B Division

1 Aprendiz


Notas iniciais
Olá!
Primeiramente, quero dar as boas vindas ao pequeno mundo criado por mim. As histórias que vocês encontrarão nesse capítulo e nos seguintes, contam não somente feitos heroicos. Em síntese, essa é uma história sobre pessoas.

Espero muito que você goste e faça parte dessa aventura que vai ser B Division. ^_^

Aprendiz

A decisão de relatar os fatos por mim vividos, não partiu propriamente da minha vontade de documentar as aventuras da Ordem. Ao final de toda a jornada que vocês passarão, irão entender bem o porquê deu querer encerrar qualquer tipo de relação com todos os aqui mencionados.

De qualquer maneira, me encontro num impasse. É difícil contar como tudo aconteceu, até porque eu não estava presente com os cinco times durante a época do Império. Tentarei relatar com a maior precisão possível todas as histórias que ouvi de meus mentores e juntar ao que sei através do conhecimento comum dos cidadãos de Ul’daar. Como diria Henry, a história precisa ser passada.

Aproveitando a menção do seu nome, é válido dizer que é essa pessoa que será o ponto de partida de nosso conto. Henry, o bruxo das leis, dono da Excalibur, e domador de criaturas mágicas. Mas, antes de se tornar uma peça importante no tabuleiro da grande guerra. Henry era apenas um aprendiz...

Tudo começou há vinte e cinco anos. Naquela época, o mundo não imaginava que tantas transformações estavam por vir. O Império ainda reinava sobre todos, os piratas ainda se uniriam debaixo de um só estandarte e ninguém acreditava em fadas. Lazul era a metrópole imperial no continente de Ul’daar. Diversas colinas nivelavam a cidade, deixando as partes mais altas para a nobreza, e as mais baixas para os pobres.

A cidade era cercada por uma cordilheira de montanhas, tão grandes que serviam como uma defesa natural. O céu era como o mar, de um azul tão vasto e límpido que atraía olhares de pessoas a todo o tempo. E tudo era tão verde que confortava o coração dos moradores da cidade.

Lazul, era também, o lar dos romances. O local perfeito para namorados. Diversas histórias de amor nasceram abaixo das nuvens que cobriam a cidade. Uma delas, era a história de Lynda e Fenris.

Lynda era uma mulher comum. Trabalhava como comerciante em um dos distritos comerciais de Lazul. A jovem moça vendia laranjas, o que a fazia famosa pelo gosto delicioso de seus frutos. Fenris, era Marechal da Armada Imperial. Um dos líderes de alto escalão. Os dois se conheceram em um festival de apreço às estrelas, onde tiveram a primeira e única noite de amor de suas vidas. Noite essa, que gerou um fruto para os deuses.

Henry foi muito amado por sua mãe, mas era um empecilho na vida de seu pai. Fenris nunca teve como intenção, se casar com Lynda. E para alguém com sua patente, um bastardo era uma espécie de escândalo.

— Nunca, na vida, você vai deixar alguém saber da minha relação com o garoto. — Havia sido uma das ameaças do Marechal para a moça.

E surpreendentemente, Lynda havia se mostrado mais forte do que aparentava. Ela reagiu muito bem àquele tipo de situação.

A mulher cuidou de seu filho tão amado por sete anos sem a presença do pai. Enquanto os vizinhos sempre foram solidários com a situação da moça, sempre ajudando com tudo que podiam, Fenris mandava apenas dinheiro e qualquer coisa que a criança chegasse a precisar.

Henry cresceu como um menino saudável, mas, pequeno e extremamente desajeitado. Não era nada como seu pai. Uma das histórias mais famosas, é a de certa vez, quando estava brincando com outras crianças, explorando uma das cavernas que se encontravam nas montanhas da cidade, havia caído e ficado preso num buraco. Por até seu choro ser fraco, perdeu dois dias de sua vida com pequenos soluços de socorro dentro de uma enorme caverna. Ninguém o encontrava pela dificuldade de ouvir seu choro, e o garoto era fraco demais para tentar escalar o buraco. Sua única salvação, foi a agilidade de uma de suas amigas não desistir de acha-lo apesar de sua idade.

A pequena garota de cabelos vermelhos ficaria para sempre no coração do pequeno desajeitado.

