Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema

29 CAPÍTULO 28 - ÀS PORTAS DA ESCOLHA PARTE I


O tempo não desacelerou para que a academia entendesse o que estava acontecendo. Pelo contrário, correu como se também estivesse ansioso pela escolha de classe. Depois que Azuki revelou as três invocações celestiais diante do AXION, os dias ganharam uma nova camada de tensão. Não era mais apenas sobre rumores, duelos ou rankings provisórios. Algo estava mudando dentro daquele grupo, e mesmo quem não sabia explicar conseguia sentir.

A arena privada do AXION tornou-se ainda mais reservada. Alya solicitou bloqueios extras nos horários de treino, Eryndor ajustou pontos cegos nos sensores de observação e Kael passou a verificar entradas laterais antes de qualquer demonstração mais séria. Blaze reclamou que aquilo parecia "operação secreta de guilda antes da formatura", mas ninguém riu muito, porque a piada estava perigosamente perto da verdade. O que Azuki e Raziel carregavam já não parecia caber em uma rotina comum de academia.

Na primeira semana, Azuki mal conseguia sustentar as três invocações celestiais por mais de alguns minutos. O Guardião Celeste aparecia firme, mas sua barreira ainda tremia após impactos contínuos. O Executor cortava com precisão, mas desaparecia se ela perdesse foco por um instante. O Arauto mantinha escudos e pequenas bênçãos, porém a cura leve consumia energia demais. Ainda assim, cada tentativa deixava o vínculo um pouco mais estável, como se a porta aberta na capela se fortalecesse a cada chamado feito com propósito.

Raziel acompanhava tudo sem interferir além do necessário. Corrigia postura, respiração e intenção, mas evitava transformar o treino dela em uma extensão da própria vontade. Invocações Divinas não funcionavam como sombras. Não podiam ser puxadas por força, nem mantidas por medo. Azuki precisava aprender a chamá-las sem tentar dominá-las, e isso era mais difícil do que qualquer fórmula. O antigo hábito de controlar tudo com precisão rígida ainda aparecia, especialmente quando ficava nervosa.

— Você está apertando o vínculo — disse Raziel, durante um treino em que o Executor falhou no meio de uma sequência.

Azuki respirava com dificuldade, suor preso na lateral do rosto.

— Se eu não segurar, ele se desfaz.

— Não. Se você segurar desse jeito, ele se afasta.

A invocadora olhou para o círculo dourado incompleto no chão.

— Isso é muito irritante.

— É um vínculo, não uma corrente.

— Correntes são mais simples.

— E foi por isso que você renunciou a elas.

A resposta calou Azuki por alguns segundos. Não por dureza, mas porque era verdade. A cada treino, a diferença entre o antigo caminho e o novo ficava mais clara. As sombras obedeciam quando pressionadas. As presenças celestiais respondiam quando respeitadas. Era como aprender uma nova língua depois de passar anos gritando em um idioma que funcionava apenas porque o mundo ao redor tinha medo.

Com o passar dos dias, as três invocações começaram a durar mais. O Guardião aprendeu a se mover junto com Sakura durante exercícios de linha de frente, cobrindo ângulos que antes ficavam vulneráveis. O Executor passou a trabalhar em sincronia com os disparos de Eryndor, pressionando inimigos imaginários enquanto o arqueiro controlava distância. O Arauto desenvolveu pequenos campos de proteção ao redor de Lyra, criando camadas defensivas que permitiam à healer focar em suporte sem se expor tanto.

Alya observava com atenção crescente. A líder do AXION não se impressionava facilmente, mas era honesta diante de resultado. Em menos de duas semanas, Azuki deixou de ser apenas uma invocadora com potencial absurdo e passou a funcionar como um núcleo tático. Com três presenças celestiais em campo, o grupo ganhava defesa, ataque, suporte e controle adicional sem sacrificar mobilidade. Aquilo mudava completamente as possibilidades para a raid que se aproximava.

— Com você, nossa formação deixou de depender de reação — disse Alya, após um treino. — Agora podemos antecipar cenários.

— Isso foi elogio? —indagou Azuki, ainda sem fôlego, apontou para si mesma.

Blaze respondeu antes de Alya.

— Vindo dela, foi praticamente uma declaração emocional.

