Notas iniciais
essa é a quinta fanfic da série, a anterior se chama "Unmei na Hito"

Eu tinha acabado de retornar ao Japão, de nossa turnê mundial e ainda me sentia estranhamente contagiado por aquele sentimento de êxtase que vinha depois de sair do palco... Eu tinha experimentado aquele sentimento numa proporção muito maior do que já tinha nos meus 34 anos, em quase quinze anos como músico, em onze anos com o the GazettE... Uma coisa era ter conhecimento de fãs da nossa música do outro lado do mundo, outra era ver com meus próprios olhos!

Cada novo país, novo aeroporto, novo show, eu sentia como se tivesse feito a escolha certa... Todas aquelas pessoas, esperando pela nossa chegada, cantando nossas músicas, nossas letras numa língua que não só não era a deles, como era completamente diferente da deles... Tudo aquilo me fazia olhar com ainda mais orgulho para nossa banda e dar ainda mais valor ao nosso esforço, ao nosso trabalho!

Sobre o palco, diante daquela enorme plateia, que esperara horas na fila para nos ver, em todos os países, eu pude tocar o céu! Eu pude compreender minha existência e minhas escolhas como se tivesse tirado uma sombra que cobrira meus olhos... Eu queria tocá-los, abraçá-los, beijá-los, queria trazer todos aqueles fãs maravilhosos comigo pra casa e agradecer aquele carinho e aquela dedicação como eles mereciam!

Como eu não podia, minha melhor forma de agradecer seria me dedicando ainda mais à banda e às nossas músicas! Foi o que eu prometi a mim mesmo, quando subimos no último avião, que nos levaria de volta ao Japão, depois do último show da turnê, desejando de todo coração que aquela felicidade nunca tivesse fim...

Mas quando eu cheguei em casa e encontrei toda a minha vida no lugar em que eu deixara antes de partir, quando vi que por ali nada tinha sofrido aquela mudança, foi como se eu tivesse deixado ali também o meu corpo e estivesse só voltando pra ele também... Foi como quando você é criança e viaja no Natal e depois tem de voltar pra escola... Foi como ser acordado com um balde de água fria na melhor parte do sonho...

Morar ali sozinho, dormir na minha cama, ser eu... Tudo aquilo diminuía aquele sentimento tão gostoso que eu experimentara e aumentava a minha solidão dolorosa... Eu me sentia Ícaro, que experimentara o doce sabor da liberdade, que experimentara o poder de voar, mas vira seu sonho de cera derretendo e caíra do mais alto que tinha atingido, sem conseguir impedir...

E eu ia caindo e caindo e caindo sem parar... Tinha ido até o outro lado do mundo e voltado sem nada, além do sentimento que ficava cada minuto mais oco e mais frágil, sem nenhuma história pra contar... Eu tinha voltado do paraíso sem nenhum pomo de ouro..

Dentro de mim sempre houve um vazio que nada conseguia preencher... Nem mesmo a música, nem mesmo a fama, nem mesmo o the GazettE... Nem a euforia deliciosa daquela turnê conseguira acabar com aquele vazio... E era desse vazio que nascia a solidão que devorava a minha alma, cada dia um pedaço maior... Era uma solidão que me sufocava e eu tinha medo de perecer daquele mal...

Aquela solidão me encarcerava e era por ela que eu me excluía do mundo exterior, sozinho em minha casa... Mas, sem entender por que, se era aquele sentimento experimentado lutando para brotar de novo ou outra vontade desconhecida, eu não conseguia ficar em casa, não naquele momento... Eu precisava andar... Precisava de movimento e de barulho e de pessoas ao meu redor ou ia enlouquecer...

Então, saí. Saí com a mesma roupa com que tinha chegado, com a roupa que tinha viajado de avião. Saí só com a carteira e o celular, sem desfazer as malas ou tirá-las do chão da sala.

Talvez eu quisesse encontrar o sentimento de novo e ele estaria lá fora... Talvez eu quisesse prolongar o êxtase antes de me devolver à realidade... Talvez eu estivesse cansado de me sufocar naquela imensidão vazia que eu arrastava pra dentro de mim e precisasse de ar fresco... Talvez eu estivesse atendendo inconscientemente a um chamado da vida pra que eu começasse a vivê-la plenamente agora que experimentara a felicidade...

Eu não sabia dizer o que me movera, só que movia e com força, quase brutal, pelas ruas cheias de pessoas, cheias de sons, cheias de cheiros... Eu percebia tudo a minha volta como se tivesse aumentado meu poder sensorial a um nível mutante... Sentia meu coração batendo forte como se esperasse que alguma coisa extraordinária acontecesse...

Desacelerei meus passos, eu estava quase correndo no meio da multidão, quase ofegante e tentei imergir num sentimento intangível que encontramos raramente na realidade... Aquele tipo de sentimento que nos faz duvidar se aquilo está mesmo acontecendo ou não, se estamos mesmo naquele lugar ou não...

No processo de diminuir minha velocidade, senti uma mão pequena se fechar em torno do meu pulso e me puxar na direção contrária a que eu estava, me forçando a parar com um solavanco.

Eu me virei para encarar quem me puxava, temendo ter sido reconhecido por alguma fã do the GazettE... Sozinho, no meio daquela multidão, se tivesse sido reconhecido, eu teria muita sorte se voltasse inteiro e vestido pra casa... Mas quem me detinha era uma senhorinha idosa, muito baixinha (menor do que Takanori), com muitos tufos grisalhos entre os fios de cabelo ainda pretos, muito desgrenhados, vestida de uma maneira muito estranha, até mesmo pra mim...