Mesmo nunca participando ativamente da vida de seu filho, Fenris tinha um interesse em saber como o garoto se saía na vida. Mandando diversos espiões cuidarem de seu filho e vigiar seus movimentos, o marechal ficava cada vez mais decepcionado com seu progênito.

Sua preocupação tinha um motivo. Naquela época, todos os jovens de 17 anos deveriam se apresentar ao exame de admissão para a guarda imperial. Não servir à Armada, era um ato de desonra.

Um filho do Marechal cometendo tal gesto... definitivamente não seria bom para a imagem pública de Fenris.

E conforme o perigo também se aproximava do Império, numa noite onde tudo deu errado, a oportunidade de arranjar um destino para seu filho surgiu. Naquele dia, o menino tinha apenas sete anos.

— Olha no que você está transformando essa criança. — O homem robusto dizia, enfrentando com uma certa dureza as lágrimas de protesto da mulher que fora sua por uma noite.

— Como você pode me pedir para abandonar meu próprio filho?! — Lynda rebatia com descrença o pedido do pai de seu filho.

— Eu digo isso para o bem do garoto. — Fenris aproximou-se da mais jovem, colocando as mãos em seu rosto da mesma forma tenra que fizera há sete anos atrás. — O país vai passar por algumas dificulda...

Mas foi expressamente interrompido pela moça, que se desvencilhava de seu toque.

— Não venha com essa para cima de mim! — Exclamou Lynda em fúria. — Você faz isso para o seu bem. Você faz isso por você, não pelo menino.

— Eu não precisaria se você... — Mas antes de começar outra discussão, o marechal achou melhor se calar.

— Se eu o quê? — Perguntou a mulher. — Diga.

— Eu não precisaria intervir pelo menino se você não tivesse o transformado numa donzela frágil.

Olhando com descrença para as palavras que haviam saído da boca do pai de sua criança, da melhor coisa que já tinha acontecido em sua vida, Lynda se sentiu traída.

— Saia dessa casa imediatamente. — Era a decisão final da mulher. — Nunca mais chegue perto do Henry novamente. Ele não tem pai. Você não é ninguém para ele.

— Lynda, não crie caso com isso. — Começou a dizer o mais velho.

— SAIA DESSA CASA! — Gritou a mulher em fúria. Em todo o tempo que conviveu com a mesma... não, em todo seu tempo como Marechal... aquela foi a única vez em que alguém aumentava o tom de voz para dirigir-lhe a palavra.

E enquanto saía da pequena casa com porta amarela do distrito comercial, Fenris sentia-se frustrado. Não por não ter sido escutado, mas, porque na primeira vez em anos, a ideia de cortar relação com Lynda... com seu filho, o assustava.

Do lado de fora, na grande rua movimentada, havia várias cabanas com diferentes produtos à venda. O marechal dirigiu-se à pequena praça que ficava no centro do distrito, elegantemente decorada com uma fonte. Precisava de um local onde pudesse pensar tranquilamente, e todas as pessoas andando ombro a ombro deixava-o com uma péssima sensação.

Ao chegar no local desejado, sentou-se em um banco cruzando sua perna para ajudá-lo a pensar. Passava os olhos pela vizinhança até encontrar um grupo de crianças brincando com espadas de madeira.

Seu filho, estava lá.

— Agora! — Um menino gorducho que aparentava ser o mais velho entre os garotos narrava a brincadeira. — Serena contra Henry.

Por algum motivo, as crianças explodiram em risadas ao ouvir o nome do último. O que irritou ainda mais seu pai, que observava tudo à distância.

A cena que presenciava era completamente estranha. A menina chamada Serena era mais homem do que seu filho poderia pensar em ser na vida. Não que na Guarda Imperial não existissem mulheres, pelo contrário. Mas em geral, as mesmas ocupavam os lugares de suporte nos times, como clérigas ou no máximo, caçadoras, munidas com arco e flecha. Existia um pequeno grupo conhecido como “As Gladiadoras”, mulheres que não ligavam para sua aparência ou feminilidade, se dedicavam ao uso de lanças e espadas.

Serena, seria sem dúvida uma gladiadora.

