BLOOD - 1ª Temporada - Bullying
2 Fábio
Fernando chegou em casa completamente transtornado. As luzes estavam apagadas. No relógio, era mais de meia-noite. Angela já se acostumou das saídas do filho, mesmo adolescente, por isso não se preocupava demais.
O rapaz foi direto ao banheiro.
Entrou no chuveiro. Os pingos que caíam sobre ele aliviavam a sua tensão. O sangue escorria pelo seu corpo desnudo, além de sangue que havia em suas mãos. Seus olhos estavam lacrimejando. Ele fizera algo que não devia ou algum absurdo. Sentou-se no chão e permaneceu ali.
― O que eu fiz?
Definitivamente algo grave aconteceu. Fernando nunca mais será o mesmo.
FÁBIO
UM DIA E MEIO ANTES...
Maria das Dores Souza Silva era uma mulher bastante dedicada ao trabalho. Era negra, filha de angolanos. Trabalhava como empregada doméstica na casa de um figurão de Fortaleza, mas que no mês de outubro tirou férias.
― Prontinho. Acabou de sair do forno ― ela retirava um bolo. Um menino com dez anos observava tudo. Era o seu filho mais novo. ― Em nome de Jesus ficou pronto. Danilo, pegue uma faca para eu cortar os pedaços.
O rapaz foi prontamente pegar. Queria ser o primeiro a comer o bolo. Danilo Souza Silva era o filho caçula de Maria. Ele era mimado demais pela mãe enquanto o mais velho, Fábio, não.
Eles moravam na periferia, mas não tinham poucas condições financeiras; pelo contrário, o trabalho de Maria a permitia ganhar quase três salários mínimos.
Eles eram evangélicos, mas não praticavam frequentemente. Fábio nunca se dispôs a ir nos cultos mesmo com a insistência da mãe.
― Mãe, cheguei ― disse ele chegando da escola.
― Oi filho. Venha. Daqui a pouco eu ponho o almoço na mesa.
― Trouxe uma visita. Um amigo que eu fiz no turno da manhã. Pode vir, Fernando.
O loiro entrou acanhado na casa de negros. Para ele era um choque imenso.
― Olá Fernando, como vai? Nossa, eu pensei que o meu filhinho nunca fosse fazer amigos. Ele é tão anti-social.
― Mãe!
― Não se preocupe. Estou atrapalhando?
― Não, imagina. Fernando, você é bem-vindo.
― Oi, Fernando ― disse o mais novo.
― Oi.
― Esse é o peste do Danilo. Se quiser a gente pode começar o trabalho agora mesmo. Na sala, topa?
Fernando concordou com o rapaz e foram se aprontar para começar um trabalho da escola. Antes, porém, tiveram que almoçar. O loiro teve que falar sobre um pouco da sua vida. Logo em seguida, os dois foram fazer o dever de casa.
― Quer fazer parte de um grupo que eu faço? ― ele teve que ser direto.
― Oi? ― Fábio deu pouca atenção.
― Quer fazer parte de um grupo?
― Como assim?
― É um grupo sobre game players. Gosta de video-games?
― Gosto. Semana passada eu comprei um X-Box com o estágio que faço. Depois quer jogar?
― Sim. Está faltando um membro para o grupo, ou seja, uma vaga está aberta. Se você quiser fazer parte, eu posso falar com o líder para incluí-lo.
― Eu quero fazer parte. Inclusive já faço parte do grupo de um fórum na internet.
― A inclusão de um membro se chama “batizado”. Você terá que responder algumas perguntinhas e pronto ― grande mentira. ― Aí, se ele gostar de você, será aceito. Participamos em vários eventos. Vai gostar.
― Que horas?
― Amanhã, por volta das nove da noite.
― Isso é meio tarde, não?
― Vai ser só um dia tarde. Nos outros, o encontro é mais cedo. Vá neste endereço sozinho, mas não conte a ninguém. Precisa manter sigilo.
― Sozinho não posso.
― Tudo bem. Eu te pego.
