Azul
1 Sobre cabelos esquisitos
Notas iniciais
Faz muito tempo que não escrevo nada desse tipo. Li e reli tantas fanfics Scorose que achei que talvez não fosse uma má ideia começar uma. Quem sabe dá certo? Depois vocês me contam.
Boa leitura!
Rose Weasley não era mais ruiva, Scorpius constatara após trombar quatro vezes com ela nos corredores do Expresso Hogwarts.
Na quinta vez, ele exibia o distintivo de Monitor Chefe enquanto a Weasley o olhava com um misto de indiferença e ansiedade, se é que fazia sentido. Todos os monitores mais novos esperavam no vagão instruções dos novos Monitores Chefes. Scorpius, porém, não sabia quem seria sua companheira. Ele acabara de voltar das férias de verão, afinal de contas. Não se podia saber tudo.
Foi dessa forma que se surpreendeu ao olhar pelo grupo de monitores e encontrar o distintivo de Monitora Chefe displicentemente despontando do bolso das vestes de Rose. Ela se pusera estrategicamente no canto do vagão de forma que pudesse se encostar à parede. Olhando-a assim, de cabelos cortados e azuis, Scorpius podia até imaginá-la tragando um cigarro enquanto explicava aos alunos do quinto ano como acompanhar os primeiranistas até os dormitórios.
Nada disso aconteceu. Na verdade, o Malfoy permaneceu gaguejando em frente aos colegas, pois Rose não se manifestara oficialmente como parceira de chefia. Quando ele finalmente trocou olhares com a garota, claramente magoado pela negligência e falta de companheirismo, surpreendeu-se ao ver um tom de zombaria no rosto sardento. Ela estava rindo dele.
Mas que diabos havia acontecido com essa garota nas férias de verão?
Scorpius puxou-a pelo braço sem muito cuidado para que ela ficasse parada ao lado dele. Também arrancou o distintivo do bolso dela e jogou-o na palma da mão de Rose, esperando que todos do vagão percebessem que ela era a Monitora Chefe. Ela respondeu com uma cotovelada nas costelas dele.
— Ai! Hã... bom dia, pessoal. Eu e a Weasley ficamos encarregados de dar a vocês as instruções sobre a monitoria desse ano. É claro, porque estamos no vagão dos monitores. – Riu pelo nariz, esperando alguma risadinha educada. Nada veio, e ele ainda teve tempo de observar Rose erguer as sobrancelhas. Talvez fosse vergonha alheia. Bom, quem era ela para julgá-lo quando parecia uma arara azul? – As rondas acontecem em duplas com o seu colega de Casa. Os horários serão mandados para vocês.
Ele continuou no texto decorado por mais alguns minutos, sempre esperando o momento em que Rose interviria e adicionaria algo, como era de seu feitio. Scorpius até pronunciou algumas palavras errado e abusou de erros gramaticais na fala para chamar a atenção da garota, mas nada fez com que ela se manifestasse durante a apresentação. Não só permanecia muda, como também permanentemente zombeteira de qualquer coisa que ele dizia. Guardara o distintivo novamente no bolso e parecia ter vindo de outro planeta.
— Você por acaso quer falar algo, Weasley? – ele finalmente finalizou o monólogo forçado, um tanto quanto nervoso.
— Eu por acaso não quero, Malfoy. – Risadas dos monitores. Scorpius realmente queria dar detenção para todos eles. Ela sorriu de lado. – Oi, meu nome é Rose. Mas vocês sabem disso. Provavelmente não serei Monitora Chefe por muito tempo. Façam suas apostas de quanto tempo eu duro. Eu começo: 12 horas e cinco minu-
— A Weasley é comediante. É só isso, gente, acabou mesmo. Voltem para os seus vagões ou... sei lá.
Os alunos foram levantando um a um, alguns cumprimentando Rose e outros até fazendo apostas reais sobre o tempo de monitoria dela. Nenhum dos dois se mexeu até o vagão ficar vazio.
— Qual é o seu problema, hein? Me faz falar, e quando digo alguma coisa você me interrompe.