Sua postura de batalha era surpreendente para uma criança. Segurava a espada com suas duas mãos enquanto seu corpo permanecia curvado. Suas pernas estavam com o espaço ideal de distância, e enquanto circulava o menor com quem lutava, parecia uma pantera. Pronta para atacar a qualquer momento, apesar de seus longos cabelos vermelhos não demonstrarem isso.

Já o garoto, era completamente oposto.

Henry movia-se tremendo e segurava a espada com um certo medo. Seus pés estavam juntos e o garoto fazia enormes intervalos entre cada passo seu.

Quando todos menos esperavam, Serena saltou em direção ao garoto. Batendo na espada de madeira do mesmo.

Era óbvio que a garota estava pegando leve com ele.

— Vamos Henry! — Disse a menina. — Primeiro o direito e depois o esquerdo, como eu te ensinei. — Serena sorria para ajudar seu amigo.

E vendo aquele ato de humilhação, o Marechal levantou para sair daquele local imediatamente. Lynda era o motivo da fraqueza do garoto, e se não agisse rapidamente, seu filho não teria outro destino se não a morte.

Infelizmente, seria naquela mesma noite que a oportunidade de achar um futuro para o seu filho surgiria.

Veja bem, a família real de Santoria cultivou inimigos por todo o continente de Ul’daar. Como de costume, nesses casos, Lazul, a cidade imperial, estava sempre a mercê de ataques inimigos. Principalmente naquela época, quando estavam com relações diplomáticas estreitas com o país vizinho, os Falstad.

Fenris sentava-se sobre sua mesa analisando um mapa da cidade e de seus arredores. O quarto do general ficava no último andar da torre oeste do palácio. Suspirava enquanto não encontrava nenhuma solução viável para sair daquela situação.

— Seria tão mais fácil se ela me entregasse o menino. — Suspirou, passando a mão em sua testa logo em seguida. Se conseguisse a guarda da criança, colocaria em algum orfanato ao leste, onde pelo menos pudesse estudar e estar a salvo do combate que atingiria a capital. Mas sem a contribuição de Lynda, sair com o garoto de Lazul seria impossível.

Claro, em última instância, ele iria atrás da outra para pedir ajuda. Seu filho poderia ser um combatente. Mas somente a ideia de pensar nos planos torpes que a mulher colocaria o menor...

E então, para atrapalhar seus pensamentos, ouviu batidas desesperadas na porta de madeira de seu quarto.

— Marechal Fenris! — A voz assustada de alguém chamava por seu nome. — Senhor, por favor, abra a porta.

Rapidamente, se levantou e abriu a passagem para encontrar um recruta qualquer, sem uniforme, com as pernas tremendo na entrada.

— O que houve? — Sua voz era firme e forte. — Por que está assim?

— E-estão pedindo sua presença nos jardins senhor. — Disse o recruta com um pouco de dificuldade. — A cidade está um caos, estamos sobre ataque.

Apressadamente, Fenris empurrou o jovem para um lado e saiu em direção ao jardim. Não estava fardado, usava um gibão e calças de tecidos finos, ambos com as cores da bandeira. Vermelho e dourado. Não importava que a vestimenta não era adequada para um encontro oficial, mas também, as circunstâncias não eram nem um pouco adequadas.

Enquanto corria pelos diversos salões e corredores do grandioso castelo, percebeu o motivo que levara a cidade ao afoito. Uma grande estrela negra pairava sobre o céu de Lazul. Era de uma escuridão indizível, um amálgama entre preto e roxo, e ao mesmo tempo, igualmente medonha.

A estrela parecia se aproximar em direção à cidade, com a premissa de destruir tudo o que tocasse.

Também, haviam Grifos de ébano voando por todo o lugar. Centenas deles. Todos montados por alguma espécie de cavaleiro. Alguns, eram magos que lançavam bolas de fogo por onde passavam, outros, arqueiros que tentavam matar o que estivesse no caminho. Todos os animais portavam um estandarte com as cores e o brasão dos Falstad.

Um corvo preto num fundo amarelo.

Enquanto Fenris atravessava um dos pátios que seguia para o jardim, percebeu que um cavaleiro tinha sido ousado o suficiente para se aproximar do castelo. Não pensou duas vezes. Correu em direção a um dos ornamentos do pátio. Uma armadura completa segurava uma lança, seu par, estava do outro lado do grande portal que levava para algum salão de visitas. O marechal desprendeu a lança de um dos enfeites e aguardou o momento certo.

