Bíblia dos Contos Proibidos.
15 O Eco na Parede.
Antônio era um homem cético. Vivia num apartamento antigo no centro de São Paulo, um prédio dos anos 40 que cheirava a mofo e mistério. O apartamento era pequeno, mas o aluguel era barato, e isso bastava para ele.
O problema começou na segunda semana. Um som. Um arranhar suave, ritmado, que vinha da parede do quarto, especificamente da divisória que fazia fronteira com o apartamento vizinho, o 302.
Arrancar. Arrancar. Arrancar.
No começo, Antônio ignorou. "Ratos", pensou, com um encolher de ombros. Mas os sons persistiram. Eram regulares, pontuais. Começavam sempre à meia-noite em ponto e paravam exatamente às 3 da manhã.
Antônio bateu na parede. O som parou por um instante, apenas para recomeçar, mais alto. Ele reclamou com o zelador, um homem calado e com olhos de peixe morto.
"O 302 está vazio há décadas, Sr. Antônio", disse o zelador, sem emoção. "Ninguém mora lá."
O ceticismo de Antônio começou a ruir. Ele passou noites em claro, sentado na cama, encarando a parede. A sanidade se esvaía com cada arrancar. Não parecia mais um rato; parecia... unhas. Unhas humanas tentando, desesperadamente, cavar a alvenaria.
O clímax veio numa noite de quinta-feira. O som estava insuportável, frenético. Antônio, num acesso de fúria e medo, pegou um martelo e golpeou a parede no ponto exato de onde vinha o barulho.
O gesso cedeu com um baque surdo, revelando não o apartamento vizinho, mas apenas a alvenaria interna. Não havia espaço oco, nem cheiro de decomposição. Apenas tijolos frios e argamassa.
O som parou. Um silêncio absoluto tomou conta do quarto. Antônio ficou paralisado, olhando para a parede quebrada. A exaustão e o alívio lavaram-no, mas uma nova certeza se instalou: o som nunca veio de fora.
Antônio virou-se lentamente, o martelo ainda em sua mão. Ele soube, com uma certeza fria e terrível, que o 302 continuava vazio, mas o som agora vinha de outro lugar.
Arrancar. Arrancar. Arrancar.
Desta vez, o som vinha de dentro. De dentro da sua cabeça. O eco havia encontrado um novo lar.
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