Notas iniciais
PENÚLTIMO CAPÍTULO

LA VERITÉ

Belinda esperou décadas, ou melhor, séculos para o encontro com o seu ex-marido. Segundo ela, o próprio Viemont matou seu amante e a trancafiou num mausoléu ao lado do palácio como castigo pela sua traição, porém a história era bem mais profunda do que se imaginava.

— Esperei muito tempo por isso. O palácio Lures continua o mesmo depois de muitos anos. Apesar desta era ser bem mais avançada, o local ainda está conservado. Lembrar-me-ei do meu tempo quando eu era supostamente viva?

— Aê dona, como vamos entrar? Parece que não somos bem-vindos — disse Sergey.

Belinda aproximou-se do portão que dava para a área externa. Seus olhos ficaram completamente pretos, como se não houvessem pupilas... como se fossem olhos do próprio demônio. Com apenas um toque com a mão, a mulher abriu bruscamente o portão de entrada fazendo com que os seguranças se aproximassem deles.

— Quem são vocês?! Como abriram o portão?!

Sergey e Dorothy encheram os seguranças de tiros com suas armas. O homem portava uma metralhadora enquanto a sua esposa ficava com duas pistolas. Ocorreu um banho de sangue inimaginável. Os cães de guarda foram para cima deles, mas Sergey atirou em todos eles.

— Fez bem. Odeio cães — disse a ex-condessa.

Eles prosseguiram com a caminhada passando pela poça de sangue e pelos cadáveres que mais pareciam peneiras de tantos tiros que levaram.

Dentro do palácio, o mordomo Yerai tentava convencer o seu senhor a ir embora e fugir, porém Aruan não quis fazer isso, ou seja, queria enfrentar a sua ex-esposa de qualquer maneira.

— Não tenho motivos nenhum para fugir... Agora que Ludwig me odeia, não faz diferença nenhuma ficar vivo ou morto.

— Mas, senhor...

— Yerai, deixe-o. Você continua persistente mesmo depois de velho.

Os dois, que estavam no escritório, observaram a moça na frente deles. Belinda abanava-se com o seu leque enquanto se sentava na poltrona.

— Melissa... SAIA DE PERTO!

A garota fantasma correu com medo da mulher.

— Finalmente. Depois de tantos anos, reencontramo-nos. Você deve estar muito ansiosa para algo, não é?

— Meu querido, não posso me esquecer do que tu fizeste comigo. Meu algoz natural. Graças a um casal de humanos comum, consegui a minha liberdade daquele mausoléu dos infernos.

— E o que pretende fazer?

Belinda se levantou da poltrona.

— Sou muito mais forte que você, Aruan. Não vai querer saber qual será o seu destino — seus olhos voltaram a ser negros.

...

Na manhã seguinte, um coroinha que andava muito com o padre, levou um susto quando viu seu corpo todo ensanguentado na capela da igreja. O rapaz ficou por alguns segundos sem reação até correr e pedir ajuda.

A notícia da morte do padre Arnold se espalhou por toda a cidade como num raio — obviamente algo assim ocorreria rápido haja vista que a cidade era pequena e de interior. Logo a má nova chegou aos ouvidos de Ludo e sua família. Lamentaram o fato do padre ter morrido.

— Não acredito que isso aconteceu. O padre Arnold era um homem que respeitava todas as pessoas, apesar de suas crenças religiosas. Ele era uma pessoa que eu admirava — disse Pierre.

— Ouvi dizer que ele foi apunhalado pelas costas. O coroinha falou que havia um buraco de faca ou punhal. Sinistro — falou Lorenzo.

— Mas quem mataria um homem desse, pelo amor de Deus. Acredito que o padre não tenha feito nada de errado — disse Lúcia.

— Claro que não, mãe... — disse Pierre.

Ludo não quis entrar muito na conversa. Ainda estava de cabeça quente com o que Aruan fizera com ele e da discussão que teve com o mesmo no dia anterior. Não queria admitir, estava incomodado por não estar perto do outro; não queria admitir que estava tendo uma atração por outro homem, um homem bicentenário.

