BLOOD - 1ª Temporada - Bullying
1 Fernando
Notas iniciais
PRAÇA DAS FLORES, 29 de outubro de 2015
Uma garotinha estava sentada no banco com a sua mãe enquanto esta lia um livro. As duas sempre faziam esse programinha semanal.
― Mamãe, eu quero sorvete.
― Não tem nenhum carrinho por perto.
― Ali do outro lado.
― Vamos lá.
― Eu vou ficar lendo mais um pouco ― disse garota. Ela tinha entre 10 e 12 anos.
A mãe dela teve que atravessar uma avenida movimentada para poder ir ao carrinho de sorvete.
Enquanto isso, um homem sentou-se ao lado da garota.
― A Bela e a Fera? Adoro.
― Professor? O que faz aqui?
― Só quis dar uma visita à minha aluna preferida ― disse o homem. Este era negro, usava um casaco grande. Já era quase sete da noite quando o homem pegou o lenço do bolso e pressionou contra o nariz da jovem. Não havia ninguém passando para ver.
Ele a colocou dentro de uma pequena van e dirigiu.
A mulher derrubou os sorvetes quando viu que a sua filha não estava mais lá. O desespero tomou conta. A única coisa que fez foi gritar.
― NÃO!!!
...
BLOOD — 1ª TEMPORADA
BULLYING
PERSONAGENS
- Fernando Levi Fitzgerald;
- Angela Fitzgerald;
- Juca;
- Antônio Lucas;
- Caio;
- João;
- Léo;
- Fernanda (Nandinha) Fitzgerald;
- Maria das Dores Souza Silva;
- Danilo Souza Silva;
Participação Especial
- Pastor Isaque Freitas;
- Detetive Lambert;
e
Fábio Souza Silva.
FERNANDO
BOATE BLOOD
FORTALEZA, 29 DE OUTUBRO DE 2010
― É isso aí vadia, dança pra mim vai. Dança pro papai ― dizia um rapaz cuja a aparência lembrava um gringo.
A boate Blood era um local clandestino localizado no centro de Fortaleza. Muitos usuários de drogas eram clientes assíduos. Isso dá pelo fato do local ter drogas, bebidas e prostituição liberadas.
A polícia nunca barrou o ambiente, pois na frente havia uma fachada de uma igreja evangélica falsa. Nos fundos, todavia, as maiores tentações aconteciam. Mulheres só de calcinha rebolavam em palcos propriamente feitos, além de ter um show de sexo explícito uma vez por noite.
O local também é ponto de encontro de grupos Neonazistas, ou seja, negros e homossexuais eram proibidos de entrar. Eles se agrupavam, bolavam planos para matarem mendigos ou algum gay que passasse sozinho na rua.
Uma bandeira enorme com a suástica era vista no teto do estabelecimento.
O rapaz estava em um local reservado para neonazistas, sentado num sofá e vendo um show de stripper particular. A mulher abriu o zíper da calça dele e começou a fazer um sexo oral.
― Ah, que boquete. Engole meu pau, puta ruim.
― Aí, Fernando, vejo que já tá pondo a cabrita pra mamar.
Um rapaz caucasiano apareceu com mais três. Vestiam roupas com o teor militar.
― Tá, sai fora.
― Mas eu não terminei, gostoso.
― Cai fora, vagabunda.
Fernando fechou a calça, e permitiu que os amigos sentassem ao seu lado. Os cinco amigos eram de um grupo da internet. Eles marcavam encontro pela Deep Web, por isso a polícia federal nunca batia na porta de um deles.
― O que querem? Hoje não é reunião. Por que me chamaram?
― Calma, bro. Você é o mais novo membro deste grupo neonazi. Quer um pouquinho de pó para dar uma acelerada ou maconha para ficar zen?
― Juca, eu fumei um cigarro antes de vocês chegarem. O que querem?
― Juca nos disse que você entrou de cabeça nisso. Por isso, eu pedi para ele que arranjasse um servicinho. Uma prova da sua lealdade para com este grupo ― disse um homem com uma barba enorme.
― É isso aí, o Caio me pediu. Ele ainda não está convencido de que você seja realmente fiel ao nosso grupo. Nem mesmo o João e o Léo.
― Fala ― Fernando entrara para o grupo neonazista há seis meses. Os outros quatro estavam no mínimo há dois anos. O grupo original era formado apenas por Juca e Caio, três anos atrás.
Juca se aproximou do amigo.
― Quero que nos apresente como oferenda o sangue de um negro. Ou seja, vai ter que ter um conhecido seu, negro, para ser a nossa oferta. Traga-o até nós, mataremos ele e você está dentro definitivamente.
