BLOOD - 1ª Temporada - Bullying
3 O Passado Vem à Tona
― Pastor, eu tenho algo para falar em sigilo. Posso?
― Claro, meu irmão.
Os dois sentaram nas cadeiras mais à frente do palco da igreja. Enquanto isso, os outros evangélicos se retiravam da igreja por causa do término do culto. O pastor olhou para o rapaz.
― Se for por causa das drogas, eu sei que ainda tem essa tentação da carne. Você foi um ex-usuário.
― Não, não é isso. É sobre algo que me envergonho muito.
― Sabe que qualquer pecado que cometera no passado, o nosso Senhor Jesus Cristo o perdoou.
― Eu sei, mas quanto à esse, eu nunca me perdoei.
― Fale.
― Tudo começou há cinco anos. Eu era muito preconceituoso, devasso. Entrei para uma pequena facção neonazista que odiava as minorias. Eu havia entrado apenas uns seis meses quando o líder me disse para eu testar a minha lealdade. Ele me pediu que eu atraísse qualquer negro para fazê-lo sangrar.
― Em nome do Senhor, você fizera isso?
― No dia seguinte apareceu um rapaz chamado Fábio na minha classe. Ele havia sido transferido para o turno da manhã e não tinha conhecidos. Eu me ofereci para ser amigo dele porque, como era negro, ele servia direitinho aos planos do grupo. Atraí-o para o cheiro do queijo.
― O que vocês fizeram?
Fernando olhou para o pastor e chorou.
O PASSADO VEM À TONA
CINCO ANOS ANTES
― Juca, você já tem o cara. Não precisa fazer isso, cara.
― Cala a boca, Fe. Vai amarelar justo agora?
― O acordo era de fazer o negro sangrar, mas nunca pensei que a sua ideia era matá-lo. Ainda por cima vai chamar a família dele? Eu tô fora...
― Não vamos deixá-lo ir. Agora que está aqui vai até o fim ― disse Juca mandando Léo e João ficarem na saída.
Juca digitou o número da mãe de Fábio. A mulher atendeu. O neonazista colocou no ouvido da vítima. Aos prantos, ele pediu que a mãe o pegasse no endereço combinado, pois estava feito de refém. Maria logo se desesperou, pensou em chamar a polícia, porém Fábio disse para ir sozinha.
Danilo ouvia a conversa pelo telefone e logo foi para o carro da mãe. Um Uno simples. Ele abriu a porta de trás do carro com as chaves, voltou para pô-las sobre a geladeira e entrou escondido. Maria imediatamente foi procurar a chave e entrou no veículo sem perceber que o caçula estava lá.
Enquanto isso, Juca brincava com um canivete perto do rosto de Fábio. Enfiou no antebraço esquerdo causando uma dor atroz na vítima. O sangue escorria. Juca olhou a arma ensanguentada.
― Esse sangue de negro. Dá vontade de vomitar só de sentir o cheiro dele ― limpou o canivete no rosto de Fábio.
Caio trouxe um balde cheio de lavagem de porco.
― Tá a fim de comer? ― disse Juca.
Juca retirou a mordaça da vítima, pegou um copo que havia trazido, encheu de lavagem e, à força, tentou fazer Fábio engolir. A vítima cuspiu na cara dele. Juca parou o procedimento e começou a encher-lhe de soco na cara. Depois pegou o canivete e furou o antebraço direito do outro.
― Tá gostando, verme?
Fernando começou a se incomodar com aquela tortura toda. Nunca imaginou ver algo assim ao vivo. O sangue, a dor, o cheiro fétido, tudo aquilo.
Caio derramou a lavagem sobre Fábio. O odor terrivelmente fétido fez a vítima vomitar ali mesmo.
― Ah cara, não precisa fazer isso. Vamos soltá-lo, vamos?
― Fernando, não seja medroso. O imbecil viu as nossas caras. Ele vai falar para a polícia sobre tudo isso ― respondeu Juca.
Maria estacionou o carro atrás do Gol prateado. Antes dela sair, João apontou uma arma para ela.
― Bora, sai do carro.
― Calma, moço.
― Mãe!
― Danilo, o que faz aqui?
― Saiam os dois, agora!
― Por favor, não machuque o meu filho. Leve o carro.
― Não, vadia. Quero é você. Entra logo! Anda, moleque!
João fechou a porta e levou-os para dentro. Assim que viu Fábio, ela tentou correr para salvá-lo. Contudo, Juca utilizou uma arma de choque para fazê-la desmaiar.
Juca retirou toda a roupa de Maria, deixando-a nua na frente dos filhos. Caio abaixou as calças e começou a estuprá-la ali mesmo. Ela gemia de dor enquanto os dois filhos choravam.
