Aya Project

1 Aya Project - Capítulo único


Boa noite, diário. Sou eu, a Megumi. Hoje acessei minha conta no bate-papo e Rumiko não entrou de novo… Meu blog perdeu a graça, já que eu não tenho mais vida social. E, pelo que eu posso ver, nem virtual também.

Ahh, que chato! Ainda bem que eu tenho o Yukito!

Yukito é meu namorado. Na verdade, eu não sei o que ele é. Ele é o cara mais popular do colégio, essa é a única coisa que eu sei. Bom… ele nunca disse que era meu namorado, mas também nunca disse que não era. Desde que eu me declarei, andamos sempre juntos. Acho que isso é namorar. Ele me dá chocolates no Valentine’s Day e no Ano-Novo. É, ele é meu namorado, afinal… ele nunca fez isso com nenhuma outra garota.

(…)

Chego ao colégio, e percebo que todos estão conversando entre si e evitando me olhar. O que estaria acontecendo? Parece que estão falando de mim.

— Megumi…

— Yukito…

De repente, surge atrás de Yukito uma garota que eu nunca vi. Que estranho.

— Yukito...quem é essa garota?

— Ah...Megumi…Esta é a “Anna”, minha babydoll...e namorada.

— O q…??

— Foi divertido, Megumi. Obrigado. Eu gosto de você, por isso acho legal terminar isso de uma forma limpa e equilibrada. Eu gosto dela, Megumi. Amo. Desculpa.

— Mas… espera aí, Yukito! Esses babydolls não são...ROBÔS?

— Você não entende, Megumi… eles não são robôs comuns… eles amam como a gente...

— Como assim? Tá dizendo que você está me dispensando para ficar com um robô, foi isso mesmo que eu entendi, seu--!?

— Desculpa, Yukito! Deixe eu levá-la um instantinho!

Senti uma mão cobrindo minha boca e, quando fui prestar atenção, era a Tomoko me arrastando para longe dali.

— Ai, o que é, Tomoko?

— Só estou evitando que você passe um vexame ainda maior! Gritar com um cara depois de levar um fora é muito deselegante! E estava todo mundo olhando!

— Ah… eu não acredito… Isso é tão ridículo que eu nem consigo chorar.

— Mas você já está chorando.

Bufei ante essa sua observação. Ela prosseguiu:

— Mas olha, pensa bem. Já pensou que tipo de namorada você foi para ele? Sempre na frente do computador, falando com as amigas virtuais! Quando ele te chamava para sair, você preferia ficar em casa, atualizando seu blog.

— Ai, você acha?

— Sim! Deve ter sido difícil para ele também. Por isso, você não tem o direito de ficar com raiva. Ele é meu amigo de infância e é um cara muito legal, tenho certeza de que não faria algo assim por maldade. Se ele está com ela, é porque a ama de verdade! Quanto à babydoll, dizem que são irados mesmo! Eles pensam, falam que nem gente! Eu encomendei um do seu pai como presente de aniversário!

— Verdade?!

— Sim! Ela vai ser igualzinha a mim e vai fazer todas as coisas que eu considero chatas: vai fazer provas no meu lugar, vai me substituir no restaurante do papai, tomar broncas da mamãe no meu lugar...Ho, ho, ho! Como eu sou sortuda!

— Fala sério.

— Você também deveria ter o seu babydoll, Megumi! Você se diz conectada com o mundo, mas ainda não percebeu que os chats e redes sociais a cada dia que passa estão caindo em desuso! Já estão surgindo previsões de que em menos de dez anos não haverá mais nenhum tipo de fórum online! A onda vai ser todo mundo ter seu próprio babydoll!

— Dispenso. Enquanto eu tiver amigos na redes sociais, um boneco sem graça desses não vai me interessar. Nunca. Mas…

— Mas…?

— É verdade que eles podem mesmo fazer prova no lugar da gente?