Fábio não demonstrou nenhuma desconfiança. Para ele, Fernando era uma pessoa legal. E como era viciado em games, não perderia essa por nada; mesmo escondendo da mãe aonde iria.
Fernando chegou em casa. Angela e Nandinha não estavam. Melhor assim pois não queria interrupções. Abriu o notebook e foi conversar com Juca.
― Pronto. Está feito.
― OK.
― Vai machucá-lo?
― Só um corte leve. Mas ele vai sangrar.
― Não quero problemas.
― Sem problemas.
Fernando fechou o notebook e aguardou o dia seguinte chegar.
...
SÁBADO, 30 DE OUTUBRO DE 2010
Fernando aguardava Fábio fazia uns vinte minutos. O rapaz teve que sair de casa, ir para a periferia para esperar o “amigo”. A rua era uma travessa sem saída e deserta. Teve medo de ser assaltado, mas não conseguia entrar na casa de alguém que ele achava ser inferior.
― Estou pronto para o “batizado”. O ruim que o centro da cidade é meio longe daqui, hein? Tive que falar pra minha mãe que ia dormir na sua casa. Tem algum problema?
― Não. A minha casa é espaçosa mesmo. Minha mãe vai te adorar.
Fábio e Fernando ficaram aguardando na parada de ônibus. Um gol prata parou na frente deles.
― Entrem ― disse Léo ao volante.
― Vamos ter uma noite cheia ― disse João.
Eles entraram no carro e foram ao seu destino. Fábio nem desconfiou que estava indo para um caminho onde mudaria completamente a sua vida. Fernando mantinha-se indiferente.
― O que vamos fazer? ― perguntou Fábio.
― Você já vai saber. Relaxa ― respondeu João.
O carro parou em frente a um depósito abandonado. Como era à noite, a rua estava praticamente morta. Nenhuma pessoa passava naquele momento.
Fábio desceu do carro assim como os outros. Observou o lugar, estranhou, mas Fernando garantiu que era só uma fachada. A vítima aceitou a conversa fiada do falso amigo.
João abriu a porta de ferro e mandou todos entrarem. Fechou. Ele foi na frente e os três logo em seguida. Passaram por um longo corredor até chegarem num grande depósito onde estavam restos de madeira, mobílias antigas, etc. Caio, o barbudo, ficou em pé esperando por eles.
― Bem-vindo. Negro de bosta.
― O que é isso, Fernando? ― Fábio viu uma possível armadilha. Isto porque viu a suástica em toda a parte. ― Vocês são skinheads?
Léo deu um golpe com um pau na cabeça de Fábio. Este desmaiou na hora.
Fábio acordou do desmaio. Percebeu que estava amarrado numa cadeira e amordaçado. Viu os cinco reunidos na sua frente. Um rapaz caucasiano se aproximou dele.
― Você deve ser o Fábio. Desculpa por essa recepção nada ortodoxa, mas é que o nosso grupo só faz parte dele quem é branco. Os pretos e mestiços não têm vez. Para nós as outras raças são refugo. Deu pra entender? Não é nada pessoal. É só que os superiores não podem se misturar com os inferiores.
Fernando assistia de longe.
― Caio, Léo e João. Comecem o ritual.
Juca mandou, os três obedeceram. Pegaram um frango preto, cortaram-lhe o pescoço e o sangue derramaram ao redor de Fábio. Juca segurava um canivete enquanto assistia ao ritual. Acenderam velas vermelhas, quatro delas ao redor da vítima.
― Ora, ora, o que é isso no seu bolso? ― Caio pegou a carteira de Fábio e viu o retrato da sua mãe e do irmão. ― Olha isso, Juca.
― Olha só. Uma família preta. Eu tive uma ideia.
Juca aproveitou e confiscou o celular de Fábio. Viu o número da mãe dele.
― O que está fazendo?
― Fernando, relaxa. Eu vou matar três coelhos com uma cajadada só. Chamarei a mãezinha do negão.
Fernando ficou nervoso, pois esse não era o trato.
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