— Você tá doida, Weasley? Esqueceu sua sanidade na piscina do McLaggen nessas férias, é isso?
— Ah, cala a boca. Quem liga pro babaca do McLaggen? – Ela revirou os olhos quando Scorpius soltou uma pequena exclamação. Rose namorava Freddie McLaggen desde os 15 anos. Ele nunca imaginaria que o relacionamento de ouro de Hogwarts acabaria. – Escuta, Malfoy, não que isso seja da sua conta, mas eu não quero ser Monitora Chefe. Certo? A carta chegou na minha casa com o distintivo e tive que mandar umas três corujas para a McGonagall dizendo para escolher outra pessoa. No fim acabei vindo aqui assim mesmo, mas assim que chegar no castelo vão me substituir, tenho certeza.
— Hã... mas por quê?
Ela piscou. Uma. Duas. Três vezes.
— Bom, eu não deveria ser obrigada a fazer esse tipo de coisa, deveria? É um monte de responsabilidade só porque antigamente eu ia razoavelmente bem nas aulas.
— Razoavelmente bem? É brincadeira? Você sempre foi a melhor da turma, Weasley. É sério, você fez isso tudo só pra ganhar algum elogio, né? Então tá: você merece o distintivo.
Rose riu tão alto que os bruxos do lado de fora do vagão olharam para dentro para ver o que acontecia ali.
— Que bonitinho. Você achando que quero a aprovação de alguém. E se “tudo isso” significa meu cabelo, saiba que azul combina muito mais comigo. Ruivo é tão Weasley. – E virou-se para ir embora.
Tão Weasley?
— Quê? Você é a pessoa mais Weasley que eu conheço.
Ela parou no meio do caminho e jogou a cabeça para o lado para olhá-lo.
— Talvez eu precise tentar mais, então. – disse, por fim, antes de sair do vagão.
Scorpius franziu a testa e cambaleou para fora do vagão sem saber direito o que fazer. Ninguém dissera a ele que ser Monitor Chefe ia ser mais uma razão para a mãe dele recomendar-lhe um terapeuta em toda carta.
Talvez agora ele precisasse de um.
— Scorpius, o que… Que cara é essa? – Ele se deparou com um Albus de cabelos compridos demais. Quer dizer, eles mal chegavam aos ombros, mas cresceram um bocado desde a última vez que os dois haviam se visto. Talvez o problema capilar fosse algo da família. O Potter deu um sorriso simpático: — Já sei. Você encontrou a Rose, né?
— Cara, que porra é aquela?
— Sei lá. Um dia ela sumiu da Toca e dois dias depois voltou desse jeito. Tia Hermione quase usou um feitiço para reverter, mas a Rose não é boba. Fez questão de ficar bem do lado do Teddy.
— Ah, claro. O cabelo rosa.
— O cabelo tá roxo agora. Acho que tem alguma coisa a ver com a Victorie ter voltado do Intercâmbio na Romênia ou sei lá…
— Tá, mas ela ficou... — ele gaguejou para tentar encontrar a palavra certa que descreveria a insanidade que trespassava Rose Weasley. – ...estranha assim do nada?
Ele deu de ombros.
— Eu sei tanto quanto você.
Scorpius suspirou:
— Albus, preciso da Rose antiga de volta pra ser minha parceira de monitoria. Não vou conseguir ser Monitor Chefe completamente sozinho.
— Oi, eu sou o Scorpius Malfoy e minha vida é horrível porque ganhei o distintivo de queridinho da McGonagall — Albus distorceu a voz ridiculamente para imitar o amigo. Até revirou os olhos. — Queria eu ter seus problemas.
— Que problemas você tem? Oi, sou Albus Potter e minha vida é horrível porque ser filho do herói do mundo bruxo é um fardo tão grande.
— Cala a boca. — Ele riu tão alto que acabou roncando. Foi o necessário para ambos os amigos rirem até perderem o fôlego.
Scorpius e Albus se deram bem à primeira vista. Bem, talvez não primeira, mas Scorpius definitivamente respirou mais tranquilamente quando o Chapéu Seletor mandou o Potter mais novo para a Sonserina. Ninguém parecia ir muito com a cara dele, então ter Albus sentando bem a sua frente na mesa da Sonserina pareceu a coisa mais legal que poderia acontecer.
