Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema

4 CAPÍTULO 3 - ECOS QUE NINGUÉM OUVE


Quando o impacto da entrada do AXION VI começou a se dissipar, o auditório voltou a respirar em seu ritmo normal. As conversas diminuíram, os celulares abaixaram e o murmúrio coletivo se tornou apenas ruído de fundo.

Foi nesse momento que Raziel voltou a observar. Não os seis da frente, os outros, conhecidos por todos como os ignorados.

Não alteravam o ar quando entravam ou geravam notificações; Muito menos eram filmados, e, ainda assim, existiam.

Alunos sentados nas fileiras laterais, conversando baixo ou apenas olhando o palco em silêncio. Rostos que o mundo não registrava. Nomes que não apareciam em painéis eletrônicos. Muitos eram potenciais que dependiam de algo invisível para florescer: oportunidade.

Raziel reconheceu vários deles. Na primeira vida, muitos haviam desaparecido ao longo dos anos. Não por fracasso direto, mas por desgaste. Sem apoio, recursos ou alguém que os indicasse, tornavam-se números esquecidos em relatórios.

Entre todos, uma prendeu sua atenção.

Azuki.

Ela estava duas fileiras à esquerda, inclinada levemente para frente, o olhar concentrado no palco vazio. A franja caía sobre os olhos azuis e o cabelo longo descia pelas costas em um tom escuro discreto. O uniforme parecia um tamanho maior do que deveria, não era descuido... apenas falta de ajuste.

Em sua mão, um tablet exibia anotações rúnicas. Diagramas de círculos mágicos. Fórmulas que poucos da turma se dariam ao trabalho de entender. Na primeira vida, tinham sido dupla em diversas simulações. Azuki era uma maga com potencial raro para necromancia, por causa da sua precisão técnica. Ainda assim, fora empurrada para tarefas que ninguém queria assumir.

Peça de descarte. Exatamente como ele fora.

Raziel desviou o olhar antes que a memória se tornasse emoção. Não precisava se aproximar agora. Não ainda. O momento certo viria.

Dessa vez... ninguém vai cair em silêncio.

O celular vibrou discretamente no bolso do blazer.

[Grupo — Turma A]

— "Quem é a de franja?"

— "Azuki. Meio estranha."

— "Vai pra magia obscura, certeza."

Não perdeu tempo respondendo. O mundo sempre rotulava rápido demais. O clima mudou alguns segundos depois, uma tensão tomou o ambiente.

Darius Vhal entrou no auditório como se o espaço já lhe pertencesse. Alto, cabelos negros penteados para trás, sorriso fino demais para ser simpático. O uniforme estava impecável, levemente ajustado além do padrão, detalhe pequeno, mas suficiente para dizer que regras eram sugestões quando se tinha dinheiro.

Seu olhar percorreu o ambiente como quem mede território. Lembrava dele com clareza incômoda.

Darius não era apenas arrogante; era funcionalmente cruel. Gostava de transformar treinos em humilhações públicas. Escolhia alvos fáceis, chamava de "preparo" e saía aplaudido por quem temia ser o próximo.

Se não aguenta pressão, não merece classe.

Seu bordão favorito.

Antes do regresso, Darius orbitava nomes maiores. Aproximava-se de quem tinha sobrenome influente e empurrava quem não tinha nada além de esforço. Um lacaio indireto de hierarquias que ele nem entendia por completo.

Agora, sentado algumas fileiras à frente, conversava com dois alunos que riam alto demais. Foi então que Raziel reconheceu um dos rostos.

O curandeiro.

O mesmo que passou por ele no dia da sua morte. As peças já se alinhavam antes mesmo do jogo começar. Não desviou o olhar imediatamente. Registrou postura e tom de voz. Padrão de comportamento. Problemas raramente mudavam de essência.

Só de contexto.

Dessa vez, eu não vou reagir tarde.

Então, as luzes diminuíram. O discurso iria começar.

O palco se iluminou e o professor veterano surgiu com passos firmes. Cabelos grisalhos, postura reta, olhar de quem já havia visto promessas brilharem e desaparecerem na mesma velocidade.

Bem-vindos ao último ano.

A voz ecoou pelos alto-falantes com clareza limpa. Os telões laterais mudaram para gráficos de desempenho, classes escolhidas em anos anteriores, índices de recrutamento por guildas.

— Este é o ciclo em que vocês deixam de ser apenas estudantes. Ao final deste ano, escolherão oficialmente suas classes. E o mundo passará a observá-los de outra forma.

O auditório silenciou.

— Rankings serão atualizados constantemente. Guildas acompanharão seus resultados. Vocês serão avaliados não apenas por poder... mas por consistência, disciplina, coragem e outros atributos.

Raziel ouviu com uma atenção diferente daquela que tivera na primeira vida. Antes, cada palavra soava como peso. Agora, soavam como estrutura. Informação.

— Alguns de vocês se destacarão. Outros precisarão provar que pertencem aqui. E alguns descobrirão que talento sem disciplina não sustenta destino algum.

A frase atravessou o auditório sem alarde. Muitos assentiram sem entender. Outros digitavam mensagens discretas, como se aquela fala fosse apenas formalidade.

Para ele, não era.

Lembrava exatamente quem desapareceria por falta de disciplina. Quem cairia por confiar apenas em talento. Quem seria engolido por decisões erradas.

As câmeras do auditório varreram a plateia e projetaram rostos aleatórios nos telões. A tecnologia registrava expressões, aplausos, sorrisos nervosos.

O mundo moderno transformava tudo em dados. Mas dados não registravam intenções.

Quando o professor concluiu, aplausos preencheram o espaço. Alguns se levantaram. Outros gravaram vídeos. O som coletivo lembrava celebração.

Raziel permaneceu sentado.

Desrespeito? Não, foco. Tinha visto a elite, os esquecidos e os que se alimentavam do medo.

O último ano não era apenas sobre escolher uma classe. E sim, sobre escolher quem ele seria quando o mundo decidisse onde colocá-lo.

Pela primeira vez... Quem faria essa escolha seria ele.