Uma pessoa andava de bicicleta pela rua onde os Van Krauss moravam... Era o mesmo coroinha que viu o padre morto pela primeira vez. O garoto estacionou a bicicleta na frente da casa, tocou a campainha. Lorenzo atendeu e convidou o rapaz para entrar.

— Queria falar com o Ludwig, por favor.

Pierre foi chamar o irmão mais novo. O rapaz insistiu, apesar do garoto não querer conversar com ninguém. No entanto, o jovem rockeiro decidiu descer e atender o rapaz de uma vez por todas.

— O que quer? — falou seco.

— Entregar esta carta — o rapaz tirou um envelope do bolso da jaqueta e entregou. — O padre Damien parece que já sabia que seria morto.

— Como assim?

— Ele me pediu para te entregar esta carta caso ele morresse. Falou exatamente assim. Parece que previu a própria morte. Não li a carta e não tenho nada a ver com história, apenas vim entregar. Felizmente a carta não estava na igreja nem na casa do padre. Fiz questão de guardar na minha casa para que a polícia não confiscasse.

O rapaz foi embora deixando Ludo com o envelope. Pierre, Lorenzo e Lúcia queriam saber o conteúdo da carta. Ludo abriu o envelope.

...

Aruan estava amarrado na cadeira no meio do seu quarto. O homem acordou depois de ser apagado pelos poderes de sua ex-esposa.

— O que é isso? O que fez comigo?

— Nem pergunta como está seu mordomo? Como é egoísta. O Yerai está descansando no chão do escritório enquanto você estava aqui no seu quarto. Gostou da nova decoração?

O homem verificou que haviam símbolos demoníacos nas paredes do seu quarto. Cruzes invertidas foram pichadas, bonecos de vodu, órgãos em conserva, um símbolo da estrela de Davi invertida, além de muitos objetos como decoração.

— O que vai fazer?

— Melhor você dar adeus aos seus empregados e familiares fantasmas que moraram por longos anos sem nenhum descanso merecido.

— Não faz isso! Eles são tudo para mim!

Belinda abriu um livro grande e de capa grossa. Era o livro de feitiçaria que ela havia adquirido quando ainda nem era casada. O motivo era simples: Belinda era uma bruxa. Esta fez uma feitiçaria que envolvia colocar sal ao redor do palácio, o que não foi fácil para os Bulankovs.

O ritual surtiu efeito. Um portal para a outra dimensão abriu acima do palácio fazendo com que as almas de todos que estavam no palácio fossem para o outro lado. Desde Melissa, irmã de Aruan, até a arrumadeira Frans. Todos os fantasmas foram embora deixando apenas os dois vampiros para trás, Aruan e Yerai.

— Maldita...

— Oh, não vai chorar. Sua hora também vai chegar quando eu te sacrificar para o Belzebú hoje à noite. Sinta-se honrado por sua alma arder no inferno.

Ela saiu do quarto deixando o homem sozinho e com um tremendo remorso.

...

Prezado Ludwig

Sei que não tenho o direito de me meter na sua vida particular, pois sequer nos conhecemos direito. Sei também que está sofrendo por algum tipo de decepção por parte de alguém que você confiava... Porém, há algo que quero dizer-lhe. Coo sabe, sou da linhagem dos vampiros. Nós somos portadores de um gene que nos permite viver por séculos, assim como os humanos depois de Adão e Eva como Noé e Matusalém.

Nosso clã, por anos, viveu uma grande inimizade com o clã dos feiticeiros. Estes separados em classes como os alquimistas e bruxos, estes últimos os feiticeiros que servem, na maioria das vezes, o mal. E sabendo desse pequeno detalhe quero te levar a um cenário duzentos anos antes de você nascer.

No século XVIII, os Lures e Viemont viviam harmoniosamente com os Hollands. No entanto, os Hollands usavam a magia negra para obter o controle absoluto do estado em detrimento de muitas vidas. Até mesmo na era medieval, os Hollands inventavam que vários opositores da igreja eram bruxos para serem queimados vivos enquanto recebiam apoio da igreja católica para ampliar seus negócios. Eram bruxos, mas que mantinham uma boa relação com a religião dominante. O pai do Conde Aruan cortou todos os negócios com os Hollands e, consequentemente, eles foram perdendo espaço para os Lures e Viemont, o que despertou a ira do avô e do pai de Belinda. Fizeram com que a moça se cassasse com Aruan para garantir os negócios da região, porém os interesses dos Hollands eram mais escusos.

