Aye Captain
7 Reef
Notas iniciais
A manhã subiu no acampamento. O pátio estava encarquilhado de garrafas quebradas, copos e canecas jogadas a esmo. O tempo parecia se arrastar do lado de fora da tenda marrom; mas só do lado de fora.
Caterina acordou envelopada em um par de braços. A luz do amanhecer passou pelas frestas das paredes de tecido e iluminou a silhueta do homem à sua frente. Ele já estava acordado, e a observava com olhos tranquilos. George beijou a pele quente de seu ombro antes de sorrir.
— Oi.
— Pare de me olhar assim. — ela protestou.
— Como?
— Como se você tivesse me visto nua.
George franziu a testa e levantou o cobertor. Caterina nem tentou se cobrir. Ele soltou o cobertor e se inclinou para beijá-la bom dia.
— Eu estou falando sério. — ela disse, tentando manter seu rosto neutro. — Tenho que manter minha moral nesse navio; daqui a pouco tão achando que eu vou dormir com eles também, o que acontecerá quando o inferno congelar.
Caterina se levantou um pouco e George tomou proveito, a puxando para seu colo. — Além do mais — ele disse, pondo seus braços ao redor da cintura dela. — Você só dorme agora comigo.
Os dois estavam perfeitamente confortáveis em repetir as atividades da noite anterior pela sexta vez, mas ouviram um barulho fora da tenda. Caterina mergulhou nas cobertas e George fingiu estar dormindo quando Gillian entrou.
— Pode sair debaixo do lençol, Sparrow. — Gillian disse sem rodeios. — Temos vinte minutos de canoagem daqui até onde o tesouro está enterrado e ainda temos que descobrir como chegar nele; aquietem suas libidos e venham.
— Como você...?
— Eu sei de tudo, George. — Gillian jogou as roupas de Caterina para perto dela. — Eu estou falando sério; levantem!
No final, quem sempre ganhava era Gillian. Caterina saiu primeiro, satisfeita com a falta de pessoas acordadas àquela hora. George demorou mais um pouco e logo pegou uma pistola e uma espada ao sair.
— Aonde vamos? — perguntou casualmente, como se nada tivesse acontecido. Caterina também agia normalmente.
— Não sei, Caterina é quem tem um mapa.
— Acorde o resto da tripulação — Caterina falou para Gillian. — Precisamos, realmente, sair daqui agora.
George se posicionou atrás dela e esticou seu pescoço por cima do ombro dela para poder enxergar o mapa que desenrolava. A ilha estava detalhadamente representada, e o ponto onde estavam acampados estava circulado com tinta preta. Adivinhando a escala do mapa, George concluiu que o tesouro estava bem em cima do coral, mas longe dos navios interceptados.
Caterina pegou um telescópio e mirou na barreira colorida no final da praia. — Temos que chegar até lá durante a maré baixa. — disse mais para si mesma do que para George. — Melhor esses marinheiros levantarem agora.
Surpreendentemente, eles foram rápidos ao saírem. Não desmontaram o acampamento, em caso de que precisassem voltar a dormir na costa. O mar estava calmo e eles conseguiram ir até os corais em escaleres e os amarraram contra partes da rocha principal.
Só puderam pôr os pés na muralha quando a maré baixa chegou. Havia um buraco, de seis a oito metros de largura, na lateral do Coral. As ondas mal chegavam ao topo do complexo, e o grupo de piratas só precisou se pendurar na borda e se jogar lá dentro.
Ao contrário do que se podia pensar, a caverna não estava coberta por água; tanto por causa do posicionamento do buraco de entrada e a mágica que o protegia. Mágica, Caterina logo decidiu, não era uma coisa na qual se podia confiar.
Apoiando a opinião dela, poças fundas pontilhavam o chão firme do corredorzinho. Não havia luz suficiente para ver as paredes ou o piso, mas um brilhinho tênue se esgueirava no final do túnel. Foi para lá que eles seguiram, em fila, atrás de Caterina.
— Se eu morrer — Olivia disse atrás de Caterina. — Pelo menos não vai ser sozinha.
— Ninguém vai morrer, querida — Caterina disse. — Talvez será brutalmente mutilado ou tornar-se louco, mas vamos todos sair daqui vivos.
— O que te faz tão segura disso? — Gillian retrucou. Caterina a ignorou.