O estúpido cavaleiro de grifo havia retornado. Enquanto fazia uma curva nos céus, a oportunidade perfeita havia surgido.

Depois de atirar a lança, Fenris voltou em direção ao caminho que prosseguia, ouvindo um grande baque no pátio. Que teve suas flores banhadas pelo sangue de um animal e de seu dono.

Ao chegar no jardim, Fenris começava a transpirar, mas a emoção apenas o estava deixando preparado para o resto da noite. Muitos dos soldados que estavam reunidos nos jardins, nunca haviam presenciado um combate de verdade. Eram jovens, jovens que se dedicaram ao treinamento desde sua data de admissão à Armada.

— Fenris! — Uma voz familiar exclamou seu nome. — Graças aos deuses você chegou!

— Majestade! — O marechal se assustou com a presença do rei naquela locação. Prontamente, se ajoelhou perante seu líder.

— Ora, pare! — Ordenou o rei, levantando-o pelo ombro. — Não é hora para essas formalidades.

— Vossa majestade... — Disse o homem perplexo. — Me desculpe perguntar..., mas, por que o senhor está aqui? Deve se retirar para o abrigo imperial imediatamente.

— Não! — Disse a autoridade. — Precisamos de um plano para evacuar a cidade. Precisamos salvar Lazul meu caro, não vou esconder minhas costas enquanto meu povo sofre nas mãos vis destes... enviados do quinto inferno.

— Mesmo assim, senhoria. — Disse Fenris, tentando manter o controle da situação. Seu rei estava se expondo de maneira desnecessária. — Alguns deles já se atrevem a sobrevoar o castelo. Você está em perigo.

— Eu só saio daqui quando você tiver um plano decente para salvar os cidadãos do Império, senhor. — O tom do mais velho se acentuou na última palavra. — Com o devido respeito.

Respirando fundo para não perder o controle, o comandante apenas deu um sinal para o Imperador lhe seguir.

Não muito tempo depois, uma mesa foi improvisada no meio dos jardins floridos do grande palácio. Ao redor do objeto, o marechal sentava-se em um extremo, enquanto o imperador ocupava o outro. Dois outros soldados de alta patente presentes no local, também ocupavam os outros lugares restantes. Um aparentava ser uma espécie de mago e o outro... era uma das Gladiadoras. Hilla.

A mulher aparentava estar extremamente furiosa com toda a situação.

— Malditos. — Praguejava. — Espero que queimem no cultuado inferno deles.

— A fé não ajuda aqueles que amaldiçoam seus semelhantes. — O sacerdote bradou.

— Devo concordar com a mulher. — Rangeu o marechal. — Somente a fé não nos salvará daquela calamidade que cai dos céus.

— SENHORES! — Urrou o rei de seu lugar. — Estamos sem foco no presente problema apresentado. Precisamos de uma forma de salvar os civis de Lazul. Qualquer ideia no momento é bem-vinda. Deixemos as discussões ideológicas para melhores momentos.

— A melhor defesa é claramente o ataque. — A Gladiadora foi a primeira a abrir seus grandes lábios para falar. — Devemos concentrar todos os nossos esforços em queimar o flagelo dos Falstad.

— E deixar os civis morrerem? — Repreendeu o sacerdote. — Isso é uma atrocidade. Primeiro levamos os cidadãos para a catedral e depois podemos pensar num modo de contra-ataque.

— É um plano óbvio demais. — Fenris disse. — Eles queimariam a catedral num segundo. Qual a situação dos distritos no momento?

— O ataque deles não começou há muito tempo. Os moradores se reúnem nas praças de cada distrito, alguns sobem as escadas para o castelo em busca de refúgio. Nossos batedores reportam que o inimigo tem uma base instalada próximo as nossas montanhas. — Hilla estava bem informada da situação. O que deixava o marechal com vergonha de si. — Por algum motivo, os grifos estão apenas sobrevoando. Acho que eles esperam a destruição da estrela para começar seu ataque.

— Então é óbvio o que deve ser feito. — Rebateu o rei ao terminar de ouvir a moça.

Todos os três oficiais olharam para seu senhor atrás de uma resposta.

— Tragam todos para cá. — Foram as ordens do Imperador.

