais pessoas se aproximando e tirando fotos de La-teesha.
—- Não me faça rir. Provavelmente três aulas por semana era muito para aquelas vadias preguiçosas. Elas trancaram o curso e abandonaram o clube. Acho que o único clube que elas frequentam agora é aquele com o polly dance no meio de um palco. Enfim, sou eu e a loca da Zaierra esse ano.- Houve uma pausa, La-teesha troca olhares com Zaierra depois se volta pra mim. -- Você é linda, tem essa beleza branca estilo Regina Jorge, seria perfeita para nossos próximos projetos.- La-teesha me olha de cima a baixo. -- Bom, contanto que você troque esse estilo virgem de internato por um mais...- ela se vira para Zaierra estalando os dedos buscando uma ajuda.
—- Christina Aguilera?- pergunta Zaierra. La-teesha pareceu pensar e concordou, mas em seguida me olhou com uma preocupação exagerada.
—- Sem querer gongar suas roupas, querida...-começou La-teesha. -- Mas já ouviu falar em mini short? Esse seu vestido do culto de domingo está acabando com você.
A essa altura eu não fazia ideia do que elas estavam falando.
—- Ahm, vocês tem um folheto do clube?-perguntei confusa.
La-teesha me encarou como se eu tivesse dito algo inacreditável.
—- Folheto?! Vadia, eu pareço parte de um clube vegano?
Meus olhos se arregalaram quando ela me chamou de vadia. Eu não estava acostumada com aquilo, mas não parecia que ela estava me insultando. Imediatamente Zaierra entregou um cartão para La-teesha de trás do balcão do estande. Ela me entregou e encarei feliz. Era platinado com lindas letras em preto fosco.
—- Tem nossas redes sociais e nosso telefone de contato. Você sabe o que são essas coisas né?!- Houve uma pausa. -- Parece que você parou no tempo, me desculpa não consigo olhar para essas rasteirinhas cafonas!- La-teesha cobre seus olhos com o leque. -- Só nos mande uma mensagem, agora vai embora !
Faço que sim com a cabeça e acenei me afastando delas, na mesma hora La-teesha abriu seu leque e outro estrondo se fez. Dessa vez várias pessoas se assustaram com o barulho. Eu me afastei rindo sem parar.
Depois de uma hora a expressão "parece que o mundo está acabando" ou "o céu está caindo", nunca foi tão necessária de ser dita. O céu cinzento da manhã se transformou em um temporal, havia poças d'água gigantescas no pátio do campus. Muitos estudantes corriam para as instalações da faculdade enquanto eu me dirigia para o lado oposto.
Minhas sandálias estavam encharcadas e sabia que minhas panturrilhas também molhadas tinham lama. Isso não me impediu de correr para a estação de trem como louca. A verdade era que eu estava atrasada e tinha que chegar o mais rápido possível em casa, tomar banho e me arrumar para o jantar na casa do pai de Dean. a madrasta dele havia me mandado uma mensagem horas antes. Realmente não sei como será esse jantar, pois desde que nos casamos não saímos juntos. Estou torcendo para não ter que responder perguntas como "Como vai o casamento?", pois não faco ideia de como responder, se é que posso. Sem falar que o jeito de Dean é imprevisível e ele sempre foi um cara "respondão" desde que me entendo por gente. Nós nunca conversamos, sempre estávamos em lugares diferentes, mesmo estando nos mesmos eventos. Dean Clines é considerado o bom partido de Pergo e eu nunca fui muito de aparecer sob a luz. Tem vezes que sinto que ele está frustrado por ter se casado comigo, por ser eu, acho que uma garota mais popular faria mais o gosto dele. Só que para ser justo, ele também não faz meu tipo. Dean é baladeiro, sociável e tem sempre uma mulher flertando com ele descaradamente.
Já na estação eu tiro da minha bolsa meu cartão de embarque que fiz pela internet, passando pela catraca pude chegar a tempo de pegar o trem. O ar condicionado do vagão foi como um tapa gelado na minha cara. Minhas roupas estavam molhadas e depois de três estações meu corpo estava tremendo. Ao descer do trem caminhei rápido para a saída da estação.