Mas nada me perturbou mais do que a expressão em seu rosto, do que o jeito de seu olhar... Ela não parecia louca, mas tampouco parecia sã... Havia um brilho lúcido em sua íris como se soubesse um segredo inquietante.

— Você busca pelo amor – ela disse, deslizando as pontas dos dedos nodosos sobre a palma de minha mão, cujo pulso ela segurava com força. – Você busca pelo amor e olhou fundo dentro dos olhos dele...

Eu tentei soltar meu braço, mas ela segurou-me com as duas mãos com uma força que eu não acreditava existir em uma senhorinha idosa e baixinha como aquela. Ela foi me arrastando pelo braço pra longe do meio da multidão e paramos na calçada. Seu sorriso e o jeito como me olhava me causavam arrepios.

— O senhor gostaria que eu lesse sua sorte? – ela me perguntou, indicando uma placa de papelão provavelmente retirado do lixo, onde se lia “Yumeko – passado – presente – futuro”.

— Hoje não, obrigado – tentei novamente me desvencilhar, mas ela não permitiu que eu me afastasse.

— Mas o senhor não estava buscando as respostas pra acabar com a sua solidão? – eu arregalei os olhos e ela sorriu.

Fiquei encarando-a, em silêncio e ganhei tempo pra pensar. Eu vivia reclamando que me sentia sozinho o tempo todo. Fosse pelo twitter, fosse às entrevistas que eu dava, as pessoas do lado oposto do mundo também conheciam aquele fato sobre mim.

— Você só me reconheceu – eu lhe respondi. – Só disse isso porque sabe quem eu sou...

— E você sabe quem é? – ela deu risada. – É difícil separar essas duas pessoas dentro de você... Você sabe qual das duas você é hoje?

Eu tornei a ficar em silêncio, tentando não me deixar levar pelas perguntas enigmáticas dela que ela usava pra tentar me confundir..

— Está tentando decidir se está muito velho pra acreditar em mim? – a velha tornou a falar, em tom de zombaria. – Por que não faz assim: escute o que eu vou dizer, sem pensar em verdade ou mentira. Você se lembrará que é uma pessoa que sempre fez seu próprio destino e seguirá seu caminho com uma experiência nova.

— E quanto cobra por essa consulta? – eu tentei parecer estar levando a sério, mas ainda havia ceticismo e desprezo em minha fala.

— O senhor não trouxe muito na carteira – ela respondeu, parecendo divertida. – Eu aceito o que achar que me deve... Só lhe peço pra que não seja de graça, por favor...

Eu concordei em silêncio e ela tornou a pegar minha mão e olhar atentamente para minha palma.

— Tem alguma pergunta que quer que eu responda primeiro? – ela riu baixinho, me encarando e eu duvidei momentaneamente se ela não conseguia mesmo ouvir meus pensamentos em ebulição.

— Falou sobre eu ter... Olhado nos olhos do amor... – disse inconscientemente, sem conseguir conter aquele pensamento preso dentro da minha cabeça e ela sorriu.

— Ah! Aqueles belos olhos azuis – seus olhos voltaram a se concentrar na palma de minha mão e seu torto dedo indicador acompanhou lentamente a linha superior desenhada na metade da minha mão. – Ela olhou pra você, co todo o sentimento que você deseja, olhou tão fixamente pra você, que, se a tivesse puxado, se a tivesse roubado para si, ela largaria tudo por você!

— Onde? Quando? – eu perguntei, perdendo minha descrença.

— Antes da última vez em que esteve aqui – ela me respondeu, enigmática e eu franzi o cenho, tentando entendê-la. – Você esteve longe – a velha recomeçou, num tom mítico – viajou para os confins do mundo... E encontrou sem buscar aquilo que mais procura... Na noite em que o sol nasce...

— Não consegue ser mais específica? – eu pedi, começando a ficar furioso. – perdi a conta das centenas de pessoas que vi no último mês!

Ela voltou a encarar minha mão e seu dedo acompanhou uma linha diferente dessa vez, entre a superior e a inferior.

— Ela estava diante de você... Chamou pelo seu nome e você a viu... Sem palavras, ela lhe jurou amor eterno e repetidamente disse que te amava... Outras pessoas lhe afirmaram a mesma coisa e você sorriu com a pureza daquele sentimento, sem saber que naqueles olhos, azuis como o céu, vive a razão da sua existência...

— Azuis? – eu repeti e ela me olhou, sorrindo e assentiu.

— Sabe quem é ela? Consegue se lembrar de seu rosto?

Forcei a memória e parecia que tinha uma imagem guardada em minha cabeça, pronta pra voltar, mas eram tantos rostos que eu tinha visto que ela simplesmente não conseguia...

— Não – respondi, derrotado e a velha deu risada de meu estado.

— Bom... Mas eu posso afirmar que ela existe e nisso você pode confiar! Existe e sabe quem você é! Até mais do que você mesmo! E o mais importante de tudo: ama você como você deseja ser amado! É nela que encontrará o fim da sua solidão!

Tirei minha mão das dela e lhe entreguei a nota mais alta que tinha na carteira... Se ela dizia a verdade, era outra história, mas conseguira me fazer acreditar... No mundo, realmente existia aquelas coisas que não conseguimos explicar...

— Muito obrigado – agradeci, pensativo e ela me segurou uma vez mais.

— Não se esqueça de olhar para o céu, Aoi-san! – eu assenti e ela deixou uma moeda em minha mão, que não era um yen, era maior, um círculo prata no centro com a borda dourada. – Ela está vindo lhe buscar!

Notas finais
mereço reviews?
a próxima fanfic se chama "Meeting Mari"
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!