Dizem que a nossa vida inteira passa diante dos nossos olhos quando estamos prestes a morrer.

Comigo não. Não consegui pensar em nada quando abri a porta e vi o Coringa. Não consegui pensar em nada quando a bala atravessou a minha coluna. Não consegui pensar em nada quando meu corpo bateu no chão da sala de estar e meu sangue espirrou para todos os lados. Eu só conguia sentir, o frio, o medo, a escuridão.

Acordei no hospital 15 dias depois. Recordo do sembante do meu pai, era de frustração misturada com tristeza. Ninguém precisou me dizer, logo depois de recobrar os sentidos, era evidente para mim que eu estava paraplégica.

Mesmo naquele estado, eu tinha que ser forte. Forte por mim e forte pelo meu pai também. Mas, só tinha uma coisa em que eu conseguia pensar: "Como continuar a viver depois disso? Como continuar a viver depois que você encara o mau tão de perto e sai com tantas cicatrizes?". Acho que você só continua vivendo.

E eu continuei vivendo. Continuei vivendo quando conseguir sair da cama do hospital para cadeira de rodas. Continuei vivendo quando consegui sair do hospital e voltar para casa. Continuei vivendo quando me tornei a Oráculo. Continuei vivendo, mesmo quando a chance da minha recuperação era ínfima. Continuei vivendo, mesmo quando as sessões de fisioterapia doíam e meu corpo queria ceder. Continuei vivendo depois da minha cirurgia de reconstrução de ligação neural.

Recuperei o movimento das pernas, graças à um tratamento de última geração bancada por um doador "anônimo". Eu não culpo Bruce pelo que aconteceu comigo. Ele agiu da maneira correta, levando o Coringa à polícia. É quem o Batman é. Matar um criminoso não significa fazer justiça. E eu nunca me perdoaria de ver Bruce com sangue em suas mãos por minha causa.

Algumas noites, quando fecho os olhos, sonho que eu e o Coringa estamos no enfrentando no topo de um dos prédios de Gotham. De repente, meu chute o derruba e rapidamente, minhas mãos dirigem-se à sua garganta e eu a aperto. Ele gargalha, sua risada cada vez mais alta e em reposta eu aperto seu pescoço cada vez mais forte e mais forte até que... a campainha da minha casa toca e eu me dou conta que não estou usando o manto e a campainha toca novamente, involuntariamente atendo a porta e então, vejo aqueles olhos que, não refletem absolutamente nada, só escuridão. Então ele sorri e atira em mim. Caio no chão, me contorcendo de dor e ouvindo sua risada ao fundo. Subitamente, acordo sobressaltada, suando frio e com medo. Não sabendo ao certo qual parte do sonho mais me aterroriza.

Eu mudei. O que eu passei me obrigou a mudar. E agora, mesmo dois anos depois do que aconteceu, não sei ao certo quem eu sou. Barbara, Oráculo, Batgirl? A única coisa que sei é que sinto falta de estar nas ruas, de sentir a brisa gelada de Gotham no topo dos edifícios, de passar horas em vigia, de impedir assaltos, perseguir ladrões de banco e de ajudar as pessoas.

O manto está ao meu alcance, mas por quê não consigo vestí-lo? Será que não me serve mais? Será que eu ainda sou a Batgirl? E se eu for, não serei mais a mesma Batgirl de antes.

Eu olho para baixo do topo de um prédio e vejo a minha cidade. A cidade que me tirou tanta coisa, que me fez tanto mal. Mas que, também me deu tantas coisas boas também, tantos momentos de felicidade. Se eu continuo aqui, é porque eu tenho fé em Gotham, fé nas pessoas de Gotham. Só não sei se tenho fé suficiente em mim.

Neste exato momento, só existe uma certeza: "Eu estou viva."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.