Alya olhou para ele.

— Não estrague.

Kael, sentado sobre uma mureta próxima, comentou sem levantar o rosto:

— Tarde.

Sakura jogou uma toalha em Blaze, que aceitou o golpe como se fosse injustiça histórica. O clima entre eles havia mudado. Ainda existia provocação, disputa e cobrança, mas agora havia também um tipo de confiança que não precisava ser anunciado. Azuki não era mais uma presença convidada ao redor do AXION. Era parte real da formação, e o próprio grupo parecia ter aceitado isso antes que a academia soubesse nomear.

Na segunda semana, o sistema apareceu para ela durante um treino noturno. Azuki estava sozinha na arena menor, com Raziel observando de longe. O círculo dourado aberto permanecia sob seus pés, e as três invocações estavam diante dela, silenciosas, estáveis, quase respirando junto. Quando o Arauto ergueu o cajado e uma pequena bênção cobriu o Guardião sem ordem verbal, a janela surgiu no ar.

[Sistema — Solicitação de Classe Única Detectada]

Caminho Emergente: Invocadora Divina

Pré-requisito Inicial:

Canal Divino Aberto.

Condições para Reconhecimento Oficial:

Estabilizar vínculo com três representantes celestiais.

Renunciar à Fonte Sombria como identidade primária.

Expandir o Canal Divino para múltiplas presenças.

Demonstrar fé, propósito e controle sem domínio forçado.

Objetivo Especial:

Sustentar cinco Invocações Divinas simultaneamente.

Recompensa:

Permissão para Despertar Classe Única durante a Escolha de Classe.

Azuki leu a janela duas vezes antes de conseguir falar.

— Cinco?

Raziel se aproximou.

— O sistema não costuma pedir o impossível.

— Ele parece muito confortável em pedir o absurdo.

— Você também.

Ela olhou para o espadachim.

— Isso era incentivo?

— Constata...

— Não ouse usar mais essa palavra. Se não vou te dar um real motivo para pensar em constatação.

A invocadora respirou fundo e fechou a janela. O medo veio primeiro, como sempre. Depois a curiosidade. Logo uma empolgação perigosa que Raziel já conhecia bem. Cinco invocações divinas significavam mais do que aumento de número, significava que o canal entre ela e o divino teria que suportar múltiplas funções, presenças e respostas sem colapsar. Quase como transformar uma porta recém-aberta em um corredor inteiro.

No mesmo período, Raziel recebeu sua própria janela.

Aconteceu antes do amanhecer, depois de uma sequência exaustiva com espada de duas mãos. O campo externo estava vazio, o corpo ardia e a aura azul-dourada circulava sob a pele sem ser liberada completamente. Ele treinava sem explosão, sem exibição e sem ruído desnecessário. Cada corte era feito para eliminar desperdício. Cada passo ajustava peso, eixo e intenção. A espada já não parecia uma arma grande demais. Parecia uma extensão inevitável.

Ao finalizar uma sequência contra três oponentes simulados na Batalha Mental, a janela surgiu.

[Sistema — Solicitação de Classe Única Detectada]

Caminho Emergente: ???

Pré-requisito Inicial:

Sincronização Corpo–Aura–Espada acima de 90%.

Condições para Reconhecimento Oficial:

Dominar espada de duas mãos sem dependência de aura plena.

Concluir Batalhas Mentais contra múltiplos cenários adversos.

Estabilizar vontade após superação de bloqueio traumático.

Alcançar integração entre técnica, presença e intenção.

Objetivo Especial:

Sincronização Corpo–Aura–Espada: 100%

Recompensa:

Permissão para Despertar Classe Única durante a Escolha de Classe.

Raziel encarou o campo oculto do nome por alguns segundos. O sistema não escreveu Sword Saint.

Ainda não.

Mas o espadachim sentiu a resposta no peso da arma, no silêncio da aura e na calma que veio depois. A escolha de classe não criaria o caminho. Apenas reconheceria aquilo que já crescia dentro dele desde o retorno. A lâmina, a memória, o corpo e a vontade começavam a ocupar o mesmo espaço. Quando o nome surgisse, não seria surpresa. Seria confirmação.

