Azul

3 Sobre o relatório das monitoras


Notas iniciais
Voltei! Não sei direito o que colocar aqui. Então... Boa leitura! ♥

— Você tem que fazer.

— Eu não tenho que fazer nada.

— Olha, acho que tá escrito em algum lugar que você tem que fazer sim.

— Bom, o azar é seu. Não vou fazer nenhum relatório sobre as monitoras, porque sou uma péssima Monitora Chefe. Conte para a McGonagall.

— Você vai se arrepender.

Você vai se arrepender, Scorpius dissera para Rose naquela tarde em que a confrontara sobre os relatórios das monitorias. Ela parecera pouco impressionada na hora, e talvez realmente devesse esperar pouco do garoto, já que a ameaça agora parecia vazia aos ouvidos dele.

O que diabos ele poderia fazer para ameaça-la o suficiente para que ela fizesse os malditos relatórios?

Ao menos ela estava indo nas monitorias.

E reclamando durante toda a ronda.

Bom. Ele não podia desistir agora.

Albus parecia ter voltado ao normal, apesar de muitas vezes sumir em horários aleatórios durante o dia e de vez em quando esquecer que estava comendo durante as refeições, muito distraído com qualquer outra coisa. Scorpius se perguntava se ele estava usando algum tipo de droga. Das pesadas.

Mas o Malfoy nunca questionava o amigo. Porque talvez questionar fosse mudar alguma coisa.

Nos treinos de quadribol, porém, tudo era familiar. Não havia Malfoy certo, ou Potter estranho, ou Weasley revoltada. Só havia a Sonserina. O taco de batedor, os gritos de Albus para organizar o time, o vento assobiando ao redor da vassoura a toda velocidade. Não havia dúvida ao desviar os balaços. Scorpius sentia tudo correndo pelas veias dele. Assim como todo o time.

Era só verde e prata nos olhos do garoto. Verde prata que ele sugava pelos poros enquanto a torcida da Sonserina gritava para o mundo ouvir. Porque Albus Potter apanhara o pomo e o primeiro jogo contra a Corvinal estava terminado.

Verde e prata no Salão Comunal. Verde e prata no grito de guerra que soava dos pulmões do Potter ao levantar a cerveja amanteigada num brinde.

Eram os melhores momentos até então.

— Você tá brilhando, cara. — Scorpius comentou mais tarde naquele dia, quando os dois já estavam no dormitório e toda a alegria Sonserina havia se deitado para descansar. Albus estava brincando com sua varinha na cama do lado. — Parece ter tomado uma Felix Felicis hoje.

O amigo olhou para o outro com um sorriso gigantesco. Ele ainda estava um pouco bêbado.

— Talvez eu tenha tomado.

— Certo. Vou precisar um pouco dela depois. — Jogou a cabeça no travesseiro e encarou o teto, pensando em nada e tudo ao mesmo tempo.

— Scorpius?

— Albus?

— Você se lembra do dia em que você me jogou no lago no quinto ano?

— Eu provavelmente não deveria ter. McGonagall estava do lado. Ficou tão nervosa que quase me jogou para a Lula Gigante — Scorpius começou a rir.

Albus riu também. Só mais desleixadamente, quase como se estivesse quase mergulhado no próprio sono.

— Eu estava nervoso demais naquele dia. Acho que você fez a melhor coisa me jogando na água. Aí não fiz nenhuma burrada.

— O que quer dizer?

Uma pausa. Scorpius achou que o outro dormira, mas ele estalou a língua segundos depois:

— Eu tô um pouco bêbado.

E virou para o outro lado, começando a roncar em segundos. Malfoy suspirou com a história contada pela metade. Sabia que provavelmente nunca haveria chance de ter uma conclusão àquela conversa.

Talvez devesse embebedar Albus outra vez, arrancar alguma coisa dele, pensou Scorpius enquanto fechava os olhos.

x x x

Ele estava tentando ir para a aula de Transfiguração quando aconteceu.

Uma primeiranista precisava de ajuda para chegar na sala do professor Longbottom, e Filch não parava de dizer que tinha certeza de que tinham alunos fazendo duelos ilegais em algum canto do castelo. Malfoy precisava urgentemente terminar uma redação da aula de DCAT. E ele estava de ressaca.