Belinda, apesar do seu jeito meigo e delicado, foi um demônio na vida do conde. A moça resolveu traí-lo com um assassino profissional contratado pelo próprio pai dela... Mas, o mais cruel era que o casamento, o amante, tudo já estava planejado para uma única coisa: matar Aruan. Eu descobri os planos macabros de Belinda e seu pai e avisei a Aruan que matou o amante e prendeu Belinda no mausoléu para que ela não pudesse causar dano a ninguém. O pai faliu e morreu anos mais tarde.

O conde Aruan, de fato, não é um santo ou um amor de pessoa, mas é muito melhor que a bruxa viúva negra. Caso ela tenha dito algo, é mentira. O que ela quis é se vingar de Aruan pelo passado dos dois, não por ser boa. Longe dela ser uma santa... Falo isso em nome de Deus. Não estou mentindo. Caso eu morra, isso ficará como prova inimputável contra uma bruxa ardilosa.

Atenciosamente

Arnold Damien.

— Então... tudo o que ela disse foi mentira — disse Ludo para si mesmo.

Pierre pegou a carta das mãos do irmão e leu. Lorenzo e Lúcia também ficaram sabendo. Era uma armação de Belinda. Todos caíram feito patos.

— Não sei se tenho coragem para olhar na cara do Aruan de novo...

Pierre segurou o irmão no braço e o levou à força até o seu carro. O mais novo não entendeu.

— Se Belinda quer assassinar o Aruan, o que você vai fazer esperando aqui? Visitar seu cadáver em algum cemitério?

— É que...

— Depois você sente vergonha. Agora é hora de entrar naquele lugar e entender o que está acontecendo. Vamos.

Pierre deu a partida no carro e foi embora com o irmão para o Palácio Lures e Viemont.

...

PALÁCIO LURES E VIEMONT, 18 HORAS

O carro de Pierre parou em frente ao portão de entrada do palácio. Tudo parecia calmo, sem movimento. Apesar de ser um lugar muito grande, com um terreno enorme, ainda sim em dias normais os seguranças podiam ser vistos na sua maioria na parte da frente da propriedade.

— Chegamos. Parece que este lugar é morto — disse Pierre observando o portão fechado.

— Mas devia ter seguranças. Talvez se eu tocasse o interfone...

— Não faça isso! — disse Yerai que estava do lado de fora do palácio.

Ludo caminhou até eles, debilitado, confuso e com hematomas na cabeça. Ludo perguntou ao mordomo o que havia acontecido com ele. O homem respondeu sobre Belinda e o que ela estava fazendo com Aruan.

— Precisamos entrar imediatamente — disse Pierre.

— Pelo portão é impossível. Te uma porta escondida no muro. Preciso levá-los em segurança antes que aqueles dois pistoleiros matem vocês.

— Pistoleiros?

Dorothy caminhou na grande sala de estar do palácio, depois foi averiguar o escritório e se assustou ao perceber que o mordomo desaparecera. Avisou ao seu marido que pediu para que ela ficasse de olho.

Yerai aproveitou o vacilo dos dois para desligar os refletores que ficavam na área externa e também a energia elétrica do palácio. Contudo, automaticamente o lugar passou a ser iluminado por gerador.

— Hum, vejo que o seu querido Ludwig se arrependeu, não é? Possivelmente veio correr para os seus braços e se esfregar nesse seu corpo frio de vampiro.

— O que vai fazer com ele? — Aruan estava deitado no chão preso por um encanto e com apenas a sua samba canção. Seu corpo estava ensanguentado com o sangue dos seguranças e do cachorro.

— Eu? Não vou fazer nada. Para isso servem os lacaios, não é? Aqueles dois são bons no que fazem.

Tiros são ouvidos ali perto. Belinda sorrio observando o olhar de desespero de Aruan que estava em choque.

— Não... Ludo...

— Acabou, Aruan. Agora somos só eu e você.

Sergey estava com a sua arma quando viu o corpo da pessoa que ele abateu no chão. Ele se aproximou da pessoa e teve uma grande surpresa.

Continua...