Os restaurantes abertos pareciam perfeitos como abrigo da chuva na parte comercial do meu novo bairro. Tinha chegado a uma cafeteria bem popular que servia uns donuts maravilhosos. Eu visitei uma vez com meu irmão Jack. Ele costumava me levar pra sair uma vez por mês, quase que escondido do nosso pai, pois meu irmão saía da empresa para me buscar e isso deixaria o velho irritado. Eu sinto falta do meu irmão, ainda mais pelo fato de ele estar tão longe. Depois do meu casamento, meu pai o enviou para a filial da empresa em outro Estado. Jack me liga uma vez por semana, mas não é a mesma coisa. A vida consistia com ele e eu contra o mundo, mas agora parece que estou sozinha aqui. No entanto não é justo eu pensar isso, pois provavelmente meu irmão se sente da mesma maneira. Ele sempre me protegeu e enfrentamos tantas coisas juntos em segredo, dói não tê-lo por perto. Nossa mãe não aguentou a vida que levava com meu pai, então uma noite simplesmente ela foi embora. Nos deixando com Wilson Terror Turner. Estando casada, queria poder compartilhar minha antiga vida com Dean, mas ele sempre me evita. É frustrante.
Distraída olhando para a vitrine da cafeteria, vejo um rosto familiar. Pensando no diabo... Uma mulher magra de cabelo preto curto estava a sua frente, ela parecia risonha. Ele deve ter dito algo engraçado. Não me surpreendeu, Dean sempre foi o cara que fazia você querer sentar com ele no almoço. Isso sim é uma piada, pois compartilhar uma refeição com Dean está sendo como comer em frente a uma estatua.
Viro meu rosto para frente bruscamente, pedindo a Deus para que ele não tenha me visto. Não estou guardando segredo nem nada, até porque não tem como guardar segredo de alguém que não pergunta ou se importa em saber da sua vida. Só queria manter o fato de estar zanzando pelo bairro longe do conhecimento de Dean. Se ele quisesse me atazanar me proibindo de estudar? Preciso ser boa esposa, assim ele não será desagradável comigo. Digo, fisicamente. Meu corpo já sofreu o bastante para saber que não aguentaria mais surras diárias.
Saindo da área da cafeteria eu praticamente corro para casa, deixo pra lá a ideia de pegar um taxi. A chuva tinha me dado uma trégua, então como um jato cheguei em casa. Subi em pulos as escadas até meu quarto para meu banho ignorando as empregadas que me olhavam com indiferença da sala de estar.
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✾ DEAN ✾
Daianne parecia feliz, estava casada e acabara de voltar da lua de mel. Seu rosto radiante contando as histórias da viagem me fizeram sentir mais amargura que antes. Ela pareceu notar quando eu não disse nada quando sua história chegara ao fim.
A cafeteria estava vazia, o mundo parecia estar acabando lá fora com a chuva forte. O aroma de café fresco pairava sobre nós. Apesar de um lugar confortável eu me sentia ansioso. Após não conseguir contatar Marry, Daienne era minha última esperança.
—- Me fale como estão as coisas sendo um homem casado. Soube que se casou com a filha de Wilson Turner. Ela é muito bonita.- começou Daienne. -- Me parece uma boa garota.
O nome de Noora tinha me tirado dos pensamentos que sempre me distraiam em conversas chatas. Eu suspirei frustrado, pois esse não é um dos meus assuntos favoritos. O que poderia dizer sobre ela? Bonita, sim. E... é so. Eu não sabia muito dela, apesar de conhecê-la desde quando ela era um bebê. Quando Noora nasceu, minha mãe tinha acabado de falecer e eu estava apenas com oito anos. Dai tudo na minha vida começou a mudar, inclusive eu. Meu pai surgiu com uma mulher nova apenas alguns meses depois, ainda por cima grávida. Tudo aquilo fora jogado em mim de uma só vez e algo tinha se partido no meu interior.
