Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema
1 PRÓLOGO - PEÃO

O silêncio que veio depois do impacto final não foi imediato.
Primeiro, houve o som do corpo caindo, pesado demais, grande demais, como se a própria dungeon tivesse que aceitar a derrota à força. Depois, a mana residual estalou no ar em faíscas invisíveis, um tremor leve que percorreu as paredes antes de morrer. Só então a câmara ficou quieta, exceto pelo som da respiração de Raziel Akhium.
Ele permaneceu de pé.
A espada ainda estava firme em sua mão direita. A lâmina tremia quase imperceptivelmente, não por medo mas por exaustão. O ombro latejava. As costelas reclamavam a cada inspiração. Seus dedos estavam quentes, dormentes, e a armadura havia perdido o direito de ser chamada assim: placas amassadas, couro rasgado, sangue escuro de criatura misturado ao seu em linhas finas que desciam pelo abdômen.
Ele sentia o peso da própria vida como sempre sentiu: no corpo inteiro. Ainda assim, não caiu. Não por orgulho, por hábito.
Havia aprendido cedo que cair antes do resto significava virar problema. E problema, na Guilda Nightfall, era algo que se deixava para trás.
O monstro tinha sido forte. Não do tipo que morria com uma investida heroica ou um golpe bonito. Uma criatura de dungeon antiga, dessas que pareciam ter sido construídas para esmagar, não para lutar. Raziel precisara de técnica e paciência, mais paciência do que qualquer um ali estaria disposto a ter.
Tinha lido o padrão de ataque pelo som do arrasto das patas, pelo ritmo da respiração do monstro, da maneira como a criatura hesitava um instante antes de girar o tronco. Usou o terreno, atraiu a besta para os ângulos cegos, fez o corpo dela colidir com a própria carapaça. Quando a abertura surgiu, foi pequena, quase ofensiva de tão mínima.
Mesmo assim, ele entrou. Sacrificou o braço esquerdo por distância, o fôlego por tempo e qualquer chance de sair ileso por uma certeza: se não matasse aquilo, ninguém ali mataria.
E se ninguém matasse...
Nightfall falharia.
E se Nightfall falhasse...
A culpa seria dele.
Essa era a matemática do mundo.
Raziel embainhou a espada lentamente. O metal raspou na bainha com um som seco. Respirou fundo e esperou. Esperou a ordem para avançar. Esperou o curandeiro. Esperou, como sempre, que alguém confirmasse que ainda era útil.
Atrás dele, os membros da guilda começaram a se mover. Passos, cochichos, o som de equipamentos sendo ajustados. Alguém riu baixo, não de alegria, mas da adrenalina que não encontrou outro caminho para sair.
— Abate confirmado.
— Linha de frente limpa.
— Ele aguentou de novo.
A frase "de novo" era o que doía.
Não havia admiração ali. Era constatação. Como se estivessem falando de uma ferramenta que não quebrou desta vez. Os curandeiros passaram. Um deles chegou a lançar um olhar rápido, avaliador, como se calculasse se valia gastar mana. O olhar seguiu adiante. Um combatente atrás, com apenas um arranhão no antebraço, recebeu um feitiço de alívio imediato.
Raziel não disse nada. Já tinha dito, no passado, até mesmo perguntado, tentado entender.
"Por que eu não recebo suporte?"
"Por que eu não recebo equipamento melhor?"
"Por que eu estou sempre na frente?"
As respostas nunca eram respostas. Eram formas de colocá-lo de volta na coleira.
"Você é resistente."
"Você é útil."
"Você dá conta."
"Não faça drama."
"Não se ache."
No fim, ele aprendeu o que esperavam dele: silêncio.
Rank B.
Era o rótulo que colavam nele para o mundo. Para os relatórios. Para o país. Para as academias, para os recrutas, para as pessoas que olhavam de fora e pensavam que uma letra definia um ser humano.
Raziel sabia o que um Rank B deveria ser: competente, bem treinado, respeitado o suficiente para liderar um time menor ou ser capitão de operação. Um pilar.
Mas o Rank B que ele era... não era um pilar.
Um mero escudo.
Era o corpo que ia primeiro, para ver o que acontecia. A peça que absorvia o golpe que não poderia atingir o nome certo, que podia ser trocada. Tocou o peito e sentiu a pulsação acelerada, o tremor leve no músculo. O corpo era o registro vivo de cada vez que "deu conta".
Pensou, por um instante, no que teria sido se tivessem investido nele de verdade. A ideia morreu antes de virar pergunta. Porque ele já sabia: não era sobre investimento. E sim sobre lugar.