— Não creio…!

Ah, é. Esqueci de dizer: meu pai é cientista. E isso me deu uma ideia.

— Papai, cria um babydoll para mim?

— …Tá…

Uau! Ele nem pestanejou!

— Fico feliz que aprecie nosso trabalho, filha. Se vai aderir aos babydolls, é porque finalmente foi convencida de que as redes sociais são uma tecnologia defasada!

— Hum…mais ou menos.

— Mais ou menos nada! Toda garota normal tem um desse agora! É um item obrigatório da moda!

— Mamãe, você está dizendo que eu não sou normal?

Ela riu.

— Eu só estranhei o seu atraso em fazer esse pedido, filha. Não fique ofendida.

— Ah, tá! Mas tem uma coisa: eu não quero com a minha cara, não. Quero um que seja menino!

— O qu…?

Isso! Já que eu tenho que ter um baby doll, eu quero um bem bonito, para mostrar àquele Yukito que eu consigo um namorado mil vezes melhor do que ele! E o melhor é que eu posso pedir um com todas as características que me atraem num cara! Vai ser perfeito!!

Papai concordou:

— Tudo bem, filha. Mas como os modelos mais modernos custam muito caro, eu vou ter que usar material de segunda, viu? Qualquer coisa, passe aqui para fazer uns reparos de vez em quando.

— Não importa, papai! Eu irei aceitá-lo de qualquer jeito!

— Nossa, que empolgação – minha mãe disse, espantada com meu bom humor.

— Eu vou cozinhar para todo mundo hoje!

— Será que ela se esqueceu de que já faz isso todo dia? — papai comentou com mamãe, sorrindo.

— E eu vou lavar a louça! E eu vou passar a cera no chão depois que vocês saírem do laboratório! Vai ficar limpinho!

— Filha...ehr...você poderia tentar nos convencer com algo novo.

— Tirar boas notas seria um bom começo.

E dia após dia…

— Meu babydoll está pronto?

— Não.

eu ficava perguntando

— Meu babydoll está pronto?

— Não!

(…)

— Meu babydoll está pronto?

— Nós já escolhemos o nome dele.

— Ahá! Pelo menos a resposta mudou! Yes!!

— O nome dele vai ser Aya. E nós vamos entregá-lo a você amanhã!

Amanhã! É isso! Finalmente! O dia da vingança! Vou chegar com o Aya na escola e matar o Yukito de ciúmes!

— Filha, você está bem?

— Ahn?

— Parecia meio aérea.

— Fizemos um bom trabalho. Não vai nos recompensar limpando o laboratório hoje também?

— Sim! Claro!!

— Ela tá tão empolgada.

— Será que se ela souber que…

— Psiiiiu! Silêncio!

Achei estranho esse cochicho dos dois, mas ignorei. Afinal, estava muito feliz e nada ia e impedir de continuar assim.

— Dia seguinte -

— Aquele é o Aya? — me perguntei, enquanto via algo do tamanho de um homem alto enrolado em ataduras, em cima de uma maca e atado a vários fios.

Eu fui ao laboratório muito cedo, antes de ir para a escola, apenas para que meus pais, que ainda dormiam, não soubessem que eu estava lá.

— Mamãe disse para não mexer, ou não ficaria pronto. Mas dá uma vontade de ver!

Nunca fui para a escola desejando tanto voltar!

— Megumi!

— Deixa eu te contar…

— Eu já sei de tudo! Seu pai estava contando que ele estava fazendo um babydoll para você, é verdade mesmo?

— Ah, é sim.

— Ai, que romântico! Então, vou apresentar minha babydoll para ele e eles vão formar um lindo casal!

— Nem pense nisso. Eu irei usá-lo para fazer ciúmes no Yukito, esqueceu?

— Ah...verdade. Como eles possuem uma beleza sobre-humana, certamente o Yukito vai ficar muito enciumado! Mas, Megumi, me diz uma coisa: quando você e o Yukito voltarem, o que você vai fazer com o babydoll?