Os três comandantes se dividiram para cada distrito. Sua tarefa era simples. Buscar todos os civis e escolta-los ao castelo. Para isso, recrutaram todos os soldados disponíveis em times diferentes.

A verdadeira batalha aconteceria depois.

Fenris ficou responsável pelo distrito comercial, Hilla pelo distrito rural, e o sacerdote pelo distrito da nobreza. A única esperança do marechal, era a de poder salvar seu filho e Lynda.

E então, tudo foi por água abaixo.

Enquanto reunia os cidadãos sob a praça onde as crianças brincavam naquela manhã, o oficial descobriu que não era plano dos Falstad esperar.

Diversos grifos desceram em direção de Fenris e as pessoas que ele tentava salvar. Criando um misto de confusão e medo generalizado.

Os cavaleiros montados começaram a atacar os moradores de Lazul. Alguns magos atiravam mais bolas de fogo nos edifícios e no centro. Começando um verdadeiro incêndio.

— Abaixem-se! — Gritou o oficial. Mas não havia maneira, aquelas pessoas morreriam.

E então, seus olhos passaram de relance, pela mulher loira que segurava seu filho pela mão. Henry chorava enquanto tentava fugir com sua mãe para algum lugar seguro.

— TODOS PARA O CASTELO! — O grito dessa vez foi maior. — RÁPIDO!

A comoção de civis correu pelas ruas, cidadão atrás de cidadão num caos incansável para salvar suas vidas.

O marechal foi em direção ao seu filho, pegando o menino no colo rapidamente. Lynda desatou em lágrimas ao ver o homem que um dia amou, realizando aquele gesto com o garoto.

Se aproximou ainda mais da mulher que já o abraçava. No meio de toda a fuga, alguma coisa ligava a alma dos três ali presentes. Fenris deu um beijo na mulher, um beijo tenro, mas carregado de desejo.

— Salva o nosso menino. — Pediu a mulher. — Você sabe que a cidade não está mais a salvo. Leve-o para longe daqui.

— Você quer que eu abandone meu posto? — Perguntou o homem, descrente.

O posto que deu a vida para obter, a posição de prestígio que sempre quis... E mesmo assim, o posto que o separou de seu filho e de sua amada por toda a vida.

Apesar de tudo, ele sabia o que fazer. Só se negava a acreditar que tudo que havia feito tinha sido... por nada. Mas para abrir mão de tudo que uma vez conquistara, bastava uma palavra da mulher.

— Eu quero que você salve sua família. — Os olhos de Lynda ainda estavam cheios de lágrimas.

Fenris deu mais um beijo em sua mulher.

— Eu vou... — Suspirou, e pela primeira vez em anos, sentiu lágrimas em sua face.

O número de mortos foi chocante.

Para ser mais preciso, o Distrito Comercial inteiro havia sido derrotado. Ao passo que Hilla e o sacerdote desempenharam bem a sua função como salvadores do reino, a verdade sobre o Marechal Fenris permaneceu em segredo por anos.

O homem que passou sua vida em busca de glória, teve que escolher entre liderar centenas de civis à salvação, ou ter uma chance verdadeira de salvar seu filho.

Seria muita ironia o mesmo ter passado a tarde buscando uma maneira de fugir com sua criança de Lazul? Talvez.

A verdade era que por mais difícil que fosse admitir, um pai sempre tem sentimentos por seu filho. E com Fenris não seria diferente.

Não foi muito difícil fugir pelas muralhas com o garoto em seu colo. A única parte complicada, era tentar acalmar o menino que protestava sobre ter deixado sua mãe para trás.

Mas para onde estava indo, não podia arriscar de levar Lynda.

Se os deuses estivessem do seu lado, a mulher estaria viva para reencontrar seu filho depois. E então, descobrir a verdade sobre o passado do general.

Ao Leste de Lazul, uma grande floresta se estendia pelo resto do reino. A Floresta Negra atraía diversos curiosos atrás de mitos e lendas sobre seu conteúdo. Era o lar de lobisomens e fantasmas. Mas em especial, era o lar de uma bruxa.

Era o lugar do passado vergonhoso do homem que andava através das árvores com o filho em seu colo.

O caminho ainda lhe era familiar. Andava como há vários anos atrás. Quando foi atrás da mulher que residia em um bosque no meio da Floresta Negra.