Em resumo, não era um bom dia.

Por isso, Scorpius quase perdeu a pose de aluno brilhante quando Michael Abbott, da Lufa Lufa, resolveu que seria uma boa ideia ficar plantado no meio do corredor enquanto o Sonserino quase voava para a aula. Os dois se trombaram grandiosamente, com direito a um arquejo sofrido pelo choque por parte de Scorpius, e um arregalar de olhos descomunal de Michael.

— Desculpa, cara, eu não tinha te visto — disse o Malfoy, dando um passo à direita para continuar a correr.

Abbott deu um passo à esquerda, bloqueando a passagem. Scorpius finalmente olhou para o garoto.

— Er… Você precisa de alguma coisa?

Michael engoliu em seco, piscou, coçou a nuca, desviou os olhos. Tudo em questão de segundos. Quando Scorpius estava quase empurrando o menino para o lado, o outro se virou e saiu andando.

Bom. Isso foi estranho.

E atrasou-o mais um pouco para a maldita aula de Transfiguração. Provavelmente seria mais fácil matar a aula. Se ele pudesse matar alguma.

Não, Scorpius não estava sendo justo. Se ele quisesse matar alguma.

Veja bem, ele era um Malfoy, sim. Os primeiros anos em Hogwarts foram infernais e a vida já era ruim o suficiente normalmente, então era óbvio que manter uma postura exemplar era necessário para o garoto sobreviver como ele mesmo. Mas, honestamente, o trabalho todo não era e nunca foi um fardo para ele.

Porque Scorpius Malfoy amava magia. Era puramente isso. Nada parecera mais certo para ele do que o dia em que a carta de Hogwarts chegou e ele viu os olhos do pai brilharem. Nada era mais forte do que o fluxo de fagulhas invisíveis que passava pela pele dele quando segurava a varinha. Quando pensava no pai naquela manhã com a carta em mãos e conseguia fazer o primeiro patrono – uma águia. Tudo sobre o Mundo Bruxo se encaixava nele tão bem, e era por isso que Scorpius não soltava os livros e respondia às perguntas nas aulas. Porque ele sempre quis ser maior do que ele mesmo.

Ele estava fazendo tudo certo e merecia tudo o que vinha. Merecia o sorriso leve e orgulhoso de Draco Malfoy ao olhar os resultados dele dos NOMs, o olhar de aprovação de Lucius ao ver o distintivo de monitor no peito do neto, o acariciar suave de seus cabelos por Narcisa quando contou que queria ser um auror.

Astoria e ele dançaram por horas na sala de estar da Mansão quando descobriram que ele seria Monitor Chefe.

Por isso, Scorpius correu mais um pouco e sentou-se arfando na carteira da frente sob o olhar questionador da professora Patil. E absorveu tudo, como sempre fez.

x x x

Ela estava atrasada, para variar.

Ele quase começou as rondas sozinho quando Rose apareceu na ponta oposta do corredor, parecendo distraída demais tentando tirar uma luva cor de rosa de borracha da mão direita com a esquerda também enluvada. Tão concentrada que estava, mal notou quando Scorpius pigarreou para que ela parasse de andar. Ela congelou por um segundo, mas logo depois levantou os olhos azulados para o colega.

— Malfoy! Você vem sempre aqui?

— Qual é a das luvas?

— Hmmm. Da última vez que respondi algo assim, tive que fechar permanentemente meu negócio de lingeries. – Colocou a mão no peito teatralmente, fingindo dor.

— Ha-ha. Só espero que não seja nada ilegal.

— É… sabe que pensei o dia todo em você, Malfoy? – se não fosse pelo tom levemente sarcástico da garota, Scorpius teria ficado preocupado.

— Sério, Weasley? Será que é algum tipo de transtorno obsessivo? Devo me preocupar?

— Não, eu pensei naquilo que você me disse. Sobre eu me arrepender de não fazer os relatórios. Que coisa amedrontadora você preparou para mim, hein? Acho melhor eu me preparar para algum trasgo invadindo meu dormitório ou algo do tipo.

A expressão de Scorpius desabou. Rose franziu a testa, não entendendo a reação do outro.

— Ah. Isso. Deixa pra lá.