Nas semanas seguintes, o ritmo aumentou. Azuki treinou pela manhã, estudou à tarde e dormiu menos do que deveria à noite, apesar das reclamações de Raziel. Buscou registros sobre anjos guardiões, mensageiros celestes e entidades de observação espiritual. Não podia criar invocações novas pela força, então procurou entender quais funções faltavam ao conjunto que já tinha. Defesa, ataque e suporte existiam. Mas ainda faltavam visão, alerta e fortalecimento.

A quarta presença veio em um treino silencioso, quando Azuki deixou de tentar chamar algo específico e apenas pediu por alguém que pudesse ver além dela. O círculo dourado abriu uma linha fina acima da cabeça, e uma figura de armadura leve surgiu segurando um arco de luz. As asas eram estreitas, incompletas, quase feitas de vento dourado. A nova invocação pousou sem som, olhos invisíveis voltados para todas as direções ao mesmo tempo.

O sistema a nomeou como Sentinela Celeste.

Função: observação, disparo e controle de campo.

Blaze, que assistia ao treino, ficou parado por três segundos.

— Agora ela tem arqueiro angelical.

Eryndor, ao lado, corrigiu com seriedade:

— Sentinela.

— Você está com ciúmes?

— Estou avaliando.

Kael olhou para o arco dourado.

— Está com ciúmes.

A quinta presença demorou mais. Azuki falhou por cinco dias seguidos, quase colapsou o canal duas vezes e passou uma tarde inteira irritada porque, segundo ela, "o divino tem péssimo atendimento de solicitação". Raziel a obrigou a descansar, Lyra preparou uma infusão calmante, e Sakura confiscou o tablet por uma noite. Foi apenas quando parou de insistir que o quinto símbolo respondeu.

O chamado veio durante uma simulação de grupo, quando todos estavam pressionados. O Guardião protegia a frente, o Executor avançava, o Arauto sustentava defesa e a Sentinela marcava alvos. Azuki percebeu que a equipe ainda precisava de estabilidade emocional, algo que segurasse o medo antes que ele virasse erro. Ao pedir por isso, uma figura de manto claro surgiu atrás dela, com pequenos símbolos dourados flutuando ao redor como notas silenciosas.

O sistema a nomeou como Bardo Celeste.

Função: fortalecimento, purificação leve e estabilização espiritual.

Quando a presença se manifestou, até Alya ficou em silêncio por alguns segundos.

— Isso muda a raid — disse a líder.

Blaze ergueu a mão.

— De novo?

— De novo.

Raziel observou Azuki no centro das cinco invocações, cansada, pálida, mas sorrindo com um orgulho que não tentava mais esconder. Ainda eram versões incompletas, menores, limitadas pela força atual dela. Mesmo assim, o conjunto era absurdo para uma aluna antes da escolha oficial de classe. O Guardião, o Executor, o Arauto, a Sentinela e o Bardo formavam uma pequena unidade divina em torno da invocadora, cada qual com função própria, cada qual respondendo ao mesmo canal.

A janela apareceu diante dela ao fim do treino.

[Sistema — Pré-Requisito Concluído]

Caminho Único: Aguardando Reconhecimento Oficial

Canal Divino: Estável

Invocações Divinas Sustentáveis: 5

Condição Especial:

Renúncia à Fonte Sombria consolidada.

Resultado:

Permissão para Despertar Classe Única concedida.

Observação:

A usuária não invoca mais sombras como identidade primária.

A luz reconheceu sua escolha.

Azuki leu em silêncio.

Depois olhou para Raziel.

— Eu consegui.

O jovem assentiu.

— Conseguiu.

— Cinco.

— Cinco.

A invocadora tentou manter a postura por mais dois segundos. Falhou. O sorriso abriu de verdade, grande, feliz, quase incapaz de caber no rosto. Blaze começou a aplaudir dramaticamente, Sakura reclamou do exagero, Kael disse que dessa vez era aceitável, e Lyra foi abraçá-la com cuidado. Alya apenas sorriu de forma discreta, mas para quem a conhecia, aquilo era quase uma celebração pública.

Raziel ficou um pouco mais afastado, observando.

A garota que acreditou ser feita de sombras agora era reconhecida pela luz.

E isso, por si só, já mudava o futuro.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.