Passos firmes ecoaram atrás dele, e dessa vez não eram de um curandeiro.
— Bom trabalho, Raziel.
A voz familiar demais para trazer qualquer conforto.
Virou a cabeça, não o corpo. A dor no tronco era um aviso constante. Avistou Richard Akhium se aproximando com a tranquilidade de quem tinha assistido à luta como quem assiste a um treinamento.
O irmão mais velho era grande. Não apenas alto, grande de verdade, ombros largos, braços definidos, presença que tomava espaço. A armadura pesada parecia feita para ele, e o grande machado de duas lâminas estava preso às costas como um troféu permanente.
Richard não sangrava, raramente sangrava. Porque o infeliz raramente estava onde o sangue caía.
— O monstro caiu rápido — disse Richard, como se conversasse sobre o clima. — Você evoluiu.
Raziel engoliu seco. O gesto trouxe dor e um gosto metálico.
— Ele caiu porque eu... — a voz falhou, rouca. Respirou e recomeçou. — O caminho está limpo. Podemos avançar para o núcleo.
O irmão inclinou a cabeça, analisando. Um sorriso quase imperceptível surgiu, não um sorriso familiar. Lembrava a alegria de dono satisfeito.
— Não vamos.
A resposta foi simples demais. Quase gentil. Raziel franziu o cenho. Algo dentro dele, uma parte pequena e antiga, sussurrou que aquilo não fazia sentido. A Nightfall não recuava quando estava tão perto. A Nightfall não desperdiçava uma abertura.
A menos que... Ele começou a se virar.
A dor explodiu nas costas.
Uma lâmina curta atravessou entre as placas quebradas da armadura com precisão, encontrando carne como se já soubesse o caminho. O ar escapou dos pulmões num som seco, indigno, e o mundo inclinou por um segundo.
Cambaleou.
A mão tentou buscar a espada por instinto, mas os dedos tremiam. O corpo demorou para obedecer.
Quando finalmente conseguiu se firmar e olhar para baixo, viu a ponta de uma espada atravessando seu abdômen. Arma comum, sem nome, sem runas, sem prestígio. Uma lâmina qualquer, pegada do chão da dungeon.
E acima dela, a mão firme de Richard.
Raziel ergueu o olhar.
O irmão o encarava de perto agora, olhos serenos, respiração calma. Não havia ódio ali. Não havia pressa. Era o rosto de alguém que decidiu isso antes mesmo de entrar na dungeon.
— Sempre funcionou assim — disse Richard, soltando a espada e dando um passo para o lado, como se o golpe já tivesse cumprido seu papel. — Você vai na frente. Aguenta. Abre o caminho.
Tentou falar. A garganta não formou som. O sangue escorreu pelo canto da boca, quente, humilhante.
Humilhante.
Essa palavra, mais do que a dor, acendeu algo nele.
Richard aproximou-se outra vez. Ajoelhou-se o suficiente para que seus rostos ficassem no mesmo nível, como se fosse oferecer alguma explicação que Raziel não merecia.
— Ela era o único obstáculo.
A frase caiu como pedra.
Raziel não tinha sido próximo de Elisa. Viveram sob o mesmo sobrenome, mas não sob a mesma luz. Elisa era vista e comentada. O futuro que a família apontava com orgulho. Rank S. Próxima líder. O tipo de nome que virava manchete.
Mas ele? O tipo de nome que virava rodapé.
Ainda assim, entendeu.
Obstáculo.
Não era uma palavra de família. Era uma palavra de tabuleiro.
Naquele segundo, as lembranças se juntaram como peças que finalmente encontram o lugar certo.
As missões impossíveis.
As mortes "acidentais" ao redor.
A falta de recursos.
O medo como corrente.
A maneira como Richard sempre estava um passo acima, não porque era melhor, mas porque estava mais protegido. Sentiu algo diferente da dor: uma lucidez gelada.
Tinha passado anos acreditando que era fraco. Que seu Rank B era o máximo que poderia alcançar, que não merecia equipamento melhor, treinamento ou respeito.
Mas olhando para seu irmão agora, tão calmo... percebeu que nunca foi isso.
Nunca foi fraco.
Ele foi mantido pequeno.
Não por falta de força. Por falta de permissão.
E isso, de repente, era... injusto.
Injusto de um jeito que não dava para engolir.
Um calor subiu pelo peito, não de mana, não de adrenalina, mas de raiva. Uma raiva que não era grito. Não era descontrole, que vinha do fundo, da parte que tinha ficado quieta por anos para sobreviver.
"Eu fiz tudo."
A frase surgiu na mente dele como uma acusação.
Eu abri caminhos.
Eu segurei monstros.