— Quê? O que é?

— Nada, Weasley.

— Ei!

Ele respirou fundo.

— Tá. Você ganhou, eu fiz os relatórios. O meu e o seu. Fiquei até tarde fazendo, mas sei que de qualquer forma não tenho o que fazer para te convencer. Você não tem nada a perder mesmo.

Esperou que ela risse, mas Rose permaneceu em silêncio. Só agora ele percebera que ambos haviam adquirido um ritmo conjunto para andarem lado a lado, quase como uma dupla, por mais que estivessem longe de ser uma. Vide a conversa dos dois.

Hoje ela estava com o cabelo preso num daqueles elásticos de cabelo grossos, um scrunchie amarelo. Como o cabelo estava curto, o rabo de cavalo era pequeno e arrepiado, deixando-a parecendo ainda mais bagunçada. O contraste de azul e amarelo era incrível de um jeito meio patético, porque Scorpius teimava em desaprovar as madeixas ciano de Rose.

Ele voltou a se concentrar na sombra de Alice Creet, do quarto ano, que tentava se esconder atrás de uma estátua a alguns passos de distância dos dois. Não era a primeira vez que Scorpius a encontrava nessa situação.

Foi a vez da Weasley pigarrear.

— Você parece cansado.

— É porque eu estou. Ei, Alice, é bom você estar indo para o seu dormitório agora e não ficar rondando as cozinhas. O Pirraça está por perto e não vai ser tão bonzinho quanto eu. — A garota bufou e saiu de trás do esconderijo. O olhar de Rose foi da garota para Scorpius, claramente surpresa. Não percebera que Alice estava lá. Ele até suspeitou tê-la ouvido resmungar sobre estar enferrujada naquilo.

Mas talvez fosse só imaginação dele.

Os dois voltaram ao silêncio enquanto se distanciavam da Creet, andando ombro a ombro. Scorpius raramente tinha alguma ronda com Rose até aquele ano. Ela era parceira do monitor da Grifinória, e ele, naturalmente, da monitora da Sonserina. O Malfoy de 15 anos era agradecido pelo arranjo, porque ele não sabia se conseguiria suportar tê-la como companhia o tempo todo. Ela era uma distração.

Eles tiveram um total de cinco rondas juntos antes do sétimo ano. Scorpius lembrava porque, bem, ele tinha contado. E decorado todas elas. Todas tinham a ver com um dos parceiros dos dois ficando doente, ou tendo treinos de Quadribol, ou qualquer coisa do gênero. As monitorias em conjunto não eram realmente ruins, mas Scorpius achava que tinha um problema. Ele só não conseguia parar de olhar para o cabelo dela. O ruivo dava voltas em si mesmo em cachos grandiosos, e as pontinhas sempre se esfregavam no fim das costas da garota. Tinha cheiro de shampoo feminino.

Era aterrorizante. Ele tinha 15 anos e ficava cheirando a garota.

Esse não era mais um problema, claro, porque agora ele tinha 17 e Rose tinha um cabelo tutti frutti. E uma atitude que o fazia querer se afogar na privada.

Por isso, concentrou-se no silêncio entre os dois como se a vida dependesse disso. Ouviu o leve sibilar do vento lá fora nas janelas do castelo, e acompanhou o som dos próprios sapatos no chão de pedra.

Tump, tump, tump.

Os sapatos de Rose não faziam barulho, notou enquanto virava o queixo para encarar os pés de meias amarelas da garota. Ele franziu a testa.

— Por que você tá sem sapato?

Ela soltou uma risada quase como num suspiro de alívio pela quebra do silêncio.

— Você nunca saiu escondido à noite, Malfoy?

— Será que eu deveria responder a essa pergunta, Weasley? – Encarou-a e foi retribuído por um revirar de olhos e um sorriso pequenino.

— Nós dois sabemos que nessa dupla o único espião é você.

— Ou você só faz um ótimo trabalho mentindo para descobrir todos os meus podres.

— Ah, eu não preciso mentir para fazer isso. Bom, de qualquer jeito, eu te explico, Monitor Chefe. Quando nós, adolescentes delinquentes, resolvemos sair depois do toque de recolher, sempre é mais fácil sair de meias. – Pulou algumas vezes. – Faz menos barulho e reduz nossas chances de sermos pegos.