Fernando ficou um pouco surpreso com o pedido. De fato, ele não simpatizava com os mestiços, mas cometer assassinato...
― Como farei isso?
― Se vira ― respondeu Juca enquanto segurava um cigarro de maconha. ― Se quiser pode desistir.
― Não. Eu faço ― Fernando se retirou deixando-os para trás.
― Esteja preparado ― concluiu Juca.
Fernando saiu da boate por volta das três da madrugada. Chamou um táxi pelo celular, pegou-o e foi direto para casa.
Fernando Levi Fitzgerald era um filhinho de papai que morava num apartamento no bairro da Aldeota. Ele era metido, arrogante e narcisista. Tem uma irmã mais nova dez anos que ele. O rapaz, com dezessete anos, estudava numa escola particular paga por sua mãe. Ele gosta de jogos online, drogas, sexo, bebidas e filmes pornôs. A sua vida era de inteira devassidão. Isso só occorria porque era órfão de pai, ou seja, era criado somente pela mãe, Angela.
Angela era artista plástica, fazia exposições. Descendente de alemães, ela veio para o Brasil ainda quando era um bebê. Ela era o oposto do seu filho, fazia obras sociais, ajudava a comunidade e tinha o respeito de todos. Todavia, não fazia a mínima ideia do que o seu filho fazia às noites.
Fernanda, ou Nandinha, era a irmã mais nova dele. Como ainda era muito criança, ela sequer era influenciada pela devassidão do seu irmão. Gostava de brincar e ir à praça com a sua mãe.
Os três viviam sós. O resto da família morava em Berlim.
― Acorda, querido.
― Que foi, mãe.
― Hoje é sexta. Hoje tem aula, esqueceu?
― Hmpf...
― Vamos, acorda. Bastou ontem que você não foi. Não vou ficar me sacrificando à toa para pagar escola cara para ficar faltando. Levanta, Nando!
― Tá bem.
Fernando teve que tomar um banho demorado e beber muito café para estar disposto a ir para a escola. Sua mãe, como sempre, o levou. Ele era repetente, por isso ainda estava no 3º ano do ensino médio.
Angela deixou o filho na escola e foi para a outra levar a filha. O jovem entrou na sala e, como sempre, ficou no fundão. Era o dia mais chato da sua vida, pois teria três aulas consecutivas de matemática, e ele era péssimo em matemática.
― Estudou para a prova? ― perguntou um dos colegas.
― Que prova, Lucas?
― De matemática. Semana passada o professor disse que teria.
― Puta que pariu, e agora? Hei, Lucas, vai me dar cola?
― Fe, não posso. Lembre-se de que eu sou evangélico.
― Crente do cu quente. Tá certo.
Lucas sempre tentava fazer amizade com Fernando, mas este era agressivo com ele. O rapaz era moreno com a pele de índio. Para Fe, ele era mestiço, por isso nunca quis se misturar.
O professor entrou na sala de aula, colocou a bolsa e vários papéis sobre a mesa. O homem saiu ficando mais um pouco fora. Tempo suficiente para Fe colocar um pouco de cocaína sobre a carteira e cheirar. Ele fingia que estava cochilando para ninguém ver. Lucas, no entanto, já percebera que colega era um viciado. Um evangélico sentado na frente de um drogado.
― Se o professor te pega, é expulso.
― Relaxa, já terminei. Preciso ficar alerta. Mesmo assim, eles não podem me expulsar. Minha mãe paga essa pocilga para eu bater o ponto aqui. Eles precisam se sustentar.
O professor trouxe consigo um aluno da turma da tarde. O rapaz era negro, um dos poucos da escola. Fernando nem deu bola para o que o homem dizia a respeito do aluno.
― Turma, este é o Fábio Silva. Aluno da classe C, da tarde. Ele foi transferido para esta turma ontem mesmo. Como eu sou o professor dele, não tivemos impedimentos, já que o conteúdo da outra turma está igual. Pode se sentar.
O rapaz achou uma carteira ao lado de Fernando. Este demonstrou uma cara de nojo quando o outro se sentou. Os demais alunos deram as boas-vindas para o jovem.
Fernando se lembrou de algo. A missão dada por Juca e os outros.
“Traga-nos o sangue de um negro. O sangue de um negro. De um negro. Negro. Traga-me um negro. Vai estar dentro da nossa equipe...”
― Senhoras e senhores, a prova é em dupla. Podem escolher as suas duplas a seus gostos.
Fábio sentiu vergonha de pedir alguém. Ele não conhecia ninguém da classe. Foi então que Fernando afastou a sua carteira para ficar ao seu lado.
― Posso ser o seu parceiro de dupla?
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