—- Ela é legal.- disse sem muito interesse. -- Vamos cortar essa de compartilhar histórias com nosso conjugues e ir direto onde você me diz onde Marry está.
Daienne pareceu cansada assim que o nome de Mary saiu da minha boca. Elas eram amigas inseparáveis e se tinha alguém que saberia onde a mulher que eu amava estava, essa seria Daienne. Ela tomou um gole de seu chá gelado enquanto eu aguardava pacientemente ela me dizer algo. Daienne me encarou séria, toda a alegria que estava antes em seu rosto se foi.
—- Eu não sei onde Mary está e mesmo que soubesse, não te contaria, pois ela mesma não iria querer isso.- me alertou. Eu me aprumei na cadeira da cafeteria, meu queixo se apertou em pensar que Mary não queria mais me ver.
—- Por favor, Daienne. Eu te chamei aqui com esperança de você me dar pelo menos uma dica de Mary.
—- Jura?! E eu pensando que tinha marcado para saber como eu estava.- não retribui o sarcasmo de Daienne. Ela suspirou ao me olhar de novo. -- Dean, esquece a Mary. Vocês dois não eram um casal saudável.
Meus olhos rolaram ao ouvi-la. Ninguém entendia nosso relacionamento. Brigávamos muito, mas nos amávamos e viver longe um do outro era indiscutível. Bom, até meu pai arruinar minha chance de ser feliz com Mary.
—- Todo casal tem problemas, Daienne.- comecei. -- Você mesmo já teve incontáveis brigas com Matt.
—- Sim, mas vocês dois, Dean, seja realista, era toxico.- rebateu. Eu já estava sem paciência, Daienne não sabia nada sobre nós e ouvi-la me fazia querer xingá-la. Ela me olhou como se eu fosse alguém digno de pena. -- Eu acho que você deveria focar na sua esposa, criar momentos legais e quem sabe pode se apaixonar por ela. Deixar que toda essa história com a Mary vire uma lembrança bonita.
—- Essa é a coisa mais idiota que eu já ouvi, Daienne.- ao me ouvir, a mulher cruza os braços e me fuzila com os olhos. Parecia que ela tinha perdido sua paciência também. -- Eu amo a Marry.
—- Eu quis que você tivesse uma lembrança boa da Marry.- ela parecia estar se preparando para me dizer algo bem sério. -- Por que você e Marry não estão juntos?
Aquela pergunta era tão sem noção. Marry é o tipo de mulher que precisa conversar com as amigar sobre seus problemas. Isso significava que contava tudo sobre o meu pai para Daienne.
—- Você sabe muito bem o motivo.-digo sem ânimo.
—- Me diga!- exige Daienne.
—- O meu pai...-começo a dizer, meio pressionado e confuso.
—- Sim, seu pai proibiu você. Se a amava tanto assim, se o relacionamento de vocês era tão lindo como diz. Por que não lutou por ela?
—- Como assim?-pergunto indignado. -- Eu lutei por nós, Marry não aguentou e se afastou. Ela me deixou Daienne!- meu tom estava difícil de controlar naquela altura.
—- O seu pai te deixaria pobre se fugisse com Marry, não é?- eu não respondi. -- Você deserdado, ficaria sem nada e isso seria um problema. Oh, mas teria o amor de vocês, tão forte que quebraria todas as barreiras da vida.
—- Onde quer chegar com isso?- questiono intrigado e irritado.
—- Antes de qualquer coisa, Marry não era o amor da sua vida e sim apenas um jeito de você irritar o seu pai.- Daienne se levantou da mesa pegando sua bolsa, antes que eu pudesse rebater sua acusação. -- Quer saber onde Marry está, Dean? Pergunte ao seu pai.- meu rosto se contorceu em confusão. -- Vá para casa e reflita nessa sua vidinha de garoto rico amargurado e parabéns mais uma vez pelo casamento. Sinto muito por sua esposa, a vida dela será dureza ao seu lado.
Daienne simplesmente me deixou na cafeteria. Eu a segui com os olhos até não poder mais vê-la da vitrine. Me voltei para a mesa encarando a cadeira vazia em completa bagunça mental.
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