Essa eu não soube responder. Ainda mais quando li na internet que é uma unanimidade o portador de um babydoll se apaixonar por ele. Mas isso não vai acontecer comigo, porque eu sou uma garota normal e não uma doida!

(…)

— Mamãããããe...papaaaaaai… A Tomoko veio aqui para ver o meu boneco! E-eeei, cadê vocês?

— Ah, filha! Que bom!,Você chegou no momento certo! Ele está pronto! — disse meu pai.

— O Aya...tá pronto?

— Então, esse que é o nome dele? — Tomoko perguntou.

— É sim! — falei, sorrindo de orelha a orelha – Mas, e então, ele está pronto mesmo?

— 100%!

Yukito, agora você vai ver!!

Aya estava sentado em uma cadeira de rodas de cabeça baixa. Minha primeira impressão sobre ele, quando o vi envolto em ataduras em cima da maca horas atrás era a de que ele parecia exageradamente magro e comprido, mas como ainda tinha a chance de estar faltando alguma coisa, eu não reclamei. Eu nem consegui esconder minha decepção quando vi que a versão final do seu corpo era aquela mesmo, mas tudo piorou quando ele levantou a cabeça e exibiu um rosto azulado horroroso, olhos heterocromáticos, uma enorme tatuagem ao redor e abaixo dos olhos e batom preto. Seu cabelo loiro tinha uma mecha preta completamente desconectada do restante do penteado, como se literalmente tivesse acabado o estoque de aplique loiro e tivessem usado qualquer coisa para completar. Ele era a própria estética do desleixo e da má vontade. Até a roupa dele era horrorosa, e quando eu disse aos meus pais que queria que meu babydoll parecesse um ídolo da música, eu me referia a um cantor pop, não a um gótico das trevas.

— Então, você vai fazer ciúmes para o Yukito com isso daí? — Tomoko tripudiou – Parece que ele foi feito de retalhos!

Ao mesmo tempo que ela, minha mãe disse, tentando me animar:

— Alto e forte, como minha filhinha merece! Gostou, filha?

— EU TENHO MESMO QUE RESPONDER ISSO?

Saí correndo para o meu quarto. Ainda escutei a voz da minha mãe dizendo para aquela monstruosidade:

— Ela vai se acostumar. Não esquenta.

Enquanto eles caminhavam até o meu quarto para me seguir, escutava eles falando pelos corredores:

— Aya, a sua missão a partir de agora é acompanhar e proteger a Megumi. Sua aparência vai colaborar para que ela nunca tenha outro interesse em você além da amizade. Você também foi programado para não ter sentimentos, então não inventa moda para cima da minha filha!

— Querido...você está assustando o babydoll da Megumi…!

— Se eu ouvir dizer que a minha filha se apaixonou por um robô...você será desativado!

— Querido, basta! Aya, não ligue para ele. Ele anda lendo coisas demais na internet e está paranoico.

— Você está me escutando?

— Sim, mestre. Entendido.

— Uau! Ele realmente não tem sentimentos. Viu só, querido, como não precisa se preocupar?

— Agora, vá atrás da Megumi e dê um jeito de ela se acostumar com essa sua cara assustadora de uma vez!

No meu quarto, eu ainda chorava e pensava como eles podiam ter feito uma sacanagem dessas comigo. Quando eles bateram à porta, eu não queria atender ninguém. Apenas Tomoko foi rápida o bastante para vir junto comigo.

— Megumi, abra a porta. Aya veio ver você.

— Eu não quero ele! Não quero esse robô feio! Como o meu plano para enciumar o Yukito vai dar certo se o que eu tiver à disposição for essa COISA?

— Megumi – Tomoko me alertou – Seu “amigo” está aqui ouvindo tudo.

Percebi que essa traidora deixou ele entrar. Que inferno!