Eu sangrei pelo nome Akhium.
Eu calei para não ser descartado.
Eu obedeci porque achei que era o único jeito.
E, no fim...
Richard o olhava como se olhasse uma ferramenta quebrada. Sentiu o estômago se contrair. Não só pela ferida, mas pela compreensão.
— Então... era isso... — a voz saiu em fiapos.
O irmão não respondeu de imediato. Só observou, como se esperasse que entendesse sozinho.
E Raziel entendeu. Elisa estava morta. E agora Richard estava ali, "limpando" o resto. Porque Raziel podia falar. Uma existência viva, como prova. Um ruído no seu futuro.
A raiva cresceu.
Mas, com ela, algo mais nítido, que Raziel nunca tinha permitido sentir por completo: o desejo de justiça.
Não "vingança".
Justiça.
Vingança era cega. Queimava tudo, inclusive quem a segurava. Já tinha visto isso em dungeons, e guildas quebradas, em famílias destruídas. Vingança era impulso.
Justiça era olhar para aquilo, para esse abuso, esse tabuleiro montado com pessoas e dizer: isso não deveria existir. Isso não pode continuar.
Não só por ele.
Por qualquer um que fosse colocado na frente, com o mesmo discurso de "você aguenta".
Raziel sentiu as pernas fraquejarem. Caiu de joelhos, o corpo desistindo aos poucos. O mundo ficou mais distante, como se o som estivesse sendo puxado para longe. Mesmo assim, fixou o olhar em Richard.
E, pela primeira vez em anos, não havia submissão nele.
Existia julgamento.
Seu irmão pareceu notar. A expressão dele mudou um milímetro, um incômodo breve, quase irritado, como se não gostasse de ser encarado daquele jeito por algo que considerava inferior.
— Você sempre foi útil — disse, levantando-se. — Mas peões não permanecem no tabuleiro.
Levou a mão às próprias costas e soltou o fecho do grande machado. A arma pesada deslizou para sua mão com naturalidade, como se tivesse sido feita para terminar histórias.
Raziel sentiu o frio se aproximar, não no ar, mas dentro dele. A visão começou a escurecer nas bordas, como uma cortina que desce.
A raiva ainda estava lá.
A justiça também.
E, no fundo, uma decisão silenciosa se formou, mais forte do que qualquer dor:
"Se eu tivesse outra chance... eu não obedeceria."
Não era promessa heroica.
Era constatação.
Não precisava ser grande.
Não precisava ser amado.
Não precisava ser visto.
Só precisava parar de ser usado.
O machado subiu.
Raziel fechou os olhos por um instante, não para desistir, mas para segurar a última coisa que era dele: a vontade.
A vontade de não se submeter, de ser justo. A vontade de cobrar.
O som do machado cortando o ar veio como um trovão próximo.
E então—
O tempo parou, tudo ficou escuro. A janela de status flutuava em sua frente.
[Condições atendidas]
[Injustiça detectada]
[Vontade de Julgamento confirmada]
[Compatibilidade confirmada]
[Classe Oculta disponível: SWORD SAINT]
[Aceita receber a nova classe? [Sim] [Não]]
Raziel abriu os olhos puxando o ar, como se tivesse voltado à vida com violência. O teto acima dele era branco, liso, iluminado por luz elétrica. Não sentia dor.
Nenhuma dor.
Por um segundo, a ausência foi assustadora, como se o corpo estivesse errado, parecia ter perdido a referência do mundo.
Então vieram os sons.
Passos no corredor. Vozes jovens. Risos abafados. Uma campainha distante ecoando pelo prédio, sinalizando que o dia estava começando.
Levantou a cabeça devagar. Uma cama simples, um quarto estreito, ao seu lado a cadeira com um uniforme dobrado de academia. Na parede o calendário preso, marcando o ano letivo.
Último ano.
Engoliu em seco. Não havia sangue na boca, nem gosto metálico. Suas mãos tremiam. Se sentou na cama e olhou para os próprios braços, como se procurasse provas de que era ele. A pele estava intacta. O corpo mais leve, menos marcado. Mais jovem.
Soube antes de confirmar.
Dezessete anos.
Tinha voltado sete anos no passado.
Para o mundo, ainda era um ninguém, o aluno que nunca se destacou, o Rank baixo em formação, a sombra do sobrenome Akhium.
Mas para ele... o tabuleiro estava inteiro diante dele. E, desta vez, conhecia as regras. Conhecia as peças. O tipo de homem que seu irmão era e iria se tornar.
E, no silêncio do quarto, uma certeza se assentou nele com frieza:
Justiça não era algo que ele pediria. Era algo que ele imporia.
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