Bíblia dos Contos Proibidos.
14 O Mistério da Lua de Sangue
A cidade de Serravista estava acostumada com a rotina. Casas de pedra com telhados vermelhos aninhavam-se nas encostas, ignorando o castelo em ruínas no topo do morro, um lembrete silencioso de tempos mais sombrios. Elias, o jovem aprendiz de relojoeiro, compartilhava dessa indiferença. Seus dias passavam consertando engrenagens e observando o movimento metódico do sol e das estrelas através da janela da oficina.
Naquela noite, porém, a rotina foi quebrada. A lua, cheia e imponente, não exibia seu brilho prateado usual. Em vez disso, pairava sobre Serravista como um globo de cobre incandescente, tingindo o céu noturno de um vermelho doentio.
Um calafrio percorreu a espinha de Elias. Não era supersticioso, mas o pressentimento de algo errado era tão tangível quanto as chaves de fenda em seu bolso. Ele fechou a oficina, a pressa incomum fazendo com que a porta batesse com um baque surdo.
Ao sair para a praça principal, a cidade estava estranhamente silenciosa. Ninguém na rua, as janelas escuras. O medo começou a se instalar. Caminhando pela ruela estreita em direção à sua casa, os sons usuais da noite — o coaxar dos sapos, o farfalhar das folhas — foram substituídos por um vazio opressivo.
Foi então que ele ouviu. Um arranhar. Não vinha do chão, mas de cima.
Elias ergueu os olhos para o castelo em ruínas. A lua de sangue iluminava as paredes decadentes, criando sombras distorcidas que pareciam dançar. A fonte do som, ele percebeu com um horror crescente, vinha do calabouço principal, uma área que, segundo a lenda, estava trancada há séculos.
Seu coração começou a bater descompassado, mas a curiosidade, uma falha de caráter que seu mestre sempre repreendia, o impulsionou para a colina. Ele escalou o caminho acidentado, tropeçando nas pedras soltas, os olhos fixos na estrutura sombria.
Ao se aproximar, o arranhar se transformou em algo mais sinistro: uma raspagem metálica, seguida pelo som inconfundível de uma trava antiga sendo forçada.
Um impulso de razão gritou para ele fugir, para se esconder. Mas, hipnotizado pelo medo e pelo mistério, ele continuou. Escondeu-se atrás de um pilar quebrado a poucos metros do portão do calabouço.
A porta de ferro, enferrujada e pesada, cedeu com um rangido agonizante. Uma figura saiu das sombras. Não era um homem, nem um animal. Era uma coisa: alta, esguia, com uma pele que refletia a luz vermelha da lua em um brilho oleoso. Seu rosto era apenas um esboço de feições distorcidas, e seus olhos... os olhos eram de um branco leitoso e vazio.
A criatura parou, inclinando a cabeça de lado, como se estivesse farejando o ar. Elias prendeu a respiração, rezando para que seu cheiro não o traísse.
Então, a coisa começou a murmurar. As palavras não eram de nenhuma língua conhecida, uma cacofonia de assobios e cliques que ecoava na noite silenciosa. Ao seu redor, a própria escuridão pareceu se adensar, retorcendo-se e ganhando forma.
Criaturas menores, feitas de pura sombra, começaram a rastejar para fora da porta do calabouço, seguindo a figura principal. Um exército silencioso e aterrorizante.
O pânico finalmente superou a curiosidade. Elias fugiu. Desceu a colina correndo, as pedras cortando seus pés descalços, o vento assobiando em seus ouvidos.
Ele não parou até chegar à sua oficina, ofegante e tremendo. Trancou a porta com força, empurrando uma pesada bancada contra ela. Apoiou-se na parede, tentando recuperar o fôlego, o som dos murmúrios estranhos ainda ecoando em sua mente.
Pela janela, ele viu as primeiras sombras deslizarem para a cidade, em direção às casas adormecidas. A lua de sangue brilhava mais forte do que nunca, um farol de um pesadelo que acabara de começar.
Elias sabia que as engrenagens do destino de Serravista haviam acabado de começar a girar, e que a rotina da cidade estava quebrada para sempre. E ele, o aprendiz de relojoeiro, era a única testemunha.
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