— FORA DAQUI! EU NÃO QUERO VOCÊ! VOCÊ NÃO PODE ME AJUDAR EM NADA!

— Estranho...o que aconteceu?

Voltei-me para Tomoko, pensando: do que ela está falando?

— Uma vez, eu li em um site especializado em babydolls que eles têm uma vida indeterminável, mas que eles são desativados automaticamente se por acaso se sentirem desnecessários. A não ser que…

— A não ser que…?

— Megumi, não adianta. Acho que escutei seus pais falando sobre isso. Suas palavras não vão chegar até ele, porque ele foi programado para não ter sentimentos.

— O quê?

— Esta é uma ocasião em que ele se sentiria “desnecessário”! Ele deveria ter ficado inconsciente, mas não ficou!

— Fala sério!! Agora, eu vou ter que ficar com isso e ainda por cima sem saber como desligar?

— Megumi, assim você fere os sentimentos dele…

— MAS FOI VOCÊ QUE DISSE QUE ELE NÃO TEM SENTIMENTOS!!

Enquanto toda essa discussão corria solta, Aya continuava de pé diante da minha cama, me olhando com aquela cara de idiota bizarro dele.

— Eu não quero você! Diga ao meu pai que eu quero outro! Se eu sou sua dona, eu posso fazer o que eu quiser! E eu não quero você!

— Sim, senhorita.

— Me...Megumi! Isso é maldade!

Está me dando um aperto no coração, mas eu não posso aceitar as coisas desse jeito! Afinal, o meu objetivo é enciumar o Yukito!

Quando Aya deu alguns passos em direção à porta, pude ver que ele tinha unhas enormes e horrorosas. Parece um animal pré-histórico! Aya abriu a porta, e mamãe pelo visto estava encostada lá, escutando tudo.

— Hm… Aya?

Saltei da minha cama e pulei na direção da mamãe. Sabia que aquilo era coisa do papai, e ao menos ela, que era mais sóbria, poderia me defender nessa questão:

— Mãe, eu vou ser honesta: eu não gosto do Aya assim!

— Ah, filha, sobre isso...é com o seu pai.

(…)

— Filha, eu andei pesquisando na internet e fiquei sabendo de muitas coisas assustadoras! Esses babydolls podem ser extremamente perigosos! Sua perfeição exacerbada faz com que seus portadores comecem a distorcer a sua noção de como pessoas comuns deveriam se comportar, excluindo-as de todo convívio social. Eles literalmente se apossam da mente do dono ao realizar todas as suas vontades! Por isso, Riisa e eu resolvemos, para sua própria segurança, criar esse modelo com esta aparência bem peculiar!

Ele acrescentou bem baixinho:

— Assim, duvido que se apaixone por ele.

— EU NÃO QUERO ELE ASSIM! É MUITO FEIO!

— E você acha que nós fizemos isso por quê?

— Eu não quero nem saber por quê.

— Ah, e não é só, Aya ainda tem mais uma vantagem: para protegê-la do perigo quando estiver a sós com ele, eu criei esse brinco que, se retirado, o deixará imediatamente inconsciente, não é legal?

— Ideia minha, para proteger minha princesinha – mamãe completou.

Ahá! Então, é assim que ele desliga!

— Bom, Aya, como eu disse antes, Megumi agora é sua mestra!

— “Mestra”?

— Sim, tente entretê-la e ser um bom menino.

Aya me encarou uns segundos e sua expressão era vazia. Ele não parecia minimamente aborrecido com nada, e isso era muito estranho. Eu nunca tinha visto um babydoll assim antes. Meus pais eram geniais mesmo. O robô desviou os olhos de mim quando Tomoko se despediu de mim, acenando de longe:

— Bom, já deu a minha hora! Vou para casa!

(…)

— Aya, venha cá um momento – chamei.