Seu filho já havia parado de brigar. O cansaço que toda a situação provocou na criança era esperado. Sua cabeça repousava em seu ombro direito, e a respiração era calma.

— Vou partir sem você ao menos saber que eu sou seu pai? — O homem ainda chorava desde a despedida de sua esposa.

— Quer dizer que esse é o motivo da sua repentina aparição em meu domínio? — A voz doce e sensual fez seus pelos se eriçarem. Ela estava ali em algum lugar.

— Blair! — Exclamou. — Apareça.

— Ora ora... — Disse a mulher ignorando seu apelo. — Será que o poder subiu à sua cabeça? Onde estão seus modos.

A cada palavra pronunciada pela mulher, sentia um calafrio. Seria certo...

— O que você realmente quer aqui? — A voz continuou a dizer.

— Eu tenho uma proposta a você. — Respondeu. — Tem a ver com o menino.

À uma distância levemente razoável, dois olhos se materializaram e começaram a se aproximar. Por instinto, Fenris recuou em alguns passos. Mas então parou. Sabia que a bruxa não o causaria mal.

A mulher era perfeita.

Seus traços eram perfeitamente delineados, usava um vestido perfeitamente púrpura, tinha olhos perfeitamente redondos e um perfeitamente grande chapéu, da cor de seu vestido. Suas unhas eram grandes e púrpuras.

Ao se aproximar do homem, estendeu os braços para abraçar seu antigo conhecido. As enormes mangas de seu vestido se estenderam no ato.

Fenris reafirmou em sua mente, o fato de estar negociando com uma bruxa. Mas não seria a primeira vez. E o gesto da outra, apenas o provava que estava falando com a pessoa certa.

— É um bom menino. — Disse a bruxa. — Consigo sentir grandes feitos em seu futuro.

— É meu filho. — Confessou o homem.

Blair olhou a criança com um espanto.

— Céus! — Exclamou depois de um tempo. — É uma aberração. — E dizendo a última palavra, desatou a rir.

— Vejo que o tempo não amoleceu seu coração. — Fenris disse com certo desprezo.

— Para me tornar como você? — Desdenhou a bruxa. — Deuses... não, muito obrigado. Prefiro a tristeza de uma vida em solidão do que me transformar nisso.

— Você quer o garoto? — Perguntou o homem, indo direto ao ponto da conversa.

— Para quê? — Perguntou a mulher surpresa. — Não desejo macular minha alma com sua essência.

— Eu não quis dizer isso. Não quero que você o coma. — Disse o homem cuspindo as palavras. — Quero saber se você o deseja como aprendiz.

A mulher olhou para o marechal com uma certa descrença.

— Isso é algum tipo de piada? — Perguntou.

— Não. — Respondeu o homem. — A queda do Império começa hoje. O menino é fraco por... você sabe o porquê. Ensine magia para ele. Faça ele ser como você. Ele precisa saber sobreviver no futuro.

— E em troca? — A bruxa não estava interessada. Mas queria saber o que impulsionava o homem a fazer tal proposta.

— Minha alma.

A mulher explodiu em risadas. Fazendo um gesto com o braço direito, fez surgir um pergaminho no ar.

— Sua alma já é minha, meu amor.

— Sim. — Comentou. — Mas em 100 anos. Eu estou te oferecendo uma chance de adiantar seus planos.

— Eu não estou interessada. — Comentou, desmaterializando o contrato.

— Por favor. Você é a única... — E percebeu que o que falaria era somente a verdade. — A única que pode dar uma vida para ele.

— Entregue-o à meretriz que lhe concebeu. — Disse a bruxa, repetindo o mesmo movimento, mas, dessa vez, materializando uma vassoura. — Não é problema meu.

Vendo sua última chance de salvar seu filho começar a ir embora, decidiu usar a última carta que tinha em mãos. Blair já começava a voar.

— Eu te falo o que descobri sobre a esmeralda.

A última frase a pegou de perplexo. A mulher se levantou em sua própria vassoura. Um de seus pés descalços tocavam o início do cabo, outro, a cauda de palha.

— Está blefando. — Foram as palavras da mulher. — Você não sabe nada sobre a esmeralda.

— Vai arriscar? — Disse o homem com um sorriso cínico em seu rosto.