― Vadia negra dá pro caldo ― disse o estuprador.
― Aí Fernando. Cuida do moleque ― disse Juca dando o canivete para ele.
― Eu?
― Tem outro Fernando aqui?
Fernando se recusou em segurar a arma. Juca agarrou Danilo por trás, passou uma única vez o canivete em seu pescoço. O sangue jorrou imediatamente atingindo Fernando nas mãos e rosto.
― Ficou maluco? Eu não vou participar disso mais. Eu tô fora, viu? bando de assassinos ― Fernando correu até a saída, abriu sem encostar a mão na porta e saiu.
― É um pomba mole mesmo. Arregão do caralho.
Danilo agonizava enquanto o seu sangue saía do seu corpo. Fábio via desesperado, mas não podia fazer nada.
Do lado de fora, Fernando andava o mais rápido possível para bem longe dali. Havia um ponto de ônibus que dava para um terminal que dava para a Aldeota. Era mais de meia-noite.
Caio terminou de estuprar Maria. Isso foi possível porque tanto Léo quanto João seguravam-na pelos braços. Logo em seguida, João dá dois tiros nela.
― Droga, matou-a só porque seria a minha vez ― disse Léo.
― Calem a boca. Agora é a vez da nossa vítima principal. Quais são as suas últimas palavras?
― A polícia vem ― disse Fábio. ― O celular da minha mãe é programado com GPS. Ela com certeza deixou ligado. Se passar mais de meia hora sem desligá-lo, a polícia é acionada.
― É um blefe desse nego filha da puta. Vai dar ouvidos a ele? ― disse Caio.
― Silêncio ― Juca vasculhou na bolsa dela, viu o celular. ― Vou dar uma olhada.
Juca saiu do esconderijo. Levou a bolsa da vítima com ele. Fábio tinha razão. Ele entrou no Gol prata, que era dele, e foi embora. Meio minuto depois, a polícia cercou o local. Caio, Léo e João ficaram encurralados.
O caso foi encerrado com a condenação dos três. Sendo que Léo e Caio saíram depois de cinco anos por causa do bom comportamento. Ficaram em condicional. João continuou preso pelo crime de homicídio. Foi traído pelos companheiros quando disseram que foi ele o estuprador.
Fábio ficou vivo para contar história. Nunca incriminou Fernando nem Juca. A história foi abafada e o paradeiro de Fábio nunca foi revelado.
Naquela mesma noite, Fernando chegou em casa e foi tomar banho. Depois disso foi se deitar. A sua consciência o acusava. Mesmo assim não quis mais se comunicar com os demais membros. O grupo foi desfeito.
...
FORTALEZA, CINCO ANOS DEPOIS
A mãe de Fernando tornou-se evangélica um ano depois desses acontecimentos. Fernando relutou a princípio, mas logo foi frequentemente aos cultos. Agora com vinte e dois anos batizou-se e agora ia regularmente. Nunca mais se envolveu com negócios ilícitos. Foi uma reviravolta na sua vida.
O culto terminou. Angela e Nandinha conversava com os seus irmãos na fé enquanto o rapaz falava com o pastor Isaque Freitas.
― E foi isso que aconteceu.
― Pelos seus, Fernando. Isso foi uma monstruosidade. Mas eu não sou ninguém para julgá-lo. Se o nosso Senhor o transformou, é porque você encontrou a sua salvação. Eu vou orar para que a sua consciência o deixe em paz. Faça o mesmo.
― Obrigado irmão Isaque. Eu me envergonho do preconceito que antes sentia. Hoje eu tenho amigos negros, mestiços e me orgulho muito disso.
Os dois apertaram as mãos.
― O que você tanto conversava com o pastor? ― perguntou Angela.
― Nada de especial. Podemos ir.
Os três saíram de carro. No trajeto, ele se lembrava daquela noite fatídica há cinco anos.
Ao chegarem no andar em que moravam, viram uma caixinha de papelão embrulhada num papel de presente em frente à porta de entrada. Angela pegou e abriu a porta.
― Mãe, eu posso acessar a internet?
― Sim, filha. Mas daqui a pouco vai ter que parar para o jantar.
― Que é isso?
― Fernando, sabe que eu não sei ― ela desembrulhou. ― Tem um adesivo com o seu nome, mas não tem remetente. É pra você.
― Deve ter sido a compra que eu fiz na internet.
Fernando foi para o seu quarto, abriu a caixa e viu uma figura de uma suástica no fundo. Surgiu uma expressão de medo, pois possivelmente o seu passado veio à tona.
Fale com o autor