E, Scorpius descobriu mais tarde, realmente foi.
A parceria dos dois era certeira. Fosse para roubar a capa da invisibilidade de James ou escapar de madrugada para as cozinhas e tomar chocolate quente, os dois davam certo. Scorpius ajudava em todos os crimes, mas havia um acordo implícito entre eles de que, se fossem pegos, Albus seria sempre o que levaria a culpa. No fim das contas, ambos sabiam que uma reputação limpa era muito mais importante para um filho de um ex-comensal do que para o filho de Harry Potter.
E assim foi. Eles fizeram o teste para o time de Quadribol juntos no 2º ano e passaram a fazer parte do melhor time de Hogwarts – na opinião nem um pouco parcial de Scorpius, é claro. Aos 13, Albus começou a namorar uma Grifinória que passava perfume demais e reclamava do Malfoy mais ainda. Terminaram em uma semana. Aos 15, Scorpius foi monitor e Albus, capitão do time de Quadribol.
As famílias não se misturavam, porém. Não era como uma rivalidade, apenas a bela e confortável indiferença que eles haviam tecido por muitos anos. Malfoy não tinha contato com qualquer Weasley, e tampouco sentia falta. De vez em quando acenava para Lily Potter quando não tinha muita escolha porque Albus estava com ela, e às vezes trombava com Rose Weasley durante as rondas da monitoria. Os dois se olhavam. Às vezes.
E só.
Por isso, Scorpius achou estranho quando o amigo passou mais alguns minutos sozinho com ele no vagão parecendo um tanto quanto desconfortável. A confusão da cena foi tanta que o loiro teve de se levantar e olhá-lo para entender o que estava acontecendo, mas Albus não parecia querer encarar o outro.
— E se... – hesitou o Potter, continuando a evitar o olhar do melhor amigo. – e se nós fôssemos para o vagão da minha prima Roxanne rapidinho?
O outro garoto ficou mudo. Não entendeu ao certo o que aquilo queria dizer. Porque, bem, eles estavam rindo feito idiotas há poucos minutos, e agora Albus parecia querer sair correndo dele como se fosse um leproso. E queria ir pro vagão da prima...?
Com sorte, Luke Zabini escolheu aquele momento para enfiar a cabeça pela porta e levantar as mãos em vitória:
— Há! Finalmente encontrei vocês. Sério, deveríamos combinar algum vagão fixo pra não ter que ficar rondando o trem o tempo todo pra encontrar o casal aqui.
— O vagão do ano passado estava ocupado por quintanistas. – Albus comentou sem emoção, novamente focado na janela.
— E é nosso último ano. É uma das últimas vezes que estaremos no Expresso Hogwarts, não é como se pudéssemos nos dar o luxo de escolher um vagão agora.
Zabini encarou-os com a boca aberta por alguns segundos antes de franzir a testa e coçar a nuca.
— Merlin, vocês bem que sabem como animar alguém. Talvez eu devesse ir conversar com uns dementadores depois dessa.
Albus riu pelo nariz e jogou uma caixa de Sapo de Chocolate vazia no amigo. Os dois se olharam por alguns segundos antes de se engajarem em qualquer conversa sobre NIEMs. O ar parecia ter ficado mais leve.
Ainda assim, Scorpius hesitou por um segundo.
E afastou o pensamento. Porque era Albus. Eles eram melhores amigos.
Por isso, Malfoy voltou a se sentar ao lado dos amigos e engatou a conversa fiada, apesar de continuar ligeiramente inseguro.
Se houvesse algo errado, Albus contaria para Scorpius, certo?
Certo?
Notas finais
Eu comecei o próximo capítulo, mas preciso recobrar minha sanidade mental pra terminá-lo. Calma que vai.
Contem o que acharam? Pretty pretty please?
PS: Sobre Scorpius alfinetar Albus por ele ser filho do Harry: sim, foi pra você, Albus de Cursed Child.
Beijosssssss
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