Axia

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Oneshot curtinha, feita com todo o amor.

Girei os olhos e suspirei enquanto Aiolia descontava sua raiva mordendo meu dedo e Mu lia. Nenhum dos dois prestavam atenção no filme. Mu, disperso da realidade e concentrado no livro, Aiolia, concentrado em um único ponto da realidade, meu dedo.

Eu achava engraçado como os dois me tinham como posse de maneiras diferentes. Um se abraçando em meu braço, acariciando minha mão sem perceber enquanto mudava as páginas do livro, o outro se esparramando no meu colo e destruindo o que restava do meu dedo.

Eu via o filme com o mesmo interesse dos meus namorados; disperso, focado em outro ponto do universo que não a tv e o videocassete. O meu ponto de foco visual era aquele ponto imaginário além do objeto em primeiro plano, a tv, deixando apenas a parede de pedra visível de forma clara e todo o resto embaçado. Meu ponto de foco mental era uma sucessão de pensamento aquosos, moldáveis, adaptáveis, ora calmos e ora furiosos, por vezes confusos ou reconfortantes.

Parte desses pensamentos era uma análise detalhada dos meus relacionamentos. Se eu não estava sendo trouxa, se era isso o que eu queria, se era isso o que Aiolia e Mu queriam, se eu incomodava, se faltava alguma coisa.

No geral, eu sabia que parte desses pensamentos era fruto de paranoia minha, talvez por ser inseguro ou pensar e analisar demais as situações.

É, eu tinha mudado.

Tirei minha mão de detrás das costas de Mu e desliguei o filme. Isso chamou mais a atenção dos dois que o filme inteiro, como eu já esperava.

- Pensei que você gostasse de Highlander — Mu disse enquanto se virava para mim e guardava o livro na escrivaninha ao lado do sofá — Ficou esperando muito tempo até sair pra alugar.

- Já vi no cinema — respondi desanimado — Vocês dois também não estão prestando atenção.

Aiolia levantou a sobrancelha sem largar o meu dedo. Eu queria saber o quê de tão interessante meu dedo tinha.

- Não gosto de filmes, Ettore.

Ri alto. Eu sabia disso. Sabia que Mu não gostava de televisão e que Aiolia devia estar nervoso com alguma coisa para ficar roendo meu dedo, como um cachorrinho. E mesmo assim os dois estavam aqui.

Era engraçado, de uma forma dispersa e meio estranha, ter os dois aqui agora. Às vezes eu sentia como se eu tentasse e forçasse demais ou os dois tentassem e forçassem de menos.

Como se eu fosse pouca água para muito fogo.

Me levantei e sorri de lado, Aiolia decepcionado por não poder roer mais meu dedo e Mu com um olhar curioso, desperto para a realidade.

Balancei a cabeça negativamente, desmanchando todas aquelas dúvidas idiotas da minha mente.

Não era complicado, na verdade, resumir meus sentimentos pelos dois. E, vendo os olhares que recebi em retorno, só por ter desligado a televisão no meio de um filme que eu ansiava, entendi que eles sentiam o mesmo.

Não é tão complicado. Nada na vida é tão complicado como a gente pensa ser. Sempre recebemos de volta aquilo soltamos no mundo, não no sentido de karma, mas naquele sentido meio bêbado e confuso, como um bumerangue, sempre retornando de uma forma ou outra. E, em retorno ao meu sorriso de lado, meio jocoso, recebi outros dois.

Outros dois sorrisos que me eram o mundo, a vida, a eternidade.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!