O papai e a mamãe são contra babydolls para propósitos sentimentais, mas criam os mais belos modelos...só o meu que veio assim…

— Tudo o que quiser, mestra. Pode falar.

A voz dele é tão bonita…Ah! O brinco! Irei removê-lo.

— Chegue mais perto.

Ele obedeceu, e então levei minha mão até sua orelha. Ele sabe o que eu vou fazer? Aya cerrou os olhos e suspirou. Para alguém programado para não ter sentimentos, ele finalmente pareceu expressar alguma frustração. Talvez seja só impressão minha.

É assim que se desliga.

Antes que eu pudesse comemorar o funcionamento do recurso de proteção, aquela aberração de quase dois metros de altura caiu por cima de mim. Para um robô ele não era pesado, acho que ele tinha o mesmo peso que um cara humano da altura dele teria. Eu me levantei devagar. Desacordado, Aya escorregou dos meus ombros para o meu colo. Terminei de empurrá-lo para cima da cama, analisando um a um dos detalhes de sua composição patética: o rosto azulado, as pálpebras maquiadas e delineadas, os lábios pintados de preto, o corpo magro e comprido, as unhas enormes e uma roupa que parecia um amontoado de renda em farrapos, amarrados ao corpo dele por uma meia dúzia de cintos de couro pretos. Ridiculamente andrógino. Sem falar daquela mecha de cabelo preta. Notei só agora que ela era trançada. Que lixo.

— Quer saber, Aya? Eu posso muito bem resolver meus assuntos sem você. Claro que tudo seria diferente se você fosse outro...mas...a troco de que eu vou argumentar que tirei o brinco? Mamãe e papai vão brigar.

Será que se eu colocar o brinco de volta ele vai se levantar novamente?

Experimentei recolocar o brinco para testar o que ia acontecer. Levou alguns minutos para que Aya recobrasse os sentidos. E, quando isso aconteceu, ele parecia muito cansado, como se tivesse corrido uma maratona. Entendi. Ele deve ficar muito desgastado quando o brinco é retirado...mas ele não morreu. Isso quer dizer que usar a tática do brinco não o elimina definitivamente. No entanto, eu sei que todos eles têm um mecanismo de autodestruição.

— Aya.

Eu avancei na direção de Aya, ele recuou. Seus ombros ainda subiam e desciam e sua respiração também estava descompassada quando eu continuei:

— Sua missão é me obedecer. Quero que me diga qual ponto seu eu devo mexer para que você seja desativado.

Eu vou ter que descobrir como me livrar dele.

Percebi que ele me encarou com um assombro que lutou para não expressar, mas esse esforço foi inútil. Após uns poucos segundos que pareceram meses, ele disse, de olhos baixos:

— Eu não tenho um mecanismo de autodestruição comum. Eles devem desmontar meu corpo. Eu terei que permanecer consciente durante o processo. Será um processo lento e sofrido.

Quem se importa? Eu não vou ficar com esse monstro horrível.

— Vai mesmo fazer isso? Mestra…

Enquanto eu retirava seu brinco pela segunda vez, ele disse suas últimas palavras:

— Eu queria ter...ajudado mais.

Você vai me ajudar. Sumindo.

Qualquer coisa que me perguntarem, eu vou dizer que ele foi impróprio comigo. Assim, papai e mamãe não vão brigar. Talvez eles me deem até outro Aya!

— É só um robô. Eu não deveria me sentir triste por saber que ele vai ser descartado. Bom, vamos lá! Vou tirar essas ataduras do corpo dele. Isso vai facilitar a desmontagem.

Enquanto desenrolava as ataduras de seu braço, olhei com espanto suas unhas enormes. E ele também tinha um órgão sexual. Que estranho.

(…)

— Papai! Mamãe! Eu tive que tirar o brinco do Aya! Ele foi agressivo e disse que nunca ia me obedecer!

— Querido, Aya não foi configurado para ser assim!

