Fernando sentou-se no banco da praça de alimentação de um shopping center. No final de semana, o moço preferiu passear com a mãe e a irmã. Porém, chamou o pastor Isaque para terem uma conversa longe da igreja que cultuavam. O conteúdo da informação era sigilosa, por isso tanto a mãe quanto a irmã não podiam ouvir.

Angela atendeu aos pedidos de Nandinha para ir comprar churros num local perto dali. As duas foram.

Uma homem passou apressadamente e colocou um envelope sobre a mesa que o loiro estava sentado. Fernando olhou para trás, porém perdeu o cara de vista. Pegou o envelope, abriu e viu um anel sujo de sangue. Um pequeno bilhete dizia “De L para F”. O rapaz logo se tocou que as iniciais de Léo e Fernando. Como um objeto daquele foi parar ali? Uma mão surgiu no ombro dele, dando-lhe um baita susto.

― Sou eu? Para que o susto?

― Irmão Isaque. Eu realmente estou muito assustado.

― Clemilda me disse que ligou para ela pedindo a minha ajuda. Eu posso ajudá-lo no meu limite. Caso a coisa seja realmente difícil, peça ao Senhor que ele atenderá as suas preces.

Fernando mostrou a figura da suástica, a pena negra com o bilhete e a carta que recebera há pouco. O pastor analisou os conteúdos e chegou a conclusão de que o rapaz estava de fato sendo perseguido.

― Você deve falar com a sua mãe sobre isso. Sobre tudo.

― Eu tenho medo de que ela tenha um grande desgosto.

― Por favor, Fernando. Você não é mais o mesmo, graças a Deus. Ele te mostrou o caminho da salvação, por isso, mesma que seus pecados sejam o mais escarlate possível, acredito que tenham se tornado tão alvo como as nuvens do céu. Vai por mim, sua mãe entenderá.

Enquanto isso, Angela e Nandinha compraram três churros para o lanche. A garotinha escolheu o de chocolate, a sua mãe preferiu o de outro sabor.

Um tanto longe dali, um homem tirava fotos das duas. O sujeito estava com roupas pretas, porém não chamava muita atenção. Ele preparou as fotos para, futuramente, alcançar o seu principal alvo.

CARNE FRESCA

Special Guest Star:

Pastora Clemilda Freitas

O pastor Isaque voltou para casa quando recebeu a triste notícia que seu cachorrinho poodle havia desaparecido do apartamento. A sua esposa, Clemilda, estava na cozinha preparando o almoço quando sentiu falta do bichinho. Ela contou ainda que a porta estava fechada, mas não trancada.

― Eu juro que deixei fechado. Quem viria aqui para roubar um cãozinho?

― Não sei, amor. Você deve ter fechado de mau jeito, ele viu uma oportunidade de sair e fugiu. Deve estar ainda no prédio ou no andar. Eu vou dar uma checada.

― Eu vou contigo.

Os dois saíram do apartamento, fecharam a porta. Eles perguntaram aos vizinhos, vasculharam atrás dos jarros, ou seja, em cada lugar possível de um cachorro de porte pequeno e filhote poderia entrar.

― Querido, não seria melhor se formos lá pra baixo ver se o porteiro o viu? Ele pode ter descido pelas escadas.

― Trancou o apartamento?

― Vou pegar as chaves e fazer isso agora mesmo.

A mulher, com seus 1,60 de estatura, andou até o apartamento. A porta não estava fechada, apenas entreaberta. Ela entrou na sala. Um vento gelado percorreu-lhe o corpo, fazendo-a arrepiar. O vento veio da direção do banheiro. Ela foi até lá e se assustou com algo horrendo.

Isaque correu assim que ouviu a esposa gritar. Entrou no apartamento e a abraçou.

― O que foi?

― Horrível. Lá no banheiro...

― Fique aqui.

Isaque entrou no banheiro. O cachorro estava pendurado com uma corda no pescoço e seu corpo completamente aberto com as tripas no chão. No espelho, a expressão “Adore a Lúcifer” escrita com o próprio sangue do animal.

― Por Cristo, Jesus ― disse o pastor.

...

Juca, o maior responsável pela noite fatídica, transformou-se num professor de educação física. Com o passar do tempo, ele foi flexibilizando os seus conceitos sobre as raças das pessoas. Tivera alunos negros e nem se importara com isso. Como foi o único, além de Fernando, a não ser incriminado, teve uma vida normal e ganhou até bolsas de estudo. Atualmente morava num prédio da Aldeota, sozinho.

Batidas absurdas aconteceram na porta do apartamento dele. Juca atendeu ao visitante e ficou surpreso com a visita repentina de Caio.

Caio ganhou a condicional três anos depois da sua pena fechada. Como era um tatuador nato, continuou com a sua profissão. Uma loja de tatuagens servia como emprego para ele. Era o único do grupo que continuou com suas ideias fascistas. Passado tanto tempo, ele ainda mantinha contato com Juca.

― Estou tão preocupado. Recebi hoje pela manhã um pedaço de dedo pela encomenda. O que eu faço?

― Sei lá, não faço a mínima ideia de como proceder acerca disso. E sabe por quê? ― Juca pegou uma caixa e mostrou um dedo nela. ― Porque você não é o único a ser aterrorizado.

― Só pode ser obra daquele negão filho da puta. Aquele preto fedido está querendo se vingar de todos nós.