Aproximaram-se da luz, mas antes de poderem enxergar o que havia do outro lado, Galloway escorregou lá no final da fila. Como num efeito dominó, foram todos tropeçando e caindo nas poças que tentaram evitar. Caterina viu todos passando pela água e não voltando à superfície.
Ficou parada por alguns segundos antes de mandar tudo ao inferno e pular também.
Caiu feio no chão de pedra de uma caverna. Seus quadris estralaram, tanto pela força da queda e por conta das atividades da noite anterior. George a ajudou a levantar e o grupo se aglomerou atrás dos dois.
— Aquilo — Gillian disse com a boca aberta. — É uma visão do paraíso. — e então saiu correndo para frente.
Havia quase que uma bacia de ouro, pedras preciosas e prata. As dimensões da caverna eram infinitas, o brilho dourado do metal chegando metros e metros a distancia. A tripulação do Pérola correu atrás de Gillian, soltando uivos e uivos de felicidade. Até George foi lá no meio, mergulhando até a cintura em joias.
No entanto, Caterina não estava interessada no ouro. Subiu uma escada de rocha negra até o centro da caverna; lá, iluminado por uma fresta no teto, estava um anel.
No exato momento em que ela tocou no anel, o chão começou a tremer. Ela rapidamente pôs o anel num cordão que tinha em volta do pescoço, e o escondeu debaixo de sua blusa antes do lugar sacudir tão violentamente que a lançou para fora da plataforma.
Caiu com tudo em cima de uma pilha de moedas, gritos enchendo o espaço pequeno. Percebeu que não era somente a maré voltando; era óbvio que Pewter não a deixaria levar o anel tão facilmente.
As paredes começaram a brilhar, como se milhares de vagalumes de repente acordassem. Água começou a pingar do buraco no teto. Uma calma ágil desceu sobre eles, justamente quando umas luzes na parede começaram a se mexer.
Primeiro, elas pareciam se arrastar para frente, saindo do plano para se tornar algo tangível; depois começaram a se grudar e mudar de forma, até formarem a imagem dourada de John Pewter.
Ele não tinha o olho direito, um globo negro substituindo-o. Sua face era deformada por uma cicatriz profunda e descolorida que vinha da têmpora direita até o maxilar. Usava roupas bem passadas, como se fosse um corsário; seu rosto se contorceu num sorriso maligno e ele levantou as palmas das mãos.
— Sparrow — ele disse com um leve sotaque americano. Andou até ela, se divertindo com o choque do resto das pessoas. — Acredito que achou seu anel?
— Achei. — ela respondeu em tom de conversa. — Eu disse que voltaria para pegá-lo.
— E eu disse que não deixaria.
Pewter parecia feito de ouro líquido, mas era sólido o suficiente para segurar uma espada que pegou do chão. Girou-a com a mão esquerda e olhou para Caterina, que o assistia com a expressão interessada. — Diga-me, Sparrow, sua habilidade com espadas melhorou?
Caterina nem respondeu; puxou sua própria espada e o atacou. Pewter sempre fora ok com espadas, mas Caterina melhorara muito desde que entrara no navio dele. Em uma simples sequencia de golpes ela o atingiu no ombro.
Só que ao invés de cair no chão em agonia, Pewter sorriu. Seu ombro começou a se regenerar, feito líquido. Ele a atacou enquanto ela ainda estava chocada, e conseguiu cortar um fiapo da blusa dela. Caterina acordou e o atacou novamente.
Giraram pelo cenário várias vezes. Algumas pessoas tentaram ajuda-la, mas o homem as empurrava com força ao chão. Caterina não conseguia aterrissar um golpe sólido e precisava desviar frequentemente.
A única fraqueza que ele tinha eram sustos. Ele fraquejara quando George berrou do seu lado e se tornou quase humano; lançou George com força no chão, mas Caterina conseguiu acertar sua coxa. Sangue saiu da ferida e continuou vazando mesmo depois dele se tornar ouro novamente.
Porém ela foi se cansando, seus reflexos mais divagares e menos poderosos; ele a subjugou com três estacadas ao peito. Ela se desiquilibrou e levou um soco no rosto.
Seu lábio superior começou a sangrar imediatamente. Um corte de pelo menos um centímetro se formou e encheu a palma da mão de Caterina. A vista do líquido vermelho em sua mão trouxe uma ideia à mente da latina, mas antes que ela pudesse fazer alguma coisa, uma voz gritou lá do começo da câmara.
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