— Nós somos cientistas, mas também erramos.

— Mas…!

— “Mas”, nada! Vou sacrificá-lo agora mesmo! Eu sabia que eles eram perigosos! Mas ele vai me pagar! Eu vou desmontá-lo e vender pecinha por pecinha!

— Mas deu tanto trabalho para fazê-lo…!

— Podemos fazer outro, e desta vez prestando mais atenção no que estamos fazendo!

Aya foi jogado brutalmente em cima da maca. Meus pais ligaram vários equipamentos multicoloridos, e então minha mãe pegou uma mangueira cheia de fios e a inseriu na boca de Aya.

— Pode conectar, Riisa – papai ordenou.

— Mãe, o que é isso?

— É uma bomba de gás congelante. Com ela, o sistema interno do robô entrará em colapso, e sua consciência e demais funções serão inutilizadas, facilitando a desmontagem. Algum problema?

— Riisa, ele está inconsciente. Sem o brinco, a aparelhagem não dará conta de desativar sua memória. Megumi, você ainda tem o brinco?

— S-sim.

— Onde o deixou?

— Está aqui comigo – falei, mostrando o item que ainda estava na palma da minha mão.

Assim que minha mãe o colocou, Aya despertou. Deu para ver que ele ficou agitado, mas não podia fazer nada porque já tinha sido preso na maca com cintos imobilizadores, como aqueles que se veem nos manicômios.

— O que está acontecendo? — entendi um pouco do que Aya conseguiu dizer. Entubado, era difícil de entendê-lo.

Meu pai, com muito rancor na voz, explicou para ele a situação:

— Não adianta tentar fugir. Você está paralisado.

Eles vão desmontar o Aya...mas será que depois disso eu vou mesmo ganhar outro? Se eles são mesmo perfeitos como seres humanos, Aya deve estar com medo. Eu vou fazer isso só porque ele não era bonito como eu queria? Só por isso…

— M-mestra…

...eu não dei nem tempo de conhecê-lo? De ouvir o que ele tinha para me dizer?

— Vai precisar de outra tesoura?

— Os circuitos do pescoço são grossos, mas acho que esta dá conta do serviço.

— Eu queria tanto…

Aya não foi programado para ter sentimentos…

— ...poder me divertir mais ao seu lado, mestra.

...mas eu pude sentir seu medo e sua dor.

Foi aí que eu me dei conta do que estava acontecendo com ele. Eu me dei conta de que jamais tornaria a vê-lo novamente.

— PAREM! Eu menti!! Eu tirei o brinco de Aya porque não gostei dele! Eu o achei feio!! Por isso…

— Filha…

— Desculpe decepcioná-los…! Ele nunca me maltratou...ele não fez nada…eu só...eu só...não queria que ele fosse assim…! Desculpa...mãe...pai…!

— Tudo bem, filha. Não tem problema. Reconhecemos que erramos muito com você. Tomoko nos esclareceu aquilo que você tinha dito sobre o Yukito. Sentimos muito pelo fim do seu namoro. Não foi certo nem justo que, numa situação dessas, impuséssemos uma aberração como amigo. Como desligamos o último filamento, não há mais nada que possamos reverter, Aya tem poucas horas de sobrevida. Mas não se preocupe: criaremos outro babydoll para você! Um exatamente como você pediu: com sentimentos e tudo! Vamos fazer com que ele seja parecido com aquele ator que você gosta! Nada mal, não é?

Seu rosto bizarro foi a única coisa que ainda restou de inteiro após várias horas de trabalho. Foi justamente olhar para ele que me deu forças para continuar em silêncio, esperando meus pais terminarem o serviço. Aya não era o que eu queria e ele, sofrendo ou não, entendeu isso. Assim, o jovem robô fechou os olhos, sentindo-se desnecessário.

E eu, semanas depois desse acontecimento apresentava meu novo namorado às minhas amigas.

FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!