― É uma possibilidade. Léo e João foram vítimas no começo desta semana. O problema é quem será o próximo? E acho que será você.

― Não brinca. Se aquele nego vier pra cima, eu o mato. Vou matá-lo, viu?

― Faça o que você quiser. Estou com pressa, vá embora.

Caio deixou Juca. O homem ainda não achou um jeito de se livrar da situação. Era a pior desde o dia em que foi preso.

O barbudo entrou no seu carro e foi embora.

Juca foi à garagem do prédio pegar o seu veículo. As luzes do subsolo piscavam com muito mais frequência. Certo que o lugar estava com problemas de energia, mas isso já era um caso anormal. Caminhou para o veículo, entrou nele e segurou o volante como se estivesse na sua zona de conforto. Numa fração de segundos pensou ter visto um vulto ao lado do vidro da janela.

O tatuador parou o seu carro na garagem de casa. Antes de sair, um arame envolveu o seu pescoço. Alguém por trás estava tentando matá-lo, sua força não foi o suficiente para desvencilhá-lo daquilo. Desmaiou. O mesmo sujeito que matou Léo surgiu por trás de Juca, carregou o homem e amarrou-o na cama.

― Ora seu... Solta isso, porra! ― dizia tentando se desvencilhar.

O homem, com a mesma roupa anterior, aproximou dele e retirou a máscara. Fábio apareceu diante dos olhos do barbudo. Este começou a rir loucamente.

― Ah, deixa ver se eu entendi. Você jurou vingancinha em nome da vadia da tua mãe? Por favor, niger imbecil, seja mais autêntico. Isso de justiceiro não cai bem com a tua cor. Você nasceu pra ser escra... AHH!

Fábio enfiou um canivete no estômago do outro.

― Você é um ser desprezível. Se eu te matar aqui e agora, ninguém sentiria falta. Mesmo assim, preciso saber como é o gosto de um nazista filho da puta.

― O que você vai fazer? Não, espera!

Fábio puxou o bico do peito de Caio e cortou-lhe causando uma dor atroz ao amarrado, além de derramar sangue. O invasor comeu o pedaço de carne de Caio na frente dele.

― Tem gosto de merda. Porém, eu vou provar mais um pouquinho dessa carne fresca ― ele foi no outro seio, cortou o bico e comeu. ― Agora que tal se me pedir desculpas agora?

― Vai se ferrar. Tua mãe merecia ser estuprada por uns vinte homens. Aquela puta.

Fábio enfiou outra vez o canivete no estômago de Caio. Nessa altura, o homem foi coberto por sangue.

― Na época que vocês destruíram a minha vida, passei por várias sessões com psicólogos. Eu tive que dizer sim a tudo só para poder voltar e me vingar de todos. Deixei a igreja, deixei aquele Fábio para prosseguir com um novo. Estou há quase um mês em Fortaleza sem a minha tia saber, estudei cada pormenor das suas vidas. Sei até que teve um cliente que brigou na sua loja. Eu sei de tudo.

Caio tentou cuspir o rosto do torturador, porém em vão.

― Você acredita em espíritos malignos? Acha que eles podem influenciar as nossa vidas? Acha que alguém superior o influenciou a estuprar a minha mãe? Não? Pois eu digo que alguém superior me influencia a fazer o que faço. E o que farei contigo, apesar de ser algo influenciado, será um grande prazer para mim.

Fábio segurou o pênis de Caio e iniciou um processo de corte daquele pedaço de músculo. Ele passava o canivete como se cortasse pão, indo e voltando. Caio sofreu demais, até fez cocô na cama, de tanta dor. O fedor não intimidou Fábio que cortou o pênis do outro, abriu a boca dele e enfiou o órgão em sua boca. Pegou o canivete e começou um processo em que ele abria o ventre do mais velho. Caio era acima do peso, por isso deu mais trabalho. Conseguiu abrir um buraco bem fundo que deu para arrancar o coração. Colocou o órgão num saco plástico.

― Este foi o terceiro. Teremos mais três para pegar ― disse ele como se estivesse falando com alguém invisível. ― Eu sei, eu sei. Não quero que me apresse. Os outros estão vigiando o próximo alvo.

Fábio foi à área de serviço da casa e conseguiu achar uma garrafa com acido. Passou o líquido sobre o cadáver. Acendeu quatro velas pretas em cada canto da cama e as deixou acesas antes de ir embora.

...

Fernando foi dormir mais cedo. Passou o dia jogando futebol na quadra do condomínio. Amanhã será domingo e terá culto. Leu um trecho da bíblia enquanto pegava no sono. Uma sombra abriu a porta do seu quarto, aproximou-se dele, sentou-se na beira da cama e ficou observando. O jovem abriu os olhos, a criatura estrangulava-o. Fernando acordou-se com um pulo da cama, pegou no seu pescoço e não sentiu mais a pressão; foi um pesadelo súbito.

No dia seguinte, ele mal ficava de pé. O pesadelo lhe deu insônia pela primeira vez. Angela achou isso tudo estranho e preparou um café bem forte.

― Mãe, eu quero desabafar algo.

― Pode dizer.

― Agora não. Quando voltarmos do culto, eu juro que conto tudo.

A campainha soou. Nandinha resolveu se adiantar e abriu a porta. A reação imediata dela foi de gritar.

― O que houve? ― perguntou Angela.

Fernando correu para ver o que havia assustado a irmã. Um coração humano foi deixado na porta dele.