Azul

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Tava aqui já tinha um tempo. Meio vaga.

“Eu queria olhar pra cima e ver o céu azul uma última vez”

Seu poder ainda era fraco, mas a dor por ela gerada que acumulavam era visível em seus olhos. As gotas de chuva desciam do céu tornado inferno com delicadeza, mas feriam a pele e tudo mais que tocavam em revolta ao seu abandono pelas nuvens. O infinito, acostumado com o vermelho, o queria ver no sangue dos que se mantinham em pé.

Ele não podia devolver-lhe o céu. Tivera parte em tomá-lo, afinal. Sentia-se culpado.

Olhou ao redor. Não havia mais azul. As legiões do vermelho o cobriram na terra antes do céu. O fogo que se alastrara para refletir no firmamento deixou, no entanto, espólios. Árvores caídas. Parcialmente queimadas, outras intactas — não era um trabalho meticuloso. A chuva também não era. Aumentava sempre, mas sua força ainda não ultrapassava a de uma esparsa garoa.

Recolheu os galhos. Foi rápido. Um grande e sólido. Os outros, menores. Finos. Mais finos ainda eram os fios dourados com que amarrou a estrutura.

Branco. Lhe sobrava branco. O suficiente para cobrir o frágil guarda-chuva que nascia. A maestria com qual o fazia não diminuía o esmero; não permitiria mais uma falha, por menor que fosse.

Notou, incapaz, que continuava a fracassar a cada instante. Branco. Presentearia o centro de seu Universo com o vazio. Cor alguma lhe sobrara além do vermelho que impregnava cada canto do mundo, o próprio sangue inutilizado. Voltou-se ao céu.

Ele achou que jamais veria o azul novamente. Esqueceu-se de que o outro ainda o via.

Mas não era assim que o desejava, era? Não. Restara apenas o mais repulsivo dos azuis. Era um sacrifício mínimo. Ele o chamaria de dádiva. A troca de um problema por uma solução — não o exato casal, ainda melhor.

Preparou o tecido em avanço, redirecionando o curso dos fios a cada golpe para onde sabia que seriam necessários. Estava quase pronto.

Entregou-se ao desejo e olhou timidamente para o outro. Merecia apenas o ódio, mas não o encontrou no rapaz. Pouco encontrou. Ele não o esperava com pressa ou impaciência; hipnotizado, encarava as mãos. As palmas, nuas para a chuva cruel, cediam e entregavam as primeiras partículas do vermelho fresco.

Tudo lá era velho. Usado. Gasto.

Só não ele. Seu corpo era um jardim onde flores novas desabrochavam a todo momento. Ele nascia novamente a cada instante. Talvez um único toque fosse o suficiente para reviver o próprio mundo, mas o que lá poderia ser digno de tocá-lo?

Baixou os olhos. Não havia esperança, de qualquer forma. Era esse seu pecado. Não podia salvá-lo. Nem a si mesmo, mas não havia importância nisso. Aceitar era sua pior sentença.

Seria bonito. O azul se espalharia pelo ar uma última vez. Chamou seu nome.

Os olhos tão doces, arrancados de seu transe, não carregavam o justo ódio que deveriam. Sempre gentil. Sempre gentil.

Outro par de olhos se fez importante. Sussurrou baixo e o próprio ar pareceu notá-los. Foi gentil em transportar o azul amaldiçoado para sua ressurreição no guarda-chuva.

(Ainda em sua miséria era abençoado com a gentileza que não merecia. Mas tornava-se justo. Saber que não era digno intensificava seu desespero. Sua última punição seria sentir a destruição que causou a tudo que mais quis proteger.)

Mirou a própria obra apenas o suficiente para ter certeza de que estaria pronta. A partir disso, tudo que importava era o outro. Olhou para ele e, por um momento, o mundo parou de existir.

Exibia a antiga expressão de curiosidade e admiração, um sorriso tímido começando a se formar.

Olhos verdes se fixaram nele. E no azul. E de volta nele.

(Deveria haver azul nele, mas nenhum deles se importava)

E, de uma só vez, todos os seus pecados foram absolvidos.

“Obrigado”

Notas finais
Muito obrigada a qualquer um que tenha lido.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!