É. Talvez ele devesse saber disso.

(E talvez Scorpius realmente fosse o espião, porque a única coisa que conseguia pensar em fazer com aquela informação era notificar a diretoria.

Mas ele não era tão dedo-duro assim.)

Rose parou de repente.

— Espera aí. Você realmente nunca saiu à noite sem ser em monitorias?

— Bom, já, mas provavelmente não igual a você. — A conversa estava começando a deixa-lo desconfortável. Devia ser um superpoder da Weasley. — Eu só saía para explorar o castelo ou ir tomar chocolate quente nas cozinhas, igual ao que a Alice Creet estava fazendo agora. E geralmente só saía com a capa do Albus.

— Então… sem festas? Sem amassos na Torre de Astronomia?

— Hã, só as festas dentro dos horários certos.

Rose parou de andar novamente e olhou para o garoto para ter certeza de que ele estava falando sério. Scorpius congelou por um momento, esperando que ela zombasse dele. Talvez só devesse ter ficado quieto uma vez na vida.

Ela, então, deu de ombros e fez uma careta.

— Você provavelmente não perdeu nada. As festas do quinto ano sempre terminavam com meninas bêbadas chorando ou tentativas de duelos entre caras chapados. Era só status estar ali. Mais nada. Meio decadente.

Status.

Scorpius se perguntou se algo daquilo era realmente verdade ou se Rose só estava tentando fazê-lo se sentir melhor. Nenhuma das opções fazia sentido.

Ele voltou a olhar para os pés dela.

— Weasley. Por que você tá usando meia em uma monitoria?

— Ah, merda. Você podia ser um pouquinho menos perceptivo. — Suspirou. — Olha, Malfoy, eu só estava pintando alguns cabelos. Nada demais, só um tonalizante rosa nas calouras. — Mostrou as mãos enluvadas. — Sai rapidinho.

Scorpius observou as luvas cor de rosa por dois segundos antes de voltar a andar sem dizer nada. Ela se apressou atrás dele, sabendo que ele a ignoraria de propósito.

— Eu sei que agora você provavelmente prefere que eu sufoque em tinta para cabelo, mas será que você poderia me ajudar a tirar as luvas?

Ele se virou e puxou a mão dela sem muito cuidado, relembrando-o da vez em que ele fizera o mesmo movimento no Expresso Hogwarts para colocar o distintivo de Monitora Chefe nas mãos dela naquela primeira reunião. Agarrou a ponta da luva direita e puxou enquanto segurava o cotovelo de Rose com a outra mão.

— Não sei se penso no fato de que você está espalhando por aí os cabelos coloridos em garotas de 11 anos ou no de que você está fazendo tudo isso da forma trouxa.

Ela soltou um sorrisinho.

— É mais divertido assim. — A essa altura, Scorpius já a havia soltado e devolvido as luvas.

— Vai para o seu dormitório, Weasley. — Resolveu encerrar a noite, virando-se para o lado oposto para ir às Masmorras. Essa era a despedida dele, decidiu, pois Rose não receberia mais do que isso.

Ele, porém, recebeu.

— Malfoy! – a voz dela ecoou pelos corredores adormecidos. Ela não tinha saído do lugar em que ele a deixara. – Eu vou fazer os relatórios. Você não tem que ficar acordado até tarde fazendo minhas coisas.

Ele não respondeu, pois se virasse o rosto para conversar, Rose veria o grande sorriso de triunfo estampado ali.

Você vai se arrepender, ele dissera.

Bem, missão cumprida.

Notas finais
Esse Scorpius é afrontoso demais. Gente, eu tô ansiosa pra desgraçar a vida do Albus. Por enquanto, vou dar os momentos de glória pro meu filho, mas alguém além da Rose tem que passar por ~dramas adolescentes~. Risos. Como se todo mundo nessa fanfic não fosse passar. Também quis dar um pouquinho mais do background do Scorpius, porque ele é um serzinho de luz e merece ser amado. Enfim, se quiser comentar pra me dar um oi, venha sempre! Fico muito feliz com os comentários e com todo mundo que tá acompanhando a fic ♥ Beijossssss