A mulher desceu para olhar o marechal nos olhos. Novamente, movimentou seu braço como da primeira vez.

Um novo contrato surgiu no ar, dessa vez, acompanhado de uma pena.

— As informações E sua alma. — Sorriu a bruxa.

E sem hesitar, o homem assinou com o braço que tinha livre.

Blair ficou parada enquanto o homem andou em sua direção, sussurrando a valiosa informação em seu ouvido.

— Você mente. — Foi a resposta da bruxa sobre o que lhe foi dito.

— Minha alma é sua agora. — Disse o homem. — Você vai saber se é ou não verdade.

A mulher estendeu seus braços.

— A criança.

Fenris depositou seu filho com todo cuidado possível nos braços da bruxa. Selando os lábios na testa do garoto. Era seu último adeus.

— Cuide dele para mim. — Disse, com lágrimas em seus olhos.

A bruxa acenou com a cabeça enquanto uma lâmina branca foi materializada ao seu lado. Era uma adaga comum, mas que emitia alguns sons.

— Está pronto? — Perguntou a bruxa, pegando a adaga com sua mão livre.

O marechal acenou com a cabeça. E disse um singelo “Obrigado”.

E então, a mulher estacou o pequeno objeto no coração do homem. Que então, foi absorvido pela lâmina.

— Se o que seu pai disse é verdade... — Começou a dizer a bruxa. — Você deve ser mais que um mero aprendiz.

E então, perfurou a testa do menino com a mesma adaga.

~ / ~

10 anos se passaram depois daquele fatídico dia. Desde a queda da estrela negra.

E nesses dez anos, Henry cresceu como um menino mais forte e sábio com o conhecimento adquirido com a bruxa.

Foi o tempo suficiente para a população de Lazul se reconstruir. Henry voltava a cidade uma vez por trimestre, para fazer alguns favores para sua nova senhora. Depois de ver o nome de sua mãe na lista dos mortos, evitava o máximo passar perto do reconstruído Distrito Comercial.

Blair percebeu-se criando um laço com o garoto, que a via como uma segunda mãe. A mãe que não desistira dele, o pai que nunca chegou a conhecer.

E agora, era um homem de 17 anos.

Se despedia de sua segunda mãe com um forte abraço.

— Mostre aos imperiais o que é magia de verdade. — Disse a bruxa tentando segurar suas lágrimas.

Memórias festejavam pela cabeça do garoto. Não podia negar que tivera uma outra vida ao lado de Blair. E os resultados de anos de treinamento, seriam vistos a partir daquele dia.

— Eu vou. — Foi tudo que conseguiu dizer, sem se separar da mulher. — Você vai ouvir muito de mim ainda.

Sorrindo, desprendeu-se de sua mentora.

Com um movimento de seus pulsos, pegou uma vassoura no ar. E como sempre preferira, ficou em pé sobre o objeto.

— Adeus! — Acenou para a bruxa. — Eu volto sempre que der.

Apontou com seu dedo para a cauda. Que disparou a vassoura em direção à capital.

Sorrindo, Blair viu seu menino partir. Henry segurava seu grande chapéu azul para o vento não levar. À distância, sua capa, também azul, balançava no céu, e seu gibão amarelo já perdia a cor.

A mulher virou-se para sua cabana e deu um longo suspiro. Sua tarefa estava feita. Agora, só restava outro problema.

— Apareça. — Disse a mulher para o nada. — Não é nada mais que justo você aparecer depois de quase dez anos.

E de um canto da casa, uma sombra se materializou.

— Então você sabia da minha existência. — A voz do espectro era sombria, assim como sua aparência.

— Mas é óbvio. — Disse a bruxa. — E eu também sei de seus propósitos. Eu quero é te fazer um único pedido, para que eu não tenha que te matar embaixo do meu próprio teto.

— O que você quer? — A assombração perguntou sem hesitar. Ela, melhor que ninguém, sabia como a bruxa poderia ser perigosa.

— Cuide do garoto. — Foi a resposta da bruxa.

Notas finais
Espero que tenha gostado!
Quer saber mais sobre a história? Quer criticar? Quer mandar um oi? Deixe seu comentário! :)

O próximo capítulo sai dia 18/10/15 e se chama "Demônio Escarlate". Espero que estejam ansiosos.

AH! Feliz dia das crianças! ^_^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.